29.12.10

Prateleiras


Ontem passei bem mais de uma hora na Saraiva bem disposto a comprar um livro e não consegui. Havia, claro, dezenas de títulos interessantes, mas faltou aquela vontade inconsequente de ignorar preços por saber ser compensador o prazer que poderia vir depois. Perscrutei pacientemente as prateleiras de temas afins, verifiquei preços protocolarmente, fui e voltei e absolutamente nenhum título surgiu com a urgência de 2666 alguns meses antes.


Depois de um tempo andando pela livraria percebi vários títulos repetirem-se em diversas prateleiras e várias prateleiras repetirem-se: autoajuda e esoterismo. Detesto esses temas e não respeito quem lê bobagens impalpáveis e implausíveis fruto de má criação ficcional querendo se travestir de realidade e ainda tentar transmitir sapiência. Contudo vivemos em um país democrático movido pela grana e seria burrice não comercializar livros para gente burra. De qualquer forma, ver um título do Baudrillard e duas prateleiras depois um do Augusto Cury, me fez pensar que para tais títulos – autoajuda e esoterismo – deveria ser criado um espaço semelhante ao espaço criança, decorado de forma a tornar o público-alvo mais confortável. Seria algo como um espaço para errepegistas que se tornaram dementes após terem exagerado na dose de imersão na fantasia.

Mais de uma hora, como disse. Cansei-me. Não era uma tarde para livros novos. Liguei para a minha garota. Localizamo-nos. Divertimo-nos mais comprando roupas.



22.12.10

O Bem e o Mal. Bernardo e Nestor: O Fiel e a Pedra


"A Parte dos Crimes", de 2666, terminou sem solução e causou-me frustração por ter reproduzido exatamente a falta de explicação para as atrocidades do mundo. Não houve vilão ou vilões além do silêncio covarde e atávico sob o qual se esconde a maldade.

Entre esta e a última parte de 2666, "A Parte de Archimboldi", terminei a leitura de O Fiel e a Pedra, de Osman Lins. Romance também ambientado em uma terra erma e com a presença do mal permeando as coisas e tentando corromper a quem ofereça resistência.

A resistência se chama Bernardo. Um homem que passa dificuldades porque pediu exoneração de um cargo público por estar cercado de corruptos e, ao mudar-se de cidade se recusou a ser laranja de Miguel Benício, um amigo moribundo que no afã de se livrar da partilha de bens com a esposa adultera, ofereceu o trato antiético a Bernardo e, com a consequente recusa deste, passou os bens ao irmão, Nestor. Pouco tempo depois, Miguel morre em circunstâncias misteriosas.

Após a morte do irmão, Nestor Benício tenta aproximar-se de Bernardo de todas as formas possíveis para concretizar o desejo de fazê-lo uma espécie de gerente dos negócios herdados do irmão. O problema é que Bernardo não gosta de Nestor, não apenas devido ao seu caráter duvidoso, como também por desconfiar ter sido ele o executor do irmão.

A cada tentativa de aproximação, e consequente recusa, Nestor torna-se cada vez mais irascível com a reticência de Bernardo. A antipatia inicial se transforma em ódio e os lados - o bem e o mal - possuem em Bernardo e Nestor os seus avatares. Não tarda para os embates de idéias e diálogos secos tomarem cada vez mais corpo e marcarem os seus lados (Nestor cercado de asseclas e Bernardo cada vez mais sozinho) e encaminharem-se para o conflito físico: o clímax preso nas poucas últimas páginas presas entre o indicador e o polegar.

Fosse uma história simples e maniqueísta de bem versus mal, seria simples inferir que Bernardo, o fiel que valida a balança, vencerá Nestor, a pedra de moinho que destrói de forma cega. Mas, lembremos, este é quase sempre um mundo injusto onde, mesmo frente à vitória, algo sempre fica pelo caminho.

17.12.10

Sinédoque


Corre as mãos pela extensão do tórax branquíssimo crispado pelo toque insinuando suas incontáveis costelas a ponto de quase serem exoesqueleto. Repousa à altura direita do ventre onde existe uma cicatriz curta e fina como um fiapo rosado.


De onde veio essa cicatriz?


A mulher responder ter tido o seu apêndice extirpado devido a uma dor intensa que poderia tê-la levado à morte.


É aquela parte do corpo que não faz diferença se você tem ou não?


Dizem. No meu caso fez bastante diferença. Antes, quando possuía o apêndice, conseguia guardar meus segredos em meio a caroços de frutas e areias minúsculas que engolira ao longo dos anos. Eles, os segredos, se mantinham ali, divertindo-se como uma criança em uma piscina de bolas. Todos foram embora com a cirurgia e agora se tornou impossível manter qualquer segredo escondido e incólume.


E o que você faz para tentar refrear essa impossibilidade?

Bebo iogurte.



15.12.10

Chino


These are my favourite Deftones´s song titles:


Pink Cellphone

Cherry Waves

Digital Bath

Pink Maggit

When Girls Telephone Boys

RX Queen

Sextape


I like whimsically sexy things.


14.12.10

O Bem e o Mal. Os Romances Genias, Densos e Árduos: 2666


Há tempos não tenho mais aquela sensação de urgência em comprar um livro. Provavelmente pela proximidade que tenho a um imenso número deles depois da abertura de uma Saraiva Megastore no shopping mais recente. Antes, quando viajava, fitava religiosamente as prateleiras e voltava para casa com a mochila transformada em casco de tartaruga, maciça de tantos livros. Agora eles estão à mão e não é preciso assim tanta urgência para tê-los. Aquele traço característico da raça humana que faz até mesmo os fotógrafos da Playboy habituarem-se às paisagens.

Mas exceções existem, sempre. A única deste ano foi 2666, o último romance de Roberto Bolaño antes de morrer com insuficiência hepática (não, não foi cirrose). Um calhamaço de mais do 800 páginas que correspondem ao encadeamento de cinco romances que podem ser lidos de forma independente ou, para o leitor mais inteligente e compenetrado (o meu caso), ser encarado como um todo.

E o todo, cara e leitora leitora, é algo absurdamente bem urdido que me faz pensar ter sido Bolaño não apenas um baixinho chileno fumante; e sim toda uma equipe de escritores latino-americanos com representantes do México até a Argentina produzindo uma narrativa que cobre todo o Ocidente, partindo dos círculos intelectuais europeus, passado pelos Estados Unidos até chegar ao México, mais precisamente a cidade de Santa Helena: um inferno onde mais de duas centenas de mulheres são mortas sem rastro de quem seja(m) o(s) assassino(s).

Até agora, página 587, aonde cheguei, não tenho idéia de como terminará a trama. E o que assusta, além de toda a barbárie com a qual os assassinatos são descritos (depois do quinto passei a saltar as descrições), é que o sobrenatural começa a se esgueirar pelas frestas. Não da forma tradicional, mágica ou fantástica, estudada e sumarizada pelos críticos e leitores; e sim como algo possível frente a tamanha misoginia perversa que vez ou outra entra no satânico. Em 2666, não é o fantástico que ameaça o real, e sim o real que se impõe com crueldade tamanha a ponto de criar o fantástico.

Tal esgueiramento do sobrenatural pode ser ilustrado, quando Hans, um imigrante alemão é preso como suspeito da morte de uma das inúmeras vítimas e, em uma crise de pânico causada pelo cárcere, diz estar à espera do gigante banhado de sangue que o virá libertar e matar a todos. Talvez o mesmo gigante que antes profanara as igrejas da cidade iconoclastizando-as e cobrindo-as em toda a sua extensão com uma mesma urina impossível de ter sido contida numa bexiga humana. Talvez o mesmo gigante que pode ser a personificação do mal entranhado em toda a cidade e que faz com que todos os homens sejam instrumentos de uma perversão escusa e coletiva que remonta às civilizações antigas.

São apenas teorias. Ainda não terminei o livro e esta parte - a dos crimes - ainda é penúltima. Mas terminarei. Preciso terminar. E esta urgência de saber, de percorrer as páginas com cuidado para não perder qualquer detalhe, é o esteio que caracteriza os clássicos.


12.12.10

Poison


[Jake is vomiting in the bathroom toilet]


Charlie: You know, your body's sending you a message.

Jake: Yeah, it's sayin' I should really chew my food more. Look at that shrimp -- you could wash it off and serve it again.

Charlie: Your body is also telling you that alcohol is poison.

Jake: If it's poison, why do you drink it?

Charlie: Because there are things inside of me I need to kill.

Jake: You can't kill bad feelings with alcohol, Uncle Charlie.

Charlie: Right.

Jake: And you can't stuff your emotions with cupcakes. Believe me, I've tried.

Charlie: I'm sure you have.


11.12.10

Trinta e Um realmente


A mecânica do aniversário possui o moto de um dia durante o qual se pensa o anuário da vida. Depois a vinda continua, aprendendo-se. Li o post do ano passado e descobri ter esquecido praticamente tudo o que escrevera, cabendo também um equívoco, o título, trinta e um. Como assim trinta e um? Fiz trinta e um esse ano e àquela época cometi o ato falho de me considerar um ano mais velho, mesmo sendo os trinta anos algo assim tão emblemáticos. Desta vez fiz trinta e um anos verdadeiramente.


Depois desse primeiro parágrafo, parei para reler um caderno antigo sobre o qual nunca mais escrevi até reencontrar algo que escrevera dez anos antes:



Tive o melhor aniversário dos meus vinte e um anos de vida. Encontrei um colega um shopping, discorríamos sobre a natureza das coisas enquanto tomávamos milk-shakes em copos de 500ml. Fomos a um festival apenas porque ele serviria como ponto fixo para encontrarmos outros colegas e constatar quão patética é essa cena pseudorock manauara. Havia muitas skatistas de um metro e sessenta. “Não me sentiria muito bem ao tentar fazer sexo com elas: tirar as meias esportivas, os tênis e os shorts que elas usam me faria parecer um pederasta involuntário, apesar de o skate ser um belo acessório para o sexo na horizontal”. Encontramos duas conhecidas na saída, ensaiamos um jogral da mentira e seguimos em frente. Fizemos uma pequena pesquisa de mercado, após algum tempo ela me tomou pela mão. Havia azulejos xadrez e espelhos, havia uma base vermelha luminosa. Ela não sabia o quanto era importante, mas pude perceber uma pequena distorção no descaso. Havia o mesmo frio, mas o profissionalismo fez com que tudo ficasse mais agradável, penumbra, coisas que eu só havia visto em filmes. Nunca desci de um táxi com tanta segurança e me sentindo tão bem. Não pediram que eu apresentasse a carteira, não sei se porque me reconheceram ou porque a segurança e o recém-aniversário faziam-me parecer mais velho. A caixa deu um sorriso agradável. Fato antológico, digno de nota: havia uma garota de cabelos vermelhos, branca, batom vermelho-sangue. Ouvi uma voz “depois quero falar com você”. Não, não podia ser ela. Passei novamente. Ela sorriu, um cara menos tímido que o normal falou “você não sabe quão divino é para mim estar falando com uma garota linda de cabelos vermelhos” (ela não leu esse caderno). Ela tocou os cabelos e sorriu, “depois quero falar com você”. Ela não especificou esse depois e desapareceu. Tudo bem, foi o suficiente para tornar tudo mais divertido ainda. Encontramos as duas garotas novamente, demos um sorriso bobo e ensaiamos um novo jogral, dessa vez mais alto. Vou gravar uma fita só para fazê-la ter dúvidas, uma espécie de retribuição saudável de insegurança. Existem muitas pessoas legais: um cara que gosta de brigar, toca heavy melódico mas é estranhamente legal, um cara que me parabenizou e emborcou um copo de chope garganta adentro (“hoje começa o processo de autodestruição”), o cara que toca contrabaixo e tentou duas vezes algo com outra garota de cabelos vermelhos (“cara, a gente tem que tocar Weezer!”). Todos voltaram em um carro que possuía menor quantidade de álcool que o total dos ocupantes. The driver pissed in front of the British and American. Cheers!



Há dez anos eu escrevi a coisa acima, empregando mal os sinais de pontuação e a coisa toda. E pouco me lembro do que houve efetivamente. Não lembro exatamente dos nomes e nem dos amigos ou das garotas que interagiram conosco. Em dez anos se esquece de muita coisa, quando não quase tudo. Esse caderno antigo por vezes me constrange porque o passado é, em sua maior porcentagem, constrangedor. Mas lembro de ter me divertido.


Internamente, além da dissolução da memória, nem tanta coisa mudou.
Apesar dos anos estarem passando rápido, várias partes de comportamento se mantêm. Como cunhar frases rodrigueanas taxativas do tipo “nenhuma mulher que tinge os cabelos é confiável”, ou parar de falar com pessoas que não se fizeram mais valer a pena. Lembro de estar certa vez na casa de uma ex-namorada e a mãe dela, uma filósofa inteligentíssima, dizer: “eu acho lindo esse retardamento que vocês têm”, sem nenhum sentido detratório; e sim expressando o fato de que os anos sobre mim pareciam não passar tão rápidos. Eu não inferi isso, ela mesma explicou. Ser chamado de retardado requer explicações imediatas. Eu realmente não lembro mais exatamente do rosto da ex-namorada — Apenas lembro ter ela pernas brancas e grossas.

E é o que acontece, essa coisa Scott Pilgrim do tempo que passa devagar e se dobra em portas dimensionais que às vezes parecem te levar para o mesmo lugar. No dia anterior, eu fora à casa do meu pai e tive um delicioso almoço espontâneo. E depois encontrei alunos no shopping para ficarmos um pouco mais entre nós após o término do curso porque, de certa forma, nos admirávamos e quiséramos protelar o fim do curso por mais algumas horas. O retardamento do presente. E eu não estou contra o mundo. Nunca estive. O mundo é tudo o que tenho. Não penso em pré ou em pós vida. Penso nos pés e no chão que oferece resistência. A palavra retardamento, assim como outras primordialmente negativas, quando bem utilizadas, podem ser palavras bonitas. Kurt sabia como fazer isso e Nirvana continua sendo a minha banda preferida.

No dia do meu aniversário tive um dia de trabalho normal pontuado pela última etapa de uma série de testes de Cambridge que tiveram início no domingo último. No trabalho tive um bolo e a minha coordenadora disse que não ligava se eu gostava de bolo ou não; apenas queria que eu soubesse que as pessoas gostavam de mim. Antes do teste, fiquei inexplicavelmente nervosíssimo. Após o teste, só queria abstrair e diluir a adrenalina. Alguns amigos fizeram questão de passar algumas horas conversando e por vezes celebrando simplesmente porque queriam estar ali mesmo tendo compromissos cedo no dia seguinte. Isso das pessoas fazerem questão de você faz um bem danado. A família do pai fazer questão de oferecer um almoço um dia antes e de dar presentes. As pessoas do trabalho fazendo questão de dividir um bolo porque não querem deixar a sua efeméride particular passar em branco. Até mesmo o protocolo da garçonete da cachaçaria oferecendo como presente uma pequena garrafa de cachaça tendo impressa a frase “Feliz aniversário! Para nós você é muito especial” tem lá o seu efeito.

Não sou exatamente fácil. Possivelmente nunca serei. E tenho concluído após após após ser a nossa existência pontuada por momentos de esquecimento e importância. Algumas semanas antes do meu aniversário fiquei realmente doente e preocupado por ter sido algo não diagnosticável. Um mal que fazia doer o lado direito do meu tórax. Fiquei preocupado em ser algo mais grave. Acho que não foi e não voltará e o hospital que faz você se sentir ninguém só piora as coisas e faz você nunca querer voltar lá novamente. Esses caras que aparecem no jornal com mortes absurdas e tantos outros com mortes súbitas me fizeram sentir certo medo em ter algo grave e feio aqui dentro. Passou, e ninguém realmente se importou enquanto durou o mal porque a vida dos outros sempre corre paralela e ninguém pode parar e se preocupar de forma efetiva porque o interior do tórax de alguém dói. A dor dos outros sempre soa menor. A minha mãe não conta.

Hoje, depois do dia do aniversário. Estive em duas confraternizações. A primeira foi novamente do trabalho, em um rodízio de pizzas. A segunda, logo em seguida, foi o aniversário de uma colega de trabalho. Fomos em um lugar onde se serve comida japonesa e chope. Estava só. A minha namorada não foi nem a essa nem à reunião na cachaçaria com os amigos por estar envolvida em devaneios racionais e irracionais. Algo como um projeto gigante de mestrado misturado com flertes escusos e frustrações secretas que ela acha que eu não percebo. É o mundo dela e quem sou eu para interferir. Eu pergunto, ela não responde, então não posso fazer nada a respeito. Mesmo pontuado por frases isoladas e pungentes como “quer que eu te leve?” (ao hospital) ou “eu preciso ir?” (ao casamento de uma prima minha de infância), as demonstrações de amor permanecem superiores. Mas no todo não mais me importo com esses pequenos drawbacks. Não por tentar seguir o evangelho de Mersault ou maquiar a irritação em descaso: eu simplesmente não me importo mais. Escrever que não se importa por si só carrega um importar e isso seria irônico e quase paradoxal, não fosse preciso verbalizar para o pensamento existir porque de outra forma ninguém saberia que você não se importa. Não me importar com certas coisas foi algo que veio com a idade.

No lugar do sushi havia uma mulher absurdamente linda e destoante maquiada criteriosamente como uma atriz dos anos vinte. Os cabelos presos por fivelas, as sombras ao redor dos olhos. Entre um intervalo de conversas eu olhei para ela e fui encarado fixamente até desviar o olhar. Sem constrangimento, desistência apenas. Pensei que se estivesse sozinho não faria muita diferença. Eu não gosto de filmes antigos e reconheço ser isso parte de uma ignorância cultural. Eu não teria o que falar. Não tentaria ter contato com uma mulher simplesmente porque a achei bonita. Não levantaria, não pegaria um número de telefone para tentar algo novo porque depois de certo tempo o novo passa a cansar por sabermos ser somente algo travestido de futuro. Talvez esse tenha sido o momento durante todos esses eventos onde realmente me senti sozinho.

Isso de falar que se sente sozinho é de uma redundância absurda. Se sentir sozinho é simplesmente ter uma consciência mais clara de mundo. Somos nós e nós mesmos nos relacionando com os outros. Não há drama nisso. E os outros precisam de nós porque gostam de nós e nós precisamos deles porque gostamos deles. As pessoas gostam das outras. Eles estão e eu estou porque a empatia sempre continuará existindo das maneiras mais improváveis.


Agora estou em casa.


7.12.10

Electra Made Me Blind


These are my favourite lines amongst all Everclear songs:


July, she lied
July, she lied
July, she lied
July, she lied
July, she lied
July, she lied
July, she lied
July, she lied
July, she lied
July, she lied
July!
July!
July!


(The last three lines are sung like Kurt used to sing, or scream)



2.12.10

Apontamentos


Entre os meus não talentos

explícitos

apontados

pela minha namorada

estão os de:

Não saber acender

um palito de fósforo.

Não saber bater

uma cinza de cigarro.

(Estes dois últimos contra o vento)

Não perceber a ponta

do tapete quando desdobrado

pelo meu pé.

Não saber fotografar.

E não saber dançar

ao menos

intuitivamente.


1.12.10

As sombras. O lilás.


Perseguem-no as meias com rasgos planejados permeados por pernas branquíssimas guiando bustos sugeridos além do normal e sobre ele rostos pontuados por olhos borrados por sombra. Dos anos de adolescência – e aí já vão séculos – quase nada mais o comove além de Nirvana e de garotas de cabelos coloridos como que se tivessem saído de uma revistas e destoando de todo o conjunto habitacional feio e sem graça da cidade de calçadas quebradas.

Você já percebeu como nenhuma calçada dessa cidade é harmoniosa? É algo que me incomoda bastante. As que são planas, ou são lisas, ou estão totalmente desniveladas em relação à próxima calçada, ou seja, nós temos sempre que andar desconfiando do chão para não topar ou levar uma queda.

É um teste consequência da queda. A garota o observa com o queixo sobreerguido. Ela tem os cabelos pintados de cor ímpar. A cor você imagina.

É verdade, ela diz. Estende a mão. Entre as unhas coloridas predomina o lilás. Cumprimentam-se. Trocam nomes. (Imagina os nomes, não sou bom com nomes de personagens) Até hoje eu não tinha ligado tanto assim para as calçadas, é um lance meio neurótico, sei lá, mas faz sentido, diz, já dei umas topadas mesmo.

Existe algo de ainda mais digno em uma garota absurdamente bonita que anda sozinha de ônibus. Sei lá, isso a torna ainda mais bravia do que as que se escondem no banco de trás do carro dos pais.

Outro fato não tão agradável sobre as garotas absurdamente bonitas que andam de ônibus é o de que elas sempre, sempre, descem antes. Ao menos trocaram emails.


26.11.10

Um Mês


Após o término do culto me aproximo da garota. Ela conversa com o grupo de jovens aspirantes a pastor. Quando me encara, sua expressão muda por saber de alguma maneira eu estar ali por intermédio do seu pai.

Posso falar com você um minuto, pergunto. Se for algo relativo ao meu pai Seu pai está morrendo, interrompo. Como assim, morrendo, a expressão sobre um abalo leve. Aneurisma, descobriu ontem à tarde. E quem é você. Eu sou um amigo do trabalho. Tomei a liberdade de vir aqui, mesmo contrariando a vontade de seu pai. Meu Deus, meu Deus, a garota senta-se em uma das cadeiras de plástico branco. Justo o meu pai. Sento ao seu lado. Ele tem pouco mais de um mês, complemento. Você pode ficar aqui e rezar por ele, ou pode rezar ao seu lado. Eu preciso falar com o pastor, ela diz. Ainda não sei se devo por tudo a perder, a formação, digo. Eu tenho um missão sobre a terra, não posso simplesmente abandonar o processo de unção do meu espírito.

A decisão é sua. Além dele, da sua mãe e de mim, você é a única a saber disso. Não sei se Deus aprovaria alguém abandonar o pai mesmo sabendo estar ele nos últimos dias de vida. Preciso ir.


Em princípio, o cliente se revolta com a mentira. Precisava inventar algo tão terrível? Que diferença isso faz, pergunto. Apesar de grave, foi uma mentira curta – ao contrário daquela rede que está pouco a pouco lavando o seu cérebro. Aquilo sim pode causar um dano irreparável. Apenas troquei uma mentira por outra.

Você acha que ela volta, o pai pergunta. A mãe dela continua inconsolável. Volta, com certeza ela volta. E você e sua esposa terão que mentir para ela até que ela se desvie daquele centro de desexcelência. Se você pensar bem, não farão nada além de acreditar em uma mentira mais palpável, ao contrário da mentira com a qual vocês se acostumaram e que perdeu o controle e tragou a sua filha. Ela chegou ao desespero, precisou acreditar em algo, precisou inventar algo para justificar os seus dias.

Não fale assim de Deus, isso não admito, disse o cliente. Não estou falando de Deus, estou falando de vocês e das mentiras que precisam inventar para tentar compreender algo além da compreensão. Músicas, gente pulando em transe. Vocês são os culpados. Vocês inventaram o delírio. Mes isso não é problema meu. Descontei o seu cheque. Obrigado. Agora preciso ir.

No dia seguinte, às nove da manhã, a garota bateu à porta e foi recebida de forma efusiva, como se tivesse retornado de uma viagem forçada. Os pais haviam reensaiado a mentira mais de um par de vezes.


24.11.10

Ernesto


Ando meio cansado dessa coisa toda. Desse bairro, dessa cidade. As calçadas falhas, cheias de quebras e desníveis e os rostos do mesmo jeito. É um problema, isso de ficar cansado das coisas porque elas jamais mudarão. Sempre serão as mesmas e, invariavelmente, sempre serão observadas e sentidas das mesmas formas porque os olhos sempre serão os mesmos. É preciso descansar, então.


Ernesto, um primo. Cansava-se de tudo, da cidade, das pessoas. Mudou de vida e de cidade inúmeras vezes e com as vezes as mulheres. Certo dia ficou realmente cansado de tudo e foi para o mar trabalhar de imediato. Cansou-se do mar também, cansou-se da vida. Resolveu pular e encerrar o ciclo de cansaços.

Após a inconsciência, acordou em um limbo sendo observado por dois homens calvos de roupa branca. Eles colocaram as mãos frias sobre a sua fronte e disseram que Ernesto viveria tudo novamente, o que o fez sentir um desespero intenso e arrepender-se profundamente de toda a ânsia constante por mudança que tivera. Enquanto observava a sala branca, sentiu falta dos lugares mínimos da cidade natal, do cheiro dos panos da sala, do cheiro de papel do último lugar onde trabalhara em terra firme. Sentiu-se sobrenatural e estúpido.

Levou um tapa e mais outro. Desta vez não eram os calvos do limbo; e sim o enfermeiro do navio. Não morrera, Ernesto, mas o sentimento de arrependimento mantivera-se, acrescido do acanhamento silencioso por ter acreditado estar de fato em um pós-vida quando sempre pregara vida mesmo só haver uma. Corrigiu e certificou-se da segunda impressão, manteve a primeira. Voltou para casa.


21.11.10

A Voluntária


É difícil pegar esses casos de reconciliação desejada por apenas um dos lados. O sujeito me liga dizendo querer a filha de volta. Ela fugiu, pergunto. De certa forma, ele diz, ela trocou a família pela igreja. Anoto os detalhes. Uma igreja evangélica recruta jovens para se tornarem pastores ou obreiros e para isso acontecer de forma mais eficiente, eles tornam-se alunos de internato e só podem retornar à família após a preparação básica de um ano.

Há um mês a garota estava entre os muros mal caiados do templo. Isso de perder filhos para a igreja não é nenhuma novidade. Acontece há milênios. A diferença é ser hoje algo voluntário. Antigamente, se você tivesse sido oferecido como promessa ou tido a vida salva por algum santo era obrigado a ser encarcerado em um mosteiro ou igreja sem energia elétrica e com pederastas sádicos e mal cheirosos. Ao menos acho que era assim. Aquele filme baseado no romance do Umberto Eco é bastante impressionante.

A voluntariedade é algo extremo. Requer completa entrega e altruísmo ou profunda inocência e imbecilidade.

Vejo inocência e imbecilidade nos rostos das pessoas repetindo palavras ao transe. Na pintura terrivelmente cômica e mal feita de Jesus sorrindo e abraçando o mundo como se fosse uma bola de plástico. Certamente por pura ignorância, a Ásia não fora pintada devidamente. É uma mancha que se perde em uma curva oculta que avança rumo ao torso torto do Cristo. Tal névoa geográfica também ocorre com todos que estão ali e ignoram os bilhões de pessoas com crenças diversas e que, paradoxalmente, também acreditam ser a sua crença a verdadeira. Não há lado correto: ambos estão loucos.

O sujeito encarregado do culto tenta salvar a alma dos fiéis sacrificando a língua portuguesa. Em uma área separada estavam os aprendizes. Eles cantam mais do que os outros, pulam mais do que os outros e apenas saem do transe para percorrer a igreja para coletar dinheiro em coedores gigantes de café.

Apenas um terço dos aprendizes são garotas. Além de todo o conhecimento, também falta a elas o da Estatística. A quantidade de pastoras é ínfima. Só as que dormem com os pastores cabeças da igreja possuem alguma moral e escada para conduzirem cultos por si próprias.

Observo-a. Terei trabalho. Dissuadir gente raivosa ou violenta é simples. Gente fanática e ignorante é algo dificílimo.



7.11.10

Portões


Erasmo. A rua com cheiro de cinza na manhã de terça desde a hora primeira do dia. O primeiro morador sai de casa para comprar pão. Preparará sanduíches para serem vendidos à porta do cemitério e conter a fúria dos estômagos dos parentes dos mortos. Força o portão e não consegue abrir. Algo o bloqueia. Um peso, móvel, mas um peso, o impede de realizar o movimento. O portão é cego, todo revestido por chapa de aço. Erasmo resolve subir o muro para descobrir a causa do entrave.

Ao longo de toda a rua e calçadas estão dezenas de pessoas deitadas. Chama atenção do que está mais à frente. Um homem branquíssimo, com expressão de pânico impressa nos olhos. Ei, amigo, o que diabos está acontecendo, pergunta. O homem apenas move os olhos e o encara. Não vai falar nada, companheiro?

Alonga a vista por toda a rua e por entre o tapete imóvel e diverso reconhece o terno de seu pai. Parte do rosto, os maxilares semelhantes. Exaspera-se. Outras pessoas tentam sair de casa e não conseguem. Os portões estão bloqueados. Uma das casas, a única da rua a não possuir portões, possui gente deitada até a soleira.

Os corpos deixam pequenas vias por entre eles. Percorríveis pé ante pé. Outros moradores pulam os muros e reconhecem os corpos que não viam há muito ou pensaram que veriam só dali há algum ou há muito tempo, quando se juntassem a eles, os deitados. Mas o fato deles estarem ali, como foram quando estavam de pé, quebrara a ordem das coisas.

O dia avança, de nublado a escuro. E os deitados permanecem mudos, de olhos abertos, sem qualquer interação além a dos olhos. Alguns moradores choram copiosamente, tentam abraça-los, mas não recebem qualquer resposta. Os religiosos acreditam ter chegado finalmente o milagre do reencontro, vivos e mortos. Refazem planos, rezam novamente.

Nenhum resultado efetivo ocorre. Assim tem sido desde sempre. Não se pode falar com os mortos. Os mortos não podem falar conosco. Apenas nos observar e não entenderem o que estão observando porque seus cérebros não mais funcionam. Apenas os olhos, abertos e se movendo como plantas ao vento, nos dão a ilusão de diálogo.

Os portões permanecem bloqueados. Os deitados permanecem imóveis. Seus olhos permanecem abertos, sem reação mesmo à luz das fotografias. Erasmo toca o rosto do pai. Evita olhar o peito porque sabe que sob o terno (o único que o pai usara em vida, ou seja) está um furo causado por revólver. A porta do banheiro trancada, um trabalho dos diabos para abri-la.

No meio da tarde todos já estão bastante cansados de pular e despular os muros de casa. Alguns entram e não saem mais, com medo de serem assolados pelo mesmo mal eterno. A televisão não noticia o fato. Nenhuma mídia contactada acreditara na notícia.

Às seis horas em ponto, porém, ouvem-se gritos vindos da rua. Os moradores correm e sobem os muros. Dessas vez não os descem porque sentem medo: Todos os deitados gritam em uníssono e esse grito coletivo dura até o último deles desaparecer da rua.

À noite, os portões estão livres.


5.11.10

Tórax


Sem vontade de escrever. Às vezes olho para esse endereço e penso em dar um fim em tudo. Afinal, quem se importa
? Os posts e com eles os arquivos demoram cada vez mais a se encherem; o que prova o quanto a minha criatividade míngua e a minha vida não é assim tão interessante. Então penso em parar.

(risos)

Que grande bobagem. Imagino a imagem e miséria de alguém que posta tal tipo de coisa como àcima. Dar satisfações. Precisar dizer que não precisa mais dizer algo. Só existe alguém pior que o miserável: o miserável que gosta de promover a sua miserabilidade.

Gosto de dar satifações. E aprecio satisfações das pessoas de quem gosto. E em breve escrevo e posto. Um conto sobre o dia dos mortos e mais outro.

O lance é que agora estou com uma dor de estômago intermitente. Nada de lance de sanitário, escatológico leitor; É sim uma daquelas dores gástricas que, de tão gástricas, chegam a ser estilosas. Para quem vê. Porque para quem tem as guts é de uma irritância (sic) comovente. Estou ficando bom, ao menos. Do estômago, digo.

And it feels like this.


24.10.10

Lag


Vigília. Um pé no mundo, outro dentro de si mesmo. A televisão reflete várias imagens em forma de fragmentos sem sentido. Uma mulher com cabeça de lobo e outra sem rosto, andando de bicicleta. Acorda e as imagens permanecem. Talco, show de calouros infantis. Crianças parecendo pequenos robôs dançantes. Algumas crianças conseguem ser imensamente detestáveis. Observa a tela e as imagens ainda se misturam. Não são delírio e sim problema eletrônico: na mudança entre um canal e outro, as imagens permanecem e se misturam por alguns segundos. Passa a achar divertido. Uma partida da segunda divisão em meio a um culto religioso de terceira, bichos selvagens em meio aos personagens da novela.

Sua mulher abre a porta. Beijam-se. Como foram as coisas hoje, pergunta. Cansativas, cansativas. A única coisa boa foram os contatos com os amigos. E como eles andam? Estão ótimos. O Cláudio recém chegou de Samoa. A Bruna está com planos de mudar para Buenos Aires e o Orlando conseguiu vaga para um segundo mestrado. Como assim?, pergunta intrigado. Pensara em outros amigos. Ora, “como assim?”; ele se dedicou o bastante e conseguiu a vaga.

Não, não falo a respeito de mestrado ou cidade ou a ilha de Samoa. Falo a respeito dessas pessoas. Quem são eles? Nunca ouvi falar deles. Você deve estar de sacanagem — a mulher já está de roupa trocada e senta ao seu lado para observar as imagens (dessa vez estáveis) da televisão. Não, não estou de sacanagem; em todos esses anos você nunca me falou dessas pessoas.

Como assim não falei? Eu SEMPRE falei deles. Eles SEMPRE foram meus amigos. Inclusive mandaram um abraço pra você. Eles sempre perguntam por você e eu sempre digo que você também mandou um abraço e que também adoraria conhecê-los. Põe a cerveja no descansa copo, vira o corpo no sofá e a encara: é você quem tá de sacanagem, não eu. Pode terminar a brincadeira, você me engabelou por alguns minutos.

A mulher altera a voz: você realmente não dá a mínima para nada que acontece no meu lado da nossa vida. Essas pessoas são muito importantes pra mim, me conhecem desde a adolescência, eu SEMPRE falei deles durante todos os anos que eu e você estamos juntos e você simplesmente ignorou tudo isso! Eu não ignorei nada, porra. Você é que tá querendo me empurrar existência abaixo gente do teu passado que eu nunca conheci e que agora voltou a estabelecer contato. Quer saber? Você, a Bruna, o Orlando, o Cláudio e o Absalão, que nem apareceu na história, vão todos tomar no cu. Tenho certeza que não conheço essa gente.

É impressionante a tua intolerância e agressividade com as pessoas que gostam da gente — A mulher agora passou do agressivo ao passivo e graduou o tom da voz para o modo vítima. Vou pensar se digo a eles que você é esse escroto às vezes. Pode dizer, eu não me importo muito com gente que conheço, com quem não conheço me importo menos ainda. Se duvidar eles, gente boa que são, podem até te mandar um presente quando eu voltar de viagem. Como assim voltar de viagem? Agora você REALMENTE tá de putaria comigo. Eu não te falei que vou encontrá-los na minha viagem até Cuiabá?

Começa a rir descontroladamente. Como assim, menina? Que porra é essa? Que gente, que viagem? Semana que vem eu vou até Mato Grosso a trabalho e, como terei um dia de folga, vou esticar até Cuiabá para encontrá-los. Pode ficar tranquilo que não farei nada demais; e também não vou falar sobre as grosserias que você disse quando ficou sabendo que eu iria encontrá-los.

Muito obrigado por isso, ele diz. Manda também um abraço para o Tutti, a Deidrè e o Arnoldo. A mulher vai para o quarto e ele passa novamente a brincar com o controle remoto. As festa em Ibiza com as gringas azedas mostrando os peitos misturada ao documentário do History Channel. As projeções que se misturam.



8.10.10

Ato Contínuo


• Não acredito que você se dignou a pagar quase vinte reais por um maço de Galouises.


E qual é problema? Tenho pulmões e um pouco tanto de dinheiro. Já paguei quase dez em um Marlboro comum em uma casa comum na nossa cidade comum. E aqui tudo é raro e ímpar: Essa cidade possui um cheiro diferente e as pessoas se movem em um passo diferente e esse maço veio de uma fábrica na França e andou por ruas francesas e atravessou o mar de navio ou de avião (que seja) e estava na prateleira de uma tabacaria paulista esperando por mim, pelas minhas mãos, pela minha boca para provar o tabaco francês.

A sequência dos atos. Josephine pequena e irracional (na verdade névoa a desvelar-se) indo a escola e ferindo os supercílios e namorando idiotas e cruzando o Atlântico e voltando e agora em meus braços em minhas mãos e em minha boca.

Eu dentro de uma rocha fria cor de mate por anos e anos. Lendo livros e ouvindo música. Tentando entender as garotas que viviam em um universo paralelo. Quando finalmente me aproximava de uma delas, invariavelmente a descobria burra e sem conhecimentos básicos da língua inglesa. Os livros e as músicas selecionando as pessoas até chegar a Josephine.

Não lembro exatamente como eu arrumava os cabelos há dez anos e isso me incomoda. Ainda bem eu não ser afeito às fotografias e nem possuir fotógrafos amadores ao redor. Detesto fotógrafos amadores. Sou velho. Sou do tempo da revelação. E se hoje saio mal nas fotografias (menos nas não posadas), imagina há dez anos, quinze. Quando nos vemos no passado sempre nos achamos mais feios; a não ser que tenhamos sido adolescentes nos anos cinquenta.

Penso no futuro. Acredito na ciência e na simples possibilidade de retardar, parar e finalmente reverter o envelhecimento. Morrer-se-á quando quiser. Retirar-se-ão as tatuagens juvenis quando se quiser finalmente ter a aparência de velho. Possivelmente até mesmo deus, o cientista mais velho de todos (ainda de aparência jovem, na casa dos trinta), interagirá conosco porque não seremos mais assim tão ignorantes e iletrados a ponto de nos basearmos metafisicamente na literatura produzida pelos homens. Creio.


No entanto, as fábricas de Marlboros e Gaulouises permanecerão mesmo após o surgimento e império de tantos cigarros de marcas ruins que nem cigarros de verdade poderiam ter sido considerados. E como todo império falso eles tornarão os seus seguidores doentes e por fim perecíveis e sem querer servirão como filtro e causarão a sua própria queda. E nós permaneceremos, assim como os livros de Física Quântica.


• Que bobagem. Não sei de onde você tira essas idéias.


You never believe the shitty thoughts I think…


: Retruco. E por teima e via das dúvidas, aproveito a volta circular do corredor do Mercado Municipal para comprar outro maço para quando voltarmos a Manaus.



6.10.10

Austerlitz


“Assim, quando analisava a dificuldade que tinha de me separar definitivamente de uma mulher, dificuldade que me levava a tantas ligações simultâneas, eu não acusava a ternura do meu coração. Não era ela que me fazia agir, quando uma de minhas amiguinhas se cansava de esperar o Austerlitz da nossa paixão e falava em retirar-se. Era eu que imediatamente dava um passo à frente, que cedia, que me tornava eloquente. A ternura e a doce fraqueza de um coração, eu as despertava nelas, sentindo eu próprio apenas as suas aparências, simplesmente um pouco excitado por esta recusa e também alarmado com a possível perda de uma afeição. Às vezes, é bem verdade, acreditava sofrer realmente. Bastava, no entanto, que a rebelde partisse de fato, para que eu a esquecesse sem esforço, assim como a esquecia junto de mim, quando, pelo contrário, ela tinha decidido voltar. Não, não era o amor nem a generosidade que me despertavam, quando estava em perigo de ser abandonado, mas apenas o desejo de ser amado e de receber o que, no meu entender, me era devido. Uma vez amado e a minha companheira de novo esquecida, eu resplandecia, estava no meu melhor possível, tornava-me simpático.

Observe, aliás, que eu começava a sentir o peso desta afeição, uma vez reconquistada. Então, nos meus momentos de irritação, dizia a mim mesmo que a solução ideal seria a morte para a pessoa que me interessava. Esta morte teria fixado definitivamente a nossa ligação, por um lado, e, por outro, ter-lhe-ia tirado o seu constrangimento. Mas não se pode desejar a morte de todo mundo nem, em última instância, despovoar o planeta para gozar uma liberdade de outra maneira inconcebível. A isso se opunha a minha sensibilidade e o meu amor pelos homens.

O único sentimento profundo que me ocorreu experimentar nestas relações era a gratidão, quando tudo corria bem e me deixavam, ao mesmo tempo que a paz, a liberdade de ir e vir, nunca tão gentil e alegre como uma quando acabava de deixar a cama de outra, como se estendesse a todas as outras mulheres a dívida que acabava de contrair com uma delas. Qualquer que fosse, aliás, a confusão aparente dos meus sentimentos, o resultado que eu obtinha era claro: conservava todas as minhas afeições à minha volta para utilizá-las quando quisesse. Portanto, confesso que não conseguia viver, a não ser com a condição de, sobre a terra inteira, todos os seres, ou o maior número possível deles, se voltarem para mim, eternamente disponíveis, privados de vida independente, prontos a atender ao meu chamado, a qualquer momento, fadados, enfim, à esterilidade, até o dia que me dignasse a favorecê-los com a minha luz. Em resumo, para viver feliz, era preciso que os seres que eu elegesse não vivessem. Só deviam receber a vida, uma vez ou outra, a meu bel-prazer.”

(CAMUS, Albert. A Queda. Rio de Janeiro: Record. Pgs. 50-52)

Li esse livro pela primeira vez em Abril de 1997. É bom guardar os livros dos escritores preferidos para descobrir que os pensamentos antigos considerados próprios não carregavam lá tanta originalidade.

27.9.10

Be Mine


Nalgumas poucas noites eu tenho paciência para o violão. É uma coisa que requer dedos disponíveis e uma tablatura: aquelas anotações disponíveis na internete que transcrevem em arquivos txt meses de trabalho de um guitarrista talentoso para serem copiados por qualquer sujeito que tenha um violão ou guitarra e uma certa vontade secreta de um dia ser admirado pelo seu talento até então oculto.

Be Mine é a melhor letra assumidamente romântica escrita por Michael Stipe — o melhor letrista do rock norteamericano em atividade (o do rock britânico é o Morrissey). A usei na aula da manhã. Os alunos trabalharam em dupla para inferir o significado dos verbos pluck, tar, weave. Ouvimos a letra duas vezes e meia. E depois comentamos os léxicos que transitam por sobre a música. Amor, religião; o amor como religião: a decisão mais sensata de todas.

As audições foram suficientes para que eu, que ouvira a música dezenas de vezes, fixasse definitivamente a letra e, em casa, à noite (a hora propícia para os amadores tocarem violão), pegar a tablatura e tentar tirar a música. Consegui. Toquei-a várias vezes e funcionou. Soou igual.

Os dedos doeram e deixei o violão de lado no quarto. Pousado em pé em frente ao deck de CDs que frequento ainda menos que o vilão e voltei ao computador onde os dedos não doem, mas não há tablatura a se seguir além das internas desconhecidas.

25.9.10

A Rua


Quebro a parede o quarto. Deixo o portão aberto. Durmo na rua. No meio da noite acordo e me encontro sozinho. Os insones acordam por volta das três horas — hora que algum roteirista hollywoodiano filho da puta convencionou dizer ser a hora que o diabo está à solta e atuando sobre os corpos ainda acordados dos homens.


Sei não existir tal coisa porque o sobrenatural não existe. Seria uma piada frente à rigidez única da matéria que sempre houve e que compõe a minha casa, o meu rosto, a pele entre e ao lado das minhas unhas, os meus dentes e o ar que entra e sai e me irriga o corpo.

A matéria é o que nos cabe e o sobrenatural é um covarde que sei não existir por só se fazer presente nos filmes para atrair milhões de espectadores. Sei, apesar da pressão fria sobre o meu peito e do frio dormente no braço esquerdo quando acordo no meio da noite. Sei não existir tal coisa, diabo: um sujeito patético e vermelho que faz com que os homens façam o mal como se precisassem da ajuda de ao menos uma brisa para pensarem bobagens e criarem horrores físicos.

O meu sonho sendo vítima de uma personagem que algum roteirista religioso filho da puta sem imaginação criou há vários séculos e convencionou-se existir após dezenas de horas insones regradas a leituras de livros mal escritos. Mesmo assim, no benefício insone da dúvida, faço o sinal da cruz e adormeço novamente. Funciona.

Em termos. Sonho com uma prateleira e observo a fileira de cima, ocupada por livros velhos com capa de couro, ser coberta por uma sombra e ser, logo em seguida, incendiada. Apenas os livros velhos se incendeiam. E não faço nada para salvá-los porque, para mim, no sonho, aquilo é um fenômeno sobrenatural e eu supostamente devo respeitá-lo.

Então eu meio que compactuo e me admiro com a coisa como se a coisa merecesse algum respeito. Um absurdo ridículo que causaria sombras inexplicáveis e queimaria livros para quê? Para me assustar talvez e causar certo respeito. Eu sou o mal! Eu te faço acordar e te faço sonhar com livros queimando. Mas que grande bosta incultada em minha imaginação e que não posso fazer nada a respeito pelo fato de meu corpo estar imerso na tentativa de repouso e de sono! O sobrenatural então é como um peido: incômodo e invisível.

Seria um recurso ridículo: uma chama, um braço dormente. Mas que mesmo assim, inconscientemente, me impressiona devido a essa coisa atávica de milênios que sempre permanecerá adormecida e me fará, tempos em tempos, acordar assustado. E, atavicamente, me fará fazer o sinal da cruz. E me fará sentir melhor após isso e, aí sim, dormir até bem antes da hora de acordar para o trabalho.

E não haverá absolutamente nada de sobrenatural quando eu subir o primeiro degrau do ônibus. Só haverá o sol e as pessoas indo a algum lugar, sem qualquer mágica além da que elas mesmas criam.

As Paredes


Uma decisão estranha, a de pintar a parede contrária à porta do quarto de vermelho fazendo contraponto à cama branquíssima de lençóis esticados como os de hotel sério.


Gastara um bom dinheiro fazendo a mistura das latas vermelhas até chegar a uma cor sangue tipo O negativo simplesmente porque sonhara consigo mesmo pintando a mesma parede com a pontas dos dedos abertas e depois sentava-se e fumava um cigarro que cicatrizava os ferimentos e os tornava cinza- lavável.


Sentou-se e inalou o cheiro de tinta nova. A tinta sobre as paredes causava tal efeito. Aquela coisa Natal, efeméride vermelha. Sentou e aguardou-a. Os cantos do lençol da cama com dobras de hotel ou de Exército. Mandou mensagens, exortou-a, tentou mais de um par de vezes e agora a aguardava. Essa necessidade cega e febril de estar sempre em companhia.


Apenas uma das mensagens obtivera resposta. Talvez eu vá, se ainda não estiver muito ocupada. Uma formiga começou a passear sobre a parede vermelha. As formigas seriam então personificações de problemas rondando a existência. Pensa-se estar tudo em ordem e um deles, minúsculo, aparece, e passa a incomodar até se tornar um caminho constante e agressivo.


Poderia colocar futuramente um relógio sobre a parede nova. Um relógio imenso, um metro de diâmetro, como o que sempre observa na vitrine da loja de decoração a caminho do trabalho. Os relógios sempre andam à frente; quando se olha sempre está algo passando no máximo, e atrás do ponteiro todo o tempo de uma vida. Nascera às quatro horas e quarenta e três minutos. É quase meia-noite, o que o fará nascer dali a algumas horas. Nascerá dormindo ou acordado. Sozinho ou em companhia. Mas renascerá como tem renascido dia após dia.


Apenas o cachorro mais irracional da rua continua latindo para o vento. Ou para os espíritos, como poderiam afirmar algumas pessoas humanamente mais irracionais do que o último cachorro irracional da rua. Sempre ganhara deles, do cachorros, quando resolvera ser ele mesmo o último cachorro da rua e permanecer acordado até as quatro. Ninguém aparece. As mensagens não retornam.


Está só e ficando ébrio progressivamente. Abre o livro imenso que está lendo parece desde que nascera. Lê dezenas de livros por ano mas neste ano, 2010, mal passara da primeira dezena pelo fato deste livro que tem em mãos, 2666, ser um amontoado gigante febril de cinco romances que beira as mil páginas.


Um amontoado febril. Livro após livro. Leituras paralelas. Tramas que se concatenam e formam um livro só e, mesmo após tamanha demanda, os livros continuam. Fecha-se e põe-se na estante; não esquecido; admirado, ao invés. E depois o lerá de novo. O abrirá, cheirará e lerá os melhores trechos. Os pequenos gozos regendo as leis dos homens.


Olha a frente da casa, sai à calçada e observa o terreno vazio, as árvores magras e mais formigas sobre o chão. Essa coisa Buendía o incomodando e as luzes dos postes parecendo cada vez mais tristes. São uma ou duas horas e está mais sozinho do que jamais estivera porque não reconhece nem a si mesmo. Talvez pela proximidade das horas que tangenciam o seu nascimento quase trinta horas de anos atrás.


Entra. Bate os cadeados. Fecha a porta. O cheiro vermelho de tinta no quarto. O livro que não termina. A mulher que não aparecerá. A sina dos romances inacabados, não totalmente escritos, abandonados lá pela metade e passados à frente ou jogados fora.


Senta sorrindo no sofá-cama e idealiza novas cores para as paredes. Uma lilás e outra com superfície negra possibilitando a risca a giz e nela escreverá pensamentos e fará desenhos simétricos. Adormece.



23.9.10

O Atentado


É ridícula a forma como temos que realizar certos trabalhos. Ainda mais quando você está há pouco tempo na instituição. Certamente se eu tivesse ao menos mais de cinco anos de polícia não teria sido designado para investigar uma tentativa de atentado em um barco no meio do rio Amazonas.

O foco do ataque foi um grupo religioso evangélico. Nenhuma vítima, apenas um casco avariado que causou o naufrágio da embarcação. Nada súbito. O naufrágio durou mais de doze horas. No Norte, até os naufrágios parecem ser mais lentos. Nem sempre são. Este em particular teve a sorte que acompanha os eventos ridículos.

Ítalo, o nome do terrorista (esse era o termo que as quase vítimas o chamavam), não foi sequer investigado, e sim coletado. Ele levava consigo os documentos de identificação. Mas porque tamanho desvario?, perguntei a alguns ex-passageiros. “Desespero, irmão. Desespero causado pelo inimigo.”

Os evangélicos ex-passageiros contaram que Ítalo revoltara-se com o pastor quando este, após ter prometido trazer a mulher de Ítalo de volta e, de quebra, curá-lo de uma rasgadura na virilha que o incomodava desde os vinte e cinco anos, desdizera-se ao afirmar ser tal milagre não mais possível: “Vocês viviam em pecado, irmão, nem unidos perante ao Senhor vocês eram. Agora ela está casada e louvando conosco, em companhia de Jesus. Eu mesmo dei as bênçãos de união entre ela e irmão Cleberson. Converta-se irmão, conheça outra mulher... quem sabe você não se junta a nós e pode até mesmo no próximo retiro estar com a gente louvando e cantando para Deus”. Qualquer cura ou continuidade da rasgadura permaneceram desconhecidos.

Ítalo morreu aos vinte e oito anos. Um sujeito pardo e de cabelos curtos com a base mais curta ainda, cortada a navalha de forma a fazer com que as costeletas parecessem mais finas do que o normal. Algo como uma versão afeminada do tradicional corte de soldado. Mesmo com a explosão, o corpo de Ítalo ficara intacto; apenas um chamusco ou outro e queimaduras leves pelo corpo. Ele não morrera com a explosão — fato presumível pelo insucesso da demanda do “terrorista” — na verdade morrera afogado ao se dar conta do insucesso do atentado e, ao tentar pular no rio, descobrir não ser tão bom nadador assim e terminar afogando-se a menos de dez metros da margem. Os ribeirinhos que testemunharam o incidente me contaram isso. Como qualquer outro popular, os ribeirinhos sempre presenciam e testemunham coisas com os braços cruzados e as mãos sob as axilas.

“Não considero um atentado a mim, considero um atentado a Jesus”. Mesmo com toda impáfia ignorante e má-fé inabalável, o pastor deixava escapar pontas de mãos trêmulas. “Ele esperou eu passar por uma vislissitude (sic) orgânica e precisar ir até o banheiro no porão do barco para sair das sombras e, abraçado a satanás, tentar destruir a mim e toda a obra de Jesus na terra”. Ele usava algum explosivo pesado, como dinamite ou algo como um explosivo plástico? “Não, irmão, graças a Deus não. Ele estava com carotes amarrados no corpo (sic). Um em cada perna, um na barriga e um nas costas. E mais um cordão de catolés em volta”. Ignorante da terminologia regional, perguntei que coisas eram essas. O pastor me explicou serem carotes os recipientes onde se armazena combustível e catolé uma versão mais parruda das bombinhas de festa junina. “Quando ele acendeu o primeiro catolé e correu na minha direção (sic) apenas alguns deles explodiram. Os carotes não explodiram por milagre”. Depois descobri estarem os tais carotes cheios de querosene batizado; o que possibilitaria nada além de uma combustão constante e lenta.

Encerrei o relatório sobre o capô da viatura, tomando cuidado para não manchar o meu moleskine operacional. Não sei porque insisto em levar um moleskine para relatar essas merdas. Da próxima vez trago um caderno do governo.


17.9.10

Laranja


As coisas são definidas pelo movimento invisível que é o tempo. Chega em casa e nas paredes um sol presente apenas sobre a luz das coisas. O quarto e o lençol amarelo o fazem imergir em um sono superficial impetuoso.

Enquanto leva as mãos aos lábios é pressionado pela vigília e sobre os lábios e entre os lábios e nariz o cheiro de uma boca até então desconhecida, a saliva e o doce e os lábios há menos de uma hora sobre os lábios pela primeira vez. O sol se esconde, mas ainda passa por sobre as pálpebras e cria com o sono quase presente um universo laranja. Meu sol dorme em nuvens de fogo, lembra, antes de começar a se perder no sono. Segura a mão de Stella. Mergulha aos poucos.

Sentados no parque há hora e meia, dividiam os gomos de uma fruta cítrica em ponto exato de doçura. Tangerina ou laranja, o sonho confunde. A garota de cabelos amarelos fazendo desaparecer os gomos na boca. Beijam-se. Cai e desperta da vigília. Os parágrafos.

A mãe o chama. Pergunta se quer algo. A mãe também é uma voz interna de sonho. Café, mãe. Desafrouxa o nó da gravata. Inverte os atos adultos. Os casais chegam em casa e fazem o inverso. Afrouxam os nós. Não beijam ninguém. Nenhuma garota de cabelos levemente amarelos. Cinco mechas ou seis. Não comem tangerinas ou quaisquer outras frutas cítricas entre uma realidade e outra.

Você não existe, disse brincando. Esse parque, você e esses cabelos não existem. Eu devo ser um velho delirando num asilo tendo como companhia apenas uma enfermeira cumprido serviços obrigatórios por ter sido pega roubando uma loja de departamentos. Ou devo ser uma cobaia humana apenas cérebro sendo utilizado como elemento de pesquisa para civilizações inteligentes dominantes. Ela morde o seu lábio superior. Então isso não existe também, diz. Ok então você é real. Os argumentos racionais caindo por terra, felizes. O ônibus chega. Volta para casa com sinais invisíveis que comprovam a realidade.

Cochila no ônibus, caminha cinco ou seis passos com os olhos fechados. Um garoto observa ao longo os passos curtos em desalinho logo voltarem à linha reta até o portão de casa. Sempre cumprimenta a mãe e quem estiver em casa com uma reverência anacrônica desajeitada, o que causa alegria ao vê-lo. Abre a mochila. Duas ou três frases sobre o caderno. A escrita: outra comprovação de que a garota existe. As letras inclinadas e como que grafadas por sobre uma régua invisível. O movimento das mãos imprimindo o tempo sobre o caderno. Na contracapa, mais exatamente. Invasiva e explícita, doce.

Deita-se e o sono volta a se espalhar sobre o corpo, a prender os pulsos na cama, a puxar os membros para os pólos norte e sul extremos esticando as costas. Uma dor boa. E o peso confortável sobre as pálpebras como se tivessem duas moedas polidas sobre. O randômico o faz pensar no Egito. Acho que desde lá se comem laranjas e as letras eram vivas eram bichos e homens híbridos misturados a sóis e nuvens. O meu sol, o que adormece em nuvens de fogo, o desenho do parque em um caderno e o beijo cítrico, o rosto mensurado pelo indicador e polegar formando quase um ângulo reto antes do primeiro beijo. Cai. Volta ao lençol. A mãe o chama. Está pronto, ela diz.


12.9.10

Binariamente


Eu, como boa parte de vocês, tenho o estranho hábito de mensurar o envelhecimento através do método mãos-e-olhos: O indicador e o polegar esticam a pele ao redor dos olhos e sentem a tensão ou a queda da resiliência. A cada par de mêses aumenta, minimilimetricamente, o intervalo entre os dedos. Uma pressão leve entre o polegar e o indicador faz com que o tempo retorne e se veja um pouco mais jovem, novamente. Seria um exercício de certa forma melancólico; se a juventude valesse alguma coisa para a inteligência.

Eu e o processo dos volantes. Os volantes e as buzinas que são os gritos dos carros ao redor e ninguém os ouve porque, assim como uns aos outros fora dos carros, ninguém se ouve quando em desespero. O desespero alardeado é ridículo e inútil como uma buzina fraca e fanha em um engarrafamento. Chama a atenção no máximo de dois ou três motoristas. O sinal abre e todo mundo segue resignadamente em seu rumo. As queixas são como buzinas tartamudenantes em um engarrafamento. Incomodam, mas ninguém pode fazer nada a respeito. Apenas ouvem, apenas leem. Losers, chamam uns aos outros.

Eu tenho lido mais do que escrito. Tenho limpado e pintado a minha casa mais do que escrito. Pensado sobre a licença para dirigir e no tráfego mais do que escrito. E amado porque o amor é o que me move. Não a escrita, a leitura, ou tintas sobre paredes.

O amor e a raiva, talvez. O talvez é a respiração de quem lê. Eu sinto amor e raiva. Binariamente emocional a tudo o que se move ao redor. Sinto amor, sinto raiva. É uma dicotomia limitante e até meio burra, vá, mas a coisa é assim pra mim, binária.

E por vezes amor e raiva, ambos, coincidem. E eu gosto de escrever com raiva. Comecei esse endereço por isso. Amor, raiva. Referências musicais, resenhas, são uma respiração. Fotos são um alento visual em preto e branco:


Conversei com um casal de amigos, um dia: Gostaria de saber fotografar porque sou muito visual. Hoje em dia leio muitos mais endereços de fotografias do que de letras. É a única literatura nova e interessante que encontro online. Literatura: símbolos que abrem portas. Observo as fotografias e começo a ver as pessoas reais em movimento como se fossem parte de algo real. Um mundo extenso e colorido, reservado e preto e branco onde pessoas lêem e observam janelas. Vêem carros estacionando enquanto limpam, seminus, o apartamento.


As balizas. Você tem que ficar entre elas em menos de cinco minutos. Caso contrário será reprovado. Manobra mas não encosta. Até encosta, mas pede desculpas. Arrumei minhas prateleiras. Reli partes de meu livro preferido. Mersault recebido com gritos de ódio e mesmo assim, feliz. E também reli partes de Jorge, e de Rubem. O amor e a raiva, novamente.

O tal microcosmos pode ser criado em uma estante. A hierarquia reorganizada mantendo os mestres. A criança grita que o rei está nu. Cria-se uma celeuma. Mas depois de tudo, a criança continua sendo criança e o rei, rei.

Se estou doente culpo os vírus; e não a mim mesmo que não fora vigilante com a minha saúde. Se estou sobrecarregado culpo os chefes; e não a mim, que estudou tanto para encontrar o emprego errado. Se não sei dirigir direito culpo o departamento de trânsito... Culpo, culpo, culpo o mundo pelos meus erros. E na verdade os erros são meus. Quase todos. Porque sou eu quem comanda os braços, sou eu quem sou o culpado pela ordem dos meus cabelos e pelas besteiras que faço, sou eu quem comanda a minha casa.

E todo mundo, falando, buzinando ou em silêncio, sabe disso. Ali, entre o peito e a camisa.


27.8.10

O Ângulo Cego


Acordei às 7:57. Três minutos antes de iniciar a aula de legislação de trânsito. Dou um pulo e parto em trajetória bamba até o banheiro. Me penteio com a água do chuveiro. Saio à rua olhando ao redor à procura de um táxi que seja. Quando chego na esquina do aclive um deles aparece. Providência. Acho que apenas o homem mais elegante do mundo consegue acordar atrasado e não parecer ridiculamente desesperado. O ar refrigerado do automóvel e o caminho livre me acalmam e chego com um atraso de poucos minutos, antes mesmo dos que sempre chegam por último e carregam uma expressão infantil de culpa.



Encontro um lugar confortável na última carteira, numa posição que faz um ângulo cego com metade da sala. Imagine uma sala dividida em quatro quadrados. Um deles é uma parede avançada de outro cômodo, o que rouba uma parte substancial do espaço interno. Quando o instrutor está invisível devido à parede, os cochilos são inevitáveis. Sobressalto. Na parede à minha direita existem algumas pixações frutos da invisibilidade do ângulo. Vários rabiscos e escritos feitos por outros infelizes que precisaram passar horas inúteis para só então pleitear uma carteira de motorista. Algumas frases seguidas de um (sic) invisível:


  • A vida só é difícil só pra quem é muito mole!
  • Tudo se torna mais fácil quando a alma não é pequena! (Será que Fernando Pessoa tirou carteira aqui? – observação minha)
  • Smoke marijuana o/
  • Fume um antes de dirigir
  • São 15 dias de tortura (hell yeah!) – esse um complemento de um terceiro
  • Último dia dessa porra!

Se tivesse a oportunidade, juro teria escrito este último.

21.8.10

Espátula


Comprei uma espátula. O lugar onde tenho aulas de direção fica entre duas lojas de materiais de construção. Decidi entrar no processo da habilitação. Ser apto a dirigir um automóvel e correr por entre as veias manauaras esburacadas onde transitam toda a sorte de idiotas que ignoram as tais leis de trânsito.

A sala de aula é numerosa. Em torno de quarenta. A maioria é composta por jovens e a outra parcela é composta por pedestres de idades mistas onde dois ou três já passaram da metade da vida.

Depois do primeiro dia, uma segunda-feira entre cochilos com a sensação de estar sendo parte de algo inútil (as pautas da aula são a leitura da apostila e a prova em si pode ser simulada online ipsi literis), decidi levar um romance para ler discretamente, além dos livros para planejar algo extra para as aulas da tarde. Após tal decisão, as aulas passaram mais rápido. E ainda faltarão três semanas para o término do curso.

Existe algo de cruel no determinismo hierárquico militar pelo fato de tal marcar o rosto e os gestos de quem passa muito tempo na caserna. Desde o primeiro momento suspeitei que o instrutor do curso havia sido soldado. E identifiquei o tipo de soldado; metido a inteligente, baseado e contestador, mas sem qualquer embasamento filosófico mais profundo. Apenas um reprodutor de informações e fatos. Um soldado preguiçoso que certamente aplicava pequenos golpes para ser poupado da parte pesada dos trabalhos. Na segunda aula ele disse que passara certo tempo no Exército.

A absorção de cultura é perigosa quando se teve uma infância plenamente ignorante. Por mais que se tente correr atrás do tempo perdido, também se faz necessário o desenvolvimento do poder de abstração, de noção de seu próprio corpo e existência para assim ter uma consciência crítica do conhecimento que se oferece de forma caótica. Quando isso não acontece, surge um sujeito como o meu instrutor da auto-escola: alguém que tenta desesperadamente parecer aculturado (ou mesmo com conceitos morais exemplares) quando na verdade continua sendo um ignorante chafurdado no senso-comum com o diferencial de possuir boa memória. Durante a condução de um automóvel a capacidade espacial e motora está acima das outras. Sendo assim, não é de estranhar que a imensa maioria dos pupilos do instrutor soldado nunca tenha lido um livro na vida.

Durante as explanações cretinas termino de ler Medo e Delírio em Las Vegas. Melhoro um pouco mais nas aulas. Da manhã, da tarde. Um timing que deve ser semelhante ao de controlar um veículo cheio de passageiros de várias idades. Volto para casa e me esforço para tirar um pouco o jeito acolhedor e desordenado assentado pela minha mãe desequipando a sala de seus bibelôs e tomando notas para o que deverá ser comprado para a manutenção das esquadrias e paredes. O primeiro item foi a espátula.

Ainda preciso comprar tomadas e receber umas dicas do Manual do Construtor. As últimas serão as tintas. Penso nisso voltando do trabalho, caminhando para casa, tendo a companhia discreta e simpática, por dois quarteirões, de um cachorro anônimo e negro. Vou ao supermercado comprar os víveres de quando estou sozinho em casa. Enquanto espero o pão, observo um casal em uma das ilhas da padaria. Eles possuem a mesma dinâmica minha e de minha namorada quando vamos ao supermercado e sinto saudades dela por isso. Sentir saudade do que existe e pode ser vivido é um dos meus pequenos objetivos e ainda bem que tenho conseguido sempre.

Martelo isso aqui. Você deve ter percebido. O fato de que mais vale martelar pregos do que tentar tirá-los da parede e não ter sucesso porque eles estão encravados e tortos demais para valerem o esforço em serem retirados. As paredes da minha casa eram cheias de quadros amadores pintados pelo meu pai. Todas as paredes da sala. Quadros de diversos tamanhos. Cores e temas em desordem.

Um dia, há um bom tempo, eu resolvi jogá-los fora com moldura e tudo. Um tempo depois, com os primeiros vencimentos do Exército, contratei operários para cobrir as paredes com massa corrida. Hoje ninguém consegue mais lembrar como os quadros eram exatamente. Suas posições, seus temas que impressionavam visitantes ignorantes. Com o expurgo das telas amadoras a sala ficou mais bonita. E ficará novamente.