13.8.09

Emiliano


A cama projetada por Emiliano consiste num original e verdadeiro objeto composto pelos teares milenares intrincados e inacessíveis da arte manufaturada indígena. Ele, Emiliano, estivera com eles, os índios, durante quase toda a infância e a parte da vida necessária para se lembrar para sempre. Aprendera com eles o silêncio e a simplicidade dos mistérios ocultos dum mundo que sob olhos obnublados de quem é acostumado à autoproclamada civilização parece o ser o mesmo todo santo católico dia. Mas não é.


Prova visível é o espaldar da cama absolutamente tenso e ainda assim modificável: estalando certos extremos geometricamente correlacionados, Emiliano consegue formar o desenho de paisagens, iniciais de nomes, insinuações de curvas femininas e, com um pouco mais de alguns pares de minutos dentro dos quais suas mãos ajustam o que parece inajustável, desenhos de rostos sem quaisquer dúvidas de serem retratos específicos quando vemos neles representadas rugas de expressão e sorrisos sugeridos cercados por símbolos representando um rol de amantes.

No lugar onde se deita, milhares de feixes sobrepostos substituem o colchão (palavra grotesca) e dispensam a falsa epiderme de tecidos-extra para a proteção contra o frio — Bem como dispensam os ardis mecânicos para ludibriar o clima quente imposto pelo ambiente: ao comportar o corpo, ou os corpos, dependendo da noite, o feixe balanceia e contrabalanceia as temperaturas de quem está ou estão sobre eles: o corpo permanece acolhido seco e úmido como um índio pacífico após uma jornada de caça e pesca e dança e beberagem. A cama não range.

Haveria um problema: ser exígua. Mas não é. Possui o tamanho exato. Para ser perfeita, necessita apenas comportar um corpo ou dois abraçados: dissera-lhe o índio marceneiro entre palavras econômicas autoexplicativas o suficiente para não necessitarem do uso de floreamentos como exíguo ou marceneiro ou dois abraçados para se fazerem entender.

Sente saudades: esse floreio verbal específico com o qual conseguira contaminar os iguais entre os quais convivera durante doze anos. Sentem a sua falta e usam tal palavra entre os períodos econômicos nos quais falam sobre ele, Emiliano, e a sua necessidade de deixá-los dentro do mato inacessível e partir usando roupas que não cabiam direito: o gosto ácido e doce de peixe ainda impresso na língua, os pés inflando-se dentro do sapato, as mãos feitas teares.

Na primeira semana de chegada à cidade, encerrou-se. Ignorava a euforia dos familiares desconhecidos com cabelos untados e penteados para trás da fronte. Ainda sabe falar, Emiliano? Diziam em tom de chacota amistosa. Sim. Vamos te arrumar um trabalho: observar um maquinário burro e barulhento — peixes entrando por uma esteira com os olhos ainda vivos e pulsantes e saindo na forma de pequenos tijolos aglomerados pela sua própria gordura. Algo triste de se ver.

Volta para o quarto. Acende a luz e logo em seguida a apaga. Cria um fogo minúsculo o suficiente para iluminar tudo o que precisa. Ganhou de presente um tubo luminoso de dentro do qual saem imagens sem significado. Volta-se para a cama e a estala de forma misteriosa. Muda as imagens do espaldar.

Ouve um baque à porta. Frágil tentando serem fortes, os baques. Abre. A mulher pensa ser a penumbra um ardil romântico quando na verdade é apenas uma representação lúgubre duma solidão imensa. A observa e de forma engraçada e mágica a solidão se dissipa. A mulher abre alguns pacotes que trouxera dentro de um saco plástico branco e observa o espaldar da cama. Vê a ela mesma representada com uma pequena flor de manacá presa por entre os cabelos. Como você faz isso?

A cama urdida de forma elementar e mecânica impõe sua pujança milenar dentro do quarto mínimo. Deitam-se.


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