27.7.10

Copacabana


Para que viva a cidade é necessário que saia sozinho à noite. Antes esteve na companhia dos únicos amigos compatíveis em idade e experiência. Foram a um restaurante mexicano. Não conseguiram evitar a leitura do cardápio com um sotaque castelhano fajuto. Tacos. A garçonete sorri. Permaneceram no lugar tempo suficiente. Falaram sobre futebol com um dos garçons e foram gentilmente remanejados para a área externa devido a pequena sala ter sido reservada para a comemoração de um aniversário. Receberam como cortesia uma rodada extra de chopes. México. Fez bem em não ter trazido o romance monstro de Bolaño para ler na viagem. Não teria tempo e muito menos disposição para ler nem ao menos meia-dúzia das mais de oitocentas páginas que teria pela frente.

Em uma cidade diferente e nova não sobra tempo para muita coisa. Os dias tornam-se curtos e o sono confunde-se com um desmaio profundo até o compromisso do dia seguinte. Caminharam do restaurante até o hotel sob um chuva fina e vento sobrenatural de tão frio. Os cigarros acesos sob a torrente invisível reduziram o caminho à metade. Após despedidas e recomendações fraternas, desceu novamente ao hall e aguardou o táxi. Tomando cuidado para não se estatelar no chão molhado e liso (mármore) como fizera na noite anterior — Quase quebrara a mão direita e agora a observava inchada do mindinho ao médio e as suas tentativas de igualá-la à esquerda recebiam como resposta uma reação implantada, quase alienígena.

O motorista boa praça pediu que ele por favor sentasse no banco de trás porque antes do hotel tomara um banho numa ultrapassagem veloz sobre a rua molhada. Sem problemas. No caminho conversaram sobre a língua inglesa. O motorista perguntou se a o adesivo sobre o vidro — please, don´t slam the door — estava correto. Está sim. Fiquei preocupado, disse o motorista. Na primeira vez paguei uma grana e o cara colocou “please, don´t knock the door”. Só depois de algum tempo um gringo disse que a frase não fazia muito sentido. Os gringos. Segundo o motorista os mais grosseiros eram os mexicanos. O México, novamente. A conversa é brevemente interrompida quando o táxi sai de um túnel e a Avenida Atlântica se mostra extensamente. Mesmo o motorista, terrivelmente adaptado ao trajeto, faz um silêncio imediato. As luzes pela primeira vez. O mar exagerado pelo frio. As ruas úmidas e os transeuntes atravessando entre os carros. Desce em frente ao hotel Othon, Copacabana.

Traça uma linha mental da distância dali até a sua casa, sua cidade. Alguns milhares de quilômetros que o fazem acender um cigarro e condicionar a mão inchada no bolso do blazer. Olha para o oceano Atlântico e imagina um outro porto, estrangeiro, igualmente torrencial e úmido com seus visitantes forçados a serem introspectivos e caminharem por ruas estreitas permeadas por quiosques onde pessoas conversam ininterruptamente. Após dez minutos, Richard chega em um táxi. Ele carrega um case de CDs e um guarda-chuva. Incontinenti, seguem conversando como se a noite de antes não tivesse terminado. Logo na entrada ele encontra um conhecido descarregando equipamentos e vinis do porta-malas. A garota na capa do primeiro álbum She Wants Revenge escondendo um facão nas costas. Tenta equiparar o significado da imagem (bela, perigosa) com o do bairro, mas abandona a idéia pelo fato da comparação ser por demais ridícula. Rock N´Drinks, diz a fachada.

A casa ainda está fechada, diz o porteiro com a rispidez regulamentar da categoria. Não, não tá não — retruca o DJ recém-conhecido —; abre aí que a gente vai tocar. Entramos, e na casa, além dos funcionários, encontramos mais alguns convidados-clientes que possivelmente entraram por serem amigos do dono da festa ou por terem sido mais insolentes do que o porteiro. Nessas horas é bom ter bolsos sociáveis para esconder as mãos. Não fica tão tímido e vez ou outra descondiciona a mão para conhecer alguém e cada uma das pessoas transmite, além da simpatia, uma dor aguda sobre os músculos da mão traumatizada.

Os conjuntos de cadeiras e mesas são confortáveis, alcochoados à maneira norteamericana. Ele e Richard conversam sobre bastantes coisas e quando este sai para fazer seus arranjos na mesa de música para tocar o set futuro, fica sozinho e percebe o lugar em mais detalhes. Uma sala ampla com paredes escuras e um mural desenhado à giz. O cardápio de drinques também foi escrito à giz e maioria deles leva cereja. Um deles se chama Tru Blood. Eu sou o vampiro Bill (pensa), eu sou um escritor e estou do outro lado do país e usarei esse lugar na forma de letras. Meu personagem chegará nesse lugar e, quando indagado pela garçonete (uma suicide girl com jeito de mãe precoce) sobre o que gostaria de beber, ele responderá qualquer coisa que aqueça um coração que ficou do outro lado do país e, em seguida, colocará seu dedo indicador sobre a boca da garçonete e o introduzirá com naturalidade entre os dentes laterais e a parte interna do rosto, e medirá a sua temperatura e perceberá que está mais quente do que o normal: as drogas misturadas à corrente sanguínea.

Vocês vão beber algo agora?, a garçonete pergunta. Vou providenciar as comandas. As comandas têm a observação “DJ vip” no cabeçalho, o que aparentemente os eximiria da entrada e daria um desconto de algo por cento. Se alguém perguntar quando será o seu set, ele dirá que sofreu um acidente e machucou a mão, o que reduziria a sua performance à metade. Ninguém o incomoda a respeito disso. Até porque o tempo entre os caras é extremamente competitivo. Para mostrar o quanto se entende de rock e o quanto se tem timing de festa faz-se necessária quase uma hora e constantemente um deles “rouba” a música de outro por acidente, fazendo com que o DJ subsequente necessite rearranjar mentalmente a sequência das musicas.

A casa habita-se de frequentadores. Entre eles está a vocalista da banda da noite anterior (grandalhona, vestido justo com estampa tatuada, branquela, nariguda, linda) caminhando sob outra forma que não a de antes. Não tem a mesma altura e nem a mesma cor de cabelo, usa bermuda e botas e começa a dançar uma música do Johnny Cash. Sempre suspeitou da idoneidade das pessoas que dançam todos os ritmos. Na verdade, sempre suspeitou dos dançarinos. Na adolescência, inspirado pelos Ramones, costumava chamá-los de cretinos. As pessoas mudam. Muitas do dia para a noite. Para melhor ou para pior. Param de falar umas com as outras ou começam. Vão de vocalista gata intangível a uma mulher possível dançando música country.

Do lado de fora da casa faz frio e os fumantes comprimem-se atrás da grade frontal e a cada entrada e saída a noite sai e o acompanha e após tantas, entradas e saídas, a noite se desgasta e começar a ser clara se confundido ao dia. Ainda não é dia. Existe uma claridade cinza e úmida que carrega consigo a noite e torna deserta a Avenida Atlântica. Procuram pelos carros. Não veem nenhum. Pra onde diabos foram todos os carros, perguntam.


26.7.10

2666.1


— Na verdade não sei como explicar — disse Amalfitano. — A relação com o poder dos intelectuais mexicanos vem de longe. Não digo que todos sejam assim. Há exceções notáveis. Também não digam que os que se entregam o façam de má-fé. E tampouco que essa entrega seja uma entrega em regra. Digamos que é só um emprego. Mas um emprego no Estado. Na Europa os intelectuais trabalham em editoras ou na imprensa ou são sustentados pela mulher ou seus pais lhes dão uma mesada ou são operários e delinquentes e vivem honestamente de seus trabalhos. No México, e pode ser que o exemplo seja extensível a toda a América Latina, menos à Argentina, os intelectuais trabalham para o Estado. Era assim com o PRI e continua sendo assim com o PAN. O intelectual,por sua vez, pode ser um fervoroso defensor do Estado ou um crítico do Estado. Isso, para o Estado, pouco importa. O Estado o alimenta e o observa em silêncio. Com sua enorme coorte de escritores que poderíamos dizer inúteis, o Estado faz alguma coisa. O quê? Exorciza demônios, muda ou pelo menos tenta influir no tempo mexicano. Acrescenta camadas de cal numa cova que ninguém sabe se existe ou não. Claro, isso nem sempre é assim. Um intelectual pode trabalhar na universidade ou, melhor que isso, pode ir trabalhar numa universidade americana, cujos departamentos de literatura são tão ruins quanto os das universidades mexicanas, mas isso não os põe a salvo de receber um telefonema altas horas da noite em que alguém, falando em nome do Estado, lhe ofereça um trabalho melhor, um emprego mais bem remunerado, algo que o intelectual crê merecer, e os intelectuais sempre creem merecer algo mais. Essa mecânica, de alguma maneira, corta as orelhas dos escritores mexicanos. Enlouquece-os. Alguns, por exemplo, se metem a traduzir poesia japonesa sem saber japonês, e outros se entregam direto à bebida. Para não ir mais longe, Almendro creio que faz ambas as coisas.(...)

(BOLAÑO, Roberto. 2666. São Paulo: Companhia das Letras, pgs. 126, 127, 128)


2666.2

(...) A literatura no México é como um jardim de infância, uma creche, um kindergarten, uma escolhinha, não sei se me entendem. O clima é bom, faz sol, você pode sair de casa, sentar num parque, abrir um livro de Valéry, talvez o escritor mais lido pelos escritores mexicanos, depois ir à casa dos amigos e conversar. Mas a sua sombra não segue mais você. Em algum momento, ela o abandonou silenciosamente. Você faz como se não se desse conta, mas se deu conta sim, a fodida da sua sombra não vai mais com você, mas, bom, isso pode ser explicado de muitas formas, a posição do sol, o grau de inconsciência que o sol provoca nas cabeças sem chapéu, a quantidade de álcool ingerida, o movimento como que de tanques subterrâneos de dor, o medo de coisas mais contingentes, uma doença que se insinua, a vaidade ferida, o desejo de ser pontual pelo menos uma vez na vida. O caso é que a sua sombra se perde e você, momentaneamente, a esquece. E você chega assim, sem sombra, a uma espécie de cenário e se põe a traduzir ou reinterpretar ou cantar a realidade. O cenário propriamente dito é um proscênio e no fundo do proscênio há um tubo enorme, algo como uma mina ou a entrada de uma mina de proporções gigantescas. Digamos que é uma caverna. Mas também podemos dizer que é uma mina. Da boca da mina saem ruídos ininteligíveis. Onomatopéias, fonemas furibundos ou sedutores ou sedutoramente furibundos ou pode ser que só murmúrios e sussurros e gemidos. O caso é que ninguém vê, ver mas ver mesmo, a entrada da mina. Uma máquina, um jogo de luzes e sombras, uma manipulação no tempo furta o verdadeiro contorno, mas sim, pelo menos, o contorno de algo. (...)

(BOLAÑO, Roberto. 2666. São Paulo: Companhia das Letras, pgs. 126, 127, 128)

2666.3

(...) Os outros espectadores não veem nada mais além do proscênio e se pode dizer que tampouco lhes interessa ver nada. Por sua vez, os intelectuais sem sombra estão sempre de costas e, portanto, a não ser que tivessem olhos na nuca, é impossível verem o que quer que seja. Eles só escutam os ruídos que saem do fundo da mina. E os traduzem ou reinterpretam ou recriam. Seu trabalho, nem é preciso dizer, é paupérrimo. Empregam a retórica ali onde se intui um furacão, tentam ser eloquentes ali onde intuem a fúria desbragada, procuram ater-se à disciplina da métrica ali onde só resta um silêncio ensurdecedor e inútil. Dizem piu-piu, au-au, miau-miau, porque são incapazes de imaginar um animal de proporções colossais ou a ausência de um animal. O cenário em que trabalham, aliás, é muito bonito, muito bem pensado, muito atraente, mas suas dimensões, com o passar do tempo, são cada vez menores. Esse apequenamento do cenário não o desvirtua de maneira nenhuma. Simplesmente cada vez é menor, também as platéias são menores, e os espectadores, naturalmente, são cada vez mais escassos. Junto a esse cenário, claro, há outros cenários. Cenários novos que cresceram com o passar do tempo. Tem-se o cenário da pintura, que é enorme e cujos espectadores são poucos, mas todos, para dizer de algum modo, são elegantes. Tem-se o cenário do cinema e da televisão. Aqui a lotação é enorme, está sempre cheio e o proscênio cresce a bom ritmo ano após ano. Vez por outra, os intérpretes do cenário dos intelectuais passam, como atores convidados, para o cenário da televisão. Nesse cenário a boca da mina é a mesma, com uma ligeiríssima mudança de perspectiva, embora talvez a camuflagem seja mais densa e, paradoxalmente, esteja prenhe de um humor misterioso e que, no entanto, fede. (...)

(BOLAÑO, Roberto. 2666. São Paulo: Companhia das Letras, pgs. 126, 127, 128)


2666.4

(...) Essa camuflagem humorística, naturalmente, se presta a muitas interpretações, que finalmente sempre se reduzem, para maior facilidade do público ou do olho coletivo do público, a duas. Vez por outra, os intelectuais se instalam para sempre no proscênio televisivo. Da boca da mina continuam saindo rangidos, e os intelectuais continuam a interpretá-los mal. Na realidade, eles, que em teoria são os amos da linguagem, nem sequer são capazes de enriquecê-la. Suas melhores palavras são as palavras emprestadas, que ouvem os espectadores da primeira fila dizer. A esses espectadores costuma-se chamar de flagelantes. Estão doentes e a cada certo tempo inventam palavras atrozes e seu índice de mortalidade é elevado. Quando acaba a jornada de trabalho fecham-se os teatros e tapam-se as bocas das minas com grandes chapas de aço. Os intelectuais se retiram. A lua é gorda e o ar noturno é de uma pureza tal que parece alimentício. Em alguns bares se ouvem canções cujas notas chegam às ruas. Às vezes um intelectual desvia, penetra num desses bares e bebe mescal. Pensa então no que aconteceria se um dia ele. Mas não. Não pensa nada. Só bebe e canta. Às vezes alguém acredita ver um escritor alemão legendário. Na realidade só viu uma sombra, em certas ocasiões só viu a própria sombra, que volta para casa todas as noites para evitar que o intelectual estoure ou se enforque no portão. Mas ele jura que viu um escritor alemão e nessa convicção se resume sua felicidade, sua ordem, sua vertigem, seu senso da gandaia. Na manhã seguinte faz um dia bonito. O sol crepita, mas não queima. Você pode sair de casa razoavelmente tranquilo, arrastando a sua sombra, parar num parque e ler umas páginas de Valéry. E assim até o fim.

— Não entendi nada do que você disse — disse Norton.

— Na verdade, eu só disse besteira — falou Amalfitano.

(BOLAÑO, Roberto. 2666. São Paulo: Companhia das Letras, pgs. 126, 127, 128)


20.7.10

Mágica


Acordo. A minha percepção do universo é tão apurada e lenta a ponto de quase ver a luz se alastrando sobre os lençóis. Sem sobrenaturalidade alguma: ainda sonho e o sobrenatural não existe. Por isso vejo a claridade fluindo feito água. Indo. Voltando. Acordo. Percebo o sol e ele não me toca. Assim como o corpo ao meu lado porque o fogo e o calor das pontas ao redor da casa absorvera toda a luminosidade do dia.


Antes de entregá-la, antes de precisar atravessar o país para entregá-la e antes de entregá-la ao homem que me repassara a quantia de cinco mil reais para procurá-la e entregá-la a ele, refaço a mulher. Quando soube que eu a encontrara, dobrara a recompensa. A surpresa certamente renderia o dobro do dobro. Quanto mais idiota, mais rico.

Moldei-a. Deitei-a e a vesti com roupas velhas dos anos noventa. Camisetas puídas. Calças gastas. Meias velhas. Com a ponta dos dedos refiz seu rosto. Dissipei as rugas de cansaço. O queixo duplo. Os pelos excedentes das sobrancelhas. Durante todo o tempo fez-se necessário que ela declamasse letras de músicas. Acorda. Digo. Acorda e te olha no espelho. Ela lagrima pateticamente como se tivesse reencontrado o tempo perdido. O que você fez? Isso é fantástico! Eu não posso dizer. E não é tão fantástico quanto você imagina. Agora você precisa se vestir porque precisamos partir. E se eu não quiser? Ela diz. Simples. Você fica e eu desfaço o que fiz há pouco.

Não demora muito para ela arrumar a mala. A maioria das suas roupas não serve mais. Peço que ela as deixe porque não serão mais necessárias por um bom tempo. Seguimos para o aeroporto.



19.7.10

College


Um flash sideway equivale a uma realidade paralela. Algo que seria se certo fato anterior não houvesse acontecido. Essa é cidade que procuro e encontro na sexta. Internamente e externamente o todo colabora. Faz bastante frio e na Lapa buscamos os bares baratos antes da casa principal. Onde é a College costumava ser um cinema. Percebemos pelo aclive até a parte externa, um fumódromo improvisado. Quando morrer, aquele garotinho taliandês que fuma dois maços de cigarro por dia será ordenado o padroeiro dos fumantes. Ou seja, daqui a dois anos os fumantes terão um padroeiro.


Mas voltando para dentro da casa: o aclive do antigo cinema estreito é um ambiente único. Sobre uma antiga tela de cinema se projeta o tipo de música que o DJ está tocando. Punk. Rock. Pós-punk. Anos 80. Anos 60. Rock and Roll. Didático, isso. Lá pelas tantas, o DJ dá lugar a uma banda cujo nome, fonte não confirmada, se chama Mix Tape. Três marmanjos e uma vocalista e tecladista, Aline, grandalhona, vestido justo com estampa tatuada, branquela, nariguda, linda. Eles iniciam tocando Sabotage e terminam com Rearviewmirror.


Quando se visita uma cidade é fundamental a presença de um não-guia. Alguém que viva lá mas não compartilhe do senso comum. Richard é o não-guia perfeito. Durante os cinco anos que tem vivido no Rio aprendeu a sobreviver com estilo, sem comprometer seu topete rockabilly. Conheceu alguns figuras. Selecionou os lugares que não são roubada. E nesse ínterim emendou uma graduação na outra e agora está no doutorado e talvez se tornou o único lacaniano rockabilly do mundo.


Após encontrar a mim e aos dois bravos amigos que me acompanharam, nos cumprimentou como se tivesse nos visto no dia anterior e nos guiou até a Lapa interditada, com seus arcos pintados pela metade por estarem em reforma. Gente andando em todas as direções. Não vi nenhum sambista, não ouvi nenhum samba incidental. Porque esta foi uma viagem paralela. Para reconstruir uma cidade e salvar uma outra, Rio, esta que agora piso com as mãos nos bolsos. Ou me encosto ao balcão. Ou grito em voz alta músicas que só ouvira dentro dos meus fones de ouvido.


A noite salva, ainda melhor que a anterior, foi o impulso para a noite seguinte. Copacabana. Nessa fui sozinho.



16.7.10

Rio e os Flash Sideways


Segunda-feira passada. Antes de partirmos de Manaus para o Rio, não consegui evitar a sensação um pouco incômoda e melancólica de lembrar o tema de piano que toca durante o final de Lost. Aeroporto. Pessoas se encontrando e se cumprimentando antes de partirem em uma jornada. Dissipei a música com um sai pra lá mantrificado. Jack.

É terça-feira neste parágrafo. Chegamos ao Rio e o nosso primeiro encontro foi com um guia ridículo. Um homem de meia-idade. Cabelo grisalho-calhorda. Passou a viagem toda ironizando e brincando com os aspectos negativos da cidade. Linha Vermelha. Cristo Redentor. Segundo ele, os cariocas têm o corpo bonito e o rosto feio. A náusea da noite não dormida se dissipa quando ponho os pés na praia e toco novamente todo o oceano atlântico. O mar é frio e verde.


Neste parágrafo eu durmo profundamente e não posso relatar quaisquer acontecimentos.


Quando viajo tento dormir o menor tempo possível. Existe uma cidade nova lá fora. Recém-fundada aos meus olhos, com tantos e mínimos elementos de fascínio causadores de ânsia. Conseguimos escapar ao litoral que parecia Maceió e no segundo dia pusemos os pés na cidade.

O centro e os shopping centers, o frio e as pessoas fumando espremidas na calçada me faz lembrar São Paulo e sinto saudades. São Paulo poderia continuar suspensa em meus sentimentos se eu não houvesse decidido reconstrui-la. Para isso tomo emprestadas as calçadas do Rio. Esqueço o mar e me concentro no frio que faz. Na garoa. Nas caminhadas compassadas cerveja Original e cigarro com meus amigos. Consigo.

Mas isso não foi tudo.


7.7.10

O Fiasco




























O Fiasco
, de Imre Kertész, tem início com um escritor de meia-idade parado em frente ao seu arquivo de textos, tentando buscar idéias para escrever um romance. A certa altura, surge um pensamento recorrente: o seu primeiro livro, ultrapessoal e escrito com pretenso esmero, rejeitado pela editora através de uma carta que desmontava, peça por peça, sua estrutura narrativa e o seu estilo literário.

Tal recusa, um literal atestado de falha, como uma certidão de divórcio ou uma carta definitiva de despedidas, não deixou qualquer motivação para novas tentativas. E como um filho defeituoso, ou um relacionamento mal encerrado, o romance permaneceu décadas dentro de uma das gavetas do arquivo.


Após uma série de pequenas pressões e, principalmente, a insustentabilidade de lidar com essa falha primordial em sua vida, o velho resolve reiniciar a história e outro livro, dentro do livro, começa.

E o que lemos não é a historia de um escritor tentando reescrever seu primeiro livro e assim livrar-se de um sentimento recorrente de frustração; e sim um novo romance, com o mesmo protagonista, Koves, retornando a uma cidade abandonada por décadas, ocupada por personagens estranhas, desacostumadas a lidar com estrangeiros e com formas mais sofisticadas de retórica.
À medida que Koves passa a estreitar relacionamentos com as pessoas e os lugares, tudo passa, gradativamente, a aumentar seu sentido e sua densidade narrativa e ele descobre a capacidade inusitada de manipular e modificar tudo o que o rodeia.

Algo como um escritor encarnado em um alter-ego encarnado na reencarnação de um personagem antigo que faz conceitos intradiegéticos e extradiegéticos virarem uma grande bobagem de apostila do primeiro período de Letras. Enquanto caminhamos com Koves pela cidade revisitada e sabemos que, por trás dele está um escritor em desespero silencioso e, por trás dele, um outro escritor, percebemos o quanto as técnicas aparentemente irritantes e impossíveis do romance moderno quando bem realizadas, podem nos encher os olhos e as idéias.


Nas páginas de O Fiasco, lançado em 1988, Imre Kertész, húngaro, nascido em 1929, prêmio Nobel em 2002, demonstra a maestria e a criatividade que lhe valeram a láurea ao fazer o leitor, página após página, ir construindo e redescobrindo uma realidade há muito abandonada e, em cada entrelinha, perceber o quão inútil é tentar retomar o passado.

O melhor é reconstruí-lo aos nossos próprios moldes, com a técnica e o tato aprendidos ao longo da vida que nos permitem sobrepor, modificar e eliminar o que não pudera ser esquecido.


3.7.10

Vigia


Antes de começar o trabalho na escola, vou a um shopping pequeno e repetitivo, como tudo na cidade. Na barca de lançamentos da livraria, leio dois ou três títulos tratando sobre assassinos em série. Assassinos Célebres, Como Funciona a Mente de um Assassino. Um deles oferecia até mesmo explicações neurológicas, com gráficos e ressonâncias, sobre os desvios dos pontinhos de energia entre os neurônios. Uma grande, imensa idiotice. O que existe na mente dos assassinos é um monte de merda. Bosta mesmo, dessas que desgraçam sapatos.

Compro uma edição de bolso para ler em meu próximo turno noturno. Os livros da biblioteca da escola são uma tristeza. Não sei qual adolescente seria idiota a ponto de sentir qualquer estímulo pela leitura lendo José de Alencar e Tomás Antônio Gonzaga. Esses caras escreveram livros para gente que já morreu há muito. Deveriam ser relocados para a prateleira de história. Até porque em suas páginas não é difícil encontrar longas descrições sobre como se aparelhava uma carroça ou como se realizava um mero escovar de dentes pela meia-dúzia de grã-finos do Rio de Janeiro. História Para Broxas, se houvesse uma prateleira bastante específica.

Eu escolho uma edição de bolso. Faulkner. Enquanto Agonizo. Uma família de caipiras fodidos tentando atravessar um estirão para enterrar a matriarca da família simplesmente porque este fora o seu último desejo. Sei disso porque já lera sobre a história antes de ler o livro em si. Às vezes é bom ler descrições gerais sobre livros. Sem crítica, sinopses apenas. Saber o que se vai encontrar ali, entre. É como dormir com uma mulher de quem já se ouvira falar. Ou já a percebera de longe antes de tocá-la, de tê-la à frente, pronta para ser lida. Mas me perco. Vou ao caixa pagar o livro. As dez horas da noite estão próximas. O turno começa às onze.

E vai até as seis. Um livro e outro (sempre leio dois livros ou três livros paralelos) (dois, dessa vez) (o início de Enquanto Agonizo correrá paralelo a outro) (Meridiano de Sangue) (Cormac McCarthy) (dois livros sobre jornadas fúnebres) (dois norte-americanos) (quase uma coincidência) entre as rondas e, a cada duas horas, um gole generoso do gim sob a capa e a cada uma hora, um cigarro. A noite passa e quando vejo o dia já está. Interno. Presente na palidez do rosto.

Qual dos dois eu levo? Uma dupla de meninas adolescentes tem em cada uma das mãos um dos livros sobre assassinos. Um fascínio imbecil que passaria em poucos segundos se eles se vissem na presença de um deles. O suor no rosto, a expressão raivosa e covarde ao mesmo tempo. O cheiro de merda porque muitos deles não se seguram durante os ataques e borram as calças. E também porque estão cheios de merda por dentro. Sei porque vi.

Sei porque já dei cabo de alguns deles. Vi como eles são por dentro. Após terem sido ludibriados pelo chama intensa e constante. Após terem sido abertos pelo alfanje. Uns bostas que só ganham em indigência mental dos sujeitos que escrevem livros sobre eles. E dos cretinos que compram tais livros e, tendo ou não, ficam de pau duro ao lerem sobre tais escabrosidades. Gostaria de mostrar a eles como esses merdas travestidos de personagens fascinantes são por dentro. Sob a luz intensa e constante. Observando a si próprios, abertos pelos alfanje.


O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...