23.9.09

20 Minutos de Escrita Randômica


Não adianta procurar referências suas nas entrelinhas. Não existe nada de você aqui além da metalinguagem estúpida e quadridimensional montada pela sua cabeça. Só para precaver.

*

Todo o seu processo de escrever é algo bem vagabundo, destituído de rituais de sofrimento, aspirações em frente à tela, gravidade. Apenas toma um pouco de café; ou abre uma cerveja, ou dá uns tragos num cigarro. Sente uma tontura boa e depois enjoa definitivamente do cilindro de veneno. Escreve. Quando cansa, lê algo que fora escrito antes: ele mesmo agora transformado em letras desconhecidas. Meu deus onde tava com a cabeça quando escrevi isso. Quando não, espia algum endereço com fotos de mulheres nuas ou semi.


O ar disperso. As substâncias. Deveram estar no mesmo tronco caído partido por um raio e depois servido de adubo à terra e depois servido de alimento a um gado que depois de morto fora consumido pelas mães grávidas de ambos e essa mesma energia entrara definitivamente nas células-tronco de cada um deles e ajudaram a derivar todo o resto do corpos que agoram se observam. E agora, esse reconhecimento indescritível. O ar compartilhado sendo aspirado e devolvido para fora e aspirado novamente agora curtido pelo organismo de ambos. Uma sensação boa.


Obviamente é um exagero. O ar, coisa e tal. Mesmo assim, possui uma ojeriza mortal a quem considera o materialismo um mero ponto de vista idiota de que tudo apareceu ao acaso e que irá morrer um dia para nunca mais. Pensar nas coisas em seu caráter material é infinitamente mais do que isso. Apenas não há prova mais cabal do infinito do que a matéria e esse comentário é algo recorrente porque é o que é percebido pelos olhos. Como alguém pode se fiar no invisível? É um pouquinho de burrice, né não?

Além do mais, o que é melhor como elogio aquiescido?:


1. Percebo em você uma energia espiritual muito boa; ou

2. Nossa, que perfume bom... Dá vontade de te agarrar aqui mesmo.


Não precisa responder. Lembra duma frase do Salman Rushdie, escritor do qual até então não lera uma única linha: prefiro acreditar na existência duma alma mortal.


Não é uma transcrição literal, mas essa é exatamente a idéia. Gosta de levá-la consigo, entre o coração e o bolso da blusa. Dane-se o resto. Os caras pregando no ônibus: Jesus sendo novamente flagelado — dessa vez pelos erros crassos da oratória. Até hoje a coisa mais impressionante que viu foram quatro bolivianos produzindo música impecável mesmo entre os solavancos das curvas e a antigravidade das ladeiras. Sentiu uma pertencência ao povo latino-americano e deu a eles o único real que possuía de sobra.


Hoje mesmo, dia 23 de setembro, leu uma reportagem antiga sobre a Transamazônica escrita pelo Fernando Morais em 1974 (impressa pela Cia. das Letras e comprada pela Becca) e lembrou da pequena incursão que fizera estrada a dentro na direção de Porto Velho em 2008 último: a mesma paisagem ora erma ora fechada, a mesma gente isolada do mundo. Enquanto diletantes famintos pregam no ônibus e diletantes bem alimentados tentam dar uma significação mística a vida, existe gente isolada da civilização manauara por quatro balsas e um estirão de estradas mal feitas.


O pessoal que corta lenha e não tem muito tempo para as sentimentalidades misteriosas do espírito: Apesar da vida difícil, eles dormem infinitamente melhor do que as gentes das cidades. Ao menos foi o que lhes disseram, apoiados com uma das mãos na viatura do Exército enquanto lhes ofereciam generosos copos de água. Generosos porque a energia elétrica só circulava doze horas por dia. Pessoalmente não lembra de ter conhecido nenhum caboclo que sofresse de insônia.


(Ainda faltam cinco minutos. Vou tentar interligar as idéias do texto. Vou ver se consigo. Esse parágrafo não conta, daí as aspas)


Num dos pontos da reportagem, Fernando Morais comenta sobre uma das noites onde conseguiram pernoite num hotel decente: após alojarem-se, ele simplesmente desabou na cama e dormiu um sono profundo, ininterrupto e revigorante até as nove da manhã do dia seguinte.

É exatamente isso. Essa paz do cansaço. Esse sentimento de estirão cumprido que traz uma paz de espírito como consequência direta do repouso físico. Você se deita e se mistura à cama. Esquece de que matéria é feito. E com isso vive-se toda uma existência sem a menor recorrência de suicídio porque há trabalho a ser feito.


Tergiversações materialistas? Pensamentos lúbricos? Palpitações? Angústia? Antes de soletrar o acento agudo da palavra, a paz do cansaço já fez o seu abate e te devolveu à ordem constante das coisas.

Que dirá o Luiz Carlos, motorista, que dirigira a viatura 4x4 o dia inteiro e hoje em dia, por um golpe de azar, sofre um processo. Outra história.

E o outro dia é o outro dia.

(19)

17.9.09

Muay Tai


Eu tentei encaixar a figura do instrutor de muay tai num dos meus textos mas não deu certo: ele é por demais idiossincrático; destoante de todo o resto.


O ponto donde desço do 200 e sete é um dos metros quadrados mais loucos que existem. Nele coabitam uma distribuidora de gás, uma padaria, um galpão armazenador de evangélicos, uma distribuidora de bebidas, uma lanchonete evangélica, uma creche, um manutenedor de eletrodomésticos, uma ótica-boutique, uma serralheria, uma marcenaria e a tal academia de muay tai.

Às vezes passo pela frente e ouço berros no pátio aberto agora encoberto por folhas tortas de compensado. Os sujeitos invisíveis batem nos sacos de areia, o nome Everlast é esmurrado com agressividade contínua. A academia funcionando como uma embaixada improvisada da Tailândia: pátria irascível onde se punem traficantes com fuzilamento ou pisada de elefante na cabeça.

Imagino que eles devem correr à beça, bem como fazer exercícios extra; os alunos do bairro da Redenção: para lutar muay tai é necessário ter os joelhos e os cotovelos transformados em pedra. Exatamente como Jean-Claude Van Damme em "Retroceder Nunca, Render-se Jamais" e em mais uma dúzia de filmes: a canela açoitando o coqueiro, os fundamentos marciais sendo repassados no fundo do lago.


Após o treinamento, o mestre fica à porta de sua academia improvisada. Assim como Jean-Claude Van Damme, ele usa o short passando o umbigo em muito. Os músculos ressequidos (já não é jovem) e as veias funcionando quase como dutos expostos o fazem girar o pescoço e levar um cigarro com filtro amarelo à boca.

Ele observa a paisagem em tom de desafio. É o único mestre de muay tai das redondezas. Está cercado por evangélicos pobres, comerciantes iletrados, atendentes de padaria semi-transsexuais, marceneiros com pedaços de dedos faltando e serralheiros com as pupilas comprometidas.

Dá um trago profundo. Passa a direita sobre o couro da cabeça. A esquerda ainda segura as luvas.


16.9.09

Opereta




O Muse me fez (re)começar a ouvir rock progressivo sem eu me dar conta disso.

A estranha combinação de glam rock e teclados de seriado japonês que sempre gostei de ouvir gruda nos ouvidos. As sonatinhas de piano que eu costumava ouvir incidentalmente quando era criança:
Aquelas músicas tristes e belas cujo número a gente não lembra nunca.

Aparecem também as orquestrações de filmes com seus violinos e mais violinos. E mais as coisas espaciais e marciais misturadas com sintetizadores dos discos do Bowie e os falsetes do Thom Yorke misturados a refrães estilo Queen com vocais dobrando-se de forma operesca.

Tantos elementos misturados são suficientes para se amar ou odiar The Resistance, o novo álbum da banda. "Rock progressivo é tão chato! Como alguém pode ter saco para ouvir Rush, Pink Floyd, Muse e etc?"

Porque quem começou a ouvir essas bandas quando eles eram... humanos, digamos assim, foi gradualmente conduzido a essas novas sonoridades. E porque muitas vezes gostar de uma banda é algo irreversível, por mais que às vezes essa banda irrite.

Algo como ter começado a ouvir Radiohead na é poça em que se podia tocar Freak em qualquer violão e agora ser admirador de uma sucessão labiríntica de palavras misturadas a fraseados de guitarra e barulhinhos impossíveis de serem reproduzidos por ninguém além deles mesmos.

Da mesma forma que os fãs de longa data de tais bandas, eu comecei a ouvir The Resistance com um preconceito empático porque já fora guiado do britpop assim meio cópia do Radiohead até essa coisa pretensiosa, megalômana, resvalando no cafona, mas que no todo se salva por soar algo apaixonado.

E a passionalidade é o único lado bom da megalomania.


7.9.09

Elevador




O cabeleireiro do programa de moda disse a ela que o cabelo não deve ser preso com tanta tensão: aqueles fios esticados como o cabelo da Mônica (sete fios ou oito?). A tensão contida pela liga colorida pode expor demais os pontos negativos do rosto, comprometer a harmonia das maçãs. O couro cabeludo fica tenso. A vida fica mais difícil.

Toda essa teoria não importa porque ela está de ressaca e quase tragicamente atrasada para o trabalho. Passar um secador pela cabeça seria como um suicídio lento e doloroso. Procura seus pertences pelo quarto. Moedas. A bolsa cor de rosa. A calcinha mais feia e mais confortável de todas. Pragueja quando precisa se abaixar para resgatar o tênis fugido para baixo da cama. Ele escapa, tenta fugir através do dedos. O ata aos pés. Em seguida, cobre os olhos amassados com um óculos gigante e faz um coque mais tenso do que as relações na fronteira inexistente da Palestina.

Olha-se no espelho do elevador. Ainda está um pouco alta a ponto de se achar outra olhando para si própria. Como quando se muda de visual ou se sofre um acidente trágico de cicatrizes grotescas. Encosta a testa no vidro e fala para si mesma: eu poderia cometer um assassinato se o que estivesse em jogo fosse a minha eterna felicidade romântica.

E como seria, seria com uma faca? Como seria?: A garota idêntica, com duas dimensões apenas, o cabelo louro com as pontas escuras como que se tivessem sido mergulhadas numa calda de chocolate constante a indaga, ergue o nariz e exige uma resposta.

Seria rápido, com certeza seria rápido. O golpe recém-aplicado. Faca. Tenho medo de barulho de arma. A nova boca branca, pronta para esguichar sangue. E valeria a pena morrer por ele? É, esse mesmo que você pensa antes de todas as memórias, antes mesmo de acordar e se reposicionar no dia e no turbilhão de voltas e voltas que te levarão irrevogavelmente a perder o contato com a passagem dos anos. Você pensa nele e se sente silenciosamente feliz dentro dessa prisão ridícula.

Ele mesmo. Cinco centímetros mais alto, com a barba mal-feita no pescoço e com uma insegurança de moleque de quinze anos quando já está pra lá dos chegando aos vinte e cinco. Esse mesmo que jamais te dará um daqueles casamentos opulentos a ponto de serem documentados pelo Discovery Home & Health.

Sim. E não me arrependo da imensa partição neurológica que esse filho-da-puta ocupa em minha cabeça. E você poderia pensar tanta coisa! Poderia até escrever livros se, ao invés de ficar imaginando realidades que não acontecerão nunca, se ao invés de ficar perdendo tempo nos teus sonhos lúbricos de final de noite — início de dia, passasse a encarar a vida de forma mais prática: Iria encontrar um homem com planos, um cara objetivo, com o carro ainda cheirando a novo, totalmente disposto a ser um cachorro: a te lamber e fazer todas, digo, todas as coisas que você quisesse.

Mas não quero isso!: ela recupera a senhoria dos movimentos e aprisiona novamente a mulher plana como mera imitadora dela mesma porque, sim, mesmo velocíssima, a luz só ocorre microtempos depois e então cada reflexo de espelho é uma imitação do que fizemos há uma centena momentânea quântica antes.

O cabeleireiro estava certo. Antes de pousar no térreo (o elevador tranquilo e silencioso, ocultando a possibilidade iminente do abismo), ela solta os cabelos. Eles respiram e se equilibram com as pontas dos pés sobre a pele de seu busto. Os pezinhos unos sujos de chocolate.

Ela corrige um pedaço de boca vermelha tentando escapar pelo lábio superior. Respira. Arruma os peitos. Sai para o trabalho.


5.9.09

The book group thing



The book group thing was JJ´s idea. He said people do it a lot in America, read books and talk about them; Martin reckoned it was become fashionable here, too, but I´d never heard of it, so it can´t be that fashionable, or I´d have read about Dazed and Confused. The point of it was to talk about Something Else, sort of thing, and not get into rows about who was a berk and who was a prat, which was how the afternoons in Starbucks usually ended up. And what we decided was, we were going to read books by people who´d killed themselves. They were, like, our people, and so we thought we ought to find what was going into their heads. Martin said he thought we might learn more from people who hadn´t killed themselves – we should be reading up on what was so great about staying alive, not what was so great about topping yourself. But it turned out there were like a billion writers who hadn´t killed themselves, and three or four who had, so we took the easy option, and went for the smaller pile. We voted on using funds from our media appearances to buy ourselves the books.

Anyway, it turned out not to be the easy option at all. Fucking hell! You should try and read the stuff by people who´ve killed themselves! We started with Virginia Woolf, and I only read like two pages of this book about a lighthouse, but I read enough to know why she killed herself: she killed herself because she couldn´t make herself understood. You only have to read one sentence to see that. I sort of identify with her a bit, because I suffer from that sometimes, but her mistake was to go public with it. I mean, it was lucky in a way, because she left a sort of souvenir behind so that people like us could learn from her difficulties and that, but it was bad lick for her. And she had some bad luck, too, if you think about it, because in the olden days anyone could get a book published because there wasn´t so much competition. So you could march into a publisher´s office and go, you know, I want this published, and they´d go, Oh, ok then. Whereas now they´d go, Oh, ok then. Whereas now they´d go, No, dear, go away, no one will understand you. Try pilates or salsa dancing instead.

(HORNBY, Nick. A Long Way Down. London: Penguin Books. Pg 146)

O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...