Stella
As pálpebras acordam antes de tudo. Debatem-se. Algo como uma porta tirando o resto do corpo da crisálida do sono. A saída dolorosa para o dia claro e novo. O namorado não está mais em casa. Apenas seus cheiros, vestígios, o café arrumado sobre a mesa.
Crianças pulam pelo corredor do ônibus, brincam salteando cadeiras. Crianças menores se debatem entre os colos das mães. Enquanto desce, crianças entrando pela porta da saída esbarram em seu corpo. Gosta, ama algumas mais próximas. Entretanto morre de medo de ser a porta para uma.
Prende o avental. Existe ali certo cheiro dela mesma. Isso torna o traje um pouco menos alheio. Prende os cabelos com fivelas extra. Serve as mesas. Pousa os pratos fumegantes. Marca o boleto das bebidas: Números óbvios e subsequentes de um bingo que não ganhará nunca. Uma. Duas. Dez. Às vezes confunde as marcas e as mesas. Não se envergonha por isso. As pessoas se parecem.
Nos intervalos, refugia-se na salinha de descanso. Come balas. Acende um cigarro. Observa as apostilas mastigadas pela bolsa entreaberta. Toda semana jura para si própria que começará a estudá-las. Os malditos concursos. Os editais surgidos perto demais para ter dinheiro e confiança na resolução duma prova de todo um domingo. A colega mais velha põe o rosto pela porta entreaberta. Sempre a deixa cinco minutos a mais no descanso. Simpática, representa um futuro incomodamente previsível. Devolve o sorriso, apaga o cigarro e retorna às mesas.
Gilberto
Lê-se nas costas de sua camisa pólo: Posso ajudar? E à frente, mais acima, lê-se no rosto um bandeide cruzando horizontalmente o nariz, protegendo o corte aberto. Uma ferida de quebrado no lábio superior. Um corte numa das maçãs. O olho esquerdo possui vermelhidão de tempestade interna e a olheira roxa de um insone por duas semanas ininterruptas.
O olho direito descansa e observa com fingido descaso os olhares incomodados pela falta de ordinariedade do rosto. As expressões secretamente fascinadas pelas marcas das brigas. Gente que nunca saiu no braço, nunca fez um gol de placa, nunca gozou duas vezes seguidas sem tirar de dentro. Ele fez tudo isso. Algumas mais de uma vez. Mais ganhar uma travessia a nado. Mais ganhar uma competição infanto-juvenil de xadrez. E nem por isso engrenou na vida: Tem que sair no braço com idiotas para enganar os três salários recebidos com o trabalho do dia.
Um bêbado aproximou-se e balançou o seu queixo como se ele fosse criança: Coisinha linda com essa camisa pólo! Os olhos injetados, procurando briga. Ele rebateu a mão desrespeitosa e recebeu como troco um murro no olho esquerdo. Antes de receber outro murro, pulou sobre o bêbado. Esmurrou-lhe duas vezes. Pisou-lhe o pescoço e a barriga. Uma coronhada anônima surgiu por trás e lhe rasgou um pedaço do rosto. Aproveitou o desequilíbrio do golpe e viu o novo sujeito. Idiotas valentões nunca andam sozinhos. Nunca. Deu outro chute, dessa vez no revolver à frente. A valentia do agressor desapareceu de súbito, como se estivesse nu, e sua surpresa continuou quando levou um chute no peito. O outro bêbado, pavimento, já desacordara antes do golpe. Finalmente surgiram os colegas.
Com os cortes recém-nascidos, brotando como plantas, acendeu um cigarro. A música voltou a tocar. Não recebeu nada em troca além da dispensa no outro final de semana. É assim que acontece: A música pára por alguns momentos, uma tragédia acontece, e depois ela volta a tocar como se nada houvesse acontecido.
Dário
No final das contas, tudo se resume a ajudar os outros com dúvidas gramaticais. Todas as linguísticas, todas as literaturas e matérias adjacentes ficam ofuscadas quando se disseca uma oração complexa através daquela maldita árvore estruturalista.
Sempre diz ser a gramática para os estudantes de Letras como a Bíblia para um pastor: indispensável; mas nem pensar em tentar entender, ou pior, seguir tudo o que está ali. Impossível. Ao menos o pastor possui a vantagem de não se preocupar com novíssimas atualizações do seu livro sagrado e não corre o risco de ver o selinho infame “atualizada com a nova ortografia” porque Deus é maior do que tudo isso.
Pior do que os leigos são os contestantes. As pessoas que têm dúvidas e não acreditam na solução que surge. Dia desses foi a namorada duvidando de uma frase, contígua e adversativa, ser iniciada por entretanto. Acredita em mim, pode sim. E qual é a regra que diz isso?: a expressão duvidosa de alguém suspeitando dum blefe; de alguém que não tem certeza do que está falando e tenta salvaguardar o seu diploma magro de licenciatura. Eu não sei qual é a regra. Eu apenas sei.
Não adianta dizer ser a gramática uma repetição formal do que foi dito pelos caras que realmente escreveram de verdade. Os escritores mandam na escrita e quando eles mudam, todos os livros mudam e a gramática precisa mudar também. E com ela toda a formatação das teses futuras dos acadêmicos anônimos que esguicham textos sobre a sombra dos objetos cênicos em contraste com os personagens coadjuvantes das novelas não publicadas de Aluísio Azevedo.
E o entretanto? Revisitando Brás Cubas com o auxílio da tecla F5 encontra uma bela meia-dúzia deles, entre os quais:
O caso dos meus amores andava mais público do que eu podia supor. Entretanto sorri, um sorriso curto, fugitivo e guloso, — palreiro como as pegas de Sintra.
Lígia
O começo da vida adulta é comprovado pela aura de afazeres que afasta as pessoas: Deixou de encontrar as três amigas por quase dois meses. Entretanto existem as confluências e agora estão reunidas, mais o marido de uma. Conversam amenidades porque é o que a falta de convívio permite de imediato.
Pede uma bebida e é acompanhada de forma tímida apenas por duas das amigas. Antes de pedir a primeira garrafa, já ouvira de antemão um neo-discurso de uma delas: sem álcool obnublante, apenas neo-meditação, neo-vegetarianismo e a velha maconha de sempre pelo menos uma vez por semana.
O casal tenta acompanhá-la mas não está muito a fim de beber como bebera antes. O amortecimento manso e saudável do casamento. Os golezinhos curtos e tímidos, como quem acompanha uma dança seguindo apenas os dois mais dois regulamentares. Resta uma, menos mal. Apesar de tudo, conversam. A garçonete marca mais um risco sobre o boleto das cervejas e dá um sorriso amistoso como o de quem gostaria de estar ali com ela, conversando, e não apenas ouvindo pontas.
O clima de amenidade aos poucos e progressivamente rui quando uma delas, a casada, lança o desafio: Você já tentou se divertir sem estar bebendo? Como assim? Assim, sem precisar de cerveja. Ué, claro que posso. Então vou te fazer uma proposta: você passar uma noite agradável, vendo filmes, jogando pôquer amador ou fazendo qualquer atividade lúdica, light, sem que para isso necessite estar virando uma garrafa atrás da outra. E qual o objetivo disso? Qual o objetivo? Provar que você não precisa do vício para se divertir! Provar que uma noite pode ser agradável sem que para isso você necessite do vício para se estragar no dia seguinte!
O colo, até então curvado sobre a mesa, se retrai e se apóia no encosto da cadeira. Tenta falar algo. Acende um cigarro e uma cinza de surpresa cai sobre o peito. Pensa em algo que constrangesse os olhares semelhantes aos dos ex-assassinos agora convertidos à religião evangélica. Ou os de elementos duma intervenção sobre uma amante de doces dentro de uma loja de doces à qual foi convidada por eles para comer doces. Eles a julgam em dúvida. Rejulgam.
Pensa em respostas, argumentos. Eles surgem na cabeça, obnublada porém pensante, arguta. Entretanto tais são pontuados por agressividade. Lembranças nas quais ela era mais sóbria e nem por isso... Impossível não pensar no protagonista de O Inimigo, de Rubem Fonseca. Poderia xingá-las com intimidade, mas constata algo terrível: são estranhas. E tal ato seria absurdo como xingar um estranho na rua ou ocupantes duma mesa na qual sentara por engano.
Outros argumentos da mulher surgem, porém não chegam mais aos ouvidos. A neo-compreensiva a observa com uma débil expressão pacífica. Omisso ao problema que não é dele, o marido continua seus goles curtos e silenciosos. A companheira de copo pousa o objeto, fingindo controle, e também a observa. Silenciosamente exigem uma resposta, um aceito, ou a já tradicional agressividade verbal que comprovaria os efeitos nocivos do álcool.
Prefere guardá-la, pulsante e vermelha, e enfrentar uma dor de estômago no dia seguinte. Entretanto, ainda existe um meio-termo entre a intimidade e a estranheza: olhando de um a um, os manda calar a boca. Assustados, aquiescem. O assunto, todos, morrem.