Pára e me fita bem de perto com longuíssimos olhares de coruja. Aqueles globos belos sábios e pesados escondendo um passado desconhecido. Um passado vivido madrugada após madrugada aninhada num tronco rígido sobre o qual mantivera uma ferida verde aberta de seiva escorrendo. A unha agarrando a seiva e sutilmente a levando à boca: um alimento inútil e prazeroso misturado à saliva.
Repousa agora essa seiva verde misturada aos olhos humanos. O busto por vezes insinuando-se altivo e os gestos brancos lidando com os objetos sobre a mesa como se folheassem um livro. Abre-o. Cheira as palavras. As mói as enrola e as traga. Os globos belos e sábios do busto escuso insinuando-se novamente. Me oferece os três últimos tragos reminiscentes: o filtro seco de quem guarda a saliva sob a língua. A utiliza apenas nos momentos certos.
Tenta me ouvir. Eu falo baixo. Meus ancestrais falavam assim. Não tenho culpa. Na verdade tenho quando oscilo da voz baixa à quase gritante. As ondulações são moduladas pelo olhar reconhecedor por vezes doce por vezes sáfico quando fita uma ou outra garota. Retorna a mim.
Desce à cidade observada madrugada após madrugada com um vôo curto e planante pousado numa esquina fria onde encolhe-se uma fila de bichos de festa esperando para entrar na casa noturna. Lá dentro, encontramo-nos. Perguntei por educação porque chegara tão tarde. Beija-me o rosto.
Escorre a mão por ele. Um leve cheiro de cinza. Um forte cheiro de seiva repousado no interior da unha média. A pele negra do rosto mistura-se. A penugem mínima pairando nas orelhas e nuca. Por vezes fala com estranhos. Nutro profundo desprezo pelos estranhos que não conheço. Utiliza a ponta dos pés para aninhar-se sobre o banco. Equilibra-se.
Pousa uma das mãos sobre a mesa. A outra sobre meu braço. Esta pressiona a unha média de leve. Acho que o fura um pouco. Faz um rasgo imperceptível. A unha pigmentada por um azul desconhecido sob o qual repousa um cheiro oculto conhecido e desconhecido por mim. Talvez seja o braço apenas um galho e eu uma árvore agradável imutável e eterna. Mesmo assim insuficientemente antiga para os olhos da cabeça que dá voltas.



3 comentários:
não sei se são meus ares internos ou se noto uma nova atmosfera de fora, mas sinto que as tuas palavras possuem agora uma nova inclinação que me agrada mais e mais. aplausos, novamente!
Opa. Obrigado!
Só não me inclino muito porque as costas já não deixam tanto. :P
gaiato
nheee
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