Primeiro se faz necessário falar sobre o fantasma da cadeira:
Não lembro exatamente quando a cadeira apareceu ao lado da porta de entrada. Simplesmente apareceu com sua estrutura leve de alumínio e seus macarrões verdes e nunca resolvi mudá-la porque desde a primeira que a vi senti uma boa sensação de segurança. Aparentava haver algo ali. Um guarda invisível.
Sendo assim, coloquei ao seu lado uma planta para lhe fazer companhia. Passou o tempo e veio o sol. Forte, amarelo mais que laranja. A planta adoeceu por causa do Sol e seus raios. A retirei da porta e a coloquei sob uma sombra da cozinha, próxima da pia quente e úmida.
Curiosamente, a cadeira deixou sua posição estável e passou a ficar cada vez mais alheia à sua posição vigilante. Torta. Até mesmo caída com o vento. Talvez tentando fugir do sol que matou até mesmo os fungos da parede: uma companhia muda, porém constante.
Mas muito provavelmente por saudades da planta. Os seres de mentalidade simples e certos homens são os que mais sofrem quando lhes retiram pequenas coisas. Perder algo mínimo pelo qual se nutre um carinho imenso é uma ruína irreconstrutível.
Acontece que pouco tempo após o início da desordem de posições a cadeira estabilizou-se, novamente objetificada, e em seu lugar apareceu um gato branco: O fantasma talvez transmutado em bicho permanecia na frente da minha casa. Observando-me de forma minuciosa como que perguntando onde está a minha planta. Uma saudade desesperada sem perder a compostura. E a planta aqui dentro de casa com ramos se insinuando galhos. Gozando do conforto mínimo do mundo dos humanos que trabalham o dia inteiro para terem certa paz no final da noite.
Ignorei o gato. Ignorei a cadeira e o preço de tamanho descrédito desmerecido foi o aparecimento de estranhos fenômenos. Entre eles:
O gato demoníaco
Era algo com ter dado aulas e aulas. Na verdade era: eu dera aulas e aulas e estava em casa cansado o suficiente para não sentir sono. Meia-noite. Uma. Duas. Quando resolvo dormir, quase três, ouço baques na janela do meu quarto. Talvez um ladrão, forçando a tranca, tentando empurrar o condicionador de ar.
Dei um murro na janela e aguardei a reação no meio da madrugada silenciosa. Nada. Com certeza era um bicho. Um gato ou um passarinho insone, que fossem. Tentei dormir de novo. Pouco tempo depois ouço barulhos no cadeado da porta da frente. Tem alguém Tem alguém Tem alguém: em tais situações, essa sentença simplória mostra-se intermitente e assustadora.
Alópro: abro a porta da frente de súbito e quando vejo o que ela desvela dou um salto de três passos para trás: um gato laranja com uma lata na cabeça.
E o que há demais num gato laranja com uma lata a cabeça? Absolutamente nada demais, querida leitora que sabe, melhor do que ninguém, escolher os sapatos. A não ser que seja três e meia da noite, você esteja sozinha, ache que tem um ladrão rondando a sua casa e, quando bravamente você resolve abrir a porta de casa cheia de sentimentos contra a lei dos homens (tais como abrir talhos num braço desconhecido), no lugar dum sujeito suado de um metro e cinquenta e cinco, encontra um gato laranja cuja cabeça não existe: com os bigodes direcionadores espremidos por uma lata de comida canina ele move-se como um alien demoníaco, rastejando pela calçada.
Tentei ajudá-lo e não consegui. Ele rechaçava as minhas investidas de socorro. Corria cego e tentava usar as unhas. Resolvi esperar nascer o dia e procurar ajuda. Fui para a cama e entrei numa vigília de sonhos estranhos, ora lúbricos, ora planejando aulas, e às seis e pouco da manhã, fiz minha segunda investida desesperada na resolução do problema.
Nem tudo é azar ou situação absurda. Minha vizinha do lado estava varrendo a porta da sua casa. Chamei-a e, ao ver a criatura, ele teve quase a mesma reação de agonia e asco que eu tivera algumas horas antes. Vamos lá, Cristiane. Ela segurou as patas e eu segurei a lata. O gato esticou-se como num desenho de Tom & Jerry. Sofria, o bicho. Livrei as orelhas. Desviei as mandíbulas. O gato laranja viu a luz do sol novamente. Saltou, nos observou e saiu correndo sem nem ao menos dizer obrigado. A ingratidão, mesmo a do mundo animal irracional, é das coisas mais tristes.
Seria o fim da história se, assim como vocês, eu não estivesse esquecido do gato branco. Aquele, evoluído do fantasma da cadeira. O mesmo que tivera sua companheira planta arrancada de seu convívio. O mesmo que encontrara na permissividade de mau sentinela seu instrumento de vendeta.
Vendeta: Um gato laranja, desconhecido e vendado... Percebem? Vamos para a última parte.
As crias
Chego em casa depois de dois dias dormindo fora. Josephinne. Minha mulher evoluída do gato, por vezes pássaro e por vezes, por que não dizer, até um pouco cachorra, pediu que eu dormisse uma noite seguida em sua cama. Dormi: a Josephinne nada négo. Voltei para casa no dia seguinte. Três da tarde. Algo como um nômade se movendo pelo deserto — O calor! O calor! — com o bônus justíssimo de algumas latas de cerveja dentro de um saco de plástico branco. Encontro o portão em desordem. À sua frente, um saco anônimo de lixo meio rasgado. Arrumo o portão. Recolho o lixo desconhecido e o reúno aos meus. Tudo resolvido. Só me resta entrar em casa, limpá-la e escrever nela. Tudo se resolve com a limpeza das coisas.
Ouço alguns mios. Entro no quarto, vassoura em punho, e ponho um dos ouvidos próximos às grades da janela. Os mios não estão fora, estão dentro. O gatos estão dentro do meu quarto.
Ouço um pouco mais. Estão sob a minha cama. Deixei uma das folhas da janela da frente entreaberta e agora existem gatos sob a minha cama-caixa. A afasto: o gato branco revela-se gata quando vejo cinco gatinhos menores perseguindo seus mamilos. As crias alheias a tudo não percebem a ameaça que sou. A gata branca, evoluída do fantasma, percebe e sai correndo, invisível, na direção da porta da frente e lá estaciona, sentido-se vítima de sua imprudência. Observa-me.
O que faço? Não quero tocá-los. Tenho algo como um nojo misturado com medo de machucá-los: o mundo tão novo, escuro e úmido, rescendendo a leite ralo de mãe, subitamente interrompido, os faz chorar aos mios.
Chamo por Socorro: a empregada de minha vizinha — que também se chama Socorro — aparece alguns minutos depois para ajudar o vizinho inapto (a ponto de não lavar as próprias roupas e pagar a ela vinte reais a cada duas levas, uma maior e outra menor) para dar conta da prole.
Ela pega uma pá de lixeira. Me diz: eles vão se criar aqui, Júnior. Eu digo, e o que você quer que eu faça? Jogue eles fora?
É: ela diz.
Não. Eu jamais faria isso. Deixa eles em baixo daquela árvore que tem mais sombra, Socorro. Por favor.
Ela os deixa. E a gata, em permanente vigília, observa todo o processo para, em seguida, ir até eles e lambê-los, uma a um — A gata, até então um fantasma intangível, digerindo sua própria placenta e com um rasgo vermelho, sangue seco, sobre o dorso.
Eles estão lá, agora. Os observei pelo basculante. A mãe os lambendo e partindo para conseguir comida. Não posso dar comida a ela. Ela recusa meus potes de leite, recusa meus Texas burgers. Por aqui é tudo o que poderia oferecer a ela. Num prato plástico dissolvo algum leite em água e o deixo perto das crias. Elas farejam e duelam raivosas. Querem mais. Montam-se umas sobre as outras e, finalmente, chafurdam sobre a fonte desconhecida de alimento. Bebem.
Acho que fiz minha parte. Não posso acolher entre as paredes confortáveis de meu quarto toda uma prole felina originada de um fantasma cuja incursão dolorosa no mundo das coisas se deu porque sentia saudades de uma planta.
Entre as paredes de meu quarto só acolheria a mim e a Josephinne e a nossa prole única cujos nomes não revelo para que os invejosos não registrem os nomes antes. E a ajudaria a engolir a placenta. E os lamberia e a lamberia. E os alimentaria com meu leite artificial de pai e daria alimento mastigado na sua boca para que ela os alimentasse apropriadamente.
Encosto novamente o ouvido na grade de meu quarto. Ouço a matriarca vizinha do lado brigando com os filhos-netos. No lado oposto, ouço os ecos das crianças da oficina brincando longe dos olhos das mães. Suas crias não parecem se importar com nenhum dos acontecidos.



1 comentários:
Nós e o nosso bulldog Hank, né?!
Miau :*
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