10.10.09

Portaluz


A luminária, ao lado, no criado-mudo, irradia uma falha intermitente. Apaga quase, volta forte e logo esmaece. Ilumina apenas metade do rosto; ora contém, ora absorve o escuro. Porta-luz. Semi. Quase inteira: assim te observo. E a expressão grave compenetrada do sono de respiração inconstante e parte do maxilar na palma de minha mão.

Acorda. A voz faz-se imperativa. Joga-se no banheiro. Batiza-se pro dia novo. Acorda, ele diz a si mesmo. Escolhe roupas. Cruzetas lembrando clavículas. Umas vazias, outras com pano sobre.

É esse o problema, marcos. As letras o atormentam. Você não vai as organizar sobre isso? Digamos assim, no sentido de narrar. Seria bom. E ele diz não ainda porque os rancores e as paixões possuem as estruturas verbais mais fortes. Desde o início funcionando como sequencias antepensadas. Estruturas para depois dos trinta.

Ainda existe muito papel a ser sujo com letras.


2.10.09

Quatro Filmes de 2008


Não sei se acontece com vocês; mas às vezes passo por um misto de preguiça mental e indisposição estranhas que me fazem evitar assistir qualquer filme por achar ser isso perda de tempo.

Começo a ver na tv e mudo de canal porque perdi os 30 segundos iniciais. Quando encontro um título interessante na locadora, alugo porém não assisto e, para não perder dinheiro, faço cópias mas as deixo empilhadas junto às mui gentilmente gravadas pelos amigos.

Ir ao cinema, então, nem pensar: é caro, demanda tempo e dinheiro e invariavelmente nos irritamos com o maldito acesso cultural dos macacos que não conseguem ficar calados ou se desvencilhar por 2 horas de suas crias. Além do mais, 90% do que chega às telas daqui ou não faz diferença quando visto na tv ou é uma bela porcaria.

Reavaliando, então, posso dizer que deixar os filmes de lado nesses intervalos de tempo não é inteiramente culpa nossa. Mesmo assim, nada melhor do que voltar a eles, os bons filmes e, após duas horas, sair da frente da tela se sentindo alguém melhor. Foi assim com os quatro filmes abaixo, todos excelentes, todos de 2008.

*

Be Kind, Rewind (2008) /direção: Michel Gondry.

Após uma desmagnetização acidental das fitas duma videolocadora, dois amigos resolvem fazer remakes caseiros de filmes que vão de Ghostbusters a King Kong. E o que poderia causar revolta nos clientes passa a ser um trunfo quando estes também passam a participar das produções.

O filme possui a mão onipresente de Michel Gondry, diretor da obra-prima Eternal Sunshine of the Spotless Mind, cujas principais características são os efeitos especiais artesanais e personagens incomuns em volta com situações fantásticas.

O único déficit é Michel Gondry não ser um roteirista à altura de sua direção: da mesma forma que ele cria um plano-sequencia genial mostrando a filmagem de vários filmes; desperdiça novamente um clímax muito bem construído como o que já desperdiçara em The Science of Sleep, seu filme anterior. Seria o caso de pegar mais duas aulas com o Andy Kaufmann para chegar à perfeição.


JCVD (2008) / direção: Mabrouk El Mechri.

Jean-Claude Van Damme é um grande ator. Após assistir JCVD, não tenho dúvidas quanto a isso. E qualquer pessoa de bom senso dirá o mesmo após vê-lo atuando nessa história metalinguística maluca que o põe como o centro de uma cinebiografia cruel onde não sabemos o que é totalmente ficção e o que foi baseado nas desventuras da maior estrela da história da Bélgica. E talvez única, se lembrarmos do Hercule Poirot, o detetive gordinho e afeminado das histórias da Agatha Christie.

A revista Time considerou a atuação de Jean-Claude Van Damme em JCVD a segunda melhor atuação de 2008. A primeira foi a de Heath Ledger, em Batman: The Dark Knight. Concordo inteiramente.

E ainda posso favorecer um pouco mais o Jean-Claude ao lembrar o fato de, em Dark Knight, não haver nenhum monólogo de seis minutos com Heath Ledger encarando a tela de cara limpa. Além dele nunca ter sido capaz de fazer um espacato cruzando os braços. Ou, com os olhos vendados, derrotar o Chong-Li.


Slumdog Millionaire (2008) / direção: Danny Boyle.

Slumdog Millionaire é o encontro de Gloria Perez com Fernando Meireles: você assiste a uma perseguição permeando a favela no melhor (?) estilo Cidade de Deus e nos diálogos subsequentes ouve os garotinhos falando um inglês permeado por ticks e atchas tão familiares aos brasileiros.

Mas a história é bem mais do que isso: É um novelão dirigido pelo Danny Boyle que nos faz sofrer por quase duas horas para, no final, nos sentirmos aliviados e até mesmo curtir a dancinha indiana enquanto rolam os créditos.

Slumdog Millionaire mereceu o Oscar de melhor filme porque é para isso que serve o cinema: te emocionar, deixar preso à tela, chorando quase, e ficar lembrando depois. Além do mais, o filme do Benjamin Button, com 8 horas e meia de duração, é chatíssimo.


Gran Torino (2008) /direção: Clint Eastwood.

Assisti há doze horas e ainda estou sob o efeito. Gran Torino é algo como um monólogo de Clint Eastwood cujos atores secundários fazem parte dos elementos de cena e ficam ao redor do protagonista: um veterano da Guerra da Coréia obrigado a conviver com os ex-inimigos dentro dos Estados Unidos da América.

Além de todo o drama e as vendetas que vêm como consequência, Gran Torino possui duas abordagens marcantes: a primeira, ao mostrar a estranheza de alguém que ajudou a construir um país – a “boa” América – e sempre cumpriu seu papel de pai e cidadão e de súbito se descobre um estrangeiro dentro de seu próprio país e, pior, dentro de sua própria família pelo fato de todos os valores terem sido progressivamente dissolvidos.

A segunda é a de que qualquer homem gostaria de chegar à velhice como o personagem de Clint: com a casa limpa e bem manutenida, a esposa devidamente enterrada após ser amada cada dia de sua vida, um cachorro fiel deitado ao lado, um isopor cheio de cervejas e, principalmente, um fuzil com doze munições e uma pistola 9mm para serem apontados na cara de moleques ignorantes e sem identidade.

*

De qual gostei mais? Gran Torino e JCVD. Por quê?

Porque o cinema, como toda boa forma de arte, é transferência.


O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...