11.8.09

Corujas


Pára e me fita bem de perto com longuíssimos olhares de coruja. Aqueles globos belos sábios e pesados escondendo um passado desconhecido. Um passado vivido madrugada após madrugada aninhada num tronco rígido sobre o qual mantivera uma ferida verde aberta de seiva escorrendo. A unha agarrando a seiva e sutilmente a levando à boca: um alimento inútil e prazeroso misturado à saliva.


Repousa agora essa seiva verde misturada aos olhos humanos. O busto por vezes insinuando-se altivo e os gestos brancos lidando com os objetos sobre a mesa como se folheassem um livro. Abre-o. Cheira as palavras. As mói as enrola e as traga. Os globos belos e sábios do busto escuso insinuando-se novamente. Me oferece os três últimos tragos reminiscentes: o filtro seco de quem guarda a saliva sob a língua. A utiliza apenas nos momentos certos.

Tenta me ouvir. Eu falo baixo. Meus ancestrais falavam assim. Não tenho culpa. Na verdade tenho quando oscilo da voz baixa à quase gritante. As ondulações são moduladas pelo olhar reconhecedor por vezes doce por vezes sáfico quando fita uma ou outra garota. Retorna a mim.

Desce à cidade observada madrugada após madrugada com um vôo curto e planante pousado numa esquina fria onde encolhe-se uma fila de bichos de festa esperando para entrar na casa noturna. Lá dentro, encontramo-nos. Perguntei por educação porque chegara tão tarde. Beija-me o rosto.


Escorre a mão por ele. Um leve cheiro de cinza. Um forte cheiro de seiva repousado no interior da unha média. A pele negra do rosto mistura-se. A penugem mínima pairando nas orelhas e nuca. Por vezes fala com estranhos. Nutro profundo desprezo pelos estranhos que não conheço. Utiliza a ponta dos pés para aninhar-se sobre o banco. Equilibra-se.


Pousa uma das mãos sobre a mesa. A outra sobre meu braço. Esta pressiona a unha média de leve. Acho que o fura um pouco. Faz um rasgo imperceptível. A unha pigmentada por um azul desconhecido sob o qual repousa um cheiro oculto conhecido e desconhecido por mim. Talvez seja o braço apenas um galho e eu uma árvore agradável imutável e eterna. Mesmo assim insuficientemente antiga para os olhos da cabeça que dá voltas.



3 comentários:

Daniela disse...

não sei se são meus ares internos ou se noto uma nova atmosfera de fora, mas sinto que as tuas palavras possuem agora uma nova inclinação que me agrada mais e mais. aplausos, novamente!

João Francisco disse...

Opa. Obrigado!

Só não me inclino muito porque as costas já não deixam tanto. :P

Daniela disse...

gaiato
nheee