
O cabeleireiro do programa de moda disse a ela que o cabelo não deve ser preso com tanta tensão: aqueles fios esticados como o cabelo da Mônica (sete fios ou oito?). A tensão contida pela liga colorida pode expor demais os pontos negativos do rosto, comprometer a harmonia das maçãs. O couro cabeludo fica tenso. A vida fica mais difícil.
Toda essa teoria não importa porque ela está de ressaca e quase tragicamente atrasada para o trabalho. Passar um secador pela cabeça seria como um suicídio lento e doloroso. Procura seus pertences pelo quarto. Moedas. A bolsa cor de rosa. A calcinha mais feia e mais confortável de todas. Pragueja quando precisa se abaixar para resgatar o tênis fugido para baixo da cama. Ele escapa, tenta fugir através do dedos. O ata aos pés. Em seguida, cobre os olhos amassados com um óculos gigante e faz um coque mais tenso do que as relações na fronteira inexistente da Palestina.
Olha-se no espelho do elevador. Ainda está um pouco alta a ponto de se achar outra olhando para si própria. Como quando se muda de visual ou se sofre um acidente trágico de cicatrizes grotescas. Encosta a testa no vidro e fala para si mesma: eu poderia cometer um assassinato se o que estivesse em jogo fosse a minha eterna felicidade romântica.
E como seria, seria com uma faca? Como seria?: A garota idêntica, com duas dimensões apenas, o cabelo louro com as pontas escuras como que se tivessem sido mergulhadas numa calda de chocolate constante a indaga, ergue o nariz e exige uma resposta.
Seria rápido, com certeza seria rápido. O golpe recém-aplicado. Faca. Tenho medo de barulho de arma. A nova boca branca, pronta para esguichar sangue. E valeria a pena morrer por ele? É, esse mesmo que você pensa antes de todas as memórias, antes mesmo de acordar e se reposicionar no dia e no turbilhão de voltas e voltas que te levarão irrevogavelmente a perder o contato com a passagem dos anos. Você pensa nele e se sente silenciosamente feliz dentro dessa prisão ridícula.
Ele mesmo. Cinco centímetros mais alto, com a barba mal-feita no pescoço e com uma insegurança de moleque de quinze anos quando já está pra lá dos chegando aos vinte e cinco. Esse mesmo que jamais te dará um daqueles casamentos opulentos a ponto de serem documentados pelo Discovery Home & Health.
Sim. E não me arrependo da imensa partição neurológica que esse filho-da-puta ocupa em minha cabeça. E você poderia pensar tanta coisa! Poderia até escrever livros se, ao invés de ficar imaginando realidades que não acontecerão nunca, se ao invés de ficar perdendo tempo nos teus sonhos lúbricos de final de noite — início de dia, passasse a encarar a vida de forma mais prática: Iria encontrar um homem com planos, um cara objetivo, com o carro ainda cheirando a novo, totalmente disposto a ser um cachorro: a te lamber e fazer todas, digo, todas as coisas que você quisesse.
Mas não quero isso!: ela recupera a senhoria dos movimentos e aprisiona novamente a mulher plana como mera imitadora dela mesma porque, sim, mesmo velocíssima, a luz só ocorre microtempos depois e então cada reflexo de espelho é uma imitação do que fizemos há uma centena momentânea quântica antes.
O cabeleireiro estava certo. Antes de pousar no térreo (o elevador tranquilo e silencioso, ocultando a possibilidade iminente do abismo), ela solta os cabelos. Eles respiram e se equilibram com as pontas dos pés sobre a pele de seu busto. Os pezinhos unos sujos de chocolate.
Ela corrige um pedaço de boca vermelha tentando escapar pelo lábio superior. Respira. Arruma os peitos. Sai para o trabalho.



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