28.11.09

Calamares


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O assassino observa as mãos e a si mesmo: se contorce ao redor do próprio dorso de caracol. Uma dor morna de arrependimento. Uma angústia de não saber se a vítima já se tornou vítima realmente: Ela ainda pode estar agonizando num quarto noutro lado da cidade. Pode estar recebendo socorro ou estar sozinha numa rua sentada numa calçada escura, madrugada: um calamar soltando tinta vermelha através das fendas abertas do seu corpo. A mesma tinta que agora tinge as mãos do assassino e não as deixará tão fácil.

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Olha, Cecília. Observa essa tinta vermelha secando sobre o papel. Cecília aproxima-se, os pés com as curvas das falanges perfeitas são tocados e levemente tingidos pela tinta. Ele se ergue e a observa. A mulher branca e o homem de pele escura. Encaram-se. A mulher, de menor estatura, se faz imensa. Mesmo reclinado, o queixo perde a sombra negra quando olha a pintura a seus pés: um coração rubro sendo envolvido e soltando tinta por sobre os tentáculos dum calamar negro. Os dois encaram-se. Pincelam as maçãs uns dos outros. Pincelam os seios. Pincelam o nariz e o pescoço. Abraçam-se ardorosamente e não mais se soltam.

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Por fax, como nos anos 90, recebi o memorando de Carlos: operação durou muito precisa por fim nisso faca amanha sob escrivaninha. Acordamos tarde, eu e a vítima. Fomos ao supermercado. Divertimo-nos fazendo a janta. Ele, que não sabe cozinhar, me observa e me aperta a bunda enquanto luto com as panelas. Em seguida ele vai para a sala, aonde levo os pratos fumegantes. Ele come e a boca entreaberta faz microbarulhos. Isso me irrita muito. Peço a ele que leve os pratos até a cozinha. Dócil, o idiota os leva. Carlos plantou a faca exatamente como dissera no memorando. A vítima retorna. Senta ao computador. Distrai-se. Perdi a conta dos golpes. Deixei o apartamento pela porta de serviço.

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Há quanto tempo não ficava absolutamente sozinho? No quarto, alugado por cinquenta reais a diária, recusara papel e caneta e computador e procurara uma ocupação onde nunca exercera qualquer domínio: a pintura. Comprara tinta negra e vermelha na papelaria no térreo. O lado bom do Centro: apesar de sujo encontra-se de tudo. Antes, deitou-se em posição de concha e purgou mais um pouco: convulsões frias que o fizeram sair momentaneamente do corpo. Ergueu-se e foi até o espelho do banheiro. Voltou aturdido: vira no espelho outro homem. Sentou-se em posição de lótus malfeita. “O Calamar Opta Por Sua Tinta” — Lembra do conto de ABC e começa a dar forma a primeira pintura depois de décadas entre a dor e a infância. Calamar: o outro nome do polvo aos poucos sumindo até mesmo dos dicionários.

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O grande problema é quando o assassino apega-se à vítima. Percebe ser ela não apenas um dorso ou alguém que quase nunca comete erros de concordância — Não apenas é carinhosa; mas tem um pau que é bom de pegar e um pescoço que a induz ao transe e a domina e a faz temer pela morte e ignorar tal fato pelo enlace trazer ao seu corpo de assassino um sentido que nunca antes reconhecera em si mesma. Deitam-se. Gozam um no outro. Ela demora um pouco mais no banheiro. Nesse período fizera um ato desconhecido pela vítima e por todos exceto a nós que lemos esta história: pára no meio da sala e lembra dos memorandos que recebera ao longo de todo aquele tempo. Lembra por que está ali e da ameaça do ultimo memorando impresso em tinta vermelha: nao se apegue voce e minha e recebera em breve a ordem de terminar com essa farsa ass: carlos.

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A questão, Cecília, é que preciso ficar um pouco sozinho. Preciso recomeçar algo meu nalgum quarto anônimo. Chegamos ao nível da realidade travar os nós das minhas falanges. Tenho que ir agora. Ela com o corpo branco todo pontuado por sombras, enrolada como um caracol sobre a cama, achou que dessa vez eu nunca mais voltaria. Mas Cecília, quem além de você conhece o que é um calamar dentro de todo esse perímetro urbano? Quem além de você conhece os meus símbolos? Quem conhece tão absurda e obscenamente o meu corpo a ponto de deixá-lo todo manchado por tuas cicatrizes escusas que jamais sairão mesmo após tomados todos os banhos longos possíveis? Quem senão você conhece meus sinais mais ínitimos? Teu cheiro sobre as outras indefinidamente. Eu marcado. Saí e ela não disse palavra.

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O primeiro contato do assassino com a vítima precisa ser pontuado por sedução e cuidado. É um homem franzino junto ao balcão. Já meio alto pela passagem da noite. Sem tocá-lo, o assassino entabula uma conversa. Conhece seu ponto fraco: livros e mulheres. É e conhece ambos. A morte será simples: É uma mulher linda, conhece os livros fundamentais. Flertam. À primeira umidade e/ou pau duro os livros e qualquer outro assunto porventura são imediatamente relegados a último plano. Sabe, o assassino diz, preciso te dizer uma coisa. Diz, diz a vítima. Tô morrendo de vontade de te dar um beijo. E por que não dá? O mais irônico dentre os casos de assassinato urdido e planejado por meio de envolvimento é que as vítimas sempre dão o primeiro passo. Quando se enlaçam, em público, o assassino fica momentaneamente preocupado com os memorandos dobrados dentro do bolso. Nenhum deles mencionara a intensidade do beijo da vítima. Nem os braços de calamar que ela desenvolveria ao longo do amasso. Mesmo assim, o ardil tem início.

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Os corpos e tudo o mais que existe é composto por água sal terra e poeira de estrelas. Gostou de Cecília por causa da pele branca. Não que gostasse de pele branca — e sim porque sempre gostara da cor branca. E havia o fator de desequilíbrio: o verde dos olhos composto em sua totalidade pela matéria estelar de milhões de anos antes. Na primeira volta à superfície após o escuro de cheiro quase âmbar que permeia o transe do enlace, surgem as primeiras curiosidades práticas. O que você faz?, Cecília pergunta. Escrevo, trabalho para o Exército. E você? Escrevo memorandos. Isso parece ser tão simples quanto trabalhar para o Exército; tirando a parte do Exército. Não é tão simples quanto parece, ela diz. Bebem mais um pouco. Sabe, Cecília, preciso segurar tua mão por um longo tempo. Um daqueles eternos, eu diria; e a nossa eternidade não dura muito. Observam as mãos e a si mesmos. Observam os dorsos. Os porta-copo vermelhos sobre a mesa estão derretidos e, sem que ambos houvessem percebido, tiveram as suas mãos tingidas. Dão-nas pela primeira vez e, sem se darem conta, imitam um enlace de calamares.


26.11.09

Lidando



Estou ao lado da minha casa. Escuro. Silhueta das plantas somente quando ouço, claro alto e nítido, um choro de criança.

Acendo um cigarro e observo a fila de casas que insistiu em surgir do outro lado da rua. Observo as luzes acesas: Apesar de parecer, o choro de criança não vem do fundo ainda mais escuro do quintal (um bebê descarnado e demoníaco me observando por entre as folhas)
Vem das luzes acesas num quarto anônimo do outro lado da rua. Trago o cigarro e devolvo a fumaça e o significado real do som que assustaria muita gente mas não a mim: Não tenho medo de fantasmas.


Volto e escrevo para você que vive entre meus dedos. Trouxe vazio às pontas da minha boca. Fome leve e um princípio de desespero contido me deixando preso entre dimensões me fazendo pensar numa solução tão simples quanto ignorar a existência da cidade de São Paulo.

Agora, ainda, a imagino vazia. As esquadrias das janelas arrancadas e todos os bares abandonados com as portas abertas. E para desimagina-la, precisarei estancar o som do choro fantasmagórico como fiz há pouco. Precisarei criar um lume, mesmo num diminuto cilindro de tabaco misturado a veneno, para devolvê-lo ao ar leve e iluminado, pingando fagulhas, e então passar não mais a ver não a minha Los Angeles desolada — e sim a branca, precisa imensa e exata, com luzes e amigos fraternos.


Manaus, involuntariamente relegada pela relação com a rotina de trabalho calor e afazeres diversos, tenta voltar a existir à noite. Voltei ao Botequim depois de anos. Continua a mesma coisa, exceto pelo baixo nível da música: Sujeitos de meia idade encaixando frases picantes entre canções sem sequência coesa. Sou muito chato pra música. Sempre estou percebendo um detalhe ou outro e fazendo comentários enquanto algo está tocando. Seja ele bom ou ruim. Assimilações. Tento evitar isso.

A banda resolveu enfiar o pé na fossa música atrás de música e um amigo desculpou-se pela indiscrição ao me dizer que tristeza não combina comigo. Eu sei que não, cara. Não existe dignidade alguma na tristeza. Mas manter apontado para a frente o meu nariz afilado levemente torto se torna difícil quando o ar está tomado pelo barulho do Samba do Grande Amor mal tocado.

Desistimos do bar e fomos para o clube ao lado. Uma danceteria frequentada pelo publico GLS em sua maioria. Na verdade mais pelos da primeira letra. Um cabaré sem mulheres nuas, o que torna o seu nome irônico. Mas apesar de abominar o corpo masculino e ter tido desde a mais remota infância bons problemas de musalização + animalização quanto ao corpo feminino; não tenho nada contra os gueis. Até porque, não fosse por eles, a população mundial seria ainda maior e traria com ela todos os problemas estatísticos. Gosto das lésbicas femininas.

(Preferi acabar este último parágrafo com as palavras lésbicas femininas porque acho insosso e fora de estilo acabar qualquer parágrafo que seja com a palavra estatísticos. Lésbicas femininas.)

Um lugar pequeno. Luz estroboscópica na pista. Antes de entrar no lugar, me dera conta da gravidade da camisa verde que eu estava usando: uma versão silkscreen fluorescente da capa de Aladdin Sane do Bowie. Deus, Bowie. Para minha sorte, a grande maioria era inculta quanto a existência do Ziggy. Mesmo assim percebi mais de um par de comentários em torno da estampa da camisa. Manaus não é tão ignorante assim. Se duvidar vários conheciam as duas versões de The Prettiest Star.

Mesmo com um blecaute de quase um minuto nada demais aconteceu. Os sujeitos com dinâmica e expressões vampirescas se contiveram em seu universo próprio. Meus amigos se divertiram. Eu me diverti porque sei dançar o Tony stile.

Voltando aos fantasmas. Fui assistir Atividade Paranormal com um casal de amigos — um homem e uma mulher, vale ressaltar — ainda movido pelos hypes e antihypes cercando a história. Após a sessão, posso afirmar: é um filme vagabundo, nada original em sua forma de filmagem e, justamente por isso, assusta bastante pelo fato de fazer horror com o que é banal e pode acontecer a qualquer momento.

Inferi. Um casal sozinho, sem amigos e que tenta ignorar a existência de um demônio entre eles. No quarto, ao lado da cama. Não o exorcizam, não o combatem; apenas documentam o agravamento da situação até o ponto onde ocorre a tragédia. Foram estúpidos, infantis e inconsequentes. Viveram a forma negativa da cumplicidade quando não trouxeram o problema à luz e aceitaram o fato de que aquele demônio ridículo acompanharia a garota pelo resto dos seus dias, idenpendente de onde vivessem. Aconteceu o que aconteceu porque tudo ficou escondido nas sombras. E os fatos crescentes, cada vez mais absurdos, por terem sido tratados como algo contornável, acabaram tragando os dois.

Seria necessário expor o quarto à luz. Mesmo sob o constrangimento de o demônio invisível no quarto não ser problema de ninguém além deles. Seria preciso expor aos outros. Sair para a rua. Pedir ajuda. Mudar de cidade e, uma vez nela, tentar iluminá-la começando como um pequeno lume aceso negativamente pela boca. e jogado positivamente ao ar. E então as aparições cessariam e seria preciso acreditar que elas não mais voltariam porque, sem isso, todo o resto seria inviável e os corações jamais voltariam à leveza.



22.11.09

Aprendizado

Gullar, em "Barulhos"
Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste

ao fundo

e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.

18.11.09

Cadente


As tempestades internas. Acordo. E depois do quase despertar semelhante ao que era o normal, surge pura, sem tradução, uma expressão grudada:
coldheartachefeeling.


Ela não virá: está. E se estabelece, fria e pesante; um quadrado comprimindo o peito, o coração.
Misto de dimensões, me esfria e dolore mesmo antes do começo do dia.

Que passa rápido. Mas surgem rompantes inevitáveis. Descubro um lado novo da casa. Cheio de árvores. Agora é noite. A dor vem e volta. Descontrola. Meus cabelos cortados. Sento na calçada e fumo alguns Marlboros Azuis enquanto observo as árvores e olho os muros. Imagino um jardim selvagem verde e branco. É o que me permito citar: verde e branco. Verde. Branca. Jardim trancado por fora.


Jogo as pontas de cigarro e crio estrelas cadentes para as formigas. Nenhuma delas me toca ou incomoda. Involuntariamente as exorto: água e sal que sai de meu corpo. Água e sal e amor sendo purgado à força.


Preciso dormir, mas o sono não é mais sono; e sim um repouso horizontal antes do dia e do trabalho onde devo não transparecer meus demônios para as crianças. O senhor, elas dizem; o senhor cortou os cabelos. Os alunos mais velhos, adultos, percebem meus olhos tristes quando rapidamente me distraio entre os exercícios.


Não sei se escrevo. Mas sei que devo. É pra isso que estou aqui. Para escrever, contar histórias. Mesmo elas sendo por vezes tristes. Mesmo sabendo dos tantos, mas tantos, verbos desperdiçados. Tantas vozes minhas desperdiçadas. Tantas mãos e tantas bocas minhas desperdiçadas.


Partes dum corpo que é meu mas não o sinto e mesmo assim, uma após as outras, surgem palavras contidas pelas idéias que tento fazer não serem mais minhas. Mas elas vêm e voltam e me abraçam e me guiam até o leito.


16.11.09

Domingo


Cheiro involuntariamente a fumaça dos ônibus. Encosto nos prepassageiros correndo com medo de não chegarem em casa. Suo. É noite de domingo, faz frio — porém minhas roupas e minha mochila experimentam uma união úmida.

Precisarei subir escadas com espelhos desproporcionais quase em movimento. Empurrar meu corpo e pagar taxas. Equilibrar-me em meio a solavancos até encontrar um repouso temporário. Caminhar quarteirões até chegar ao portão de casa.

Antes. Lia a Bravo! com o Rubem Fonseca na capa: sua mão sobre a boca. Sobrancelhas caindo sobre os olhos. Continua misterioso, o maior escritor policial da Língua Portuguesa. Após tornar-se viúvo (a mulher, amara a vida inteira) viu o seu apartamento criar pústulas geométricas planas na forma de estantes e sobre elas resolveu colocar seus livros e livros: “leio um por dia”, diz.

Misturo-me indevidamente a ele e ao personagem do Clint Eastwood em Gran Torino: Esses homens fortes que carregam sobre si, silenciosamente e com brio, traumas e mulheres mortas antes do tempo. Tocam a falência desnudando-a da tragédia, transformando-a não no louco da casa que permanece no porão; mas o que pacificamente risca e faz canudos no papel o dia inteiro — Incômodo, porém possível de adequar-se. Convivível.

Mesmo assim surgem monstros. Sob a cama. Antes do sono. Entre as teclas. Sorrindo entre os vincos duplos das roupas. Espiando pelas frestas da cortina azul. Forçando um frio misterioso no estômago. Monstrando-me que nada, João, é o que parece. Os semáforos falham. Mansos e de forma prosaica revelam-se os inimigos.

Os dias vindouros serão escuros. Vazio entre o travesseiro e a cama. O coração feito pedra perdido entre dimensões é um despertador crudelíssimo. O tom pálido e claudicante da decepção quando dela levanto e preciso caminhar quatro quilômetros e meio de volta. Os rostos incultos. Meus cabelos crescendo. O ano no fim (e as festas). O sol queimando minha pele desprotegida de roupa. Braços. Pernas. Rosto menos os óculos.

A chuva fazendo chorarem os sapatos: os furos laterais planejados apenas para respirarem agora vertendo lágrimas inadequadas. Fora de hora. Desmerecidas. O céu ruge em cima. Forte. Cospe torrentes. Tento esquivar-me. Não consigo. A enxurrada me enche os pés e os sapatos. Piso forte. É preciso pisar forte sempre. Eles esguicham. Continuo a caminhada.

Troco de roupa. Olho meus livros. Berkeley diz que nada existe e nada existiu. Camus diz que o absurdo é como um acidente automobilístico no meio duma noite calma de domingo. Ponho músicas no radio: Jeff Tweedy se desculpa pela apropriação indevida de sua obra poética. Simpático que é, rosto de leão sofrido, me estende um cigarro.

Acendo e e observo três tijolos no muro ao lado do meu quarto: um tem o rosto tomado por névoa, outro é raivoso. Sou bem esses dois. Um terceiro rosto dorme, porém possui um olho esquerdo desperto, ansiando pelo futuro.


E esse futuro acontecerá: e entre todas as vozes imaginárias impressas e constantes, uma se fará mais importante do que todas porque será real.

O ar entre a boca e meus ouvidos será real não será frio e terá a consistência de sol no começo do universo de todas as coisas. Os seios pontuados por sinais entre. Os olhos a meio palmo e o resto do corpo aninhado ao meu dirá à voz doce saindo da vigília:




acorda, o mundo é grande.



2.11.09

Todos os Lugares


Eu não escrevo mais aqui — escrevo em qualquer lugar. Blocos de nota e de rua. Chats. Bancos estáticos e de ônibus. Paredes de banheiros. Quadros brancos. Moleskines. Fichas. Listas de frequência. Guardanapos. Torpedos. Calçadas enquanto espero. Livro de ponto. Cadernos de aulas. Recados para mim mesmo observando com sono a porta da geladeira e achando ter sido aquilo obra de um fantasma. Formulários de inscrição. Papel prateado do maço de cigarros antes de transformá-lo numa pequena esfera e comparar a beleza das coisas. Na palma da minha mão direita. Em pernas femininas adormecidas em um sono inverso. Em seios adormecidos (neles retendo-me aos símbolos). Cadernos de amigos inaptos a uma carta romântica ou tímidos para uma carta pornográfica. Carbono para a videolocadora (e quando vi meu canhoto em branco tive medo). Boletins escolares. Telefone. Bilhetes escusos depositados numa pequena parte solta do rodapé para serem encontrados depois e além da resposta terem neles inclusos fotografias 3 x 4 de partes mínimas e crucias do corpo. Pequenas letras mutantes formadas com os cabelos da nuca repousando sob meu colo. Ponta das unhas escrevendo de forma simultânea na parte interna das tuas pernas para que não me esqueças — oh musa ensejante que se oferece à ponta de meus dedos trêmulos finos e medíocres mas com insistência apaixonada em tê-la aqui leve aguda e gratuita no peito confundindo-se com tristeza e paixão para que me sujes com tua tinta invisível de perfume ocluso espalhando-se sobre o papel inaugurando páginas escondendo-se sob minhas unhas aninhando-se sobre minha clavícula forçando carinhosamente meus braços mãos e dedos de amante exigindo amor num dia quente moroso e invisível no qual a cama torna-se movediça e os lençóis, pedra.



Conselho N° 10


Go for walks. Dance. Pull weeds. Do the dishes. Write about it.


Continuo o esforço com as caminhadas. Tanto as necessárias quanto as desnecessárias são úteis. As mais longas são as que vez ou outra faço do trabalho até em casa. Quase uma hora completa. E na melhor hora, início da noite. Preciso cruzar bairros e caminhar por ladeiras inteiras com músicas nos ouvidos até chegar a um planalto de quinze minutos para então experimentar uma inclinação quase imperceptível além da diminuição do esforço dos músculos guiando-me até minha porta. É um grande exercício de persistência, esse de não poupar tempo; pelo contrário: gostar de vê-lo passar em maior quantidade. Uma contrarte à correria que sente orgulho em poupar tempo para logo em seguida desperdiçar as economias não fazendo nada e ainda ficar cansado com isso.

*

Amo a organização. Porém confesso possuir imensa preguiça em limpar as coisas. Talvez pelo fato de ser um trabalho de formiga: Ao contrário das coisas arrumadas que poderão permanecer ali para sempre; no dia seguinte a poeira estará de volta lembrando a ordem irreversível da vida. Mesmo assim as exceções existem. As louças são as minhas. Gosto de lavá-las, enxugá-las, pô-las nas gavetas. Talvez por haver uma linha comum entre a organização e a limpeza: uma vez lá postas, nunca mais serão mexidas; ao menos até o próximo rompante de fome. Além disso, o ato de lavar louças pode ser um belo recipiente subjetivo para amenizar a tristeza ou a fúria: as mãos sendo enxugadas, os dedos engelhados sentido a realidade mais amena.

*

Quando a natureza exagera, puxo o mato da passarela do portão até a calçada. Senão a coisa se agarra às pernas, tenta me fazer não sair de casa e, quando desvencilhado a muito custo, saio pontuado por carrapichos e pequenos pedaços de matos nos cadarços. Por vezes existem perfumes remanescentes e as formigas sendo despejadas os gravam nas narinas ou antenas, não sei; e quando tu caminhas descalça elas te reconhecem e se afastam respeitosamente. Mesmo assim não impedem o mato e as folhas crescendo em silencio furioso: é preciso chamar um profissional desbastador de plantas. Puxar o mato: não sei ao certo se o sujeito servil, quase totalmente calado, possui tal hábito escuso por ser ilegal. Talvez sim. Talvez misture o mato a pó de cereja e pimenta e observe, de sua varanda mínima com sua única cadeira de macarrão solto, a natureza que combate para tirar sustento revelar subitamente um novo significado e cor.

*

Cheguei ao lugar logo após os primeiros minutos do dia das bruxas. Um galpão com pretensas réplicas de peixes-espadas e seus primos distantes fixados nas paredes. Sente-se certa culpa em julgar certo tipo de música como sendo de mal gosto quando percebe-se ser ela executada com certa paixão. Mas era. Dane-se: Era uma merda de música cafona e datada oscilando do deprimente ao ridículo sendo seguida por dançarinos exagerados a ponto de mostrarem as axilas. Mesmo assim dançamos. Mesmo eu sem um tostão no bolso e tendo que pedir cervejinha por cervejinha dos caras na cabeceira da mesa que ao final de tudo dividiriam a conta desigualmente. E a garçonete recolhendo meu copo depois de cada ida minha ao banheiro e, como consequência somatório, causar minirridículos espasmos de fúria por não poder controlar o tempo. Meu e dos outros. Um direito ao qual me reservo, mesmo sem saber dançar.


A Que Não Sabemos ao Certo


"Salvo alguns casos, como os daqueles citados moribundos de olhar penetrante que a enxergaram ao pé da cama com o aspecto clássico de um fantasma envolto em panos brancos ou, como a proust parece ter sucedido, na figura de uma mulher gorda vestida de preto, a morte é discreta, prefere que não se dê pela sua presença, especialmente se as circunstâncias a obrigam a sair à rua. Em geral crê-se que a morte, sendo, como gostam de afirmar alguns, a cara de uma moeda de que deus, de outro lado, é a cruz, será, como ele, por sua própria natureza, invisível. Não é bem assim. Somos testemunhas fidedignas de que a morte é um esqueleto embrulhado num lençol, mora numa sala fria em companhia de uma velha e ferrugenta gadanha que não responde a perguntas, rodeada de paredes caiadas ao longo das quais se arrumam, entre teias de aranha, umas quantas dúzias de ficheiros com grandes gavetões recheados de verbetes. Compreende-se portanto que a morte não queira aparecer às pessoas naquele preparo, em primeiro lugar por razões de estética pessoal, em segundo lugar para que os infelizes transeuntes não se finem de susto ao darem de frente com aquelas grandes órbitas vazias no virar de uma esquina. Em público, sim, a morte torna-se invisível, mas não em privado, como o puderam comprovar, no momento crítico, o escritor marcel proust e o moribundo de vista penetrante. Já o caso de deus é diferente. Por muito que se esforçasse nunca conseguiria tornar-se visível aos olhos humanos, e não é porque não fosse capaz, uma vez que a ele nada é impossível, é simplesmente porque não saberia que cara pôr para se apresentar aos seres que supõe ter criado, sendo o mais provável que não os reconhecesse, ou então, talvez ainda pior, que não o reconhecessem eles a ele. Há também quem diga que, para nós, é uma grande sorte que deus não queira aparecer-nos por aí, porque o pavor que temos da morte seria como uma brincadeira de crianças ao lado do susto que apanharíamos se tal acontecesse. Enfim, de deus e da morte não se têm contado senão histórias, e esta não é mais que uma delas."


(SARAMAGO, José. As Intermitências da Morte. 2005. São Paulo: Companhia das Letras. Pgs 145-146)



O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...