As cenas reais também funcionam em freimes, os quais vão ficando gastos com o passar do tempo.
Chego ao mesmo ponto de ônibus. O mesmo de sempre. Escuro. Eu ouvindo música por dentro. Não é mais meu walkman amarelo ou o discman monstro cinzento, mas a trilha é basicamente a mesma. Assim como também é mesma a reação a um anônimo mal educado que chega e pede uma informação como se à minha frente estivesse um balcão e eu estivesse sendo pago por isso.
Eu sei que ela está falando comigo mas a ignoro. Ela para e me observa. Acena em seguida. Desta vez eu a encaro. Pauso a música sob a camisa e meu queixo pergunta o quê. Ela murmura algo sobre T3 e eu encerro com um não antes de voltar a olhar para o horizonte.
Antes disso observo a reação diminuta: as pálpebras inferiores semerguidas — uma reação involuntária em resposta a um comportamento petulante. Seus sobrolhos voltam ao lugar, ela cruza os braços e eu, neste exato momento, sentado no banco cinzento do ponto escuro de ônibus, começo a escrever esses parágrafos sem usar papel. Muito antes de estar aqui, sozinho no apartamento da minha garota, antes de todos chegarem e antes de todos, ela mesma, daqui a vinte minutos.
Acreditem, a coisa mais desconfortável desse apartamento vazio é esse teclado. Duro, induz ao erro. Mas deixa eu voltar à linha de pensamento: entrei no ônibus refrigerado e, ao sentar sem ninguém ao lado, um freime antigo, sobregravado dezenas de vezes misturou ao presente uma sensação fantasma.
Lembrei-me de algumas semanas nas quais eu voltava da Escola Técnica e uma garota sentava ao meu lado e implicávamos durante todo o caminho. Coisas como ela iniciando um diálogo banal do tipo:
Meu sobrinho começou a andar com seis meses de idade.
Sério? E quantos anos ele tem agora?
Quatro anos.
Nossa, ele deve tá longe.
Depois de entender o ardil semântico presente na resposta ela reclamava do meu senso de humor e a coisa ia assim durante todo o percurso.
Lembranças cândidas de uma idade na qual tal comportamento atritante é puro indicador de interesse romântico. Qual o nome da garota? Não sei.
Não tenho a menor noção de quem ela tenha sido apesar da plena certeza dela ter existido. Lembro de algumas frases e de alguns empurrões no ombro mas, realmente, não tenho a menor lembrança de quem fora a garota.
A menor. Altura. Cor de cabelo. Até mesmo perfume. Nada. Mesmo me esforçando durante todo o caminho, passando pelo minimercado e subindo os quinze andares de elevador até chegar aqui com a desconfiança de que, num futuro próximo, todas as figuras irrelevantes do meu passado serão transformas em uma ou outra paráfrase.
Talvez não seja eu o culpado. Talvez a culpada seja Josephinne. Ela mesma, que acabou de entrar no apartamento, sentou em meu colo, leu tudo o que eu escrevera e seguiu para o quarto para terminar de chegar em casa.
Falei a ela sobre a minha suspeita de ela mesma, Josephinne, inalar aos poucos os meus pensamentos durante o sono. Como assim? Simples, eu digo. Você encosta o nariz sobre os meus cabelos e retira da minha mente as lembranças de garotas passadas, deixando apenas ecos de verbos.
Ela não disse nada em defesa: Ergueu-se do meu colo e agora circula entre os cômodos do apartamento.
Sem contar as outras que devo ter esquecido totalmente e não consigo mais incluir sequer num gesto involuntário. Se duvidar até o pensamento mais arraigado, Carla com K, também esteja se refugiando para não ser silenciosamente inalado. Outra história.



