27.8.10

O Ângulo Cego


Acordei às 7:57. Três minutos antes de iniciar a aula de legislação de trânsito. Dou um pulo e parto em trajetória bamba até o banheiro. Me penteio com a água do chuveiro. Saio à rua olhando ao redor à procura de um táxi que seja. Quando chego na esquina do aclive um deles aparece. Providência. Acho que apenas o homem mais elegante do mundo consegue acordar atrasado e não parecer ridiculamente desesperado. O ar refrigerado do automóvel e o caminho livre me acalmam e chego com um atraso de poucos minutos, antes mesmo dos que sempre chegam por último e carregam uma expressão infantil de culpa.



Encontro um lugar confortável na última carteira, numa posição que faz um ângulo cego com metade da sala. Imagine uma sala dividida em quatro quadrados. Um deles é uma parede avançada de outro cômodo, o que rouba uma parte substancial do espaço interno. Quando o instrutor está invisível devido à parede, os cochilos são inevitáveis. Sobressalto. Na parede à minha direita existem algumas pixações frutos da invisibilidade do ângulo. Vários rabiscos e escritos feitos por outros infelizes que precisaram passar horas inúteis para só então pleitear uma carteira de motorista. Algumas frases seguidas de um (sic) invisível:


  • A vida só é difícil só pra quem é muito mole!
  • Tudo se torna mais fácil quando a alma não é pequena! (Será que Fernando Pessoa tirou carteira aqui? – observação minha)
  • Smoke marijuana o/
  • Fume um antes de dirigir
  • São 15 dias de tortura (hell yeah!) – esse um complemento de um terceiro
  • Último dia dessa porra!

Se tivesse a oportunidade, juro teria escrito este último.

21.8.10

Espátula


Comprei uma espátula. O lugar onde tenho aulas de direção fica entre duas lojas de materiais de construção. Decidi entrar no processo da habilitação. Ser apto a dirigir um automóvel e correr por entre as veias manauaras esburacadas onde transitam toda a sorte de idiotas que ignoram as tais leis de trânsito.

A sala de aula é numerosa. Em torno de quarenta. A maioria é composta por jovens e a outra parcela é composta por pedestres de idades mistas onde dois ou três já passaram da metade da vida.

Depois do primeiro dia, uma segunda-feira entre cochilos com a sensação de estar sendo parte de algo inútil (as pautas da aula são a leitura da apostila e a prova em si pode ser simulada online ipsi literis), decidi levar um romance para ler discretamente, além dos livros para planejar algo extra para as aulas da tarde. Após tal decisão, as aulas passaram mais rápido. E ainda faltarão três semanas para o término do curso.

Existe algo de cruel no determinismo hierárquico militar pelo fato de tal marcar o rosto e os gestos de quem passa muito tempo na caserna. Desde o primeiro momento suspeitei que o instrutor do curso havia sido soldado. E identifiquei o tipo de soldado; metido a inteligente, baseado e contestador, mas sem qualquer embasamento filosófico mais profundo. Apenas um reprodutor de informações e fatos. Um soldado preguiçoso que certamente aplicava pequenos golpes para ser poupado da parte pesada dos trabalhos. Na segunda aula ele disse que passara certo tempo no Exército.

A absorção de cultura é perigosa quando se teve uma infância plenamente ignorante. Por mais que se tente correr atrás do tempo perdido, também se faz necessário o desenvolvimento do poder de abstração, de noção de seu próprio corpo e existência para assim ter uma consciência crítica do conhecimento que se oferece de forma caótica. Quando isso não acontece, surge um sujeito como o meu instrutor da auto-escola: alguém que tenta desesperadamente parecer aculturado (ou mesmo com conceitos morais exemplares) quando na verdade continua sendo um ignorante chafurdado no senso-comum com o diferencial de possuir boa memória. Durante a condução de um automóvel a capacidade espacial e motora está acima das outras. Sendo assim, não é de estranhar que a imensa maioria dos pupilos do instrutor soldado nunca tenha lido um livro na vida.

Durante as explanações cretinas termino de ler Medo e Delírio em Las Vegas. Melhoro um pouco mais nas aulas. Da manhã, da tarde. Um timing que deve ser semelhante ao de controlar um veículo cheio de passageiros de várias idades. Volto para casa e me esforço para tirar um pouco o jeito acolhedor e desordenado assentado pela minha mãe desequipando a sala de seus bibelôs e tomando notas para o que deverá ser comprado para a manutenção das esquadrias e paredes. O primeiro item foi a espátula.

Ainda preciso comprar tomadas e receber umas dicas do Manual do Construtor. As últimas serão as tintas. Penso nisso voltando do trabalho, caminhando para casa, tendo a companhia discreta e simpática, por dois quarteirões, de um cachorro anônimo e negro. Vou ao supermercado comprar os víveres de quando estou sozinho em casa. Enquanto espero o pão, observo um casal em uma das ilhas da padaria. Eles possuem a mesma dinâmica minha e de minha namorada quando vamos ao supermercado e sinto saudades dela por isso. Sentir saudade do que existe e pode ser vivido é um dos meus pequenos objetivos e ainda bem que tenho conseguido sempre.

Martelo isso aqui. Você deve ter percebido. O fato de que mais vale martelar pregos do que tentar tirá-los da parede e não ter sucesso porque eles estão encravados e tortos demais para valerem o esforço em serem retirados. As paredes da minha casa eram cheias de quadros amadores pintados pelo meu pai. Todas as paredes da sala. Quadros de diversos tamanhos. Cores e temas em desordem.

Um dia, há um bom tempo, eu resolvi jogá-los fora com moldura e tudo. Um tempo depois, com os primeiros vencimentos do Exército, contratei operários para cobrir as paredes com massa corrida. Hoje ninguém consegue mais lembrar como os quadros eram exatamente. Suas posições, seus temas que impressionavam visitantes ignorantes. Com o expurgo das telas amadoras a sala ficou mais bonita. E ficará novamente.


9.8.10

A Volta


Desembarcamos após três horas e tanto de voo. O homem a aguardava entre tantos anônimos e me olhou incompreensivamente. Achou que eu me confundira e estava ao lado da mulher errada. Outra. Então a minha acompanhante sorriu e a sua desconfiança se dissipou na forma de espanto quando percebeu ser ela mesma. A mulher certa e não apenas isso: a mulher certa com a mesma idade que possuía quando a vira pela última vez, no final dos anos 90. Suas mãos nervosas permaneceram dentro dos bolsos.

Os dois se deram um abraço torto e intenso e olharam-se de forma pânica. Mas como, mas como, ele disse. Não sei... pergunta pra ele — e olharam pra mim. Eu disse não posso dizer como e tal coisa não interessa, o que importa é que vocês estão juntos novamente. Apenas aproveitem o milagre.

Obrigado xxxxxxxxxxx , você é o responsável por isso. Fico te devendo essa — o cliente agradeceu como se não houvesse depositado dez mil reais em minha conta.

Deixei os dois ex-namorados trocando impressões e desapareci entre as pessoas chegando e partindo. Eles darão as mãos e sentirão o cheiro um do outro. Em seguida irão a algum bar que evoque o passado e tomarão, cada um, várias tulipas de chope para criarem a coragem do beijo — um beijo torto, como o abraço, onde as línguas se estranharão e os dentes machucarão a parte interna dos lábios — e seguirem para o apartamento, onde farão um sexo bêbado e sem quaisquer outras nuances pernósticas que não sejam declarações vencidas permeadas pela palavra “lembra”. Espero que não dancem juntos.

Entro em casa. Tiro a gravata. Tomo um banho, troco de roupa e saio. Vou até o bar da esquina e encontro um amigo. Ato contínuo, o garçom abre uma garrafa de Original e pergunta tava onde, chefe? Manaus, respondo, e ele faz uma expressão idiota de quem ouviu algo inescrutável. E como foi? Agora é meu amigo quem pergunta. Proveitoso, respondo. Me rendeu dez mil reais, o que não te exime de dividir a conta. Pô, grana boa. Boa e simples, e é bem possível dele me dar um extra pelo fator surpresa.

A mulher com cara de anos 90 foi o fator surpresa. Com fumaça de cigarro e toques nos lugares certos a convenci de que era jovem novamente; e também a ensinei a convencer quem quisesse sobre tal milagre. Seu olhar e seu sorriso curto foram suficientes para ludibriar o ex-namorado e agora os dois possivelmente estarão trocando juras de amor renovadas sem sentido e viverão um romance que não durará muito; ou será dividido em compartimentos enquanto a mulher estiver tentando recuperar o tempo considerado perdido flertando desesperadamente com qualquer idiota que se deixe ludibriar pelos olhos e pelo sorriso que a fazem parecer mais jovem.

Isso possivelmente acontecerá por muito tempo e será visto com extrema estranheza por quem não compartilhar o delírio. Mas apesar do grotesco, ela estará feliz. Não sinto culpa.


O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...