No sábado pré-carnaval a gama de opções, minha e de Josephinne, se resumia a um possível bar onde haveria uma possível banda seguida de um possível tributo aos White Stripes.
Chegamos cedo e encontramos um primeiro bom indício: o bar existia. E mais, estava aberto. Prova eram os dois porteiros mirrados e um buraco na chapa metálica da fachada emanando a luz fraca da bilheteria. Além de nós, as menos de dez pessoas, todas longe da casa dos 20, aos poucos foram aumentando de volume com a chegada de carros dirigidos por pais preocupados de onde desciam do banco de trás adolescentes recém-liberados para saírem à noite.
Josephinne se sentiu um pouco constrangida ao acender um cigarro, mas isso logo passou porque viu que bem próxima a ela estava uma das adolescentes caseiras (a menor adolescente possível) dando tragadas desajeitadas. A música do bar melhorou, passou do trash-metal para o rockabilly. Entramos.
O bar possui uma estrutura antiga que vez ou outra muda de nome mas sempre continua a mesma bosta. Minha teoria científica é que existe uma cabeça de bode enterrada nalgum lugar. Isso porque sempre existe certo clima soturno e nada ali vinga por muito tempo. Dessa vez, a carcaça da casa estava pior do que nunca: banheiros sem tranca na porta, parapeito anão no mezanino, completa falta de decoração e toda uma lista de irregularidades que fariam qualquer fiscal da prefeitura esfregar as mãos com satisfação punitiva.
Já estamos aqui, Josephinne. Então olhemos para a metade (ou melhor, o ¼) cheio do copo. A primeira banda dissipou um pouco o clima de estranhamento. Boas coveres e músicas próprias com riffs dos anos 90. Sobre uma delas dava para cantar Digging The Grave inteirinha. Mesmo assim foi bom. Terminaram por cima. E fiquei feliz por ver, entre os frequentadores cada vez mais numerosos, um casal jovem usando roupas brancas e vermelhas.
Não existe nada mais irritante numa sequência de shows ao longo da noite do que você achar que vai entrar a banda mais aguardada e, do nada, aparece uma banda nada a ver para tocar antes. E quase sempre o show da banda nada a ver dura uma eternidade; acrescentada aí uma passagem de som que, logo aos primeiros minutos de show, se revela totalmente inútil. Na cronologia mental, o show demora mais que um do Pink Floyd, incluindo aí a execução na íntegra do Dark Side Of The Moon.
Claro que a banda chata não tinha nada disso. Porcos infláveis voando, instrumentos afinados, essas coisas. Eles tocavam umas coveres de bandas recentes; músicas que seriam bem legais de serem ouvidas não fosse os caras terem aprendido a tocá-las na segunda-feira. Uns chiados e desafinação agravados pelo sujeito da mesa de som que olhava para as luzinhas como o Homer fica olhando os botões da usina nuclear de Springfield.
A banda tentou um grand finale em uníssono mas errou o tempo dos acordes. Então tentou um final bagunçado trombando uns nos outros e buscando microfonias, mas também não deu certo. Então saíram, finalmente.
Com a ajuda de um amigo, o casal branco e vermelho arrumou rapidamente a bateria, o teclado, a guitarra e os dois microfones — um na posição normal e outro de costas para o público, de frente para a bateria — assim como Jack e Maggie fazem. Então sem dar boa noite ou qualquer outra desculpa, começam a tocar e têm um início surpreendente.
O garoto tem a voz muito parecida com a do Jack e, apesar de não ter uma Les Paul macia e cheia de truques, consegue executar as bases e os solos integramente. A garota também é uma graça, manda bem no desvirtuosismo e na doçura da Maggie. As músicas são voltadas mais para os primeiros álbuns. Um set bem ensaiado, bluesy, sujo, pensado no que era mais prazeroso para ambos e não no que os outros gostariam de ouvir. Mesmo fazendo uma paródia dos irmãos (?) idiossincráticos originais, o casal discreto e comportado salvou e encerrou a noite.
Voltemos lá pra cima. Ainda fora do bar. Eu conversando com Josephinne. Nossas frases permeadas por cheiros nas têmporas. Falávamos sobre um outro sábado atrás. Nós dois na Funhouse, conversando sobre tudo, cotovelos encostados naquele balcão mínimo, ouvindo um dj saudosista (anos 90 não óbvio) e esticando o braço para alcançarmos uma Bohemia com a atendente estilosa-gata-peitão-meio-Kat-Von-D [/aquiescência de Josephinne].
Esnobamos o lounge e esnobamos a banda legal depois de ouvirmos sua música mais legal porque já estava tarde e ainda havia muito, mas muito a ser feito. Voltamos caminhando até a Consolação e agora só tínhamos isso: esses adolescentes jogando bilhar sob uma luz fluorescente, esses adultos nas sombras, perdidos no vácuo cultural desse bar abandonado assombrado por fantasmas sedentos por diversão decente.
É o que a gente tem em mãos, me diz Josephinne. Eu observo seus tênis mais lindos do que qualquer outro ali, sua camiseta mais linda do que qualquer outra ali e ela toda mais linda que qualquer pessoa no mundo e me regozijo por estarmos naquela juntos. É verdade, eu digo.