28.1.11

Let's Go Downtown to Watch the Modern Kids


Chegamos ao Rio de Janeiro após um atraso dramático de seis horas. A noite cansativa, o quase pânico de ter de remarcar as passagens e permanecer em Manaus mais um dia foi dissipado quando desembarcamos em Copacabana em uma manhã ensolarada.

Um bairro velho, charmoso. Ficamos na casa da Valeska: um apartamento adaptado em um pequeno hotel de três quartos compartilhando a sala e a cozinha. O que em princípio poderia causar certo estranhamento – um espaço compartilhado com estranhos – se mostrou mais privado e discreto do que um hotel convencional. Durante toda a nossa estadia cumprimentamos os outros hóspedes apenas um breve par de vezes. Segundos. Seus vestígios eram apenas ruídos com cascas de frutas sobre o balcão da cozinha. No teto do quarto, um ventilador com lâmpada. Janelas e basculantes encarando dezenas de outros apartamentos. É preciso cerrar as cortinas sempre.

Moramos no sexto andar. Estranhamos o elevador pantográfico. Hitchcock. Na segunda manhã ficamos presos no pavimento por certo tempo. O elevador principal interditado. O de serviço era apenas uma vala suicida. Tentamos descer e encontramos barricada nas escadas. O prédio em manutenção e limpeza nos deixou presos por estranhos minutos até duas moradoras, uma senhora e uma mocinha, aparecerem e de alguma forma conjurarem o elevador de serviço e, com gentileza carioca, deixarem-nos descer antes.

Na primeira tarde um pouco de orla. Cinematográfica e televisiva, gente de todo o tipo. Esportistas. Cachorros passeando com profissionais. Às costas da Avenida Atlântica, a Avenida Nossa Senhora de Copacabana. É onde estão os primeiros bares. Detemo-nos no Botequim Informal e observamos os transeuntes. Moradores, trabalhadores em percurso, turistas. Ônibus com os mesmos números que os manauaras.

Soubesse que o 121 chegasse até aqui, já teria vindo antes.

Mas o importante é que viemos, Joanne. Duas avenidas e o Atlântico ali logo. A praia e o sol se pondo.

* * *

Voamos para São Paulo ao lado da saída de emergência. Os lugares possuem mais espaço para esticar as pernas, porém os acentos não reclinam e temos de ler instruções extras caso o avião caia, você sobreviva, e precise bancar o Jack Shepard dali em diante.

A chegada é mais organizada. Taxi Guarucorp de Guarulhos até o Formule 1 da Consolação. Em São Paulo se fuma muito. Acho que a maior parte da poluição não vem dos carros, e sim dos cigarros paulistas.

Passamos pelo Belas Artes sem saber já estar o cinema em seus dias de coma suspenso. Os paulistinhas estilosos falando besteiras, a gente de meia-idade arrumada para uma festa, o vendedor de milho debulhado. A passagem subterrânea que nunca utilizamos, o vendedor de salgados vegetarianos, a Avenida Paulista à esquerda.

Entramos em lojas, lugares. Joanne sempre entra antes com a sua ansiosidade típica feminina. Os atendentes perguntam “vocês estão juntos?”. Olhamos um para o outro e damos um olhar cúmplice.

Cronologicamente seis anos quase. Mas na verdade sempre, mesmo antes de nos conhecermos. O amor perverte tantas coisas, inclusive o tempo, que se abre obscenamente ao documentarismo.



8.1.11

Os Barulhos


Não importa em qual lugar você more, quão grande ou pequena a cidade, sempre haverá um imbecil ou imbecis gritando de madrugada na rua.
E o que move um sujeito a sair de casa após a meia-noite, penso. Não tem medo de que algo pernóstico aconteça, ou quer tornar-se parte dessa coisa tentando tornar-se noite. Lembro de abrir os cadeados e sair para fumar um cigarro. Passava das duas da manhã e tomei um susto ao ver duas garotas com menos de quinze anos andando cegamente de mãos dadas gritando coisas sem sentido. O demônio. O mesmo que muitos anos antes gritou no exato momento em que pedia proteção a São Miguel contra as suas ciladas e tentações foi o responsável pelo grito das garotas fora de hora por representar o que de mais sujo e supersticioso existe no parco imaginário de quem acredita em um invisível atuante.
Estou de férias. Guardei um tanto de dinheiro para ficar confortável e gastar sem culpa em coisas simples. Ontem acordei lá pelas duas da tarde porque ficara até as cinco da manhã assistindo filmes legais e ruins. Sendo assim, meia-noite virou nove e decidi sair novamente para fumar um cigarro, dessa vez com um revólver preso na calça porque decidira assustar a porra dos gritos.
E eles vieram. Enquanto pensava na vida, um carro cantou os pneus exatamente à frente da minha casa. Ouvi gritos e saí. Observei o carros e os ocupantes. Um Celta com índios cearenses dentro. O motorista era um homem de meia idade com o rosto marcado por uma cicatriz do canto esquerdo dos lábios à orelha. Havia uma garota no banco da frente. Uma das mesmas que gritaram tempos antes. Ambos sorriram pra mim, pensaram estar eu assustado. De fato eu estava, por isso saquei o revolver.
Os demônios passaram de amarelos a brancos. Enfiei o dorso e apontei o revólver para a cabeça do homem e para a mulher em seguida. Vocês, seus putos, seus merdas imbecis que ficam gritando à toa, vocês seus filhos da puta que têm parte com o cão, toquem a porra desse carro e desapareçam. Mostrei os dentes. Cuspi.
Qualquer merda de demônio ou seguidor deles sente medo mortal de balas rasgando a carne. Sente nojo de cuspe. Na verdade, na hora, todo mundo sente. O cheiro de pólvora. A Nobel dinamite em forma diminuta. O cuspe queimado por fogo e com ele o velocímetro.
Tentaram sorrir, olharam para baixo, partiram sem fazer barulho e não mais voltaram. Agora há silêncio.

7.1.11

Jogando Literatura Infantil

Na metade do ano passado resolvi comprar um Nintendo Wii. Um tanto pelo lado lúdico e cinestésico dos jogos e outro tanto porque nunca tivera um videogame decente. Passei toda a evolução dos aparelhos apenas como espectador e jogador frugal e, para remediar o pequeno trauma, o dividi em oito vezes sem juros no cartão da namorada e levei o Wii para casa.

Joguei bastante os dois jogos de esporte e vi a minha "wiiage" (tudo relativo ao videogame vem com esses dois is imitando crase) regredir de 52 para 29. Estava então com 30 anos e, depois do rejuvenescimento no teste, parei de fazê-lo. Não cheguei a emagrecer jogando Wii porque não jogo com tanta frequencia e as sessões mais longas de boxe ou de basquete eram quase sempre acompanhada de uma latinha de cerveja. Começava como tenista, passava a basqueteador lançador de bolas de três pontos e terminava como boxeador tomando goles entre um round e outro.

Depois parei um pouco com os esportes e só tirei a poeira do console quando entrei de férias e comecei a jogar Super Mario Galaxy. Um jogo lindo e impressionante, cheio de fases e coisas secretas e cenários de fundo por vezes semelhantes a fotos do Hubble. A frustração em ter ficado preso em uma fase devido a falhas sucessivas é compensada quando, finalmente, o bonequinho bigodudo alcança uma nova estrela e, com ela, ganha acesso a uma galáxia nova em folha. Sem receio de soar bobo por ser uma coisa boba, no bom sentido da palavra: o jogo emociona, deixa a gente feliz.

Sendo assim, não acho exagero considerar o Super Mario Galaxy uma espécie de literatura infantil jogável. Ele tem um plot, tem personagens, tem objetivos e, de quebra, lições de moral como toda boa obra literária infantil. E como uma obra autêntica, o jogo faz adultos revisitarem a infância e encontrarem novos significados entre cada fase, entre galáxias aguardando para serem descobertas e desvendadas. E ainda nos faz comprar a sequencia.

5.1.11

A Primeira Metade


A primeira metade das férias é sedentária. Ainda não sei ao certo se agora são onze horas ou meio-dia porque o relógio do computador vive desregulando para o horário de verão. Não tenho lido. Escrito, pouco. Faço palavras cruzadas, jogo videogame ou assisto televisão, estático como um pé de sassafrás.

Isso é bom. Trabalha-se um ano inteiro para se ter direito a um janeiro sedentário e chuvoso como esse está sendo. Dormir às quatro da manhã. Assistir a filmes ruins. Namorar em tempo integral até o corpo começar a se misturar ao da namorada.

Eu preciso ir até a minha casa agora, mas lá fora está uma chuva imensa e, olha só, faz frio aqui no apartamento. Quando a chuva passar, irei mesmo não querendo ir.


O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...