29.5.10

Camila


Este blog é um blog de resenhas tardias e mal escritas. Mesmo assim insisto, como a última cerveja que não faz bem algum além do orgulho pessoal do excesso.


Assisti Nome Próprio muito depois de seu lançamento. Canal Brasil. O filme tem mais de uma hora e meia, o que o tornaria um pouco incômodo; não fosse incômodo ele todo, de sua cenografia aos figurantes.

Confesso que antes de assisti-lo vi algumas cenas esparsas: Camila (ainda vinculada a Leandra Leal) escrevendo nua, bebendo e fumando e pensei: Hank, this is the best movie ever! Um longa sobre uma garota aspirante a escritora que digita letras em todos os lugares e com os peitos à mostra!

Foram apenas teasers que funcionaram como atrativo. Bem menos baixos que a capa horrorosa do DVD. Porque, quando se começa a assistir a história, vemos a dor e o vazio de alguém perdido, sem saber o que fazer da vida e procurando na escrita uma forma de preenchimento dessa dor, desse vazio.

Camila não é e jamais será uma escritora com propriedade como um J.M. Coetzee ou um Osman Lins; arquitetos-engenheiros conscientes de um ofício lógico que exprime emoção em técnica: Camila é uma escritora amadora, no melhor e no pior sentido.

No pior porque escreve apenas o que vive, e isso é um pecado mortal pelo fato de não seguir a máxima de Hemningway: write drunk, edit sober. Pense e escreva como se estivesse bêbado, figurado ou literal. Delirando e imaginando situações inusitadas que jamais seriam executadas por uma mentalidade inalterada e comum.

No melhor sentido do termo ao ter a disciplina de escrever todos os dias e todas as noites porque ama o ofício; assim como o náufrago que ama o fato de ter que remar com as mãos para sobreviver.

Esse meio-termo perdido entre dois mundo é um dos fatos que a tornam sedutoramente perdida e o filme uma obra-prima pequena pontuadas por vários momentos e diálogos simbólicos.

Além de não haver nada mais sedutor do que uma escritora perdida em São Paulo com os peitos à mostra e reverenciando os nossos escritores perdidos preferidos. Afinal, o grande da Literatura foi construído sobre os seus corpos.


23.5.10

O Romance Infantil Filmado




O romance infantil clássico é construído sobre símbolos. Tais símbolos se dividem entre ilustrações e parágrafos curtos que carregam universos de interpretações e significados. A pós-leitura é como a do romance autêntico: os significados ocultos vêm e vão e serão para sempre reinterpretados.

Escrever um desses romances autênticos é talento para poucos. Transpor um deles para as telas, mantendo o clima de estranhamento e a sua carga simbólica, é talento para menos pessoas ainda. Maurice Sendak, escritor, e Spike Jonze, cineasta, pertencem a estes pequenos grupos.

A realização de Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are) possui como grande mérito misturar o que há de melhor nestes dois mundos: os símbolos da literatura e a atração estética da cinematografia.

A história conta sobre Max, um garoto mimado, que após uma crise de ciúmes da mãe foge para a floresta e navega até um mundo imaginário (?) onde encontra monstros que o elegem seu rei e passam a brincar com ele.

A maior parte da história se passa durante esse convívio sem tempo definido, onde Max aprende a lidar com os monstros e as suas diferentes personalidades, ora tornando-se mais próximo a um, ora a outro, mas sempre tendo maior afinidade com Carol, temperamental como ele próprio.

Então Max decide voltar para casa e o filme termina.

O plot seria simples assim se Spike Jonze não dominasse a cinematografia com a estranha delicadeza com a qual os autores infantis conduzem suas histórias. Ele nos conduz durante mais de uma hora de delírio (?) através de um mundo que possui a complexidade, a intensidade e a inconstância da consciência infantil. Suas mudanças de clima e de plano, seus cenários e diálogos absurdos por vezes fascinam e por vezes aborrecem e, como todo grande livro, possuem um clímax belo e memorável que nos acompanha após a história ter terminado.

E permanece. E nos faz pensar em nós mesmos e nos monstros que brincaram em nossa psique. E ainda brincam.


2.5.10

A Madrugada na Padaria


Aguarda um pouco, digo. Vou até a varanda. Observo os carros abaixo. O piso intermediário, nem tão alto nem tão baixo, me faz pensar nos suicidas pobres de criatividade e recursos. Trago. Apago a ponta. Volto ao quarto. A forma recém chegada observa as mãos. Deito-me. Pergunto como foi o dia. Balbucios. Minhas roupas sobre a cadeira. Você precisa falar mais alto. É difícil ser romântico nesse mundo, ela diz: os faço falar isso antes de causar o desmaio. Os envolvo e sussurro isso dentro do ouvido deles. Mesmo com medo, a maioria não consegue decodificar os signos e a finalidade do que ouviram.


É difícil ser romântico nesse mundo: digo, entrecortando o diálogo sem um travessão antes como nos romances do século vinte. Essa frase, se você me perdoa, não faz muito sentido para a maior parte dos homens. Consciência do outro e do mundo e uma brochura encadernada com cento e vinte páginas que causam efeito imperene não pertencem ao léxico burro e cego das pessoas que dormem acordam suam e não pensam.


É uma missão de merda, ela diz, lábios entreabrindo-se. Pressiono o corpo negro derivado de sua cor amorfa. Faz-se a mulher finalmente. A nuca do corpo recém-formado pousa sobre meus braços como se estivesse assistindo a um filme sobre a parede branca. No meu quarto só existem paredes e livros empilhados por ordem de final. Os felizes e os tristes. Os circulares e os sapienciais. Os bons romances pulam de uma pilha para outra cada vez que os releio. Com os polegares, meço a simetria das costelas. Os lábios grossos. Os olhos me observam fazê-la criar sentido e sentir a rigidez das formas. Umas cedendo, outras não. Minha amante negra. Ela sorri pronunciando seu próprio nome. Isso se chama dor, mas só um pouco e isso, agora, que você sente é o extremo oposto. Aguarda. Preciso sentir mais um pouco, assim, com você se movendo quase. Você grita: é o ar passando com força pela tua garganta e chegando exagerado ao lado de fora. Horas. Sei que você não pode sair. Sempre souberas disso e mesmo assim entrou. Aqui só entra e sai quem eu permito e jamais deixaria você sair da forma que entrou: sem forma, sem voz, sem pele negra com água nos poros. Levanta, preciso olhar uma última vez para o que criamos juntos. Jamais deixaria você chegar como entrou, usando as sombras dos cantos das paredes para se mover entre cômodos e quase matar de susto os maus amantes. Eu vou te conduzir pelas mãos até a porta e pousarei meus polegares nas maçãs do teu rosto e te olharei fundo nos olhos e te deixarei em forma tempo suficiente para caminhar três blocos e tomar café da manhã observando os insones recém-chegados das festas. Dobro as barras e as mangas da minha calça e camisa que cobrem seu corpo. Ponho um cheque no bolso da frente. Sua existência será curta o suficiente para não se importar com a palavra descalça e ignorar os olhares anônimos por estar completamente absorta tentando transcrever o gosto do seu primeiro café.


O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...