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O assassino observa as mãos e a si mesmo: se contorce ao redor do próprio dorso de caracol. Uma dor morna de arrependimento. Uma angústia de não saber se a vítima já se tornou vítima realmente: Ela ainda pode estar agonizando num quarto noutro lado da cidade. Pode estar recebendo socorro ou estar sozinha numa rua sentada numa calçada escura, madrugada: um calamar soltando tinta vermelha através das fendas abertas do seu corpo. A mesma tinta que agora tinge as mãos do assassino e não as deixará tão fácil.
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Olha, Cecília. Observa essa tinta vermelha secando sobre o papel. Cecília aproxima-se, os pés com as curvas das falanges perfeitas são tocados e levemente tingidos pela tinta. Ele se ergue e a observa. A mulher branca e o homem de pele escura. Encaram-se. A mulher, de menor estatura, se faz imensa. Mesmo reclinado, o queixo perde a sombra negra quando olha a pintura a seus pés: um coração rubro sendo envolvido e soltando tinta por sobre os tentáculos dum calamar negro. Os dois encaram-se. Pincelam as maçãs uns dos outros. Pincelam os seios. Pincelam o nariz e o pescoço. Abraçam-se ardorosamente e não mais se soltam.
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Por fax, como nos anos 90, recebi o memorando de Carlos: operação durou muito precisa por fim nisso faca amanha sob escrivaninha. Acordamos tarde, eu e a vítima. Fomos ao supermercado. Divertimo-nos fazendo a janta. Ele, que não sabe cozinhar, me observa e me aperta a bunda enquanto luto com as panelas. Em seguida ele vai para a sala, aonde levo os pratos fumegantes. Ele come e a boca entreaberta faz microbarulhos. Isso me irrita muito. Peço a ele que leve os pratos até a cozinha. Dócil, o idiota os leva. Carlos plantou a faca exatamente como dissera no memorando. A vítima retorna. Senta ao computador. Distrai-se. Perdi a conta dos golpes. Deixei o apartamento pela porta de serviço.
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Há quanto tempo não ficava absolutamente sozinho? No quarto, alugado por cinquenta reais a diária, recusara papel e caneta e computador e procurara uma ocupação onde nunca exercera qualquer domínio: a pintura. Comprara tinta negra e vermelha na papelaria no térreo. O lado bom do Centro: apesar de sujo encontra-se de tudo. Antes, deitou-se em posição de concha e purgou mais um pouco: convulsões frias que o fizeram sair momentaneamente do corpo. Ergueu-se e foi até o espelho do banheiro. Voltou aturdido: vira no espelho outro homem. Sentou-se em posição de lótus malfeita. “O Calamar Opta Por Sua Tinta” — Lembra do conto de ABC e começa a dar forma a primeira pintura depois de décadas entre a dor e a infância. Calamar: o outro nome do polvo aos poucos sumindo até mesmo dos dicionários.
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O grande problema é quando o assassino apega-se à vítima. Percebe ser ela não apenas um dorso ou alguém que quase nunca comete erros de concordância — Não apenas é carinhosa; mas tem um pau que é bom de pegar e um pescoço que a induz ao transe e a domina e a faz temer pela morte e ignorar tal fato pelo enlace trazer ao seu corpo de assassino um sentido que nunca antes reconhecera em si mesma. Deitam-se. Gozam um no outro. Ela demora um pouco mais no banheiro. Nesse período fizera um ato desconhecido pela vítima e por todos exceto a nós que lemos esta história: pára no meio da sala e lembra dos memorandos que recebera ao longo de todo aquele tempo. Lembra por que está ali e da ameaça do ultimo memorando impresso em tinta vermelha: nao se apegue voce e minha e recebera em breve a ordem de terminar com essa farsa ass: carlos.
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A questão, Cecília, é que preciso ficar um pouco sozinho. Preciso recomeçar algo meu nalgum quarto anônimo. Chegamos ao nível da realidade travar os nós das minhas falanges. Tenho que ir agora. Ela com o corpo branco todo pontuado por sombras, enrolada como um caracol sobre a cama, achou que dessa vez eu nunca mais voltaria. Mas Cecília, quem além de você conhece o que é um calamar dentro de todo esse perímetro urbano? Quem além de você conhece os meus símbolos? Quem conhece tão absurda e obscenamente o meu corpo a ponto de deixá-lo todo manchado por tuas cicatrizes escusas que jamais sairão mesmo após tomados todos os banhos longos possíveis? Quem senão você conhece meus sinais mais ínitimos? Teu cheiro sobre as outras indefinidamente. Eu marcado. Saí e ela não disse palavra.
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O primeiro contato do assassino com a vítima precisa ser pontuado por sedução e cuidado. É um homem franzino junto ao balcão. Já meio alto pela passagem da noite. Sem tocá-lo, o assassino entabula uma conversa. Conhece seu ponto fraco: livros e mulheres. É e conhece ambos. A morte será simples: É uma mulher linda, conhece os livros fundamentais. Flertam. À primeira umidade e/ou pau duro os livros e qualquer outro assunto porventura são imediatamente relegados a último plano. Sabe, o assassino diz, preciso te dizer uma coisa. Diz, diz a vítima. Tô morrendo de vontade de te dar um beijo. E por que não dá? O mais irônico dentre os casos de assassinato urdido e planejado por meio de envolvimento é que as vítimas sempre dão o primeiro passo. Quando se enlaçam, em público, o assassino fica momentaneamente preocupado com os memorandos dobrados dentro do bolso. Nenhum deles mencionara a intensidade do beijo da vítima. Nem os braços de calamar que ela desenvolveria ao longo do amasso. Mesmo assim, o ardil tem início.
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Os corpos e tudo o mais que existe é composto por água sal terra e poeira de estrelas. Gostou de Cecília por causa da pele branca. Não que gostasse de pele branca — e sim porque sempre gostara da cor branca. E havia o fator de desequilíbrio: o verde dos olhos composto em sua totalidade pela matéria estelar de milhões de anos antes. Na primeira volta à superfície após o escuro de cheiro quase âmbar que permeia o transe do enlace, surgem as primeiras curiosidades práticas. O que você faz?, Cecília pergunta. Escrevo, trabalho para o Exército. E você? Escrevo memorandos. Isso parece ser tão simples quanto trabalhar para o Exército; tirando a parte do Exército. Não é tão simples quanto parece, ela diz. Bebem mais um pouco. Sabe, Cecília, preciso segurar tua mão por um longo tempo. Um daqueles eternos, eu diria; e a nossa eternidade não dura muito. Observam as mãos e a si mesmos. Observam os dorsos. Os porta-copo vermelhos sobre a mesa estão derretidos e, sem que ambos houvessem percebido, tiveram as suas mãos tingidas. Dão-nas pela primeira vez e, sem se darem conta, imitam um enlace de calamares.