27.6.10

O Barulho da Altura


Observamos a terra dezenas de quilômetros abaixo e tentando nos enganar se fazendo parecer estática para evitar o pânico. Tentando se mostrar escura. Algo entre nuvens de sonho. A mediocridade se assomou sobre as companhias aéreas brasileiras. Tratam-nos como crianças. Oferecem sucos. Barras de cereais. Refrigerante diluído em gelo. O tipo de aperitivos que deixam apenas os idiotas satisfeitos. A minha garrafa prateada sob o bolso do suéter. Retiro-a. Tenho a mulher com os ombros ainda frios encostados aos meus. Abraço-a. Acorda. A camiseta verde fluorescente sob o suéter negro. Os cabelos penteados. Ainda sente frio. Talvez devido ao quarto de algumas horas antes. Toco a parte inferior do lábio inferior. Ainda pálido. Levo a garrafa prateada até sua boca. Gim. Um gole cheio. Ajusto aos seus os fones de ouvido. Ela adormece novamente.



Estampas


Algo assim como repousar as mãos sobre o painel do automóvel ainda em funcionamento e não conseguir desligá-lo por não saber o óbvio em dirigi-lo. Tenta acalmá-la. Ela arfa. Alheio a todos os meandros que causaram tal fúria, não deixa de repousar os olhos (momentaneamente) sobre as curvas escuras sem decote.

Causar uma fúria planejada sempre fora algo que causara certo orgulho. Escolher as palavras. Soltá-las como pequenos combos, agulhadas morais até a última frase, seca e pontuada por um sorriso prestes a sair, causar a reação desejada.

Desta vez não. Não sabe o que fizera a ponto de causar tal arfor —, ou seja lá qual palavra seja usada para representar uma mulher branca com olhos injetados de raiva.
A irrita ainda mais quando a deixa parada no meio da sala e encerra a história.

A sala é branca e se encerrou em um parágrafo — aquele ali, anterior, acima — e a mulher arfante permanecerá lá por um tempo indefinido. Nua e arfante. Olhos lacrimejantes (de raiva) e verdes. Uma cicatriz na perna esquerda consequência da queda de um muro. Confiara nos seus instintos de equilibrista a falhara ridiculamente. Agora, sentada, observa a cicatriz. Paralela a panturrilha grossa. Como alguém (pensa), como alguém, pode ter me feito esperar aqui. Sentada no meio de uma sala sem nada dentro além delamesma. Sem móvel algum. Com os cabelos escorrendo úmidos. Encolhida. Nelamesma. Simplesmente porque o sujeito não teve mais idéia alguma. Ela encerra, (observem o peito arfante), ela encerra este parágrafo com vários pontos mudos de exclamação em forma de arfos pequenos breves e intensos.



ø


Fui até a mercearia. No fundo, havia camisetas monocromáticas fluorescentes. Comprei uma longa, tamanho grande, laranja. As mulheres possuem essência tão ilógica a ponto de passar ao mundo externo de forma a torná-las os únicos seres que ficam lindos com uma camiseta vários números maior. A camiseta e mais nada. Na fila, percebi como são tristes e incômodas as pessoas fora do tempo. É fácil identificar uma delas: elas não combinam as estampas das roupas. Usam uma saia de chita com uma camisa quadriculada e toda a sorte de combinações acidentais. A cor dos cabelos não combina com a pele. A cor das sandálias não combina com a cor da camisa. A música que ela cantarola, disco dos anos setenta, não combina com os lançamentos dos últimos dez anos. Desisto dela. Não olhar significa dissipar a menor possibilidade de interação. As coisas sem harmonia, deixa, continuam.


A caixa embala as compras. Olha a camiseta tamanho grande. Olha os cigarros e a cerveja. Olha os preservativos. Observo as suas estampas: uma pele branca + uma camisa xadrez + um jeans desbotado + uma sombra negra ao redor dos olhos. Você sabe quem é Elly Jackson, pergunto. Claro que sei. De quem você acha que copiei esse corte de cabelo? São trinta reais e cinquenta, diz. São trinta e cinco reais, digo, guarda um dos maços contigo.


Arrancar um sorriso simpático de uma garota desconhecida que gosta de garotas desconhecidas é das tarefas mais difíceis. Consigo.



16.6.10

O Fogo e o Calor das Pontas


Uma camada de chuva invisível. Neblina. O ameno existe. Apenas se esconde entre as quatro e as cinco e meia da manhã. Agora sente o quase frio e a mulher observando o frio se tornar água sobre o vidro do carro. O motorista assiste a uma coletânea de videoclipes dos anos 80 e os trata como a dois fantasmas. Em Manaus, apenas algumas poucas avenidas possuem aquele amarelo cosmopolita. Com o polegar esquerdo a desperta do transe. Toca a ponta do seu queixo e a têmpora. Ela o observa. Se aproximam e aproximam as bocas. Beijam-se. Que bom que encontrei você, a mulher diz. Foi uma coincidência, coisa de Deus.

Não, não foi.

Como assim, não foi?

Eu fui até aquela casa noturna para levar você de volta ao Rio, de volta ao teu antigo namorado, aquele que você nunca conseguiu esquecer.

As cervejas que bebera ajudaram-na a conter a surpresa. O álcool e a empatia que sentira pelo homem desconhecido causou curiosidade e surpresa ao invés de repulsa.

Foi isso mesmo que você ouviu. A pura verdade. Quando ele soube que eu estaria em Manaus por uns dias, pediu para eu tentar encontrar você e convencê-la a voltar para o Rio. A tentar consertar os erros dos passado, a tentar rearranjar as coisas. Eu e você sabemos que isso não resolverá nada.

Se você sabia que não resolveria nada, então por que se deu ao trabalho de vir falar comigo?

No início eu pensei em dar um recado simples e direto. O problema é que gostei de você. Te achei uma mulher interessante, bonita, independente. Depois pensei em não dar droga de recado nenhum e mentir pra ele; dizer que não consegui te encontrar. Mas não posso ser desleal a um amigo. O problema é que também não posso ser desleal a você.

O táxi chegou ao primeiro destino. A casa da mulher que comprara a mentira. Ela pediu que ele descesse e conversasse um pouco. Desembarcaram. Acenderam cigarros e observaram a rua vazia à frente. A camada de chuva invisível, neblina. O clima ameno entre as quatro e as cinco e meia da manhã. Um simulacro de neblina criado pela fumaça do cigarro. Neblina interna.

Ok. E se eu quisesse ir lá um dia qualquer só pra olhar uma última vez pra cara daquele escroto? Sabia que ele me deixou sozinha na cidade e viajou para fora para "pensar grande", para "ver o que o mundo tinha a dizer pra ele
?", "para dar continuidade aos estudos", como se eu fosse uma criança que não pudesse acompanhar ele por ser muito provinciana, muito barulhenta?

Se você decidisse tal coisa. eu ligaria pra ele amanhã, ou hoje, Sábado, que seja, e no domingo você estaria observando o mar ao invés de vídeos de pára-quedistas. Você sabe que ele tem dinheiro e todos os cursos universitários. Um tíquete pra entar no avião não seria problema.

A mulher sorri. Ele a beija. As defesas fáceis. A umidade. E a gente, ela pergunta. Eu estarei lá te esperando depois que tudo se resolver, se você quiser que eu te espere. É claro que eu vou querer... E você, o que quer que eu faça?

Eu quero que você o veja, que converse com ele. E depois você deveria esgotá-lo. Não existe isso de esquecer pessoas e cidades. Eles viverão em você pra sempre enquanto você não esgotá-los. Os homens as cidades e todas as coisas precisam ser esgotados para serem esquecidos. Senão você se torna como aquela gente atrelada às sensações do passado, usando justificativas furadas de lembranças e tributos e etecétera para tentar dar algum significado a um presente ao qual não dão muito valor. Isso não faz sentido. É como assistir a uma banda-tributo. Pior. Uma banda-tributo ao Placebo. Uma imitação. Alguém fingindo ser alguém que era nos anos noventa. Você tem que ir lá. Esgotar a possibilidade da experiência a ponto de não precisar mais ter com ela nenhum vínculo. Não há nada mais patético do que alguém sem noção de tempo e espaço, flertando com o passado, tentando mantê-lo como um animal de estimação que não incomoda não por ser discreto; mas porque já morrera há muito e você, sem se dar conta, continua agradando um bicho morto. Você vai ver como o tempo se faz pesar de forma brutal e diversa sobre certas pessoas. E rirá dele. E enganará a ele e se sentirá imensamente bem e em paz com isso. Então você poderá viver em outro estado, ou na rua de trás porque vai dar na mesma. Você poderá ter namorados de verdade.

A mulher aquiesce. Sempre teve para si que essa seria uma hora mágica. Entre as quatro e as cinco e meia da manhã: o único intervalo de tempo no qual as mulheres aquiescem a tudo que lhes seja dito. No dia seguinte, estarão no aeroporto aguardando o vôo que os levará ao Rio. Antes, ele alerta o quase nascimento do sábado. Ela o convida a entrar na casa. Mora sozinha. Só tem por companhia os fantasmas dos anos noventa que insistem em viver nos anos zero, onde tudo fora reiniciado; ou ao menos deveria ter sido. Precisamos fazer duas coisas antes, ele diz: precisamos fumar mais dois cigarros e jogar as pontas ainda acesas em cada um dos lados da casa.

O fogo e o calor das pontas manterá os fantasmas longe da casa. O fogo e o calor das pontas absorverá toda a luminosidade do dia e tornará o quarto escuro até precisarem sair novamente.


14.6.10

Tenda


Tartarugas. Na saída do aeroporto existem ilhotas onde tartarugas tomam sol e trocam sinais subsônicos com as carpas na água escura. Táxi. Hotel. Centro da cidade. Gosto dos Centros das cidades pelo fato de todos eles terem algo de semelhante. Lojas com fachadas anacrônicas. Bares misturados a franquias internacionais. Tudo mais ou menos informal e perto. Com cheiro de mundo. Sem aquele cheiro de shopping. Desinfetante.


Vejo o Google da programação noturna. Apenas quatro bares de rock. Apenas dois com música ao vivo. Aposto nesses dois últimos. Defino a escolha do lugar quando vejo a temática: um deles terá música dos anos 90. Talvez a última década de algo criativo no rock. Quatro grandes anos de produção musical e depois mais nada. A fita voltou ao início, dessa vez mais gasta. As bandas-tributo ainda permanecem. Existe algo de terrivelmente autômato nelas. A mecânica perfeita da execução de acordes e nenhuma expressividade ou possibilidade de expressão autêntica. Os anos 90 foram profícuos em talento mecânico e vazios em autenticidade artística. Falsos Kurts. Falsos Eddies. Falsos Chris. Falsos Laynes. A banda que tocará no lugar onde irei procurar a jovem velha fará um tributo ao Placebo. Uma situação emblemática para os tempos modernos: A cópia dum placebo é tudo a que se resumiu o rock.


A casa noturna fica em uma estrada chamada Estrada do Turismo. Tenda Rock. Na portaria, sujeitos com camisas de banda e barriga proeminente controlam a entrada. Alguns monitores mostram imagens de pára-quedistas. Não consigo relacionar os significados. Tenda. Rock. Pára-quedas. Sento num ponto discreto. Tão logo aumenta o movimento, fico junto ao balcão. Em Manaus as pessoas não parecem ter o costume de encostarem-se ao balcão e beberem em pé, como acontece nas outras cidades; preferem ficar sentadas ou encostadas nalgum vinco de parede. Em um deles, reconheço a mulher da fotografia.


A máquina que a imprimira não fora generosa. As rugas não são explícitas. Tão. Ela está um pouco mais gorda. A bunda contida pelo jeans da calça. Os peitos contidos pelo sutiã. O tórax contido pela cinta. A tristeza contida pela maquiagem. Alguns milhares de quilômetros para observar a bunda de uma mulher de quem o tempo é inimigo. Para vê-la observar alguns sujeitos e cutucar as amigas. Elas fazem comentários picarescos e não tomam iniciativa. Esse cinismo irritante das mulheres que se produzem para ficarem sem roupa e fingem pudicícia. Cinco mil reais para tentar convencê-la a ir ao Rio de Janeiro e fazer um homem infeliz com a própria fortuna sentir um pouco de calor dos anos noventa. Não posso chegar a ela e simplesmente fazer uma proposta. Terei que flertar com ela e teremos que descobrir coisas, amigos, coisas, em comum. Tudo terá que parecer uma coincidência daquelas dignas de deus. Teria. Aprendi a não contar com ele. Ao invés, a navalha. Occam. O simples é o possível. Quando ela chega ao balcão, olhamos um para o outro. Sorrimos.


9.6.10

Ida e Vinda


Sempre encarei com espanto a forma como o tempo se faz pesar de forma brutal e diversa sobre o corpo de certas mulheres.

Comparo as fotos. A da esquerda mostra uma mulher sorridente. Jovem adulta. Tivera no máximo dois parceiros fixos e três desilusões amorosas. O choro e o sofrimento, todos sabem, envelhecem. Mesmo assim não havia sobre o rosto vincos de rugas ruins. Assim como a quantidade modesta de amassos e tapas furtivos não ameaçara a resiliência da pele e dos músculos. Uma mulher bonita. Não do tipo que me atrairia. Bonita. Graduação média. Olho para a minha mão direita. Três anos separam uma fotografia da outra. Mil dias causadores de quadris com circunferência dobrada, olheiras, uma cor de cabelo incerta, um queixo duplo proeminente e uma ponta de cinta espiando sob o decote vencido.

Ela teve filhos?, pergunto por protocolo.

Não, e não acredito que tenha engravidado nesses três anos.

Cinco mil reais para encontrar um estereótipo infeliz. Mais a passagem e a estadia em Manaus, uma cidade delicada em suas pequenas coisas – alguns lugares, comidas – e horrorosa em sua maioria. Estive lá duas vezes. As pessoas fogem para Manaus. Desemprego, concurso público, infelicidade conjugal. A jovem mulher velha mudara-se do Rio para Manaus na tentativa de reiniciar uma nova vida. Qualquer idiota sabe que mudar de cidade não muda em nada a sua vida; a não ser que você tenha recebido uma proposta de emprego com salário acima de cinco mil reais. Sendo que tal quantia é suficiente para melhorar a sua vida sem que para isso precise cruzar o país. Quando se quer, tudo é motivo.

Certamente o sujeito que agora me contrata para encontrá-la também não sabe do fato. Ou talvez saiba, e quer apenas reatar um laço emocional que no máximo convergirá para um simulacro dos sentimentos que existiram. Além da tentativa de retomada de uma vida sexual que invariavelmente terá pior qualidade. Não discuto. Tenho à minha frente o monitor com a página do banco. Cinco mil reais a mais. Faço um recibo. Declaro: entrega em mãos de documentos pessoais. Além da assinatura, dou a minha palavra.

Manaus é uma cidade pequena circundada por uma massa periférica anônima e padronizada. Seus círculos sociais são ridiculamente minúsculos. Todos se conhecem ou se vêem nos mesmos lugares. Vários já se pegaram e quando se esbarram no shopping trocam olhares cínicos e fortuitos.
Hoje é quinta-feira. Viajarei amanhã. Domingo à noite estarei de volta. Conseguirei fotografias e até mesmo uma carta de próprio punho, se você quiser. Sim? Imaginei que. Nada mais caloroso do que o manuscrito, o cursivo. Despeço-me com um olhar sereno, confidente. Não me sinto muito diferente dos sensitivos que dizem trazer de volta o seu amor em cinco dias.


2.6.10

Jack

...odairef mare siad so sodot, etsixe euq o odut ed sentna, satnoc ed lanifa, euqorp amorf amugla ed axaler oãtnE. airótsih an sodiderp aroga sép so erbos emrif arret amu revah ed omsem setna oãs sasioc sa euq missa é euq atatsnoc êcov E .odnahca es e odnedrep es oãraunitnoc sasioc sa sadot e adan etnematulosba arap atlov àh oãn euq ed edadilibissop a erbos asnep e aràp êcov oãtnE...

O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...