30.12.11

Quase Lá


O penúltimo dia do ano foi também o mais preguiçoso. Saí de casa apenas na hora do almoço para comprar comida. Um frango. À noite pedimos pizza.

Ao menos consegui terminar a leitura de um livro: Mulheres, do Bukowski. Literatura digna de um dia preguiçoso. Também estou com uma barba preguiçosa. Falei duas vezes com a minha namorada. Além do meu video-game e meu coração, meu barbeador elétrico também está em sua casa. Em uma gaveta.

Curiosamente, a quantidade de posts aqui aumentou. Logo mais, irei escolher uma foto para fechar em 100 (um recorde!).

Como vocês pronunciam? Recórde, récorde ou récor?

Não importa. Continuem perseguindo os seus.

E vamos para 2012.

Abraço.

J.

29.12.11

Good Old Hank






"Peguei minha garrafa e fui pro meu quarto. Fiquei só de cueca e deitei na cama. Nada estava em sintonia, nunca. As pessoas vão se agarrando às cegas a tudo que existe: comunismo, comida natural, zen, surf, balé, hipnotismo, encontros grupais, orgias, ciclismo, ervas, catolicismo, halterofilismo, viagens, retiros, vegetarianismo, Índia, pintura, literatura, escultura, música, carros, mochila, ioga, cópula, jogo, bebida, andar por aí, iogurte congelado, Beethoven, Bach, Buda, Cristo, heroína, suco de cenoura, suicídio, roupas feitas à mão, vôos a jato, Nova York, e aí tudo se evapora, se rompe em pedaços. As pessoas têm de achar o que fazer enquanto esperam a morte. Acho legal ter uma escolha."

(BUKOWSKI, Charles. Mulheres. Porto Alegre: L&PM Pocket. pg. 191)


27.12.11

Os Meus Quatro


Uma breve lista com o meu disco, filme e livros preferidos deste ano:

Disco: Ladytron / Gravity the Seducer




2011 foi de muita música. Antiga, em sua maioria. Discografias. Pink Floyd. Rolling Stones. Metallica. Ramones. Led Zeppelin. Misfits.
 

Os álbuns novos, entretanto, decepcionaram um pouco. Menos o do Ladytron. 

Pela primeira vez o lançamento homeopático de singles funcionou comigo: quando ouvi o álbum pela primeira vez, usei as músicas conhecidas como âncoras das novas e a audição do álbum se tornou completa mais brevemente.

E leva muito, acredite, para uma audição de Gravity, the Seducer, ser completa.

Tenho um carinho especial pela banda por acreditar ser o único fã realmente fã deles. 

Fico feliz ao descobrir uma nova camada de som ou um novo significado para uma letra sem muito sentido. Treino com a minha namorada o "olhar Ace of Hz" da Helen (the girl with one arm akimbo). 

Pensando bem, talvez eu seja realmente o único fã de Ladytron realmente fã realmente. 


Filme: Lars Von Trier / Melancholia


Os pontos negativos de Lars Von Trier como diretor/figura pública são: é prepotente e dá declarações estúpidas. O ponto positivo: ele se arrisca em seus filmes e acerta na maioria das vezes. 

Depois do indigesto horror-pornô-artístico de Anticristo, talvez ele tenha feito o melhor dos acertos em sua carreira: Melancholia tem um plot simples e é carregado de significados, assim como os bons romances.

Uma noiva deprimida (Kirsten). Um cientista soberbo (Kiefer). Uma mulher entre a irmã deprimida e o cientista soberbo (Charlotte). Um planeta absurdamente próximo à Terra. Enquadramentos clássicos e fotografia unindo-se ao bom uso da computação gráfica. 

Resultado: um clássico recente interpretável de todas as formas possíveis. Arte.



Livros: Trilogia Millenium / Stieg Larsson &
2666 / Roberto Bolaño


A literatura não tem vivido seus melhores anos. E quando aparece um autor jovem e genial como Stieg Larsson, a morte chega antes dos cinquenta (2004). Como também chegara a Roberto Bolaño (2003). 

Juntos, Larsson e Bolaño, produziriam as séries policiais definitivas. Tomariam leitores, críticos e produtores de assalto.


Em 10 volumes, Larsson transformaria Mikael e Lisbeth em personagens definitivamente imortais.

Em mais um ou dois volumes, bíblicos ou não, Bolaño fecharia a imensa teia tecida no romance 2666 e se tornaria o grande autor-romancista-policial-metafísico-latino-americano de todos os tempos. 

E os dois se conheceriam e fumariam um cigarro juntos. 

Não conseguiram, porém.

E não conseguirão no pós-vida. Porque não há pós-vida. É um mundo cruel e complexo, leitora. Exatamente como relatado nos romances de Larsson e Bolaño. 

Mesmo assim não foi totalmente tarde demais para os dois: ao menos eles conseguiram entregar os manuscritos aos editores.  Algo como uma imortalidade incompleta mas, ainda assim, imortalidade.

Roberto Bolaño e Stieg Larsson partiram deixando livros maravilhosos e mistérios indissolúveis. E seus nomes em listas ao redor do mundo.


Marteladas


Abaixo, listo minhas sete principais teorias sobre as marteladas intermitentes do sétimo andar, as quais têm se prolongado por pelo menos dois anos e meio:

1. Estão construindo uma igreja. Barroca; ou

2. Assentando um mosaico com peças de 1x1cm de modo a compor um mapa-múndi na sala de estar; ou

3. No intuito de economizar dinheiro com pedreiros, os proprietários compraram o Manual do Construtor para assentarem eles mesmos o piso. E não têm conseguido. Pela oitava vez; ou

4. Estão tentando reproduzir o interior de uma caverna, picotando não só o piso; como também as paredes e o teto; ou

5. Possuem um escravo de noventa anos, o qual, somadas as vicissitudes da idade, nunca foi bom em construções; ou

6. Criam um carnívoro gigante que necessita todos os dias de enormes bifes crus para aplacar seu terrível apetite. De tão grandes, os bifes precisam ser batidos no chão; ou

7. Possuem um chimpanzé ou qualquer outro grande macaco cujos instintos selvagens só se acalmam quando é dado um martelo para a criatura bater no chão, atormentando, assim, por mais de dois anos consecutivos, os seus primos evolutivos moradores do andar de baixo.


15.12.11

O Que Falar Sobre Albert Camus em Festas





Albert Camus é meu escritor preferido. Nasceu na Argélia. Filósofo. Escritor. Jornalista. Dramaturgo. Crítico. Editor. Manifestante. Humanista. Seu nome se pronuncia "Cami". 


Abaixo, mais algumas informações para você, leitora ávida por conhecimento, saber um pouco mais sobre esse grande artista:


Camus era filho de mãe espanhola (surda, analfabeta) e pai argelino (agricultor, morto na Primeira Guerra). Na infância trabalhou por algum tempo em minas de carvão até ter seu gênio descoberto por um progenitor que custeou seus estudos.


Camus gostava de futebol e na universidade jogava como goleiro. Interrompeu a prática quando contraiu tuberculose. Certa vez, quando perguntado se preferia futebol ou dramaturgia, Camus respondeu “Futebol, sem sombra de dúvida”. A tuberculose também não permitiu que fosse aceito no Exército Francês. Nunca parou de fumar.


Camus casou-se pela primeira vez aos 21 anos com uma moça chamada Simone. O casamento foi curtíssimo pelo fato dela ser viciada em morfina e ambos serem infiéis. Sua segunda mulher, Francine Faure, era pianista e matemática. Deu luz a gêmeos. Mesmo casado, Camus teve um affair público com a atriz espanhola María Casares. Googla a foto. Ela era intimidante. E não era a única.


Seu primeiro trabalho significativo na Filosofia chama-se O Mito de Sísifo. Segundo o mito, Sísifo foi condenado pelos deuses a rolar um pedra encosta acima para quando tão logo chegasse ao topo, deixasse-a rolar encosta abaixo e começar todo o trabalho novamente. Eternamente. A alegoria (genial) foi utilizada para ilustrar a efemeridade da felicidade humana.

Outra alegoria também genial foi a usada no romance A Peste: ratos representando vítimas anônimas de guerra. Ninguém se importa com ratos mortos até o dia em que a peste que os assolou também passa a ameaçar as nossas vidas.

O segundo ensaio mais famoso se chamou O Homem Revoltado. Entre outras ideias, Camus pregou o fato de a revolta ser somente plena quando existe uma negação dos valores transcendentais e históricos. Tal assertiva irritou Jean-Paul Sartre, então totalmente imerso no marxismo. E com ele, grande parte dos intelectuais; o que  levou Camus a uma espécie de exílio sem sair do país. Tal segregação e julgamento foi magistralmente romanceado em A Queda. Sartre também irritara-se com o então amigo Camus quando em uma festa, sem o menor esforço, este pegou uma atriz pela qual Sartre era interessado.



Camus não se considerava existencialista. O rótulo existencialismo é algo assim como o grunge: um título preguiçoso e vago para definir algo complexo. Renegado pelos seus precursores, difamado por quem não o compreende por ser ignorante e ter mau gosto. 


Citação: O Suicídio é o único problema filosófico realmente importante.


A música Killing an Arab, do Cure, foi baseada no Estrangeiro, livro mais famoso de Camus. No romance, Meursault é um personagem que não se conecta com o mundo, não se comove com a morte da mãe e nem se arrepende por ter assassinado um árabe em um dia de sol abrasante.


Citação (Camus): Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem. Não sei bem.

Citação (Robert Smith): I´m alive. I´m dead. I´m a stranger killing an Arab.

 

Camus foi o segundo escritor mais jovem (44 anos) a ganhar o Nobel de Literatura. Se alguém perguntar quem foi o primeiro, diga que foi Rudyard Kipling e encerre o assunto. Ou invente algo sobre tal escritor (as possibilidades de alguém saber quem ele foi são mínimas).

 

Camus esteve no Brasil em 1949 para uma série de conferências. Visitou o Sudeste e o Nordeste. Viu procissões. Foi a um terreiro de macumba. A visita ao Brasil ocupa boa parte do livro Diário de Viagem

 

Citação: (...) A névoa desparece rapidamente. E vemos as luzes do Rio correndo ao longo da costa, o “Pão de Açúcar”, com quatro luzes no seu topo, e no mais alto cume das montanhas, que parecem esmagar a cidade, um imenso e lamentável Cristo luminoso.

 

Camus era ateu. Achava, porém, o sentimento religioso inerente à condição humana frente ao absurdo da existência: não sabemos de onde viemos, não sabemos para onde iremos. Um deus deve ser responsável por isso, então. O absurdismo, novamente.

 

Camus foi o único escritor famoso a morrer em um acidente de Facel-Véga. O manuscrito de seu último livro – O Primeiro Homem – estava no carro. No seu bolso foram encontradas passagens de trem. Ele planejara viajar com sua mulher e filhos. Seu editor o fez mudar de ideia. 


Citação: Eu amo a vida, eis a minha verdadeira fraqueza. Amo-a tanto que não tenho nenhuma imaginação para o que não for vida.


46 anos foram suficientes para torná-lo o escritor mais legal de todos os tempos.


 

11.12.11

Duas Três Quatro Leituras


Gosto de ter leituras simultâneas. Começo a ler um, logo vejo outro, compro um terceiro compulsivamente e decido reler um quarto. Só me sinto satisfeito quando surge uma mini-pilha dentro da qual os marcadores disputam um páreo prolongado por semanas a fio. 

Prentendo terminar os livros abaixo até o final do ano. Acho que consigo. Isto é, se não incorporar mais um ou dois à lista.


1. George R.R. Martin / A Song of Ice and Fire / A Game Of Thrones



Romances densos e significantes continuam sedutores. As novelas, porém, sempre me fascinaram. Se hoje você me perguntasse qual tipo de escritor eu gostaria de ser, eu diria estar propenso a ser um escritor como George R.R. Martin. Um criador de mundos vastos e personagens interessantes. Escritor de épicos, conversor de legiões de fãs. Estou na metade do primeiro e tenho receio e um estranho fascínio sobre o porvir das próximas milhares de páginas.


2. Bukowski / Mulheres



Tentei ler essa novela duas vezes e parei. Calma. Me explico. Era um arquivo do word traduzido para o português de Portugal. Mesmo entre risadas, a minha vista doía e, pessoalmente, a palavra "cona" nunca teve o mesmo efeito da sua sinônima em português da colônia. Meio misógino, trêbado em prosa explícita, por vezes ode, por outras libelo. Capaz de te fazer rir alto tarde da noite. 


3. Jean-Paul Sartre / A Náusea
 


Tive a sorte de cursar o segundo grau na Escola Técnica Federal do Amazonas – então a escola mais legal da cidade. O suficiente para, entre a maioria de livros técnicos, ter uma sessão de literatura onde havia Sartre e Camus. Se não fosse pela biblioteca, não teria lido o Mito de Sísifo e A Náusea. E também não teria lido As Brumas de Avalon porque, assim como Sartre, sempre tive fascínio pelas novelas. As edições d´A Náusea sempre escaparam-me às mãos. A edição nova da Saraiva, caprichada e em conta, corrigiu isso.


4. Chuck Palahniuk / Pygmy




Comprei Pygmy para corrigir a falha de mesmo sendo apto a lembrar de vários títulos e discorrer sobre vários aspectos das histórias de Palahniuk, nunca ter lido um livro seu. Muita gente é metida a escrever histórias undergrounds com personagens esquisitos fazendo coisas chocantes. Ninguém, porém, é capaz de soar verossímil e ágil como Chuck ao narrar com humor negro as desventuras de pigmeus terroristas do inferno infiltrados nos EUA com o intuito de destruiur o país.

1.12.11

Os Seres Especiais





O rock foi tomado por imitações de rockstars. Um tremendo mau entendido da coisa anos 90. 

O jeito despojado dos caras de Seattle foi erroneamente interpretado como legalização da normalidade no rock. Após imitarem as letras e copiarem os acordes, toda sorte de caras passou a se achar capaz de ser rockstar. Caras gordinhos. De casaquinho e de óculos. Magrelos com cara de sofredor. Usando roupas caras de brechó. Expressão de gente chata esperando no aeroporto (já perceberam a imensa quantidade de caras-de-bunda ali existentes?).Cantando qualquer coisa. Tocando guitarra mal. Chamando as performances tristinhas de atitude. Gravando qualquer barulho encontrado por acidente e chamando de “experimental”. Inventando nomes esdrúxulos para as suas bandas. Escolhendo capas ridículas para os álbuns. E o pior de tudo: ganhando fãs. Meia-dúzia e meia em média. 

Gosta de rock? "Sim, curto. Mas mais um lance alternativo". Como assim alternativo, cara pálida? (literalmente) Completo nonsense. As melhores bandas de rock da história não eram independentes. Precisaram de dinheiro das gravadoras para produzirem bons álbuns. Algumas dando uma banana para as gravadoras depois de ganharem dinheiro suficiente para montar a sua própria, como o Radiohead e o Wilco. Ninguém é independente, e na música não seria diferente. Quem lança álbum independente, simples, lança álbum ruim. Até com boas músicas, mas mal mixado, mal produzido, ruim.

"Gosto de bandas com caras normais usando roupa de gente normal". Como assim? Qual o sentido disso? Não quero ir a um show para ver um ser humano normal. Bandas de seres humanos normais não emocionam ninguém. Não fazem ninguém gritar irracionalmente. Rockstars o fazem. E não se vestem ou agem como alguém normal. Rockstars de verdade TÊM que ser assustadores de alguma forma. Seja se vestindo todos de preto. Seja com rosto o pintado de caveira. Seja os Misfits, ou somente um cara com uma atitude causadora de respeito. "Do it yourself" só funciona quando se é o Joey Ramone.

Mas e o “movimento grunge”? Observando de perto, percebemos serem os caras de Seattle – os motivos mais modernos de tal “simplicidade” infundada – tão monstros quanto todos os grandes monstros do rock. 

Kurt Cobain: monstro.
Eddie Vedder: monstro.
Layne Staley: monstro. 

Tinha e continuo tendo medo desses caras. Tinha medo do Kurt nos palcos (e nos clipes). O Layne era o cara mais soturno do mundo. Jerry Cantrell é a personificação do guitar hero. O Pearl Jam ao vivo  é fantástico não só aura diversa da de todos; mas também pela forma absurdamente perfeita com a qual executam suas músicas. Eu vi e posso dizer. Eddie Vedder brada e deixa todos roucos ao seu redor. Mike McReady toca guitarra nas costas, toca guitarra com os dentes. Stone Gossard nunca envelhece. Jeff Amment mantém a linha de baixo complexa impecável apesar de correr e pular e banguear a maior parte do tempo. Matt Cameron nunca, NUNCA erra. Falando em baterista. Dave Grohl parecia apenas mais um cara “normal” e olha o monstro subcutâneo que ali havia. Krist Novoselic... Não. Esse é normal e chato mesmo.

Além de um exercício insone, toda essa coisa sobrescrita serve para demonstrar meus pensamentos recentes a respeito do rock. Ou seja, o lance é voltar para o básico e primal. E saber: rock and roll necessita de show realizado por gente especial e diferente. Assim meio louca mesmo. E carinhas sem graça fazendo barulhinhos esquisitos não estão com nada. 

São chatos.
Chatos.
São muito chatos.

Assistir a doze horas ininterruptas de Goo Mtv ou vasculhar páginas e páginas da categoria “indie” do New Album Releases pode por vezes trazer certa empolgação cuja reação máxima é um “puxa, que legal”. 

Nada, porém, comparado à audição de uma banda de rock and roll de verdade como o Mastodon e, após um senhor riff de guitarra, cantar: 

“I killed a man ´cause he killed my goat,I put my hands around this throat.”

E sentir uma raiva boa. Vontade de ir aos shows. E gritar com cara de mau para sorrir logo depois. 

Uma raiva boa: rock and roll é isso.


30.11.11

Unleashed Horses



Hoje acordei com vontade de ouvir Smashing Pumpkins. Fui procurar uma imagem legal para ilustrar o post e descobri que a D´arcy passou seis dias na cadeia. 


Ela fora indiciada como responsável pela fuga de seus cavalos e consequente invasão das pacatas ruas de Berrien, Michigan. Por não ter pago multas ou comparecido às audiências (as quais alegou ter esquecido), the former "alt-rock purveyor", para usar o termo do site, precisou passar por esse exame de consciência forçado até a data de sua liberação, a qual coincidiu com o Dia dos Namorados Americanos.

O Billy Corgan também merecia passar alguns dias na cadeia por insistir em continuar com a banda sem os integrantes originais.



Quanto ao post. Listas. As minhas 10 músicas preferidas do Smashing Pumpkins hoje de manhã foram:


To Sheila

Ava Adore

The Everlasting Gaze

Here is No Why

I Of The Mourning

Zero

Bullet With Butterfly Wings

I am One

Today

Daydream



27.11.11

Desiderato


Entrara no curso de teologia não porque acreditava em Deus; e sim porque o seu grande objetivo na vida tomar o seu lugar. O lugar de Deus. 


Tivera delírios de grandeza: o homem santo sapientíssimo, saudado com frêmito e lágrimas por milhares de fiéis. O simples erguer da mão direita, indicador em riste e outros dedos em escada trazendo luz para os corações escurecidos pelo medo, sangue e gordura. 


Porém para realizar tal feito necessitava de Deus. Para sobrepujá-lo era preciso conhecê-lo em detalhes. 

Não era uma atitude sábia, em absoluto, tentar convencer as pessoas do fato de que ele, homem, era mais divino que o próprio Deus pelo simples fato de existir, de possuir carne, mãos erguidas: mais realidade e efeito do que jamais existira. Vários antes dele tentaram e falharam epicamente. Ainda em vida foram empalados ou tiveram os órgãos extirpados pelos defensores do invisível.

Também não queria nomear-se Deus encarnado, autoproclamar-se filho, amigo íntimo ou sobrinho-neto do Criador. Queria ser mais. Queria fazer as pessoas esquecerem-no, tornarem-no obsoleto, um engano sendo admitido com um sorriso de alívio, um personagem gigante de um conto de fadas repetido de forma mântrica desde o começo dos tempos. Não queria ir contra Ele, ser um antagonista; e sim o guia que faria a humanidade esquecer a sua maior invenção subjetiva.

Não existe delírio de grandeza que não necessite de testemunhas. No quarto período do curso de teologia fez as suas primeiras. Tivera duas amantes prebisterianas. Simultaneamente. 

Reuniam-se aos sábados para compor um pequeno grupo de estudo e realizar os trabalhos complementares. Terminados os deveres, colocavam os livros de lado e tentavam realizar todas as modalidades sexuais possíveis entre um trio de seres humanos. As duas amantes desenvolveram uma estranha teoria segundo a qual, realizando tais atos, proibidos, sujos, depravados, conseguiam atrair todos os fluidos satânicos em um raio de seiscentos e sessenta e seis metros. Tornavam-se, assim, uma espécie de ímã; e após cinco horas ininterruptas de ritual atrativo, corriam para o chuveiro e mandavam todos os fluidos e, com eles, a energia satânica para o ralo. 

Achava tal teoria um desvario sem sentido. Um desvario prazeroso, porém. Extremamente. Em um dos sábados, sob o chuveiro, comentou sobre um personagem de um livro de Dostoievski (as duas tinhas o escritor russo na lista de autores proibidos) cujo principal ideal era fazer os homens esquecerem Deus e, assim, tomar o seu lugar. 

“Além de impossível e absurdo, esse miserável também atrairia a raiva e a competição da pior das criaturas que existe” – A mais alta das duas dissera. Qual criatura?, perguntara. Em uníssono, palavra por palavra, com a mesma entonação, olhando-o fixo, as presbiterianas repetiram: “Ela. Ou ele. A criatura que durante os sete últimos sábados temos atraído, enganado e derrotado.” 

Como não pensara nisso? Tamanha fora a ânsia de sobrepujar Deus que terminara por esquecer seu principal antagonista. Considerando a possibilidade ínfima de seu plano inicial dar certo, haveria toda uma horda de seguidores do mal a serem convencidos e derrotados. E após eles ainda haveria os mais difíceis de todos, os que ocupavam uma confortável posição mediterrânea entre o bem e o mal e tentavam pegar o melhor dos dois mundos. “A humanidade não é boa ou má – é preguiçosa”, concluíra.

Despediu-se das companheiras de estudo e expurgo com um aperto formal de mãos. Precisava repensar seu plano. Desde o começo. Olhou para os livros e para o relógio. Ignorou o telefone. Sentou no chão. Rosto para a janela. O dia estava terminando. Já era noite escura quando ergueu-se e saiu para comprar algo. Estava com raiva e com fome. Precisava de um insight ébrio. Urgentemente. 

Nos três quarteirões até a mercearia reinava uma paz absoluta.

22.11.11

Mais Um


Acho bom ter bastante coisa para fazer. Mais ainda ter ainda bastante coisa para conquistar. 

A aula do último sábado de manhã tinha como um dos temas isso: alvos, conquistas. Para introduzir o tema, fiz uma pergunta muito simples: Você é feliz? 

Chegamos à conclusão de que, não importa o quanto e o tanto que se tenha, sempre haverá algo a mais para fazer; senão a vida perde o sentido e você vira um velho chato com uma colcha xadrez sobre o colo e esperando para ser assassinado por um personagem menor da Agatha Christie.

Sendo assim, posso considerar uma boa ventura ainda ter tanto à frente. Ter coisas a aprender, com certificado ou não, ter uma casa a construir e outra a reformar (bem que poderia ter uma para derrubar – demolir casas deve ser legal, não sei), livros para ler e escrever, coisas a ouvir e lugares para visitar.

Quando isso acontece, esqueço por certo tempo a entropia de todas as coisas. Esqueço um pouco o consumo e a cobrança constante de impostos.

Se você olhar ao redor com mais calma, vai perceber que tudo – tudo – que está ao seu redor custou ou está custando dinheiro: a energia do computador, o sinal da internete, as roupas, o sanduíche megacalórico que você comeu há pouco. Mesmo quando você está dormindo, o ventilador, o condicionador de ar, a geladeira e a torneira pingando de forma intermitente e fantasmagórica terão os seus valores cobrados no final deste mês ou nos primeiros dias do próximo, não sei.

Sou do tempo em que as contas chegavam só final do mês. Agora as datas são maleáveis. Sendo assim, elas ficam chegando o mês inteiro e você fica pagando contas o mês inteiro.


Isso é pernóstico. Muito. A passagem do ônibus, as rodas dos carros sendo gastas e a gasolina sendo queimada dentro dele, e as baterias se exaurindo aos poucos para que você possa ouvir música. As luzes do semáforo sendo pagas involuntariamente por você, contribuinte, bem como a tinta da faixa de pedestres. Tudo isso custou, está custando e custará enquanto você se dignar a ser digno. E mesmo depois, quando você virará parte do mundo, uma coisa, e passará a ser responsabilidade dos outros que, mesmo entre soluços, terão que se livrar de você.

Uso como escape essa mesma resignação metafísica de que tudo é temporário e, não bastasse ser temporário, se desgasta de forma constante, incomensuravelmente. Aproveitemos o que pudemos, então.

E tal resignação faz cama para um sentimento de um grato bem-estar por, apesar de tudo, ter condições de sentar aqui e escrever um texto quase às duas da manhã porque meu trabalho só começa às duas tarde e, mesmo com a grana contada, saber que mais dinheiro chegará em poucos dias.
 
Sempre lembro da frase do Camus: "É uma espécie de esnobismo intelectual que faz certas pessoas pensarem que podem ser felizes sem dinheiro". Concordo plenamente. E, mesmo ainda sem grandes capitais acumulados, sem o tino irritante para os negócios que fazem completos idiotas terem mais dinheiro do que eu, fico de boa porque sei que ainda há muito a ser conquistado.

Nessas horas o apego à vida vem forte. Olho para o rosto da minha mulher e o apego fica ainda mais forte, se mistura. Imagino uma daquelas "casas brasileiras" que aparecem no GNT tendo nós dois como donos. Isso me deixa feliz.

Não faz parte da didática expressar anseios particulares em uma sala de aula. Sendo assim, não disse que, caso conquitasse todo o dinheiro possível, preferiria ficar em casa lendo e escrevendo livros do que fazendo caridade. E trepando, obviamente.

Poderia doar dinheiro, e tal. Mas por a mão na massa, nananina. 

Além do mais até hoje, aos trinta e um quase dois, ainda não consegui bater a marca de quarenta romances lidos em um ano. Acho que só tornando-me milionário para bater os cem.

Smooth


Gosto de segurar a sua mão.

Mesmo às vezes quando, contra a sua vontade, inverto a ordem das coisas e deixo você para o lado de dentro da calçada.

Tento seguir os bons costumes, e eles dizem que crianças e mulheres, ou alguém mais frágil, ou alguém cuja vida é valiosíssima, deve andar do lado de dentro da calçada para assim ficar um pouco mais protegida de um acidente.

Sendo assim, quando a rua é maior e os carros, terríveis e perigosos, andam mais rápido, ignoro queixas quanto à dinâmica e inverto as nossas mãos. Esquerda, direita.

A aperto forte. Sua mão menor que a minha e mais forte que a minha.

E andamos pelas ruas, andamos pelo frio e escapamos do frio entrando em uma casa e outra. As casas têm as portas abertas e pessoas desconhecidas estão lá dentro pagando para beberem algo. Também fazemos o mesmo.

Observamos. O lugar é diferente, outra cidade, outro clima. Boa música, cachecóis esparsos, gente com cara de chata. Não ligamos. Temos um ao outro e somos o mesmo em qualquer parte do mundo.

13.11.11

Backspacer


Lembro de eu estar no primeiro ano do segundo grau e ganhar de um colega uma fita K7 onde o lado A era o Nevermind e o lado B era o Ten. Ambos incompletos (cada lado de uma fita comum tem 30 minutos), mas com músicas suficientes para que eu nunca mais parasse de gostar das bandas.

Entre a fita até a semana passada se passaram dezesseis anos até que eu, finalmente, assistisse ao show do Pearl Jam. A melhor e maior banda de Seattle, quer você goste, quer não.

Eu mesmo já passei um tempinho sem gostar deles. Enjoado da carranca do Eddie Vedder, sempre esperando um novo Ten, ou um novo Vitalogy, ou um novo No Code, sem me dar conta de que eles simplesmente não se importavam mais com aquilo, de se "autosuperar" a cada álbum.

Depois de perceber isso, passei a gostar bastante dos álbuns mais recentes e, ouvindo mais apuradamente, notar discretas nuances em músicas que se mostraram tão boas quanto as primeiras. A vontade de ouvi-los voltou e, para reforçar minha vontade, a banda também rejuvesneceu em atitude e aparência.

E foi essa banda que eu e minha namorada assistimos. Durante mais de duas horas e meia vimos o que é, realmente, uma grande banda. O que são guitarristas entrosados, o que é um baterista virtuoso e preciso como um metrônomo, o que é um baixista que se faz ouvir, e o que é um vocalista com performance e capacidade vocal capaz de deixar para trás todas as 58 mil pessoas tentando, ingenuamente, acompanhá-lo.

Durante mais de duas horas, ficamos em um estado de realidade suspensa, tentando assimilar o fato de que os caras dos pôsteres e álbuns que nos acompanham desde a adolescência eram pessoas de verdade, e que todos os videotapes de shows que víramos estava também sendo representado no espetáculo sendo realizado à nossa frente. O Pearl Jam era, enfim, de verdade.

1.11.11

Os corredores


O sexteto corre de mãos dadas, sorrindo, como que pudessem chegar ao sol antes que se pusesse. Três casais tendo em comum a recém-descoberta de que não há sobre o céu além de nuvens e um ser de infinita bondade que lhes deu uma oportunidade única de existir, de serem e amarem uns aos outros.

O correr leve, pausado, é interrompido quando o primeiro deles, uma garota, menor e loira, se cansa. Ainda sorrindo, sentam-se sobre a relva. Deitam-se, em seguida. Unos, eles e o céu. Medo de cair pra cima! Um grita. Sorriem, todos.

(o cara mais velho do sexteto)
- E aí, galera. Vamo ficar aqui pra sempre? Meu estômago tá roncando.

(o casal com a única possibilidade palpável de realizar um bom sexo após a correria)
- Vamos ficar mais um pouco.

(uma das garotas, a única morena, incomodada pelo suor e pelo peso dos seios)
- Tô sendo picada por mosquitos.

(o terceiro homem, o menos atraente por estar sempre com a boca entreaberta)
- Meu estômago tá roncando.

(a terceira garota, ruiva original, espécime raríssimo com sardas e olhos verdes)
- Como é que a gente vai voltar pra casa?

Erguem-se e, cansados pela correria, caminham até a beira da estrada e, de lá, mais vinte minutos até o ponto de ônibus. Chegando, precisam fazer uma cota para conseguirem pagar todas as passagens.

29.10.11

A Fonte


Assisti novamente A Fonte. Desta vez para usar em uma aula. É um filme pretensioso - como todos os de Darren Aronofsky - que chega em vias de se perder. Mas não se perde.

Parte pela atuação esforçada de Hugh Jackman e pela presença divina (às vezes literalmente) de Rachel Weisz; parte pela estrutura narrativa que usa a boa e velha unidade tripartida de narrar tempos diferentes que se complementam e têm elementos em comum.

O mais importante deles é a árvore. Em uma das partes mais bonitas do filme, Izzi (interpretada por Rachel) diz que após a sua morte gostaria de ser enterrada em um campo. E que sobre ela fosse plantada uma árvore. Tal vontade surgira após uma conversa com um descendente distante dos maias cujo pai fizera tal pedido. Assim, um pouco dele permaneceria na árvore. E na semente da árvore. E no pássaro que comeria tal semente.

Uma parte ínfima nossa. Atômica ou sub, voando e sendo digerida por um pássaro anônimo.

Após o filme imaginei se os túmulos fossem substituídos por árvores. Ao invés de cemitérios, florestas inteiras com placas com nomes gravados. Não mais túmulos sendo escolhidos; e sim sementes. Árvores depois. Quanto mais o tempo passasse, maior a lembrança ficaria.

Com o passar dos anos, séculos, as árvores tomariam uma área imensa. Invadiriam as cidades, pessoas virariam as sombras das alamedas. Todos respirariam melhor por causa do que já foram.

Todos respirariam, de certa forma, o que não mais se foram completamente.

22.9.11

O Lado Esquerdo


O pisar em falso entre o descer de um degrau e outro fizeram-no tombar sobre o ombro esquerdo e apoiar o corpo de um metro e setenta e oito, oitenta quilos e trinta e um anos de vida a contar das quatro e quarenta e cinco de uma madrugada de mil novecentos e setenta e nove
contra a parede.

Desceu os degraus sem correr. Passo ágil, porém. O primeiro reflexo após conter o desequilíbrio foi verificar a posição da arma. No coldre, ainda. Uma pistola com oito projéteis a menos. Balas. Sempre odiara a denominação leiga. Balas são doces e dão prazer quando se é mulher ou se é formiga. Projéteis têm gosto de pólvora flamejante. Quase enxofre. Um mininferno que rasga a pele e os ossos. Uma grande invenção da humanidade, os projéteis. Assim como todas as armas de destruição. Uma idéia partindo de um único indivíduo. Passando ao papel e do papel às indústrias. Centenas, milhares de pessoas trabalhando na fabricação desses pequenos infernos criadores de destroços. Operários verificando a qualidade dos projéteis e depois voltando para casa. Jantando e assistindo novela. Passando margarina no pão do dia seguinte.

Tergiversava. Talvez um pouco pela recente perda de sangue. Quantos lances ainda? Olhou para baixo. Ainda restavam três lances de escada. Sabia ser o sujeito maior. Um metro e noventa, mais de cem quilos. Só não imaginara ser ele tão ágil. A ponto de alcançá-lo após o segundo tiro, tentar desarmá-lo e ainda conseguir deflagrar dois tiros. Um no chão e outro de efeito rascante em sua perna esquerda. A mesma que falhara e quase o fizera rolar escada abaixo. Mesmo assim conseguira. Um projétil no chão, rasgando o teto. Outro na parede, com pele e músculo e sangue de sua perna. Seis dentro da massa que antes fora corpo. O sangue só possui dignidade em película cinematográfica ou no papel. Via de fato, é um fluido viscoso e nojento que suja todas as coisas e as deixa fedendo, grudentas.

Faz sinal de silêncio ao porteiro. Sentiu gosto de sangue. Não percebera que a chaga recém-aberta também manchara seu dedo. Esvaindo. Esvai-se. Esvaíra-se. Conjugava verbos para manter a consciência até chegar no carro. Paola está dentro do carro. Mulheres são naturalmente ansiosas. Somando o fato de estar esperando um homem que irá matar alguém e que pode não voltar, a ansiedade chega a fazer barulho, a fazer vibrar a matéria ao redor. O capô vermelho do carro vibrando levemente. Estranhamente ela, a ansiedade, se dissipa à visão do do homem com a perna esquerda ensanguentada e que gentilmente pede a ela que cale a boca e procure algo para conter o sangramento enquanto arranca o carro.

Sempre se sentira em paz consigo porque nunca fora gordo a ponto de abolir os cintos. “Aqui, Paola. Meu amor, calma. Tira o meu cinto e faz um torniquete.” Pára no sinal e o carro morre enquanto sua perna esquerda é pressionada pelo improviso. Um garoto tenta se encostar ao vidro e recua, assustado. Paola sua. Passa a mão no rosto e no busto. Seu sangue a mancha. Muda de idéia quanto ao determinismo escatológico realista do sangue. Paola se torna ainda mais bela com manchas leves de sangue sobre a boca e sobre os peitos. Sente uma ereção súbita. O sinal abre. Arrancam.


31.8.11

Laioute


Acho que
não vou mais mudar o laioute assim tão drasticamente.

até bem resolvido.

Por enquanto tá bom assim.

*

Na verdade, esta simplicidade e - por que não? - minimalismo pelo qual este endereço está passando reflete um pouco da minha personalidade: alguém que nunca teve paciência para aprender Flash.


(Em tempo: adeus, Agosto. Dessa vez gostei de você.)



25.8.11

2009


Superei 2009 em número de posts.

Blog também é Twitter.

E Facebook.

E Tumblr. Tudo junto.

Até porque surgiu muito antes.

Quando a internete fazia barulho quando entrava.





A Garota que me fez ler mais do que escrever


Passei um bom tempo lendo a trilogia de Stieg Larsson. Três livros cuja soma, em paperback, totalizam mais de 2000 páginas.

Fiquei ora fascinado, ora a fim, ora aborrecido, ora temoroso, com Lisbeth Salander.

Percebi em Mikael Blomkvist como o protagonista masculino clássico do romance policial sempre tem o mesmo estilo.

E, principalmente, somando Mikael e Lisbeth ao todo que se cria, os personagens e as tramas paralelas, confluentes na hora exata, constatar como é bom acompanhar uma novela.

Agora sinto falta deles.

E lamento não terem existido as outras sete continuações para serem lidas noite a dentro.

Quero escrever livros que façam as pessoas se sentirem amigas dos personagens. Ser amigo de um personagem de novela supera qualquer outra impressão de realização literária estilística intimista.


7.8.11

Domingo



Algo como apoiar as mãos no asfalto


quente

e fazer vinte flexões ininterruptas.


A carne sensível ao toque,

poros.


Minhas unhas desiguais,


esquerdas.


24.7.11

As Prateleiras Superiores

Esta é a lista dos autores que estão nas minhas prateleiras mais altas. O critério de organização fica por conta da imaginação de vocês:

Raduan Nassar
Osman Lins
Hilda Hilst
Lourenço Mutarelli
Cristóvão Tezza
Milton Hatoun
João Ubaldo Ribeiro
Patrícia Melo
José Saramago
Jorge Amado
António Lobo Antunes
Adolfo Bioy Casares
Cormac McCarthy
Charles Bukowski
Roberto Bolaño
Clarice Lispector
Julio Cortázar
Paul Auster
Philip K. Dick
John Fante
Fernando Pessoa
James Joyce
Jorge Luis Borges
Ferreira Gullar
J.M. Coetzee
Jean-Paul Sarte
Hermann Hesse
Albert Camus.


William on the Wall

























Via


Facho


Outro fato que considero estranho é o de, sempre que olho para o céu à noite, haver um facho de luz de longo alcance - algo assim como um bat-sinal sem o morcego dentro - sendo refletido nas camadas mais superficiais do céu.

E para o quê serve isso? Para atrair pessoas que possuem personalidade semelhante às cigarras e tantos outros insetos que se sentem
incontrolavelmente atraídos pela luz?

Imagino essa mini-raça-humana-específica: alguém que sai de casa e, ao ver um facho de luz no céu, entra imediatamente, veste roupas de festa, e sai correndo rua afora, em direção à luz, ao lá chegar, dá as mãos a outros tantos e todos ficam juntos, imóveis, olhando para a origem do facho, até o nascer do dia.



21.7.11

Itch


Existem ordens escusas que me fascinam. A coceira, por exemplo. O que causa uma coceira em certa parte específica das costas?

No centro, em uma parte quase inatingível que nos faz contorcermo-nos até acertar o foco para então passarmos a arranharmos a nós mesmos?

E depois vem o alívio de algo invisível que surgiu do nada, e ao nada voltou.

Uma erupção desconhecida. Uma falha física, como um buraco em uma parte específica de uma rodovia regular e plana.


19.7.11

Martin Afonso


A família de meu pai é composta, basicamente, por casmurros.

Pessoas encalhadas,

de meia-idade,

cheias de rancores

e superstições.

Sozinhas.

Esquisitas.

Não quero me tornar um deles.



14.7.11

Coop #1


Diane, it´s 2:15.

I've just arrived at my room. It's a small place with dark-blue curtains. Cozy, tough. When I mean dark due the curtains, I mean dark indeed.


There are some contemporary disk-lasers from Seattle bands and I wonder: who might had lived in here, Diane? Had this person ever had a love-in-the-same-way heart?

Don't know. I sometimes feel some unusual tiny invisible whirlwinds at the corner of the walls. The kind of sound that causes a momentary frenzy in me even after all these years of duty.

Tiny invisible windy giants... you know, Diane?


I guess he'd might have been happy for a while. Even for some years, who knows? A while is a while.

Anyway, the former owner of the bedroom allegedly was drowned in doubt and silent dispair. Fear.

I need some rest.



12.7.11

Lucas


Enquanto ele assiste o programa do Faustão sem aparentar o menor interesse, eu paro à sua frente e imito a dança de braços erguidos que as pessoas fazem em shows quando ouvem uma música romântica.

Ele cobre o rosto com o lençol e começa a rir de tudo aquilo.



9.7.11

`


Nunca, na história das coisas visíveis aos olhos humanos, houve olhos mais lindos.

Nem alguém tão instigante e feminino.

You´re like me now, J.

And we rule our own islands.


8.7.11

Músicas Esquisitas

Não sou grande entusiasta de música alternativa quando se considera alternativo tudo o que foge ao bom e velho esquema verse-chorus-verse. Às vezes sinto vontade de ouvir algo estranho, contudo. Abaixo, três exemplos:




Chelsea Wolfe - The Grime and the Glow. Me interessei pelas músicas da Chelsea após ouvir "Moses" - a música que faz fundo para o vídeo da Sasha Grey que postei há alguns dias (e que você, se não viu, por favor veja porque é uma obra de arte). Enfim, Chelsea Wolfe faz umas músicas muito soturnas que remeteriam àquela coisa davidlynchiana não fosse o fato da moça já ter colaborado em vários trabalhos do diretor. Tanto que as músicas (?) de The Grime and the Glow nos levam àqueles moquifos de Twin Peaks onde na pós-festa, no porão do bar, Laura Palmer e suas amigas ficavam loucas sob a luz estrobosfópica e faziam coisas.



Austra - Feel it Break. Tirando a guitarra chapada da Chelsea e substituindo por um par de teclados, tem-se a Austra. Faixa após faixa ela brinca com a voz usando todos os malabarismos possíveis. Isso me atraiu. Vocais femininos e teclados me atraem. Não é à toa que considero Ladytron a banda mais perfeita da atualidade. E também me atraiu o video de "Beat and the Pulse", onde umas mulheres bem mais ou menos dançam pagando peitinho. Funcionou. Gostei.


True Widow - As High As the Highest Heavens and from the Center to the Circumference of the Earth. A banda mais palatável das três. Falar o título do álbum três vezes seguidas sem erros pode servir como um bom teste de Inglês. A banda é algo como My Bloody Valentine encontra Kills e empresta os pedais do QOTSA. Vocal feminino e masculino, riffs preguiçosos; aquela coisa lúbrica de ouvir que traz certas vontades pouco ortodoxas. Mesmo climão Twin Peaks. Não foi à toa que aluguei os dvds da série.


O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...