7.8.09

Cercas e caixas


Como assim eu sempre falo as mesmas coisas? Não é minha culpa. A gente vive dentro de uma cerca de palavras: pula e ninguém te entende.


Aos dezesseis anos, inventei um vocabulário com quarenta e três verbetes e três sinais básicos de pontuação: um para pausas curtas e dramáticas, outro para pausas atônitas — algo como alguém recém-portador de um segredo — e um terceiro para indicar uma sentença com carga erótica. Não funcionou.

Os sinais se reproduzem. Pensei em um sinal evoluído para indicar asas: A personagem ruiva com as asas batendo dolorosa e prazerosamente sob e sobre as costas. O personagem com as asas murchas porque acabou de descobrir um segredo. Duas personagens: um casal recém-descoberto, com suas asas tentando se adaptar à gravidade de nove e tantos metros por segundo.


Percebem o problema? Nunca ninguém conseguiu ser Osman ou Cortázar além deles.


Melhor voltar para dentro da cerca. O que há de tão especial com os casais se amando ao ar livre? O ar livre? Mas o ar não é o mesmo em todos os lugares? Não seria melhor o ar esfumaçado, palpável quase? Não seria melhor o ar do quarto [encerrado] controlado pelos amantes?

O ar visível saindo pelas bocas sem necessitar do frio é a resposta.



A caixa. Só é caixa se houver entrada; senão deixa de sê-la. Vira um cubo inútil e indecifrável.


Uma caixa. Para sê-la, necessita duma porta e uma janela pelo menos. Então, pense bem, tudo são caixas: até mesmo a mulher auto-encerrada sem se dar conta: Aquele mecanismo insano cujas formas são observáveis e, mesmo intrincadas, decidimos guardar nossos pertences dentro delas, mesmo correndo o risco de nunca mais reavê-los.

A arquitetura interna, intrincada e rubra. Seriam assim todas? Terrível mesmo seria a experiência da descoberta da arquitetura pálida após a doação dum segredo. Mas não existe tal coisa. Ao menos nunca ouvi quem descobrisse tal fenômeno negativo: mesmo os mais falastrões, expelidores de segredos dignos do meu sinal de pontuação invisível, nunca relataram tal fato.



O céu de boca, feminino e rubro, ósseo e muscular, maleável, ao mesmo tempo. Superior, quando comparado ao simulacro externo e mecânico da outra boca complementar e inferior, hominídea.



A caixa correta e superior sim: complementar, feminina e passiva, mas ao mesmo tempo cheia de mistérios por ser rubra; duma rubridez da qual só se vêm as laterais insinuando-se. Superiores, sim, e eis a prova dentro de uma analogia simples:


O que é mais sedutor? Um caderno ao descaso, ou um diário com uma tranca esquecida aberta esperando que alguém o leia?


O diário. Querido diário... e a sensação de leitura é mais excitante do que a de um clássico cujo início fora lido pares de vezes em quaisquer revistas. Mais do que isso? Um diário entreaberto pra você apenas.


Senta-se. À sua frente um diário entreaberto. Lê. Descobre segredos inúteis e preciosíssimos. No dia seguinte, a encontra. Lembra do diário em forma de bloco. Uma coisa encadernada que cabe na palma da mão, esquecida numa partição da estante do quarto. Abre: longilínea e pensada, a letra em diagonal com o auxílio duma régua invisível.


Imitando um padre receptor de volumes, as guarda na memória


(imagine aqui um ponto final diverso dos regulamentares)


1 comentários:

Daniela disse...

aplausos!!!