26.1.10

Árido


Terminei de ler "Grande Sertão: Veredas" mais de um ano depois do início. Uma leitura árdua à medida que se aproxima do centro. Força própria. Instigante. Mais difícil que Ulysses pelo fato deste possuir pausas, abordagens diferentes. No Grande Sertão não há paródia. Há quando muito um sorriso curto.


No Grande Sertão corre-se o risco de ficar preso. Sem abandono por incompreensão da narrativa ou qualquer outro motivo — simplesmente preso entre as cinco centenas de páginas sem divisão em capítulos pelo fato delas serem densas, não parecer terem fim. Demanda atrás de demanda. Retornos temáticos. Capetas. Cansa. Riobaldo irrita. Parece que não irá terminar nunca, redundante em seu lento ritmo narrativo da velhice. Narrativa talvez realizada em delírio quando se pensa no tempo que o interlocutor levaria ouvindo todo aquele épico.


Mas passa. A vegetação abre-se aos poucos. Diadorim indo e vindo sempre até chegar ao final com toda a sua força climática e inesquecível de obra-prima. Sente-se saudade.


23.1.10

Saúvas


Seguimos ao longo da praia, sem destino. Em grandes haustos, respiramos setembro. Os instantes são dias. Cresce, neste passeio em que tardes e noites se concentram, meu amor por Cecília, a precisão a incorporá-la à minha vida (ou de incorporar, à sua vida, a minha), crescem a nossa intimidade e o mútuo conhecimento. Hermenilda ou Hermelinda não mente quando diz que sou homem das letras e dos livros. Planejo escrever. Para quê? A certa altura do seu governo, tão prolongado, Vargas preocupa-se com as saúvas. Podia ter inventado, como programa, multiplicar os pássaros e os tamanduás. Escrever, para mim, virá talvez a adquirir, algum dia, um sentido mais preciso e elevado. No momento, representa um modo de não sucumbir, de não ir levando ao azar a minha vida. Uma decisão artificial, Cecília. Honesta, contudo. Invento, ao mesmo tempo que as formigas, pássaros imaginários e tamanduás com línguas de fogo. Jogar umas palavras contra outras, exercer sobre elas uma espécie de atrito, fustigando-as, até que elas desprendam chispas: até que saltem, dentre as palavras, demônios inesperados. Numa sociedade como a nossa, da qual, mais ou menos como os seus clientes do Hospital Pedro II, desconfio e que não me atrai, é, com atritar as consciências — até que estas, igualmente, façam-se em chamas e incendeiem o arcabouço velho —, o que resta fazer. Ambas, vê-se bem, atividades mais ou menos gratuitas, e, em certo sentido, fora-da-lei. Estou longe de ter as virtudes exigidas para incendiar as consciências, como faz, na zona canavieira, Francisco Julião. Falta-me a energia cega dos reformadores; e com a minha tendência, talvez arcaica, para raciocinar com todos os dados dos problemas, custaria muito a decidir-me sobre os valores que devem ser incinerados ou substituídos. Nem, ao menos, sei dizer com segurança se a profissão que você exerce, fraterna retificadora, é mesmo adequada à realidade que vivemos. Ela pode dar um sentido à sua vida. Mas, verdadeiramente, tem sentido hoje? Não sou capaz de responder, Cecília. Resta-me, então, por este modo recusando todas as estúpidas formas de viver, isto que suponho ficar em minha alçada — intentar maquinações com as palavras. Projeto desesperado e enleante.

(LINS, Osman. Avalovara. São Paulo: Cia das Letras. pgs 197 & 198)

20.1.10

Vamos ao Trabalho


O ano tem início depois de uma prorrogação mental de vinte dias. Retorno após as primeiras férias do emprego novo. Acordei cedo e sem qualquer queixa no pensamento porque há alguns anos (olha como o tempo passa) teria que passar a farda, cortar o cabelo e me preparar para vinte e quatro horas ininterruptas de serviço.



Desta vez não. Acordo. A visão inspiradora de Josephinne ao lado. Banho morno. Procrastino a barba. Visto uma camisa do Radiohead e como um x-salada requentado acompanhado por uma xícara de café sem pressa porque não irei correr. Literalmente. O relógio não me oprime. Saio.



As férias foram muito muito boas. Uma circunstância acertadíssima não viajarmos. Ficar em casa, lendo livros, assistindo filmes, saindo aos arredores, caminhando, namorando e conversando. A mesa inutilmente protegida da umidade do chope por um guardanapo impermeável e liso. Belos e memoráveis momentos. Como o da moça alta e azul pegando nos braços o rapaz frágil e pequeno e dizendo que o vê, que o vê. Josephinne tem os olhos verdes.



As anotações, os livros. Depois de pensar bastante, fechei a lista de coisas novas a serem feitas esse ano. Nove, no total porque não couberam dez e além dos significados, nove novas ações já são coisa suficiente para preencher um ano. Os incrementos e a diminuição dos excessos não são mais do que obrigação. A boa e velha disciplina.



Nove horas da manhã é um horário justo e civilizado. Encontro os colegas de trabalho. Amigos. Todo mundo meio de sobressalto devido a um assalto recente. Manaus é uma cidade sem governo onde os agentes repressores, os caçadores com carteira assinada, são sujeitos solertes de barriga proeminente com aprendizes mirrados a ponto de não conseguirem preencher uma camiseta de algodão. Os lobos fazem a festa e deixam os organizadores do caderno policial em um complexo problema de seleção de notícias.



Descontando uma possível tragédia evitada pela boa sorte, não houve graves consequências além do susto e da necessidade de novas medidas de segurança porque o Estado, além da argúcia em criar e cobrar impostos chantagistas para fazer autopropaganda, não funciona para mais nada e está aquém das obrigações básicas — fato que você, leitora sagaz e consciente também sabe e sei que não precisaria escrever tais linhas não fosse a necessidade e o direito de falar mal sobre algo que nos irrita.



Ignoremos a vagabundice da Instituição Maior (imagine um I e um M inversos) e passemos a cuidar da nossa: particular prezada produtiva e útil. Planos. Ajustes de horários. Organizações para o novo ano letivo. Novas músicas. Novos filmes. Novas técnicas para ensinar até o aluno mais reticente. Gosto do meu trabalho. Do lugar e de ambas as ilhas.



Novos óculos. Corte de cabelo com o sujeito econômico e eficaz de unhas longas pintadas à francesinha. Um corte simples porque corte corte mesmo é o novo corte (lindo) da minha garota (linda). Homem só tem que andar limpo, ler uns livros e dar conta do recado. Para as mulheres, todos os complementos e acessórios possíveis para torna-las ainda mais graciosas. É engraçado quando um homem tenta fazer uso do universo feminino: chafurda no ridículo e tem as suas francesinhas julgadas à revelia.


Voltando. A cabeça ainda está relembrando as férias. A lassidão de um dia inteiro. Dias. O andar à toa comendo canudos de folhas japonesas recheados com salmão e queijo e sobremesa da loja de tortas hambúrgueres do Empório Roma cervejas do Roma menorzinho chopes e pizzas do Picolino pastéis da Esquina do Pastel também da esquina do shopping center e que não deixará de ser Esquina do Pastel tão cedo porque o atendimento é ruim pra diabo mas nada no mundo é pior do que o cigarro "Rei" do E.T. Bar. Revistas bobagens da internete livros terminados e imediatamente anotados no bloco porque o número de livros lidos no ano é importante e os filmes certos são importantes. O caso de amor impossível entre o menino bem nascido e a mulher mais velha de passado misterioso entram para a lista das histórias de amor que nos emocionam tão quanto a dos alienígenas azuis maiores do que um jogador de basquete.



Muita coisa a ser escrita. Meu computador tem três fileiras de letras cerceadas por um monte de números e símbolos malucos e eu penso, Caramba! Tudo de melhor que li e formou parte considerável da minha consciência crítica está contido em três linhas interdependentes, exceto pelas raras exceções como as palavras "quieto" e "typewriter".


Os números são importantes e mágicos. Pena os esquecer mesmo depois de ter estudado tanto cálculo. Uma inaptidão onde nem o auxílio das letras (álgebra) conseguiu tornar os coitados perenes. Não me orgulho disso. Penso existir uma grave vergonha enrustida em quem esnoba a matemática.



Continuo contando. Os dias até o início das aulas. Os anos de namoro. As músicas no Ipod (5171 e crescendo). Os livros lidos até agora, quatro. Esse post de número 7 em um ano onde espero passar, pela primeira vez e tranquilo, o número 100 se seguir de boa a disciplina citada no final do quarto parágrafo.



A companhia constante dos livros ajuda a me lembrar de que o intelectual diz algo simples de maneira difícil, enquanto o artista diz algo difícil de maneira simples. Algo com o espírito de uma frase sempre dita por uma colega de escola cuja identidade esqueci junto com os cálculos: Eu tô brincando, mas eu tô falando sério!



Ou seja, a coisa aqui é séria mas sem aquela gravidade. Apenas três linhas de letras colaborando umas com as outras (e vez ou outra uma intrusa) acompanhadas por números e acentos inúteis em sua maioria, como os símbolos egípcios do editor de textos.



E, principalmente, muito carinho pelo que é posto aqui. Uma chatice ou outra, vá. Mas não importa porque não é nada grave, é apenas sério. E a intenção é das melhores.



Vamos lá.



10.1.10

Persianas


As persianas. Um casal de pássaros de médio porte presos dentro do quarto: A ilusão do vento confundindo os ouvidos. Ventilador de três palhetas. Falso ar reciclado interno, carbônico. O resto de sonho torna os pássaros um casal azul e verde. Mornos debatem-se. Os bicos se tocam. Tentam sair e o acordar. Acordá-los. Não conseguem. O sono é muito. O acordar sempre demora para os humanos. Sono sonhos culpa e lubricidade aglomerante mulher homem e cama.


Estica o braço e toca a mulher ao lado sobre a asa omoplata e ela se contorce entre o sono. Agressiva enquanto dorme. Mais ainda acordada. Asas. O bico entreaberto ressonando. Os peitos à mostra. Bicos. Encosta a boca num dos gêmeos bivitelinos. Os sopra. Tem essa teoria: se eles expelem algo, leite, deve existir um caminho de volta. Ar e amor inflado. Os sopra delicadamente. O peito se ergue. Tórax, na verdade. Observa. Suga e sopra o outro. Uma vez e outra.


Os peitos estão maiores, mal cabem sob a camisa. Ela se ergue como que dum pesadelo. Os peitos para fora. O homem guarda o sopro e finge dormir, recolhendo a ponta de saliva da boca. Ouve o seu nome e finge um sono profundo. Concentra-se no barulho de pássaros tentando sair pela janela. Ela o observa. Vigia. Os peitos maiores encostados às suas costas. Corpo sem vestir nada além dos brincos coloridos.


O cheira. O cobre com a ponta de lençol pra fora. Apalpa seu pau pra tentar descobrir uma ponta de sonho erótico. Move-se dissimuladamente e abre os olhos para flagrá-lo. Insucesso. O cheira. Fala palavras soltas ao seu ouvido para tentar causar um riso denunciador do falso sono: gostoso peito sono pescoço shoegaze buceta livro bunda nirvana. Espia. Não vê resultado. Deve estar dormindo mas estranha, essa sensação no peito ardendo discretamente, maior quase. O sente por entre a caixa torácica mas o safado está dormindo. Adormece novamente.


Antes, aumenta o vento. Graduação máxima. O vento falso bate mais forte e as persianas duplicam os pássaros. Dois casais, agora: azul verde amarelo lilás. Um deles escapa e trinca o vidro.


9.1.10

Camadas

(...)

Sueli tem os cabelos armados, encaracolados, pintados. Já foi ruiva, morena, loira. Atualmente a cor é essa mistura, camada sobre camada. Híbrida. Os cabelos são emaranhados de forma antinatural. Lembram uma porção de Miojo Lámen. Miguel é quase um expert em Miojo. Consegue identificar na tintura os temperos de galinha caipira, carne e bacon. O rosto de Sueli aparenta mais de trinta anos difíceis. Longos, sofridos, emaranhados nos seus cabelos. Sueli é manicura num salão que fica a poucas quadras de sua casa.

(...)

A textura das paredes cinza revela camadas sobre camadas de cores desbotadas. Enquanto Miguel, distraído, arranca com a unha lascas da tinta, como se procurasse identificar cada uma das cores de cada demão. Conclui que o tempo não é nada além de uma fina camada que se sobrepõe. Que o tempo não passa de sensação e ciclos. Pedro toca em seu braço, libertando-o do transe. Entram pelo pórtico que é quase uma ruína e param, desanimados, diante da escada imensa. Moradores surgem curiosos dos corredores, que mais parecem labirintos. Miguel e Pedro sobem lances e mais lances, os degraus rangem em advertência.


(MUTARELLI, Lourenço. Miguel e os Demônios. São Paulo: Cia das Letras. 2009. Pgs 10 & 33)

7.1.10

Topos


Continuo firme e forte na minha narrativa sobre os alpinistas: esses caras que arriscam a vida para sentirem o vento frio e a distância sobre o rosto.


Jacques é um bom nome para um alpinista, penso. Camile poderia ser o nome da outra alpinista. Os dois vivem juntos há quatro anos: tempo suficiente para escalar todas as maiores montanhas do mundo.


Jacques e Camille (resolvi dobrar o éle) entecortam uma ou outra montanha. Martelam com força a rocha. Marcam-na. E sempre, no topo, gravam os seus sobres dentro de um coração. Futuramente, pensam, todos os topos silenciosos de montanha forem marcados com corações, criarão uma rede de comunicação montanhosa cujo pensamento eterno, vagaroso e extremamente belo, chegarão aos dois em sonhos.


Então ambos acordarão no meio da noite e narrarão em uníssono as idéias da rede de montanhas e permanecerão o resto da noite abraçados, como quando ficaram sobre a mais fria de todas elas. E o sono virá novamente.

Fim