21.2.10

Novos Novos e Novos Velhos


Escrevo pouco sobre música. Muito pelo fato de desde a adolescência eu ler resenhas da Revista Bizz e vez ou outra ficar revoltado com alguma injustiça sobre uma banda que eu gostava ou ir conferir uma recomendação 5 estrelas para um pretenso salvador da música e achar a banda uma droga inaudível.



Levou um tempo para eu descobrir a inutilidade (e mesmo o ridículo) de tentar descrever, comentar e julgar um álbum em poucas linhas. É absurdo como tentar descrever um livro através de um jingle ou um filme através de uma tira. Como diz uma música dos Titãs (coisa que, como a Revista Bizz, se recusa a morrer), "o fácil é o certo e o certo é o fácil", somando ainda o agradável: nada melhor do que ouvir o álbum e tirar suas próprias impressões, conclusões ou inferências, se você for chatinho e gostar de falar um pouco difícil.


E, claro; quando concluir que tal banda é legal, passar a perturbar os amigos para ouvi-la e passar a cobrar de forma calma e intermitente uma opinião (se possível favorável) sobre ela.


Faço a minha parte de crítico musical com a virtude de não ser editado. Esnobo as novíssimas bandas da última semana adoradas pelos meus irmãos traçando para elas genealogias fáceis. Passo de forma aleatória gigas de músicas para os notebooks dos amigos do trabalho. Gravo cds para a minha namorada e faço questão de apreciar os detalhes duma faixa ou outra enquanto ela xinga maus motoristas e luta com perícia de dublê indiano para não deixar o carro ser destruído pelos terríveis motoristas manauaras.


E talvez a mais chata de todos os anteriores: não canso de elogiar o bom gosto, a organização e a beleza do meu iPod Classic de 160 gigas.



Vivo com o aparelhinho (ok nem tanto) de memória avantajada para cima e para baixo. Casa, trabalho, ônibus. Somente ouvindo música. Jogando Vortex e constatando como o Ladytron é perfeito desde o primeiro álbum. Baixando músicas, organizando gêneros, faixas e recolhendo capinhas com uma satisfação semelhante a colecionar fotos de mulher pelada figurinhas.


Até agora, agora mesmo, antes de terminar de baixar dois álbuns do Leonard Cohen daqui a 10 minutos, gostaria de citar e comentar sobre o álbum de 4 artistas (dois novos e dois velhos) que tenho ouvido bastante e escrever, veja bem, escrever, porque gosto deles e porque você, leitora de gosto bom e apurado, deveria ou deve continuar a ouvi-los. Eles são:



01. The XX: 2.0 > comecei a ouvir com um pé atrás após vê-los em listas de melhores de 2009 ao lado de bandas esquisitas (e chatinhas) como Animal Collective e Dirty Projectors. Mas não. Eles conseguem a façanha de serem estilosos e climáticos sem precisar de muito além de uma bela voz feminina (algo que me lembra [estranhamente] Everything But The Girl) e guitarras com fraseados limpos e desconexos que vão entre Raveonnetes e Sonic Youth.



02. Radiohead: In Rainbows (bonus cd)> o Ep que veio na edição especial do In Rainbows possui como maior mérito reunir todos os estilos pelos quais a banda mais intrigante e importante da música vem transitado nos últimos álbuns: coisas eletrônicas, bases de pianos matadoras, climas e climas. Só e suficiente.


03. Telekinesis: Telekinesis> Bubblegum algo meio Paul McCartney acompanhado pelo Death Cab For Cutie guardada as devidas proporções. Músicas são bonitinhas e sinceras. Dá pra ouvir sem a desconfiança que tenho tido ao ouvir as músicas mais recentes do Weezer e imaginar o Rivers Cuomo com um sorriso cínico atrás da mesa de som.


04. Leonard Cohen: Songs Of Leonard Cohen> Esperei bastante tempo para ouvir Leonard Cohen porque pensava ser algo apurado demais para um ouvido ainda jovem demais. Fiz o certo ao esperar até os 30 e estar bem distante de ser tão jovem. As músicas são todas belas e duma poesia e bom gosto tocante.


Abraço.



9.2.10

Sombras


A borda dos olhos não contém a sombra. A sombra não mais contida ao redor da borda dos olhos tornou a pele papel branco sobre o qual, bico de tinta, fora escrito algo cuja tentativa abrupta de apagá-lo só trouxe gravidade e sombra ao redor dos olhos contidos pelas bordas da sombra.


Sentou-se à borda da cama. Tecido de repulsa e ciúmes inexplicáveis ele pergunta com voz grave gostaria de saber quando exatamente você se tornou essa megera seca que não bebe não come e não trepa a olha fundo nos olhos e observa os cílios pálidos desde que você passou a ser um cretino ausente mais preocupado com as suas coisas idiotas e incapaz de passar um único dia sem tocar num copo de cerveja ou numa cortiça de cigarro ele instintivamente apalpa o bolso da blusa e busca no ar a tréplica poderia ser muito fácil de passar sem se eu recebesse algum tipo de afeto ao invés de ficar pleiteando esses toques breves frios como pagamento sem olhá-lo ela se ergue e sai do quarto deixando o rastro de voz até parece que você não recebe afeto de ninguém se duvidar além de mim deve receber afeto de mais duas ou três e agora fica posando de santo sentado na borda da cama.


O problema é a ausência. Até mesmo a ausência de problemas. O problema é a ausência de problemas em contraste com o ar de ao estarem olhando um para outro parecerem estar olhando para o filho do porteiro do prédio.



O filho do porteiro do prédio. Menino exemplo. Auxiliava o pai. Lavava os carros e os cachorros dos condôminos. Boletins perfeitos, o pai dizia, sempre dando um jeito de equipará-lo aos filhos dos bacanas que possuíam todas as oportunidades mas não tinham disciplina. Dirigiam antes da idade, fumavam maconha na área da piscina, davam a bunda. Era questão de três anos para o filho chegar à faculdade e sentar na mesma sala que eles para no futuro transformá-los em empregados, passá-los para o lado merecido da mesa, réus, funcionários. O garoto recebia incentivos de dois professores universitários. Livros. Revistas. CDs de MPB e música clássica. Um dos professores, após deixar a cachorrinha poodle para o banho e tosa, lembrara do pacote de livros no apartamento e voltou antes do tempo previsto: viu o garoto com a ponta do pênis para fora da bermuda, recebendo lambidas do cachorro. Não houve escândalo. O professor apenas recolheu o bicho e no dia seguinte, compungido e com crueldade inconsciente, relatou o fato ao porteiro, jurando que manteria segredo. O garoto tentou negar primeiro e depois justificar como acidente: Levou um tapa para cada uma das explicações. Depois do fato ele ainda esperou pelos serviços nas duas semanas seguintes. Nenhum dos condôminos levou novamente o cachorro para o banho. Os carros passaram a estacionar já lavados e polidos.

Além do peso ora leve, ora doloroso da vergonha, nada mudou na vida e no comportamento do garoto: ele continuou estudando, tirando notas perfeitas, ajudando o pai quando este se dispunha a aceitar ajuda. Aquele fora seu único erro grave na vida e o problema fora a circunstância: Flagrado, não pudera negar a culpa e conviver tranquilo com uma moral própria. Da pior forma, empírica, descobriu ser o grau da infâmia o que torna um erro eterno. Não importava quão bem fizesse àquelas pessoas no futuro ou quantos sorrisos sinceros recebesse como retribuição: ele se deixara ser lambido pelo cachorro e todos, por mais que fingissem normalidade e mesmo o tivessem perdoado sem ao menos julgá-lo, lembrariam para sempre disso e ao olhar para ele, mesmo brevemente, surgiria uma decepção silenciosa e súbita.



Ela vai e volta. Fala ao telefone. Some no quarto e reaparece diz vou sair com as meninas. Tem os olhos pintados. Desaparece na porta. Na ausência ele aumenta a música e observa a lombada dos livros. Odisséia. Um livro que nunca lerá na vida e mesmo assim conhece toda a história. É impossível circular a vida inteira entre ilhas e reinos e mares tempestuosos. Os anos passam e chega o dia em que se faz necessário trazer o navio de volta. Conviver com as lembranças e tolerar os vilões que cortejaram a tua mulher pelas costas. Descobri-la ora Nausícaa ora Penélope. As horas passam ouve um barulho de chave. Recompõe-se ao ver a mulher acompanhada de uma das amigas. Nos divertimos bastante ela passou um pouco da conta deixa que daqui eu assumo diz como se fosse um marido solícito e não um demônio domesticado com duas ou três frases ferinas para o dia seguinte. Tira a calcinha o vestido e a leva de sutiã ao chuveiro. Observa a água sobre o corpo branco as mãos com esmalte verde apoiadas sobre o azulejo branco a boca pintada erguida com sede bebe água fria sem filtro. A carrega nos braços a leva até a cama a deita sobre a toalha. Sem rugas além do frio tornando os lábios exangues. Sem idade aparente. Descobre sob o sutiã um papel preso dobrado manchado de tinta. Retira:


Existem mo entos na ida em que é prec o dar um p so à frente. Em meu aso vario . Até porque v ê parec est estático nesse temp ue temos dormido ntos. Bana ação da mágica? Não sei. O que sei é que é apenas uma viag curt . Um sem a ou um po mai . Talvez nem isso porque mesm uma viagem legal a gent começa a ficar com saudades de casa e eu posso vir a sent i o mesm mesmo ndo difícil sentir saud suas. Saudade. Me apropr do direito de se ti-la. Costume.


A borda dos olhos não contém a sombra. Observa os olhos manchados. O papel manchado sobre o criado-mudo. A enxuga nas bordas e curvas e mesmo tanto esmero não é suficiente para tê-la totalmente seca. Interrompe ao ver os olhos manchados entreabertos me come ela diz e por mais que exista rancor e receio isso o torna mais homem. Demoram. Após os espasmos ela adormece ele vai ao banheiro volta com toalhas pequenas úmidas a enxuga novamente e com algodão e demaquilante circula cuidadosamente os olhos até não ver mais nos cílios pálidos adormecidos quaisquer resquícios de sombra.


3.2.10

Plano


Boa Vista é uma cidade plana e calma. Ruas largas e um vento sobrenaturalmente litorâneo vindo de um oceano venezuelano invisível. Uma incrível quantidade de pessoas educadas. A calma do interior entrecortada com elementos urbanos e tudo alguns reais mais barato nos faz pensar numa possibilidade ao calor e a desordem deseducada manauara.

No caminho de ida, algumas paradas. Rodoviária de Presidente Figueiredo. Posto antes do trecho esburacado da reserva indígena. Existem placas desaconselhando os motoristas a pararem ao longo do trecho da reserva; algo que nos remete àlguma espécie de Simba Safari humano. Mais uma parada em um posto após a reserva para comer pastéis feitos na hora no meio do nada para seguirmos por horas e horas de terreno plano com vacas brancas estáticas e montes que aparecem e desaparecem até o maior deles, Roraima, fazer-nos fixar a vista. Surgem princípios de cidades que nos enganam. Casinhas, comércios. Boa Vista está longe disso.

Provavelmente eu escolheria a orla como lugar mais constante caso vivesse na cidade. A orla é agradabilíssima, limpa, civilizada, e o vento oceânico fantasma é ainda mais forte e nos obriga a contorcionismos para acender um cigarro. Noite. Na manhã seguinte, colocamos os pés sobre o Rio Branco que nos deixa assim meio Cristo quando precisamos caminhar metros e metros sobre o raso até encontrarmos a primeira possibilidade de mergulho.

Mais tarde, um pouco de cansaço e saudade durante uma caminhada na praça. Bem grande. Pequenas pontes íngremes e brinquedos. Aquela ansiedade coletiva. Conversas longas com os amigos. Temas recorrentes. O sono de véspera de viagem não pode ser considerado como descanso. A viagem de volta desta vez mais rápida e o motorista, condutor escolar profissional, deixou cada um de nós na porta de casa.

O estirão. Setecentos quilômetros. Ida e volta. A mais simples das viagens sempre deixa algo extenso no peito.


O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...