30.4.10

O Canto


Deito no quarto. O episódio do pregador fanático me cansou um pouco. Essas conversas metafísicas mesmo ultrassimplificadas causam uma palpitação breve. Espalho meu tórax sobre a cama. Os cantos do lençol vincados como envelopes cedem ao peso do meu corpo. As costelas descansam o tórax. Os rins descansam as costas e todo o resto com a sua dor aguda interna aliviante.

O único ponto de luz presente no quarto deixa à mostra uma forma negra agachada num dos cantos. Move-se. Não me espanto ou assusto: digo à meia voz que ela suba até a cama. A nenhuma forma desconhecida ou masculina é permitida a passagem além da soleira cinco andares abaixo.

Curioso como o cansaço aumenta quando se descansa. Deitado na cama sinto-me esgotado mesmo sem ter feito nalgo nas últimas duas horas. Algo como uma glândula oculta artifício desse corpo branco de um metro e oitenta que contém as enzimas do cansaço que só se libertam quando os rins estão em posição de descanso. Meus antebraços se tocam. Reconhecem-se. Vem, que medo é esse? Digo.


28.4.10

O Pomo Sujo


Ônibus. Senta-se ao fundo devolvendo aos curiosos um olhar agudo inferiorizante. Ouve grunhidos dum fanático religioso: o rosto transmutado, as orações confusas, desconexas, o mal sendo desejado a todos os que não louvarem o seu deus incerto guiado por coordenadas bíblicas como um jogo de batalha naval sem navios — apenas naves à deriva num mar absurdo sem fim nem começo.


Conhece o pregador fanático. Percebe o mal guiando sua língua inculta, empapando o colarinho abotoado até o pescoço. Todos desviam o olhar do pregador. Ora constrangidos, ora temerosos de serem parte direta de seu discurso açoitando a tudo e a todos. Discurso fruto de um ódio fruto de uma série infinita de frustrações fruto da feiúra que o cerca desde a infância. As mulheres maquiadas, os bebedores de cervejas, os adoradores de imagens, os fumantes, os consumidores de pornografia, os admiradores da televisão. Todos, sem exceção, companheiros de Judas. Exceto ele; outrora também companheiro, pecador, mas agora regenerado, limpo e livre, diz.

Seu pomo sujo sobe e desce. O pregador bastardo tem a voz trêmula. Sua e esfrega o rosto com um lenço. A água brota em seguida. Nunca se adaptou ao nó da gravata, e perde ainda mais o fio do discurso quando vem o reflexo de afrouxá-la. Os reflexos, todos sendo guiados por eles. Olhando a não-paisagem pela janela. Levando as mãos aos cabelos. Contendo bocejos. Cobrindo sorrisos para esconder as falhas entre os dentes. Pescoços sonolentos permitindo que as suas cabeças tombem para trás e para frente.

Após uma curva brusca, o pregador percebe estar perto de casa. Encerra bruscamente o sermão dando uma aleluia-ponto-final. Desce.

Ele também desce e o acompanha a poucos passos. O fanático vira-se enquanto caminha. O rosto ainda inflamado. O livro de capa preta sob uma das axilas. Tenta sorrir. Está exausto. Ergue a mão e diz Deus te abençoe, irmão.

Por que você faz essas coisas, Antônio?


De onde você me conhece, irmão?


Certamente não é do galpão que você frequenta. Até porque o dono de lá não te dá a palavra, temendo as asneiras que você pode falar. E você sabe que estou longe de ser teu irmão.


Não estou entendendo.


Está sim. Não se faça de desentendido. Você sabe quem eu sou.


Certamente não é do bem.


Como assim você pode dizer se alguém é bem ou do mal? Olha bem nos meus olhos e diz se você não me conhece.


Antônio o encara e baixa a vista, impotente.


O que houve? De repente ficou sem palavras?


Eu só estou tentando evangelizar. Só isso.


E quem disse que aquelas pessoas precisam disso? Quem disse que precisam de você? Você deve saber que muitas delas são imensamente mais sábias do que você e só querem um pouco de paz antes de voltar para casa. Muitas delas trabalharam, construíram. Certamente não para eles, provavelmente algo diminuto; mas construíram. E quando finalmente voltam para casa, espremidas, indo e vindo dentro de um automóvel grande e fedorento, ainda são obrigadas a ouvir os teus julgamentos sem conhecimento de causa. O que muito me surpreende. E o que muito me enoja; vindo de um homem que há um par de meses fazia exatamente as mesmas coisas que agora condena e que ainda hoje as faz escondido, após ter inventado uma pequena brecha na mesma lei que segundo você a todos observa e condena. Ou você pensa que não sei sobre os goles de bebida escondidos? Ou sobre a revistinha que você mantém sob o colchão e não tem forças para jogar fora? Ou os pensamentos constantes e nem um pouco pudicos que você tem sobre as suas duas vizinhas todos os dias antes de levantar da cama? Muito me decepciona, Antônio, você usar todo o fôlego e toda a voz que não ganhou de graça para atormentar os outros com as suas releituras cegas de um livro impreciso. Pedir a eles para serem humildes de uma forma ridícula, humilharem-se sem qualquer propósito além de alcançar um paraíso ou de evitar um inferno que você, Antônio, não tem a menor idéia de como seja. Que tipo de imbecil gostaria de ser propositadamente fraco? Que tipo de idiota gostaria de passar ridículo e se autoflagelar disfarçando essa necessidade sob uma aura sapiente falsa, suada e ridícula? Anda, ainda estou esperando uma resposta decente para a minha primeira pergunta. Me responde.


Por favor, me deixe em paz! Vai embora em nome...


Fala.


O que você fez comigo?


Só fiz perguntas. E você não as respondeu. E por causa disso não responderá mais pergunta alguma usando essa retórica surda e insana que você tem usado para atormentar os outros. A partir dessa noite, e com ela amanhã e com ela as outras você terá que falar com outros propósitos se não quiser ficar incapaz de um simples murmúrio.


(Sem qualquer agressividade ou movimento abrupto, ele pousa um dos polegares sobre o pomo suado e sujo e o retira em um átimo. Estende a outra mão. Aturdido, Antônio o entrega o livro cheio de grifos e notas pessoais. Também retira a gravata de nó mal dado e a joga no chão)


Eu aguardo você chegar em casa e pedir desculpas a tua mulher e aos teus dois filhos. Eles estão extremamente constrangidos pelo papel de louco que você tem feito.


Antônio começa a caminhar em direção ao beco aonde descerá vários degraus até chegar a um outro beco menor onde encontrará a sua casa com a luz da frente desligada para economizar energia.
Sente-se assustado e só mas, estranho, sente-se livre, sem obrigações metafísicas, sem qualquer necessidade específica de se preocupar com o universo. No banho, observa o chão de cimento. Chega até a cama e dorme um sono de dez horas seguidas sem sonhos marcantes. Não sonhará nem mesmo com o homem que recolheu a sua gravata suja do chão, enrolou-a no livro, e entrou no ônibus seguinte.

27.4.10

Espelho


Aqui, primeiramente, tinha sido como uma sangria, uma surra de uso interno, uma necessidade de sentir o estúpido passaporte de capa azul no bolso do casaco, a chave do hotel bem segura no quadro da portaria. O medo, a ignorância, o deslumbramento: isto se chama assim, aquilo se pede assim, aquela mulher vai sorrir agora, depois dessa rua começa o Jardin des Plantes. Paris, um cartão postal como um desenho de Klee ao lado de um desenho sujo. A Maga surgira certa tarde na rue du Cherche-Midi e, depois disso, quando subia a meu quarto da rue de la Tombe-Issoire, trazia-me sempre uma flor, um cartão-postal de Klee ou de Miró e, quando não tinha dinheiro, escolhia uma folha de plátano no parque. Naquela época, eu costumava procurar arames e caixotes vazios nas ruas, de madrugada, e fabricava móveis, máquinas inúteis que a Maga me ajudava a pintar, móbiles que giravam sobre as estufas. Não estávamos apaixonados, fazíamos amor com um virtuosismo desligado e crítico, mas sempre caíamos, depois, em terríveis silêncios. A espuma dos copos de cerveja ia ficando como estopa, amornando-se e contraindo-se, enquanto nos olhávamos e sentíamos que chegara o momento. A Maga acabava por se levantar e dava voltas inúteis pelo quarto. Mais de uma vez, eu a vi admirar seu corpo no espelho, segurar os seios com as mãos, como nas estatuetas sírias, e passar os olhos pela sua pele numa lenta carícia. Nunca conseguir resistir ao desejo de pedir que se aproximasse, sentindo-a curvar-se um pouco sobre mim, desdobrar-se outra vez, depois de ter estado por um momento tão só e apaixonada diante da eternidade de seu corpo.



CORTÁZAR, Julio. O Jogo da Amarelinha. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. Pg. 20


24.4.10

O Parque


No parque existem árvores e um tanto de deserto pela maioria das pessoas estarem no trabalho ou em filas de bancos. Chega ao banco sob a árvore. O tocara e tocara a árvore e ambos o pertenciam. Uma tragada longa. Vindo o vento e o clima ameno, sombra, torpor leve. Observa o horizonte feito de muros e apartamentos permeados pela sua fumaça branca.


Lembra de si mesmo. Tempos. As casas permeadas por fumaça densa como se estivessem prestes a serem atingidas pelo fogo. O qual não havia — só havia o seu calor e murmúrio. As calçadas eram limpas e as soleiras eram de cromo maciço. Encontravam-se e deitavam-se pés e costas na grama. Observavam o sol claro e inofensivo filtrado pela névoa. Abraçava-a e só havia calor e barulho entre eles e música e vozes ao longe onde ninguém se importava e só encaravam os rostos uns dos outros quando havia interesse erótico.


Erguiam-se e caminhavam pelas ruas fazendo da tarde noite procurando festas no subsolo. Encontravam uma porta aberta. Desciam escadas e cumprimentavam rostos conhecidos e conversavam em voz alta para fazerem-se ouvir entre o calor e o barulho longe dos carros metros acima. Depois voltavam à superfície onde está agora, sentado em seu banco, percebendo não estar mais sozinho em meio ao calor e ao barulho da cidade. Há uma mulher ao seu lado.


Um ombro branco. Você. Sim, a mulher responde. As maçãs polidas pelo sol. O vestido deixa o colo à mostra. Um relacionamento próprio e com símbolos que ninguém conhece faz com que ele use as mãos para tocar o rosto da mulher sem dizer palavra. Corre os dedos por entre os cabelos que mudam de cor e de forma conforme a época do dia e ouve e sente o calor e o som diminutos dos pelos ao toque dos dedos.


Beijam-se. Ela pergunta o que ele tem feito. Tenho descontado os cheques. Os dias por aqui me fazem bem. Apesar de tudo estar cada vez mais feio. Entropia, ela diz sorrindo. A terrível ordem inevitável das coisas tornando-se cada vez mais feias. A gente feia. A linguagem feia. Seria tudo mais simples se você estivesse por aqui. Se pudéssemos segurar as mãos enquanto eu faço favores em troca de cheques com assinaturas irreversíveis. Eu também gostaria de ter as coisas nesse modo e dessa maneira: a mulher esconde uma das alças do sutiã sob o vestido branco. Beijam-se.


Ela diz mesmo sabendo eu continuo tentando consertar as coisas, ensinar as pessoas através de pequenos gestos. Mesmo sabendo do enfado de tudo. Gostaria de ter tão boa ventura, ele diz, tateando o bolso; desta vez sem encontrar os cigarros. Ela retira o maço da bolsa. Não me acostumo com as tuas prestidigitações: É divertido, mas me assusta. É assim que reponho algumas coisas nos seus devidos lugares, ela diz. Faz parte do método. Tenho que praticar sempre. É assim que conserto o rosto e o interior das pessoas.


Ouvem os primeiros passos do fim da tarde. Os caminhantes do parque. Um deles passou há certo tempo da meia-idade e acena. Conhece? A mulher pergunta. Sessenta e cinco anos. Graves problemas cardíacos. Um cheque de cinco mil reais e agora ele caminha e acena. Bastante justo, ela diz, não soubesse ele das conseqüências póstumas. Isso é outra história. Além do mais, eles não se preocupam com isso. O futuro é um bolo de energia cega tentando não ser decomposta. Você bem sabe, não sei nem porque estou falando isso.


Sinto muita falta da nossa cidade, ele diz. Dizem. Ela concorda. Interessante como consideramos o passado mais denso do que o presente quando na verdade ele é um monte de energia desperdiçada — uma simulação emprestando os elementos do presente. Como esse banco que me lembra o nosso banco de antes e essa tarde lembra a tarde de antes e o teu decote o exato decote que você usava e isso me parece agora mais denso porque minha percepção das coisas é melhor do que antes. Envelhecesse, o teu rosto seria revestido por uma película de passado. Pode parecer ridículo, mas sinto falta da fumaça da nossa cidade, ela diz. Deve ser por isso que fumo tanto. Fumamos. Um dia a gente volta. Aquiescem. Um olho tocando o outro numa cumplicidade intangível.



13.4.10

A Fila


A fila é um artifício simples e eficiente criado pelo mundo civilizado para deixar claros seus estereótipos. Os mansos de cabeça baixa. Os velhos, as gestantes e os defeituosos em uma fila menor. Os clientes especiais numa versão ainda menor e mais gorda do que as demais. Todos têm em comum serem apenas representantes ou subalternos dos verdadeiros donos do dinheiro.


Por enquanto ele faz parte da fila maior. A que se desdobra como uma cobra imensa. Sujeitos sem rosto como vértebras duma serpente burocrata. Uma calda réptil crescendo sempre. Uma cabeça nervosa olhando para todos os lados, umedecendo as contas de papel e apalpando o pouco dinheiro no bolso menor da calça. Alguns se distraem observando videoclipes no televisor sem som e não ouvem o chamado dos caixas: sujeitos brancos usando gravatas com o mesmo nó triangular folgado. Os homens têm os cabelos partidos em caminhos brancos. A ordem capilar.


As mulheres possuem rostos sóbrios e longilíneos. Nunca conseguiu reter um rosto de caixa de banco e reconhecê-lo em qualquer outro lugar que fosse. Eles parecem viver ali, naquele mundo refrigerado e irritadiço atrás do balcão. Imagina haver nos bancos túneis os interligando a São Paulo — lugar aonde todos aqueles homens e mulheres uniformizados voltam ao final do expediente em supervelocidade suficiente para pegar o metrô das cinco.


As dúvidas se entrecruzam. Polegar e indicador apoiados em cada uma das maçãs do rosto, deslizando até o queixo antes de afrouxar o nó da gravata e se observar como parte dum organismo que se move. Chega a sua vez. É atendido por uma mulher loira. Os cabelos enraizados nas têmporas, puxados e unidos por uma trança posterior, lhe dão certo ar nórdico. Está bem-humorada. É competente sexualmente, apesar da queda de frequência e qualidade do sexo após o nascimento do primeiro filho; agora com três anos e integrante precoce de uma creche onde aprende músicas e outras coisas que tomarão um lugar no inconsciente que deveria ser ocupado pelo pai e pela mãe — não precisasse ela carimbar e calcular antes de lançar um sorriso mecânico para amenizar o aborrecimento do cliente com uma volátil ilusão de simpatia.


Sai do banco. Põe os óculos escuros. Observa os dois sentidos da avenida. Precisa escolher um. Acima, Centro. Abaixo, bairro. Descontou os cheques. Tem o resto da segunda-feira livre e, se não sentir necessidade, todo o resto da semana.


Seu inferno é a cidade quente a ponto de tornar impossível qualquer possibilidade de acender um cigarro. Para tragar um cigarro precisaria de um lugar frio. E fumar em lugares frios é proibido. Poderia ir à praia e tirar os sapatos. Poderia afrouxar o nó da gravata e afundar os pés na areia; não fosse seu inferno uma praia de água negra e areia suja tangenciada por uma orla barulhenta ruindo toda sorte de atrocidades musicais. Então nem acima, nem abaixo: meio. Vai ao parque.


3.4.10

Poe




“Sim, não há dúvida de que Poe foi um homem de gênio, mas ficamos com essa convicção não ao ler determinadas páginas de sua obra, mas ao lembrar o conjunto. Eu tenho um conto sobre um homem que decide desenhar o mundo. Então, senta em frente a uma parede branca — nada impede que pensemos que essa parede é infinita —, e o homem começa a desenhar todo tipo de coisas: desenha âncoras, desenha bússolas, desenha lâmpadas, desenha torres, desenha espadas, desenha bengalas. E continua desenhando assim, durante um tempo indefinido — porque ele teria atingido a longevidade. E enche essa longa parede de desenhos. Chega o momento de sua morte, e então lhe é permitido ver — não sei muito bem como —, com uma só olhada, toda sua obra, e percebe que o desenhou é um retrato de si mesmo. Agora, eu acho que essa parábola ou fábula minha poderia se aplicar aos escritores, ou seja, um escritor pensa que fala de muitos temas, mas o que realmente deixa é, se tiver sorte, uma imagem de si próprio. E no caso de Poe, vemos essa imagem, ou seja, temos uma visão bastante concreta de um homem de gênio, de um homem muito infeliz... E isso mais além, bom, dos poemas, que considero medíocres. Poe foi, na melhor das hipóteses, um Tennyson menor, embora seus versos sejam muito lindos, é claro.”

(BORGES, Jorge Luis. Edgar Allan Poe, in: Sobre a Amizade e Outros Diálogos. São Paulo: Hedra. 2009. Pg 200)