26.11.10

Um Mês


Após o término do culto me aproximo da garota. Ela conversa com o grupo de jovens aspirantes a pastor. Quando me encara, sua expressão muda por saber de alguma maneira eu estar ali por intermédio do seu pai.

Posso falar com você um minuto, pergunto. Se for algo relativo ao meu pai Seu pai está morrendo, interrompo. Como assim, morrendo, a expressão sobre um abalo leve. Aneurisma, descobriu ontem à tarde. E quem é você. Eu sou um amigo do trabalho. Tomei a liberdade de vir aqui, mesmo contrariando a vontade de seu pai. Meu Deus, meu Deus, a garota senta-se em uma das cadeiras de plástico branco. Justo o meu pai. Sento ao seu lado. Ele tem pouco mais de um mês, complemento. Você pode ficar aqui e rezar por ele, ou pode rezar ao seu lado. Eu preciso falar com o pastor, ela diz. Ainda não sei se devo por tudo a perder, a formação, digo. Eu tenho um missão sobre a terra, não posso simplesmente abandonar o processo de unção do meu espírito.

A decisão é sua. Além dele, da sua mãe e de mim, você é a única a saber disso. Não sei se Deus aprovaria alguém abandonar o pai mesmo sabendo estar ele nos últimos dias de vida. Preciso ir.


Em princípio, o cliente se revolta com a mentira. Precisava inventar algo tão terrível? Que diferença isso faz, pergunto. Apesar de grave, foi uma mentira curta – ao contrário daquela rede que está pouco a pouco lavando o seu cérebro. Aquilo sim pode causar um dano irreparável. Apenas troquei uma mentira por outra.

Você acha que ela volta, o pai pergunta. A mãe dela continua inconsolável. Volta, com certeza ela volta. E você e sua esposa terão que mentir para ela até que ela se desvie daquele centro de desexcelência. Se você pensar bem, não farão nada além de acreditar em uma mentira mais palpável, ao contrário da mentira com a qual vocês se acostumaram e que perdeu o controle e tragou a sua filha. Ela chegou ao desespero, precisou acreditar em algo, precisou inventar algo para justificar os seus dias.

Não fale assim de Deus, isso não admito, disse o cliente. Não estou falando de Deus, estou falando de vocês e das mentiras que precisam inventar para tentar compreender algo além da compreensão. Músicas, gente pulando em transe. Vocês são os culpados. Vocês inventaram o delírio. Mes isso não é problema meu. Descontei o seu cheque. Obrigado. Agora preciso ir.

No dia seguinte, às nove da manhã, a garota bateu à porta e foi recebida de forma efusiva, como se tivesse retornado de uma viagem forçada. Os pais haviam reensaiado a mentira mais de um par de vezes.


24.11.10

Ernesto


Ando meio cansado dessa coisa toda. Desse bairro, dessa cidade. As calçadas falhas, cheias de quebras e desníveis e os rostos do mesmo jeito. É um problema, isso de ficar cansado das coisas porque elas jamais mudarão. Sempre serão as mesmas e, invariavelmente, sempre serão observadas e sentidas das mesmas formas porque os olhos sempre serão os mesmos. É preciso descansar, então.


Ernesto, um primo. Cansava-se de tudo, da cidade, das pessoas. Mudou de vida e de cidade inúmeras vezes e com as vezes as mulheres. Certo dia ficou realmente cansado de tudo e foi para o mar trabalhar de imediato. Cansou-se do mar também, cansou-se da vida. Resolveu pular e encerrar o ciclo de cansaços.

Após a inconsciência, acordou em um limbo sendo observado por dois homens calvos de roupa branca. Eles colocaram as mãos frias sobre a sua fronte e disseram que Ernesto viveria tudo novamente, o que o fez sentir um desespero intenso e arrepender-se profundamente de toda a ânsia constante por mudança que tivera. Enquanto observava a sala branca, sentiu falta dos lugares mínimos da cidade natal, do cheiro dos panos da sala, do cheiro de papel do último lugar onde trabalhara em terra firme. Sentiu-se sobrenatural e estúpido.

Levou um tapa e mais outro. Desta vez não eram os calvos do limbo; e sim o enfermeiro do navio. Não morrera, Ernesto, mas o sentimento de arrependimento mantivera-se, acrescido do acanhamento silencioso por ter acreditado estar de fato em um pós-vida quando sempre pregara vida mesmo só haver uma. Corrigiu e certificou-se da segunda impressão, manteve a primeira. Voltou para casa.


21.11.10

A Voluntária


É difícil pegar esses casos de reconciliação desejada por apenas um dos lados. O sujeito me liga dizendo querer a filha de volta. Ela fugiu, pergunto. De certa forma, ele diz, ela trocou a família pela igreja. Anoto os detalhes. Uma igreja evangélica recruta jovens para se tornarem pastores ou obreiros e para isso acontecer de forma mais eficiente, eles tornam-se alunos de internato e só podem retornar à família após a preparação básica de um ano.

Há um mês a garota estava entre os muros mal caiados do templo. Isso de perder filhos para a igreja não é nenhuma novidade. Acontece há milênios. A diferença é ser hoje algo voluntário. Antigamente, se você tivesse sido oferecido como promessa ou tido a vida salva por algum santo era obrigado a ser encarcerado em um mosteiro ou igreja sem energia elétrica e com pederastas sádicos e mal cheirosos. Ao menos acho que era assim. Aquele filme baseado no romance do Umberto Eco é bastante impressionante.

A voluntariedade é algo extremo. Requer completa entrega e altruísmo ou profunda inocência e imbecilidade.

Vejo inocência e imbecilidade nos rostos das pessoas repetindo palavras ao transe. Na pintura terrivelmente cômica e mal feita de Jesus sorrindo e abraçando o mundo como se fosse uma bola de plástico. Certamente por pura ignorância, a Ásia não fora pintada devidamente. É uma mancha que se perde em uma curva oculta que avança rumo ao torso torto do Cristo. Tal névoa geográfica também ocorre com todos que estão ali e ignoram os bilhões de pessoas com crenças diversas e que, paradoxalmente, também acreditam ser a sua crença a verdadeira. Não há lado correto: ambos estão loucos.

O sujeito encarregado do culto tenta salvar a alma dos fiéis sacrificando a língua portuguesa. Em uma área separada estavam os aprendizes. Eles cantam mais do que os outros, pulam mais do que os outros e apenas saem do transe para percorrer a igreja para coletar dinheiro em coedores gigantes de café.

Apenas um terço dos aprendizes são garotas. Além de todo o conhecimento, também falta a elas o da Estatística. A quantidade de pastoras é ínfima. Só as que dormem com os pastores cabeças da igreja possuem alguma moral e escada para conduzirem cultos por si próprias.

Observo-a. Terei trabalho. Dissuadir gente raivosa ou violenta é simples. Gente fanática e ignorante é algo dificílimo.



7.11.10

Portões


Erasmo. A rua com cheiro de cinza na manhã de terça desde a hora primeira do dia. O primeiro morador sai de casa para comprar pão. Preparará sanduíches para serem vendidos à porta do cemitério e conter a fúria dos estômagos dos parentes dos mortos. Força o portão e não consegue abrir. Algo o bloqueia. Um peso, móvel, mas um peso, o impede de realizar o movimento. O portão é cego, todo revestido por chapa de aço. Erasmo resolve subir o muro para descobrir a causa do entrave.

Ao longo de toda a rua e calçadas estão dezenas de pessoas deitadas. Chama atenção do que está mais à frente. Um homem branquíssimo, com expressão de pânico impressa nos olhos. Ei, amigo, o que diabos está acontecendo, pergunta. O homem apenas move os olhos e o encara. Não vai falar nada, companheiro?

Alonga a vista por toda a rua e por entre o tapete imóvel e diverso reconhece o terno de seu pai. Parte do rosto, os maxilares semelhantes. Exaspera-se. Outras pessoas tentam sair de casa e não conseguem. Os portões estão bloqueados. Uma das casas, a única da rua a não possuir portões, possui gente deitada até a soleira.

Os corpos deixam pequenas vias por entre eles. Percorríveis pé ante pé. Outros moradores pulam os muros e reconhecem os corpos que não viam há muito ou pensaram que veriam só dali há algum ou há muito tempo, quando se juntassem a eles, os deitados. Mas o fato deles estarem ali, como foram quando estavam de pé, quebrara a ordem das coisas.

O dia avança, de nublado a escuro. E os deitados permanecem mudos, de olhos abertos, sem qualquer interação além a dos olhos. Alguns moradores choram copiosamente, tentam abraça-los, mas não recebem qualquer resposta. Os religiosos acreditam ter chegado finalmente o milagre do reencontro, vivos e mortos. Refazem planos, rezam novamente.

Nenhum resultado efetivo ocorre. Assim tem sido desde sempre. Não se pode falar com os mortos. Os mortos não podem falar conosco. Apenas nos observar e não entenderem o que estão observando porque seus cérebros não mais funcionam. Apenas os olhos, abertos e se movendo como plantas ao vento, nos dão a ilusão de diálogo.

Os portões permanecem bloqueados. Os deitados permanecem imóveis. Seus olhos permanecem abertos, sem reação mesmo à luz das fotografias. Erasmo toca o rosto do pai. Evita olhar o peito porque sabe que sob o terno (o único que o pai usara em vida, ou seja) está um furo causado por revólver. A porta do banheiro trancada, um trabalho dos diabos para abri-la.

No meio da tarde todos já estão bastante cansados de pular e despular os muros de casa. Alguns entram e não saem mais, com medo de serem assolados pelo mesmo mal eterno. A televisão não noticia o fato. Nenhuma mídia contactada acreditara na notícia.

Às seis horas em ponto, porém, ouvem-se gritos vindos da rua. Os moradores correm e sobem os muros. Dessas vez não os descem porque sentem medo: Todos os deitados gritam em uníssono e esse grito coletivo dura até o último deles desaparecer da rua.

À noite, os portões estão livres.


5.11.10

Tórax


Sem vontade de escrever. Às vezes olho para esse endereço e penso em dar um fim em tudo. Afinal, quem se importa
? Os posts e com eles os arquivos demoram cada vez mais a se encherem; o que prova o quanto a minha criatividade míngua e a minha vida não é assim tão interessante. Então penso em parar.

(risos)

Que grande bobagem. Imagino a imagem e miséria de alguém que posta tal tipo de coisa como àcima. Dar satisfações. Precisar dizer que não precisa mais dizer algo. Só existe alguém pior que o miserável: o miserável que gosta de promover a sua miserabilidade.

Gosto de dar satifações. E aprecio satisfações das pessoas de quem gosto. E em breve escrevo e posto. Um conto sobre o dia dos mortos e mais outro.

O lance é que agora estou com uma dor de estômago intermitente. Nada de lance de sanitário, escatológico leitor; É sim uma daquelas dores gástricas que, de tão gástricas, chegam a ser estilosas. Para quem vê. Porque para quem tem as guts é de uma irritância (sic) comovente. Estou ficando bom, ao menos. Do estômago, digo.

And it feels like this.