31.12.09

Trinta e Um


Na infância ouvi a história de que na noite do aniversário o nosso corpo crescia perceptivelmente. Bastava ficar acordado para perceber os ossos, os nervos e os músculos esticando-se como câimbra com a diferença de não mais voltarem ao estado original. Em apenas poucos segundos cresciam-se os centímetros tão aguardados ao longo do ano porque as garotas cresciam antes.



Esta mística de ciclo nos acompanha na vida adulta. Agora não em forma de repuxos físicos ou sensações de queda (outra crença de crescimento); e sim em forma de ponteiros de relógio. Todos aguardam chegar a meia-noite para, novamente, encerrarem um ciclo. Choros. Superstições que arruínam o potencial racional da humanidade.


A representação do ano é uma volta inteira do globo cheio de gente e água salgada girando em volta duma estrela silenciosa e ofuscante. Refletida de alguma forma em nós, feitos de água e luz invisível, razoavelmente racionais. Nariz tocando as partículas de pólvora e lágrimas de felicidade brotando dos olhos.



Dentro da minha perspectiva feita de braços troncos pernas e uma nuance desfocada de nariz, posso afirmar ter sido dois mil e nove um ano de merda. Em mim apenas dois fatos totalmente bons aconteceram: uma graduação e um emprego novo. Todo o restante foi composto por oscilações, mesmo tendo como resultado certos aprendizados duros da vida adulta como o de não confiar totalmente em ninguém, superar decepções, mortes ou quase. Fatos tão cretinos e trágicos que fariam apenas o mais idiota entre os idiotas dizer: "ao menos estamos vivos e com saúde", antes de ser atacado e espancado pela imensa maioria cheia de cicatrizes desse ano, repito, de merda.



Esses aprendizados de tempos de guerra que ninguém quer. Existem outras formas mais sábias e menos empíricas onde eu tranquilamente incluiria meu nome na lista de matrícula. Sábias como a que tive há pouco, lendo um dos três volumes dos diálogos entre Borges e Osvaldo Ferrari:



Ao falar sobre “sonhos e outros diálogos”, mais exatamente sobre um conto de Henry James, os dois comentam sobre a inutilidade da vingança pelo fato de tal criar um vínculo praticamente indissolúvel entre vingador e vítima — Melhor confundi-los entre fatos, dissolvê-los com o passar dos anos onde tais são dissolvidos pela entropia. Osso, plástico, tudo, mais dia menos dia, desaparece e dá lugar a outra coisa. Um presente bem oportuno e comprobatório, esse dos Diálogos.



Faz-se listas. Melhores livros. Discos. Filmes.



Livros. Ajuda a mim mesmo dizer ter sido o melhor texto que li um conto chamado “O Pentágono de Hahn”, escrito por Osman Lins. Hilda Hilst e Júlio Cortázar sempre impressionam; mas esse texto realmente me deixou boquiaberto e com as mãos comichando para escrever ainda mais ao longos de todos os anos seguintes. Escrevi pouco, mas sempre escrevo o que quero na hora que quero, mesmo cheio de “que´s”, e isso é bom. Como poeira que se acumula e não mais sai, as linhas vão preenchendo os cadernos.



E existe aqui. Os leitores invisíveis. Gosto daqui e não sairei daqui a não ser que morra ou esqueça a senha. Sendo que esta segunda situação inclui a primeira. Olhando os arquivos percebo a quantidade de posts menor a cada ano mas não me importo, mesmo se estivessem em regressão aritmética ainda restaria muita coisa a ser salva aqui. Se tivesse que escolher um entre todos os meus endereços virtuais, Gmail incluso, escolheria aqui. Twitter nem chega perto, mas gosto muito do endereço: ágil, arguto, cômodo para quem não sabe escrever e é bom em tiradas. Mas se precisasse escolher, repito, escolheria aqui. Mundo Próprio preto branco cinza com ruídos coloridos.



Discos. Muitas coisas boas. Ouvi horrores o novo do Wilco antes de ter motivos de sobra para escrever um belo texto para o Ruined Music. Tive que dar um descanso para a banda. Não foi culpa deles, é só que. Em meio a revivals de bandas antigas descobri, na última semana do ano, o álbum do Them Crooked Vultures e senti aquela velha e espero, eterna empolgação adolescente de tentar obrigar todos a ouvirem o mesmo. Não tão intensa quanto a que acontece quando toda estrutura temporal se quebra quando ouço o Nirvana Live at Reading no meu incrível lindo e imenso Ipod Classic 160GB e me emociono exatamente da mesma forma quando ouvi em uma fita K7 Lithium pela primeira vez. E naquela época nem falava inglês direito.



Filmes. Assisti bastante coisa mas o que realmente me impressionou foi o novo: Distrito 9 e Atividade Paranormal. A nova ficção científica, cada vez mais sofisticada, e o novo terror, cada vez mais vagabundo e assustador por ser primal. Falando em primal, Cabin Fever, da minha estimada Belladonna, merece uma menção honrosa.



É fácil fazer listas. É simples lembrar ter sido a minha melhor refeição sanduíches de atum compartilhados no meio da noite. Ou o melhor ônibus que peguei ter sido um 123 num sábado nublado onde todos os cinco passageiros liam livros. Ou o melhor café ter sido um expresso duplo com leite da P&C entre a aula das seis e das seis e quarenta. Ou a melhor piada que ouvi ter sido a do meu primo dizendo “Ari, você não tem porra nenhuma!”. Positivas ou negativas, postuladas com sinceridade ou não, elas são fáceis de serem feitas. E acho que é só.



Os tripulantes do barco nunca param e olham para trás: Aquele caminho demarcado por um corte de água momentâneo só percebido pelos passageiros mais bobos ou diletantes. Não param porque estão acostumados ao enjôo brisa e barulho. O rio sempre é o mesmo, o que difere são as nuances, a cidade que mudando ao lado, despontando.



As luzes ao longe. Os contornos da cidade. O cheiro de novo porto. Cheiro de pólvora no céu. Coisas novas a comprar. Alianças e progressos. Apartamentos. Os braços esticando a corda. Atracando o barco. As pernas abandonando as ondas. Experimentando novamente a estase pânica da terra firme.


11.12.09

Ainda


Considero a vida um romance. Seus atos aparentemente banais escondem uma simbologia muitas vezes fugaz à primeira vista. O mais comum é, após a primeira leitura, repensarmos tais atos dentro dum todo narrativo e constatarmos serem eles os componentes de uma história de significado mais profundo e imenso do que os fatos lidos. Eis a mágica.



O Mundo de Sofia. Acredito vários de você terem lido esse livro. É uma novela metalinguística pelo fato de ser uma história de suspense crescente a cada capítulo e ao mesmo tempo brincar com a ignorância do leitor e a passividade da personagem. Mesmo quando a mesma percebe ser uma personagem e não pode fazer nada a respeito pelo fato de não conseguir mudar a ordem da narrativa. Sabe estar sendo observada pelos leitores e mesmo assim não consegue vê-los e deste ponto em diante a novela perde o tom da surpresa e fenesce ao entrar num limbo fantástico guiado pela teoria de Berkeley que diz nada existir realmente e segue até o final sem clímax ou pós-leituras: apenas com a esperança de que Sofia fuja para um mundo onde seja autêntica anônima e autônoma. O livro não deixa de ser uma novela e, mesmo com tal argumento inusitado, todos terminam como personagens e não algo além: avatares.


Os romances são compostos por avatares. Seres aparentemente comuns, cobertos por pele tecidos perfume mas que na verdade são a representação de algo muito maior e transcendente para quem os conseguem ver dentro de tal ordem pensada no intuito duma realização maior.


E você, minha amiga que aprendi a ler ao longo dos anos, é um dos avatares mais significativos entre os tão poucos que conheço. Linda vivaz e independente. De uma beleza precisa seguidora de um código próprio sem que para isso nunca tenha machucado qualquer pessoa. Uma leveza de ponta de dedos ao vento e uma transitoriedade entre diferentes círculos de pessoas amigas a ponto de te tornarem múltipla e vária e exposta porém incógnita como todas as grandes personagens atemporais do romance.


Nego-me a acompanhar uma novela onde certos personagens saem de cena por terem sido esquecidos ou por terem sido vítimas de um autor sem talento. E entre tantos maus autores, esse nosso muitas vezes sem perspicácia a ponto de ser confundido com deuses parciais ou de equilíbrio deixou exposta quão absurda é a sua incompetência narrativa quando a permitiu ser cheia de fatos injustos e extremamente mal ajambrados.


Má literatura encenada, essa nossa novela onde os romances são parênteses de resistência onde você é uma das personagens mais fortes. E você deverá sobrepujar essa desordem tacanha. Esse capricho preguiçoso de fatos grosseiros que te expuseram e te tornaram uma coadjuvante involuntária — Uma Sofia observada por diferentes leitores com diferentes visões e crenças que te dão versões díspares de um futuro grosseiro fantasioso ou simplista.


Você, que por hora não nos vê, deverá ser não um símbolo; e sim uma personagem que nos faz fechar o livro com gosto e a sensação de dever cumprido (apesar duma ou outra tragédia pontuando capítulos ) porque você sobreviverá e tomará para si a ordem de todas as coisas. Recuso-me outra leitura ou explicação de algo tão mal escrito sem evitar o desespero.


Eu que sempre te observei à revelia gostaria de ter tido, naquele único momento e nunca mais em qualquer outro, a possibilidade de reescrever um único fato, uma única cena e te livrar de todo esse teatro de involuntariedade onde você está e não é agora. Sem quaisquer sobrenaturalidades: apenas ter te prendido o braço e ter lido todas essas coisas que escrevi há pouco para nem ao menos pensar em escrevê-las agora.


E então o tempo cego passaria e eu e tantos, mas tantos que te amam e agora te aguardam e se negam a aceitar qualquer outra possibilidade de resignação, pensariam em você e desejariam a sua companhia em todos os finais de semana futuros.



Para Sousie



9.12.09

30



Escrevi linhas e linhas dum texto mórbido e ruim, cheio de rancores de quando tinha vinte e nove anos misturados a boas lembranças, esperanças e um combo de presentes incluindo um Ipod de cento e sessenta gigas.

Ficou estranho e feio. Destoante. Preferi não postar. Você faz trinta anos e não consegue escrever (e talvez amar) direito...


Mas mesmo talvez mal, ainda faço ambos muito melhor do que a imensa maioria.


Abraço.


1.12.09

Hahn


Θ Não posso desviar a atenção daquela imensa e fantástica besta enluarada, até que o homem do olifante se aproxima. Fixo-o como se ele — e não eu — bradasse-me estas ordens: “Enterra os mortos. Escreve não importa como nem o quê. Do passado, senhor que hoje te absorve e te traga as forças do viver, posse conquistada com o sangue de teus dias, faz um servo, não mais uma entidade soberana, um parasita. Sejam as recordações, não renegadas, campo sobre o qual exercerás tua escolha, que virá talvez a recair sobre tuas próprias mortes, sobre elefantes que nunca mais verás, para entregar tudo aos vivos e assim vivificar o que foi pelo Tempo devorado. Atravessa o mundo e suas alegrias, procura o amor, aguça com astúcia a gana de criar.” A música de Verdi, estropiada e áspera, avoluma-se. Serei eu capaz de obedecer aos brados do olifante? Hahn vai mais rápida, agitando as orelhas. Parece-me alada, animal translúcido, quase imaterial, mais alto do que todas as casas, não mais um morto, emblema agora do grande e do impossível, de tudo que é maior do que nós e que, embora acompanhemos algum tempo, raras vezes seguimos para sempre.



(LINS, Osman. Pentágono de Hahn, in Melhores Contos. São Paulo: Global, 2003. Pgs 125-126)



O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...