26.2.11

Os Cortes


Precisava admitir a excelência dos crimes. Três personalidades manauaras assassinadas no mesmo dia da semana: Erasmo Abreu, deputado estadual, Arnaldo Herculano, apresentador de programa policial, e Mateus Lorenço, pastor, morreram da mesma forma: um golpe profundo perfurara a jugular e saíra pelo esterno, destroçando o caminho e deixando cada um dos três com a mesma expressão no rosto: mortos, sem quaisquer outros rastros além do sangue. Ao redor, o invisível. Não existe balística para armas de corte, nem para as maiores delas, capazes de entrar pela garganta e sair pelo peito.

Em uma cidade onde os criminosos eram criaturas ignorantes facilmente capturáveis por andarem em círculo, serem vistas por dúzias de pessoas e ainda terem a imagem registrada em câmera sob dois ângulos diferentes, um assassino além de sofisticado, invisível, se apresentava como um desafio próximo ao sobrenatual. As três vítimas moravam em condomínios fechados, viviam cercados por fiéis, bajuladores e assessores – nomes diferentes para a mesma coisa – e mesmo assim foram encontrados mortos, passados de de personalidade à vítimas. Os corpos controladores de outros corpos de menos importância estavam agora perfurados, transformados em coisas, passados para o gênero feminino, vítima, antes de misturarem-se à entropia onipresente, silenciosa, destruidora de tudo.


20.2.11

Coisas Legais


O ano começou tem poucos dias, mas parece que já se passou um semestre. Quando acontece uma sucessão de coisas novas e legais, perde-se um pouco a conta dos dias.

Até a presente data, essas foram as mais legais: eu e Joanne fizemos uma viagem maravilhosa e revigorante, eu passei no CAE, voltei ao trabalho e estou com uns grupos bem legais. Também ganhei um Blackberry como presente adiantado de aniversário de namoro. Continuamos apaixonados.

Ainda falta a tal da carteira de motorista. Não gosto de carros, detesto o trânsito da cidade, mas mesmo assim a carteira é algo necessário. Em março retomo o processo. Também vou pleitear um mestrado, espero que dê certo. Adoro dar aulas de Inglês, porém é necessário pensar nos próximos anos, décadas. Minhas aulas melhoraram, sinto isso. Pela reação e produção dos alunos, pela diminuição do cansaço através do controle e de certa experiência. Lecionar é algo que devo fazer por muito tempo.

Escrever, também. E ler antes. Raymond Chandler, Dashiel Hammet e Luiz Alfredo Garcia-Roza me encheram de boas inspirações para histórias policiais. Construir personagens sólidos e tramas que se concatenam ser serem óbvias é algo trabalhoso. Vamos ver no que dá.

Torço para que esse ano termine bem diferente, que pareça dois em progresso e três em experiência e aprendizado.

2.2.11

Lugares e Livros


Viajamos com a premissa inocente de não gastar além do normal. Cumprimos. O problema é o normal em São Paulo ser algo extraordinário. Até mesmo a serenidade frente aos livros, da qual me gabei àlguns posts atrás, desapareceu quando os títulos certos surgiram no momento certo. Vários ficaram por lá. Na mochila vieram estes:


Putas Assassinas, Leblon. Passara incólume à Livraria da Travessa até ler a orelha do livro. Aguardei Joanne sair da Zara sendo levado para muquifos do underground indiano habitados por semideuses eunucos presentes na primeira história. "O Olho Silva". A realização plena do conto. Todo aquele ideal cortazariano e etecétera. Li entre um intervalo e outro de Rio de Janeiro lá fora, na cama do quarto do apartamento, com Joanne ao lado. Depois de 2666, quero e não quero ler Os Detetives Selvagens. Bolaño demanda tempo e tenho livros diversos na fila.


Zupi Erotika, Rua Augusta, lado chique, na Reverb City. Enquanto Joanne experimentava uma legging vermelha pela metade do preço, folheei o zine e invejei a proposta: assemelhava-se à idéia de um zine erótico que eu tivera anos antes. Tudo de imenso bom gosto, mas não menos sacana. Os caras da Reverb City te tratam como se fossem amigos de longa data. É difícil sair de lá com dinheiro. Também comprei uma camisa do Wilco. A única que encontrei em São Paulo. A embalagem da camisa veio com um papel-cartão que se transforma em brinquedo.


Exaltação aos Crocodilos, Rua Augusta, lado alternativo. Em um sebo, no domingo. O atendente era uma bicha coroa com prisão de ventre. Joanne me esperou na pequena alameda da galeria. Antes resistíramos à bancas com filmes alternativos. Mas Lobo Antunes é Lobo Antunes, depois da ida do Saramago, ele passou a ser incontestavelmente senão o melhor romancista da Língua Portuguesa, o de Portugal, ao menos.


Juliet, Naked, Av. Paulista
. A "volta às raízes" de Nick Hornby é um livro delicioso e vibrante, um tratado discreto e modesto, porém não menos denso e significante, sobre o que é a arte, o que é a obra de arte e o qual é o papel do autor de tal coisa. E, principalmente, de como pessoas solitárias intelectualmente tendem a endeusar seres ordinários para dar significado à própria vida. Escrevi parágrafos raivosos concordando com tais insights. Publico depois.


The Portable Oscar Wilde, Av. Paulista. Depois das críticas abertas e olhares de reprovação que recebi numa roda de amigos em Copacabana, o primeiro livro que comprei em São Paulo, na Martins Fontes, foi uma coletânea com as principais obras do dândi mais odiado da história. Na introdução, fiquei sabendo que o argumento dO Retrato de Dorian Grey foi emulado de um romance de Disraeli chamado Vivian Grey. Juro que lerei o resto.


Summertime e Stranger Shores, Alameda Lorena. Pela segunda vez, vivi na Livraria da Travessa a silenciosa e elegante agonia de estar com a grana contada e ter à frente mais livros interessantes do que o orçamento. Foi o lugar onde mais encontrei livros do J.M. Coetzee, um dos caras que ocupam a prateleira dedicada aos autores preferidos. Trouxe os dois àcima e deixei na prateleira Foe, In The Heart Of the Country e Waiting for the Barbarians.

Os pegarei na volta.


O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...