2.11.09

Conselho N° 10


Go for walks. Dance. Pull weeds. Do the dishes. Write about it.


Continuo o esforço com as caminhadas. Tanto as necessárias quanto as desnecessárias são úteis. As mais longas são as que vez ou outra faço do trabalho até em casa. Quase uma hora completa. E na melhor hora, início da noite. Preciso cruzar bairros e caminhar por ladeiras inteiras com músicas nos ouvidos até chegar a um planalto de quinze minutos para então experimentar uma inclinação quase imperceptível além da diminuição do esforço dos músculos guiando-me até minha porta. É um grande exercício de persistência, esse de não poupar tempo; pelo contrário: gostar de vê-lo passar em maior quantidade. Uma contrarte à correria que sente orgulho em poupar tempo para logo em seguida desperdiçar as economias não fazendo nada e ainda ficar cansado com isso.

*

Amo a organização. Porém confesso possuir imensa preguiça em limpar as coisas. Talvez pelo fato de ser um trabalho de formiga: Ao contrário das coisas arrumadas que poderão permanecer ali para sempre; no dia seguinte a poeira estará de volta lembrando a ordem irreversível da vida. Mesmo assim as exceções existem. As louças são as minhas. Gosto de lavá-las, enxugá-las, pô-las nas gavetas. Talvez por haver uma linha comum entre a organização e a limpeza: uma vez lá postas, nunca mais serão mexidas; ao menos até o próximo rompante de fome. Além disso, o ato de lavar louças pode ser um belo recipiente subjetivo para amenizar a tristeza ou a fúria: as mãos sendo enxugadas, os dedos engelhados sentido a realidade mais amena.

*

Quando a natureza exagera, puxo o mato da passarela do portão até a calçada. Senão a coisa se agarra às pernas, tenta me fazer não sair de casa e, quando desvencilhado a muito custo, saio pontuado por carrapichos e pequenos pedaços de matos nos cadarços. Por vezes existem perfumes remanescentes e as formigas sendo despejadas os gravam nas narinas ou antenas, não sei; e quando tu caminhas descalça elas te reconhecem e se afastam respeitosamente. Mesmo assim não impedem o mato e as folhas crescendo em silencio furioso: é preciso chamar um profissional desbastador de plantas. Puxar o mato: não sei ao certo se o sujeito servil, quase totalmente calado, possui tal hábito escuso por ser ilegal. Talvez sim. Talvez misture o mato a pó de cereja e pimenta e observe, de sua varanda mínima com sua única cadeira de macarrão solto, a natureza que combate para tirar sustento revelar subitamente um novo significado e cor.

*

Cheguei ao lugar logo após os primeiros minutos do dia das bruxas. Um galpão com pretensas réplicas de peixes-espadas e seus primos distantes fixados nas paredes. Sente-se certa culpa em julgar certo tipo de música como sendo de mal gosto quando percebe-se ser ela executada com certa paixão. Mas era. Dane-se: Era uma merda de música cafona e datada oscilando do deprimente ao ridículo sendo seguida por dançarinos exagerados a ponto de mostrarem as axilas. Mesmo assim dançamos. Mesmo eu sem um tostão no bolso e tendo que pedir cervejinha por cervejinha dos caras na cabeceira da mesa que ao final de tudo dividiriam a conta desigualmente. E a garçonete recolhendo meu copo depois de cada ida minha ao banheiro e, como consequência somatório, causar minirridículos espasmos de fúria por não poder controlar o tempo. Meu e dos outros. Um direito ao qual me reservo, mesmo sem saber dançar.


1 comentários:

Rebecca Campos disse...

It's amazing the way you describe things that happened to you in a poetic way.

Write a book, J.

I'd buy it.

And don't come with: I'm a writer because there's somone who reads my poems. It's talent, dear.