29.12.10

Prateleiras


Ontem passei bem mais de uma hora na Saraiva bem disposto a comprar um livro e não consegui. Havia, claro, dezenas de títulos interessantes, mas faltou aquela vontade inconsequente de ignorar preços por saber ser compensador o prazer que poderia vir depois. Perscrutei pacientemente as prateleiras de temas afins, verifiquei preços protocolarmente, fui e voltei e absolutamente nenhum título surgiu com a urgência de 2666 alguns meses antes.


Depois de um tempo andando pela livraria percebi vários títulos repetirem-se em diversas prateleiras e várias prateleiras repetirem-se: autoajuda e esoterismo. Detesto esses temas e não respeito quem lê bobagens impalpáveis e implausíveis fruto de má criação ficcional querendo se travestir de realidade e ainda tentar transmitir sapiência. Contudo vivemos em um país democrático movido pela grana e seria burrice não comercializar livros para gente burra. De qualquer forma, ver um título do Baudrillard e duas prateleiras depois um do Augusto Cury, me fez pensar que para tais títulos – autoajuda e esoterismo – deveria ser criado um espaço semelhante ao espaço criança, decorado de forma a tornar o público-alvo mais confortável. Seria algo como um espaço para errepegistas que se tornaram dementes após terem exagerado na dose de imersão na fantasia.

Mais de uma hora, como disse. Cansei-me. Não era uma tarde para livros novos. Liguei para a minha garota. Localizamo-nos. Divertimo-nos mais comprando roupas.



22.12.10

O Bem e o Mal. Bernardo e Nestor: O Fiel e a Pedra


"A Parte dos Crimes", de 2666, terminou sem solução e causou-me frustração por ter reproduzido exatamente a falta de explicação para as atrocidades do mundo. Não houve vilão ou vilões além do silêncio covarde e atávico sob o qual se esconde a maldade.

Entre esta e a última parte de 2666, "A Parte de Archimboldi", terminei a leitura de O Fiel e a Pedra, de Osman Lins. Romance também ambientado em uma terra erma e com a presença do mal permeando as coisas e tentando corromper a quem ofereça resistência.

A resistência se chama Bernardo. Um homem que passa dificuldades porque pediu exoneração de um cargo público por estar cercado de corruptos e, ao mudar-se de cidade se recusou a ser laranja de Miguel Benício, um amigo moribundo que no afã de se livrar da partilha de bens com a esposa adultera, ofereceu o trato antiético a Bernardo e, com a consequente recusa deste, passou os bens ao irmão, Nestor. Pouco tempo depois, Miguel morre em circunstâncias misteriosas.

Após a morte do irmão, Nestor Benício tenta aproximar-se de Bernardo de todas as formas possíveis para concretizar o desejo de fazê-lo uma espécie de gerente dos negócios herdados do irmão. O problema é que Bernardo não gosta de Nestor, não apenas devido ao seu caráter duvidoso, como também por desconfiar ter sido ele o executor do irmão.

A cada tentativa de aproximação, e consequente recusa, Nestor torna-se cada vez mais irascível com a reticência de Bernardo. A antipatia inicial se transforma em ódio e os lados - o bem e o mal - possuem em Bernardo e Nestor os seus avatares. Não tarda para os embates de idéias e diálogos secos tomarem cada vez mais corpo e marcarem os seus lados (Nestor cercado de asseclas e Bernardo cada vez mais sozinho) e encaminharem-se para o conflito físico: o clímax preso nas poucas últimas páginas presas entre o indicador e o polegar.

Fosse uma história simples e maniqueísta de bem versus mal, seria simples inferir que Bernardo, o fiel que valida a balança, vencerá Nestor, a pedra de moinho que destrói de forma cega. Mas, lembremos, este é quase sempre um mundo injusto onde, mesmo frente à vitória, algo sempre fica pelo caminho.

17.12.10

Sinédoque


Corre as mãos pela extensão do tórax branquíssimo crispado pelo toque insinuando suas incontáveis costelas a ponto de quase serem exoesqueleto. Repousa à altura direita do ventre onde existe uma cicatriz curta e fina como um fiapo rosado.


De onde veio essa cicatriz?


A mulher responder ter tido o seu apêndice extirpado devido a uma dor intensa que poderia tê-la levado à morte.


É aquela parte do corpo que não faz diferença se você tem ou não?


Dizem. No meu caso fez bastante diferença. Antes, quando possuía o apêndice, conseguia guardar meus segredos em meio a caroços de frutas e areias minúsculas que engolira ao longo dos anos. Eles, os segredos, se mantinham ali, divertindo-se como uma criança em uma piscina de bolas. Todos foram embora com a cirurgia e agora se tornou impossível manter qualquer segredo escondido e incólume.


E o que você faz para tentar refrear essa impossibilidade?

Bebo iogurte.



15.12.10

Chino


These are my favourite Deftones´s song titles:


Pink Cellphone

Cherry Waves

Digital Bath

Pink Maggit

When Girls Telephone Boys

RX Queen

Sextape


I like whimsically sexy things.


14.12.10

O Bem e o Mal. Os Romances Genias, Densos e Árduos: 2666


Há tempos não tenho mais aquela sensação de urgência em comprar um livro. Provavelmente pela proximidade que tenho a um imenso número deles depois da abertura de uma Saraiva Megastore no shopping mais recente. Antes, quando viajava, fitava religiosamente as prateleiras e voltava para casa com a mochila transformada em casco de tartaruga, maciça de tantos livros. Agora eles estão à mão e não é preciso assim tanta urgência para tê-los. Aquele traço característico da raça humana que faz até mesmo os fotógrafos da Playboy habituarem-se às paisagens.

Mas exceções existem, sempre. A única deste ano foi 2666, o último romance de Roberto Bolaño antes de morrer com insuficiência hepática (não, não foi cirrose). Um calhamaço de mais do 800 páginas que correspondem ao encadeamento de cinco romances que podem ser lidos de forma independente ou, para o leitor mais inteligente e compenetrado (o meu caso), ser encarado como um todo.

E o todo, cara e leitora leitora, é algo absurdamente bem urdido que me faz pensar ter sido Bolaño não apenas um baixinho chileno fumante; e sim toda uma equipe de escritores latino-americanos com representantes do México até a Argentina produzindo uma narrativa que cobre todo o Ocidente, partindo dos círculos intelectuais europeus, passado pelos Estados Unidos até chegar ao México, mais precisamente a cidade de Santa Helena: um inferno onde mais de duas centenas de mulheres são mortas sem rastro de quem seja(m) o(s) assassino(s).

Até agora, página 587, aonde cheguei, não tenho idéia de como terminará a trama. E o que assusta, além de toda a barbárie com a qual os assassinatos são descritos (depois do quinto passei a saltar as descrições), é que o sobrenatural começa a se esgueirar pelas frestas. Não da forma tradicional, mágica ou fantástica, estudada e sumarizada pelos críticos e leitores; e sim como algo possível frente a tamanha misoginia perversa que vez ou outra entra no satânico. Em 2666, não é o fantástico que ameaça o real, e sim o real que se impõe com crueldade tamanha a ponto de criar o fantástico.

Tal esgueiramento do sobrenatural pode ser ilustrado, quando Hans, um imigrante alemão é preso como suspeito da morte de uma das inúmeras vítimas e, em uma crise de pânico causada pelo cárcere, diz estar à espera do gigante banhado de sangue que o virá libertar e matar a todos. Talvez o mesmo gigante que antes profanara as igrejas da cidade iconoclastizando-as e cobrindo-as em toda a sua extensão com uma mesma urina impossível de ter sido contida numa bexiga humana. Talvez o mesmo gigante que pode ser a personificação do mal entranhado em toda a cidade e que faz com que todos os homens sejam instrumentos de uma perversão escusa e coletiva que remonta às civilizações antigas.

São apenas teorias. Ainda não terminei o livro e esta parte - a dos crimes - ainda é penúltima. Mas terminarei. Preciso terminar. E esta urgência de saber, de percorrer as páginas com cuidado para não perder qualquer detalhe, é o esteio que caracteriza os clássicos.


12.12.10

Poison


[Jake is vomiting in the bathroom toilet]


Charlie: You know, your body's sending you a message.

Jake: Yeah, it's sayin' I should really chew my food more. Look at that shrimp -- you could wash it off and serve it again.

Charlie: Your body is also telling you that alcohol is poison.

Jake: If it's poison, why do you drink it?

Charlie: Because there are things inside of me I need to kill.

Jake: You can't kill bad feelings with alcohol, Uncle Charlie.

Charlie: Right.

Jake: And you can't stuff your emotions with cupcakes. Believe me, I've tried.

Charlie: I'm sure you have.


11.12.10

Trinta e Um realmente


A mecânica do aniversário possui o moto de um dia durante o qual se pensa o anuário da vida. Depois a vinda continua, aprendendo-se. Li o post do ano passado e descobri ter esquecido praticamente tudo o que escrevera, cabendo também um equívoco, o título, trinta e um. Como assim trinta e um? Fiz trinta e um esse ano e àquela época cometi o ato falho de me considerar um ano mais velho, mesmo sendo os trinta anos algo assim tão emblemáticos. Desta vez fiz trinta e um anos verdadeiramente.


Depois desse primeiro parágrafo, parei para reler um caderno antigo sobre o qual nunca mais escrevi até reencontrar algo que escrevera dez anos antes:



Tive o melhor aniversário dos meus vinte e um anos de vida. Encontrei um colega um shopping, discorríamos sobre a natureza das coisas enquanto tomávamos milk-shakes em copos de 500ml. Fomos a um festival apenas porque ele serviria como ponto fixo para encontrarmos outros colegas e constatar quão patética é essa cena pseudorock manauara. Havia muitas skatistas de um metro e sessenta. “Não me sentiria muito bem ao tentar fazer sexo com elas: tirar as meias esportivas, os tênis e os shorts que elas usam me faria parecer um pederasta involuntário, apesar de o skate ser um belo acessório para o sexo na horizontal”. Encontramos duas conhecidas na saída, ensaiamos um jogral da mentira e seguimos em frente. Fizemos uma pequena pesquisa de mercado, após algum tempo ela me tomou pela mão. Havia azulejos xadrez e espelhos, havia uma base vermelha luminosa. Ela não sabia o quanto era importante, mas pude perceber uma pequena distorção no descaso. Havia o mesmo frio, mas o profissionalismo fez com que tudo ficasse mais agradável, penumbra, coisas que eu só havia visto em filmes. Nunca desci de um táxi com tanta segurança e me sentindo tão bem. Não pediram que eu apresentasse a carteira, não sei se porque me reconheceram ou porque a segurança e o recém-aniversário faziam-me parecer mais velho. A caixa deu um sorriso agradável. Fato antológico, digno de nota: havia uma garota de cabelos vermelhos, branca, batom vermelho-sangue. Ouvi uma voz “depois quero falar com você”. Não, não podia ser ela. Passei novamente. Ela sorriu, um cara menos tímido que o normal falou “você não sabe quão divino é para mim estar falando com uma garota linda de cabelos vermelhos” (ela não leu esse caderno). Ela tocou os cabelos e sorriu, “depois quero falar com você”. Ela não especificou esse depois e desapareceu. Tudo bem, foi o suficiente para tornar tudo mais divertido ainda. Encontramos as duas garotas novamente, demos um sorriso bobo e ensaiamos um novo jogral, dessa vez mais alto. Vou gravar uma fita só para fazê-la ter dúvidas, uma espécie de retribuição saudável de insegurança. Existem muitas pessoas legais: um cara que gosta de brigar, toca heavy melódico mas é estranhamente legal, um cara que me parabenizou e emborcou um copo de chope garganta adentro (“hoje começa o processo de autodestruição”), o cara que toca contrabaixo e tentou duas vezes algo com outra garota de cabelos vermelhos (“cara, a gente tem que tocar Weezer!”). Todos voltaram em um carro que possuía menor quantidade de álcool que o total dos ocupantes. The driver pissed in front of the British and American. Cheers!



Há dez anos eu escrevi a coisa acima, empregando mal os sinais de pontuação e a coisa toda. E pouco me lembro do que houve efetivamente. Não lembro exatamente dos nomes e nem dos amigos ou das garotas que interagiram conosco. Em dez anos se esquece de muita coisa, quando não quase tudo. Esse caderno antigo por vezes me constrange porque o passado é, em sua maior porcentagem, constrangedor. Mas lembro de ter me divertido.


Internamente, além da dissolução da memória, nem tanta coisa mudou.
Apesar dos anos estarem passando rápido, várias partes de comportamento se mantêm. Como cunhar frases rodrigueanas taxativas do tipo “nenhuma mulher que tinge os cabelos é confiável”, ou parar de falar com pessoas que não se fizeram mais valer a pena. Lembro de estar certa vez na casa de uma ex-namorada e a mãe dela, uma filósofa inteligentíssima, dizer: “eu acho lindo esse retardamento que vocês têm”, sem nenhum sentido detratório; e sim expressando o fato de que os anos sobre mim pareciam não passar tão rápidos. Eu não inferi isso, ela mesma explicou. Ser chamado de retardado requer explicações imediatas. Eu realmente não lembro mais exatamente do rosto da ex-namorada — Apenas lembro ter ela pernas brancas e grossas.

E é o que acontece, essa coisa Scott Pilgrim do tempo que passa devagar e se dobra em portas dimensionais que às vezes parecem te levar para o mesmo lugar. No dia anterior, eu fora à casa do meu pai e tive um delicioso almoço espontâneo. E depois encontrei alunos no shopping para ficarmos um pouco mais entre nós após o término do curso porque, de certa forma, nos admirávamos e quiséramos protelar o fim do curso por mais algumas horas. O retardamento do presente. E eu não estou contra o mundo. Nunca estive. O mundo é tudo o que tenho. Não penso em pré ou em pós vida. Penso nos pés e no chão que oferece resistência. A palavra retardamento, assim como outras primordialmente negativas, quando bem utilizadas, podem ser palavras bonitas. Kurt sabia como fazer isso e Nirvana continua sendo a minha banda preferida.

No dia do meu aniversário tive um dia de trabalho normal pontuado pela última etapa de uma série de testes de Cambridge que tiveram início no domingo último. No trabalho tive um bolo e a minha coordenadora disse que não ligava se eu gostava de bolo ou não; apenas queria que eu soubesse que as pessoas gostavam de mim. Antes do teste, fiquei inexplicavelmente nervosíssimo. Após o teste, só queria abstrair e diluir a adrenalina. Alguns amigos fizeram questão de passar algumas horas conversando e por vezes celebrando simplesmente porque queriam estar ali mesmo tendo compromissos cedo no dia seguinte. Isso das pessoas fazerem questão de você faz um bem danado. A família do pai fazer questão de oferecer um almoço um dia antes e de dar presentes. As pessoas do trabalho fazendo questão de dividir um bolo porque não querem deixar a sua efeméride particular passar em branco. Até mesmo o protocolo da garçonete da cachaçaria oferecendo como presente uma pequena garrafa de cachaça tendo impressa a frase “Feliz aniversário! Para nós você é muito especial” tem lá o seu efeito.

Não sou exatamente fácil. Possivelmente nunca serei. E tenho concluído após após após ser a nossa existência pontuada por momentos de esquecimento e importância. Algumas semanas antes do meu aniversário fiquei realmente doente e preocupado por ter sido algo não diagnosticável. Um mal que fazia doer o lado direito do meu tórax. Fiquei preocupado em ser algo mais grave. Acho que não foi e não voltará e o hospital que faz você se sentir ninguém só piora as coisas e faz você nunca querer voltar lá novamente. Esses caras que aparecem no jornal com mortes absurdas e tantos outros com mortes súbitas me fizeram sentir certo medo em ter algo grave e feio aqui dentro. Passou, e ninguém realmente se importou enquanto durou o mal porque a vida dos outros sempre corre paralela e ninguém pode parar e se preocupar de forma efetiva porque o interior do tórax de alguém dói. A dor dos outros sempre soa menor. A minha mãe não conta.

Hoje, depois do dia do aniversário. Estive em duas confraternizações. A primeira foi novamente do trabalho, em um rodízio de pizzas. A segunda, logo em seguida, foi o aniversário de uma colega de trabalho. Fomos em um lugar onde se serve comida japonesa e chope. Estava só. A minha namorada não foi nem a essa nem à reunião na cachaçaria com os amigos por estar envolvida em devaneios racionais e irracionais. Algo como um projeto gigante de mestrado misturado com flertes escusos e frustrações secretas que ela acha que eu não percebo. É o mundo dela e quem sou eu para interferir. Eu pergunto, ela não responde, então não posso fazer nada a respeito. Mesmo pontuado por frases isoladas e pungentes como “quer que eu te leve?” (ao hospital) ou “eu preciso ir?” (ao casamento de uma prima minha de infância), as demonstrações de amor permanecem superiores. Mas no todo não mais me importo com esses pequenos drawbacks. Não por tentar seguir o evangelho de Mersault ou maquiar a irritação em descaso: eu simplesmente não me importo mais. Escrever que não se importa por si só carrega um importar e isso seria irônico e quase paradoxal, não fosse preciso verbalizar para o pensamento existir porque de outra forma ninguém saberia que você não se importa. Não me importar com certas coisas foi algo que veio com a idade.

No lugar do sushi havia uma mulher absurdamente linda e destoante maquiada criteriosamente como uma atriz dos anos vinte. Os cabelos presos por fivelas, as sombras ao redor dos olhos. Entre um intervalo de conversas eu olhei para ela e fui encarado fixamente até desviar o olhar. Sem constrangimento, desistência apenas. Pensei que se estivesse sozinho não faria muita diferença. Eu não gosto de filmes antigos e reconheço ser isso parte de uma ignorância cultural. Eu não teria o que falar. Não tentaria ter contato com uma mulher simplesmente porque a achei bonita. Não levantaria, não pegaria um número de telefone para tentar algo novo porque depois de certo tempo o novo passa a cansar por sabermos ser somente algo travestido de futuro. Talvez esse tenha sido o momento durante todos esses eventos onde realmente me senti sozinho.

Isso de falar que se sente sozinho é de uma redundância absurda. Se sentir sozinho é simplesmente ter uma consciência mais clara de mundo. Somos nós e nós mesmos nos relacionando com os outros. Não há drama nisso. E os outros precisam de nós porque gostam de nós e nós precisamos deles porque gostamos deles. As pessoas gostam das outras. Eles estão e eu estou porque a empatia sempre continuará existindo das maneiras mais improváveis.


Agora estou em casa.


7.12.10

Electra Made Me Blind


These are my favourite lines amongst all Everclear songs:


July, she lied
July, she lied
July, she lied
July, she lied
July, she lied
July, she lied
July, she lied
July, she lied
July, she lied
July, she lied
July!
July!
July!


(The last three lines are sung like Kurt used to sing, or scream)



2.12.10

Apontamentos


Entre os meus não talentos

explícitos

apontados

pela minha namorada

estão os de:

Não saber acender

um palito de fósforo.

Não saber bater

uma cinza de cigarro.

(Estes dois últimos contra o vento)

Não perceber a ponta

do tapete quando desdobrado

pelo meu pé.

Não saber fotografar.

E não saber dançar

ao menos

intuitivamente.


1.12.10

As sombras. O lilás.


Perseguem-no as meias com rasgos planejados permeados por pernas branquíssimas guiando bustos sugeridos além do normal e sobre ele rostos pontuados por olhos borrados por sombra. Dos anos de adolescência – e aí já vão séculos – quase nada mais o comove além de Nirvana e de garotas de cabelos coloridos como que se tivessem saído de uma revistas e destoando de todo o conjunto habitacional feio e sem graça da cidade de calçadas quebradas.

Você já percebeu como nenhuma calçada dessa cidade é harmoniosa? É algo que me incomoda bastante. As que são planas, ou são lisas, ou estão totalmente desniveladas em relação à próxima calçada, ou seja, nós temos sempre que andar desconfiando do chão para não topar ou levar uma queda.

É um teste consequência da queda. A garota o observa com o queixo sobreerguido. Ela tem os cabelos pintados de cor ímpar. A cor você imagina.

É verdade, ela diz. Estende a mão. Entre as unhas coloridas predomina o lilás. Cumprimentam-se. Trocam nomes. (Imagina os nomes, não sou bom com nomes de personagens) Até hoje eu não tinha ligado tanto assim para as calçadas, é um lance meio neurótico, sei lá, mas faz sentido, diz, já dei umas topadas mesmo.

Existe algo de ainda mais digno em uma garota absurdamente bonita que anda sozinha de ônibus. Sei lá, isso a torna ainda mais bravia do que as que se escondem no banco de trás do carro dos pais.

Outro fato não tão agradável sobre as garotas absurdamente bonitas que andam de ônibus é o de que elas sempre, sempre, descem antes. Ao menos trocaram emails.


O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...