24.10.10

Lag


Vigília. Um pé no mundo, outro dentro de si mesmo. A televisão reflete várias imagens em forma de fragmentos sem sentido. Uma mulher com cabeça de lobo e outra sem rosto, andando de bicicleta. Acorda e as imagens permanecem. Talco, show de calouros infantis. Crianças parecendo pequenos robôs dançantes. Algumas crianças conseguem ser imensamente detestáveis. Observa a tela e as imagens ainda se misturam. Não são delírio e sim problema eletrônico: na mudança entre um canal e outro, as imagens permanecem e se misturam por alguns segundos. Passa a achar divertido. Uma partida da segunda divisão em meio a um culto religioso de terceira, bichos selvagens em meio aos personagens da novela.

Sua mulher abre a porta. Beijam-se. Como foram as coisas hoje, pergunta. Cansativas, cansativas. A única coisa boa foram os contatos com os amigos. E como eles andam? Estão ótimos. O Cláudio recém chegou de Samoa. A Bruna está com planos de mudar para Buenos Aires e o Orlando conseguiu vaga para um segundo mestrado. Como assim?, pergunta intrigado. Pensara em outros amigos. Ora, “como assim?”; ele se dedicou o bastante e conseguiu a vaga.

Não, não falo a respeito de mestrado ou cidade ou a ilha de Samoa. Falo a respeito dessas pessoas. Quem são eles? Nunca ouvi falar deles. Você deve estar de sacanagem — a mulher já está de roupa trocada e senta ao seu lado para observar as imagens (dessa vez estáveis) da televisão. Não, não estou de sacanagem; em todos esses anos você nunca me falou dessas pessoas.

Como assim não falei? Eu SEMPRE falei deles. Eles SEMPRE foram meus amigos. Inclusive mandaram um abraço pra você. Eles sempre perguntam por você e eu sempre digo que você também mandou um abraço e que também adoraria conhecê-los. Põe a cerveja no descansa copo, vira o corpo no sofá e a encara: é você quem tá de sacanagem, não eu. Pode terminar a brincadeira, você me engabelou por alguns minutos.

A mulher altera a voz: você realmente não dá a mínima para nada que acontece no meu lado da nossa vida. Essas pessoas são muito importantes pra mim, me conhecem desde a adolescência, eu SEMPRE falei deles durante todos os anos que eu e você estamos juntos e você simplesmente ignorou tudo isso! Eu não ignorei nada, porra. Você é que tá querendo me empurrar existência abaixo gente do teu passado que eu nunca conheci e que agora voltou a estabelecer contato. Quer saber? Você, a Bruna, o Orlando, o Cláudio e o Absalão, que nem apareceu na história, vão todos tomar no cu. Tenho certeza que não conheço essa gente.

É impressionante a tua intolerância e agressividade com as pessoas que gostam da gente — A mulher agora passou do agressivo ao passivo e graduou o tom da voz para o modo vítima. Vou pensar se digo a eles que você é esse escroto às vezes. Pode dizer, eu não me importo muito com gente que conheço, com quem não conheço me importo menos ainda. Se duvidar eles, gente boa que são, podem até te mandar um presente quando eu voltar de viagem. Como assim voltar de viagem? Agora você REALMENTE tá de putaria comigo. Eu não te falei que vou encontrá-los na minha viagem até Cuiabá?

Começa a rir descontroladamente. Como assim, menina? Que porra é essa? Que gente, que viagem? Semana que vem eu vou até Mato Grosso a trabalho e, como terei um dia de folga, vou esticar até Cuiabá para encontrá-los. Pode ficar tranquilo que não farei nada demais; e também não vou falar sobre as grosserias que você disse quando ficou sabendo que eu iria encontrá-los.

Muito obrigado por isso, ele diz. Manda também um abraço para o Tutti, a Deidrè e o Arnoldo. A mulher vai para o quarto e ele passa novamente a brincar com o controle remoto. As festa em Ibiza com as gringas azedas mostrando os peitos misturada ao documentário do History Channel. As projeções que se misturam.



8.10.10

Ato Contínuo


• Não acredito que você se dignou a pagar quase vinte reais por um maço de Galouises.


E qual é problema? Tenho pulmões e um pouco tanto de dinheiro. Já paguei quase dez em um Marlboro comum em uma casa comum na nossa cidade comum. E aqui tudo é raro e ímpar: Essa cidade possui um cheiro diferente e as pessoas se movem em um passo diferente e esse maço veio de uma fábrica na França e andou por ruas francesas e atravessou o mar de navio ou de avião (que seja) e estava na prateleira de uma tabacaria paulista esperando por mim, pelas minhas mãos, pela minha boca para provar o tabaco francês.

A sequência dos atos. Josephine pequena e irracional (na verdade névoa a desvelar-se) indo a escola e ferindo os supercílios e namorando idiotas e cruzando o Atlântico e voltando e agora em meus braços em minhas mãos e em minha boca.

Eu dentro de uma rocha fria cor de mate por anos e anos. Lendo livros e ouvindo música. Tentando entender as garotas que viviam em um universo paralelo. Quando finalmente me aproximava de uma delas, invariavelmente a descobria burra e sem conhecimentos básicos da língua inglesa. Os livros e as músicas selecionando as pessoas até chegar a Josephine.

Não lembro exatamente como eu arrumava os cabelos há dez anos e isso me incomoda. Ainda bem eu não ser afeito às fotografias e nem possuir fotógrafos amadores ao redor. Detesto fotógrafos amadores. Sou velho. Sou do tempo da revelação. E se hoje saio mal nas fotografias (menos nas não posadas), imagina há dez anos, quinze. Quando nos vemos no passado sempre nos achamos mais feios; a não ser que tenhamos sido adolescentes nos anos cinquenta.

Penso no futuro. Acredito na ciência e na simples possibilidade de retardar, parar e finalmente reverter o envelhecimento. Morrer-se-á quando quiser. Retirar-se-ão as tatuagens juvenis quando se quiser finalmente ter a aparência de velho. Possivelmente até mesmo deus, o cientista mais velho de todos (ainda de aparência jovem, na casa dos trinta), interagirá conosco porque não seremos mais assim tão ignorantes e iletrados a ponto de nos basearmos metafisicamente na literatura produzida pelos homens. Creio.


No entanto, as fábricas de Marlboros e Gaulouises permanecerão mesmo após o surgimento e império de tantos cigarros de marcas ruins que nem cigarros de verdade poderiam ter sido considerados. E como todo império falso eles tornarão os seus seguidores doentes e por fim perecíveis e sem querer servirão como filtro e causarão a sua própria queda. E nós permaneceremos, assim como os livros de Física Quântica.


• Que bobagem. Não sei de onde você tira essas idéias.


You never believe the shitty thoughts I think…


: Retruco. E por teima e via das dúvidas, aproveito a volta circular do corredor do Mercado Municipal para comprar outro maço para quando voltarmos a Manaus.



6.10.10

Austerlitz


“Assim, quando analisava a dificuldade que tinha de me separar definitivamente de uma mulher, dificuldade que me levava a tantas ligações simultâneas, eu não acusava a ternura do meu coração. Não era ela que me fazia agir, quando uma de minhas amiguinhas se cansava de esperar o Austerlitz da nossa paixão e falava em retirar-se. Era eu que imediatamente dava um passo à frente, que cedia, que me tornava eloquente. A ternura e a doce fraqueza de um coração, eu as despertava nelas, sentindo eu próprio apenas as suas aparências, simplesmente um pouco excitado por esta recusa e também alarmado com a possível perda de uma afeição. Às vezes, é bem verdade, acreditava sofrer realmente. Bastava, no entanto, que a rebelde partisse de fato, para que eu a esquecesse sem esforço, assim como a esquecia junto de mim, quando, pelo contrário, ela tinha decidido voltar. Não, não era o amor nem a generosidade que me despertavam, quando estava em perigo de ser abandonado, mas apenas o desejo de ser amado e de receber o que, no meu entender, me era devido. Uma vez amado e a minha companheira de novo esquecida, eu resplandecia, estava no meu melhor possível, tornava-me simpático.

Observe, aliás, que eu começava a sentir o peso desta afeição, uma vez reconquistada. Então, nos meus momentos de irritação, dizia a mim mesmo que a solução ideal seria a morte para a pessoa que me interessava. Esta morte teria fixado definitivamente a nossa ligação, por um lado, e, por outro, ter-lhe-ia tirado o seu constrangimento. Mas não se pode desejar a morte de todo mundo nem, em última instância, despovoar o planeta para gozar uma liberdade de outra maneira inconcebível. A isso se opunha a minha sensibilidade e o meu amor pelos homens.

O único sentimento profundo que me ocorreu experimentar nestas relações era a gratidão, quando tudo corria bem e me deixavam, ao mesmo tempo que a paz, a liberdade de ir e vir, nunca tão gentil e alegre como uma quando acabava de deixar a cama de outra, como se estendesse a todas as outras mulheres a dívida que acabava de contrair com uma delas. Qualquer que fosse, aliás, a confusão aparente dos meus sentimentos, o resultado que eu obtinha era claro: conservava todas as minhas afeições à minha volta para utilizá-las quando quisesse. Portanto, confesso que não conseguia viver, a não ser com a condição de, sobre a terra inteira, todos os seres, ou o maior número possível deles, se voltarem para mim, eternamente disponíveis, privados de vida independente, prontos a atender ao meu chamado, a qualquer momento, fadados, enfim, à esterilidade, até o dia que me dignasse a favorecê-los com a minha luz. Em resumo, para viver feliz, era preciso que os seres que eu elegesse não vivessem. Só deviam receber a vida, uma vez ou outra, a meu bel-prazer.”

(CAMUS, Albert. A Queda. Rio de Janeiro: Record. Pgs. 50-52)

Li esse livro pela primeira vez em Abril de 1997. É bom guardar os livros dos escritores preferidos para descobrir que os pensamentos antigos considerados próprios não carregavam lá tanta originalidade.