31.3.10

Dez Metros Acima


A ida inicia
com uma longa estadia frente ao passadiço
e ora uma têmpora ora outra observando o largo da rua
e em cada mão, em cada um dos dedos, uma cor diferente descascando
.

Aperta com força a alça da bolsa. Relembra os fatos recentes.
O céu acima
Azul entrecortando branco
.

Observem-na: pálpebras inconstantes como asas. Diferentes tons de cinza sobre os olhos. O cenário organizado em rua entre o abrir e fechar de palpebras entrecortando trevas
.

Abre a bolsa

e dentro dela há uma caixa
>
e dentro da caixa um pássaro
>
e dentro do pássaro um coração assustado
>
e dentro do coração, sangue
.

Veias diminutas trincam o canto dos olhos
cercam a ponta das pálpebras
enquanto observa o pássaro e ergue a pequena caixa marrom com superporos para respiração e diz Serge, seu nome será Serge,

pensa nunca te dei um nome, Serge, porque sempre achei você algo que se move; e não algo estranho e diminuto com vontade de ir para cima e depois brincar com a vida para baixo: o peito contra o vento, os olhinhos fechados, gosto de inseto no bico
.

Não tem problema
diz o coração cego e veloz de Serge
antes de o impulsionar no fundo da caixa
e mover suas pequenas estruturas de asas ao longo da rua

e abaixo

desfocando o misto de telhas varais e automóveis semelhantes a insetos
cuja estruturas por vezes e o enganam e volta em meio ao vôo porque vê o rosto que o libertou da caixa
.

Desce

e pousa sôfrego em um dos dedos
.

Serge, pensa a estrutura pela primeira vez
:

Meu nome é Serge e cheguei de um vôo curto de dez metros de altura
.

Fora da caixa agora parece tão feliz e confiante a ponto de roer o vermelho das unhas da garota

e partir novamente.


19.3.10

Partições



Uma caminhada de uma hora é melhor que nenhuma. Sempre gostei de caminhar e tiro bastante proveito durante duas noites por semana.

O caminho são aclives entrepostos e boa parte das vias são embaraçadas pelas desordem e o cheiro de peixe. A caminhada não permite uma concentração além de segundos. Boa parte da linguagem vagando na cabeça só se permite entender as letras das músicas.

É preciso forçar as pernas, prestar atenção às travessias, desviar das pessoas caminhando no lento câmbio de marchas manauara. E isso é bom porque tenho pensado bastante no trabalho e isso me incomoda um pouco.


Trabalhar em algo interessante podendo mostrar todas as coisas interessantes possíveis as quais, mesmo dentro de um contexto, possuem uma gama gigante, preenche partições do cérebro que deveriam estar envolvidas no pensamento de outras coisas e das mais de noventa pessoas envolvidas no processo. Muitas partições em tempo integral ou tendendo.


A literatura é quem mais reclama. E olha que sou adepto do foursome literário. Sempre três livros ao mesmo tempo. O segundo livro da Catherine Millet , uma edição L&PM boazinha de Enquanto Agonizo, do Faulkner e, o que me consome mais tempo: O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar. Um livro fantástico e que seria fonte de fortes empolgações se antes não eu houvesse lido Avalovara.


As idéias convergentes. Sempre falam ser mal de professor (dos bons professores) estar sempre relacionando tudo a uma possível aula. Acontece comigo. Acontece com meus amigos do trabalho. Acontece com Josephinne quando desfoca o verde dos olhos por alguns segundos e retorna com uma idéia ou insight para usar em sala.

Pensar/ ter idéias para o trabalho é algo bom, mas que deve ser contido. Repartido ao longo do dia. Ou se corre o risco de virar o arquétipo sartreano do homem cujos trejeitos e pensamentos são derivados da profissão, quando o ideal é ser o oposto. A ordem, a ordem.


Ligo o computador. Abro o caderno. Carrego um vídeo contendo duas mulheres sobre um cenário totalmente branco. Os zeros e uns imitando sons, transformados em sardas e peitos. A borracha destruindo a si mesma para apagar o contragosto sobre o bloco. A escrita do lápis se assemelha mais ao humano porque vai se cansando ao longo das linhas. Gradativamente assume um fôlego grosso, grafite.

Descrevo. Registro a minha letra. As observo e depois do ponto final observo os escritos e comento a mim mesmo:


Toda narrativa erótico-pornográfica está fadada ao ridículo. E narrar a cena onde duas mulheres deitam sobre um cenário totalmente branco é um bom exemplo disso: as palavras e as descrições não têm como escapar ao lugar-comum pelo simples fato da imutabilidade do corpo humano e seus atos: As palavras, ora obscenas; ora simplistas, são cerceadas por esse limite. O qual, ao tentar ser transposto, desvirtua o caráter físico da ação.


O ato sexual, para ter um impacto válido quando narrado, deve ser carregado de prerrogativas e, quando tal ato acontecer, deve ser narrado brevemente e ser denso em significados.

Ninguém racionaliza o ato sexual quando se é o protagonista vivo. E pensá-lo em detalhes, longas narrativas, é um exercício contraditório, dervirtualizante e inútil
como narrar uma caminhada fisicamente: Um pé. Depois outro.

Melhor não escrever além de um parágrafo sobre.



14.3.10

Gelo


Tenta acordar. Através dos olhos invisíveis adagas finas trespassam a cabeça. Ouve a voz dispersa no outro lado do quarto. Implora pelas pedras de gelo. Pares de minutos equivalem a horas quando o cérebro, perceptor do tempo que não existe, tem sua estrutura cega trespassada por adagas finas invisíveis.


As pedras chegam. Uma sobre cada globo e sobre elas uma venda. O sol tenta entrar pelas frestas. Sente o calor do outro corpo sentado sobre o seu, erguendo levemente sua cabeça, envolvendo a venda vermelha agora próxima ao carmim, contendo o gelo, dando ao seu rosto o aspecto de globo glaciais salteados dum ser tristíssimo jorrando lágrimas frias.


A noite polar dura mais de vinte e quatro horas e sente-se num dos pólos. O sul, aquele com o qual ninguém se importa. O vento vazio tocando o rosto. O deserto branco com o qual sonha invariavelmente e acorda com uma dor de cabeça aguda como que estivesse sendo trespassado por adagas invisíveis.


Um par de dedos abre a sua boca e pousa um comprimido sobre a língua. Água gelada. A mesma mão mensurando a temperatura da fronte e limpando as lágrimas falsas. Química. Frio a encontrando. Ergue-o. Enxuga os cabelos. Os olhos estão selados quando novas pedras são colocadas sobre eles. A química faz efeito.


Ele abre os olhos e está no frio novamente. Os pés descalços. Observa o ermo e, acima, um céu sem sol ou sem lua. Um meio-termo. Uma noite sem dia e o inverso. Toca os olhos: sumiram as adagas. Não sente frio.


Sente um calor sobre o peito descendo ao colo. O gosto de amora ácida na boca desaparecendo. Observa o horizonte vazio, frio. E sabe ser branco como o chão e o céu o corpo invisível sobre ele.


O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...