28.3.11

Recipe


Receita para historinha noir urbana introspectiva:

quarto + mulher branca + cigarro + livros espallhados + mão do protagonista (homem) espalmada apertando a parte interna da coxa da mulher branca enquanto fuma um cigarro (Marlboro, de preferência) e lê pela terceira (ou quarta) vez um romance existencialista notório com grifos e marcas de café ou sangue.

Simples.


27.3.11

Primeira


Era a primeira vez que possuía uma mulher chamada Catarina.

Não era exatamente bela, afastava de forma tensa as incursões das mãos nos lugares certos. Era tímida e escondia bloqueios psicológicos subcutâneos.

Seu nome, porém, era imponente. E ofuscava suas inaptidões. Repetia-o e a realidade sob ele tentava bloqueá-lo de forma nervosa e ríspida. Um enorme cinismo faz certas mulheres tentarem manter um traço de pudicícia mesmo estando sem roupa na cama de alguém sem roupa.

Mesmo decidido a não mais vê-la após tal enlace torto, manteria o seu nome, o aproveitaria em contos. A imponência em maiúsculo do nome sobrepujando o humano.



Pós



E o que você acha, ela diz afagando a barba de cinco horas da tarde. Você acha que depois do enterro, a barba do morto continua crescendo, assim como as unhas?


Diz não saber. Diz na verdade não se importar com os mortos, mesmo os mais próximos, até mesmo os que pranteara.


23.3.11

Desobediência


Começo a deixar o guarda-roupa em perfeita ordem. É um móvel pequeno e compacto, as roupas e as coisas devem ser contidas em três compartimentos. O superior guarda toalhas e pequenos objetos. O central, de vão maior, as camisas em cruzetas, as gravatas. O inferior, duas gavetas, as camisetas e demais roupas.

Uma das peças não se encaixa. Um sutiã negro deixado pela minha mulher. Tento dobrá-lo, não consigo. É uma peça proporcional e mesmo assim indobrável simetricamente, algo que não obecede a lógica geométrica e a bidimensionalidade forçada das gavetas.

Também não consigo pendurá-lo (pendurá-los?) numa cruzeta junto às outras camisas que exigem a linearidade para não criarem vincos. A peça cai. Não se acomoda como a camiseta estampada com a silhueta de uma pinup demoníaca também pertencente a ela – à minha mulher – desde os primeiros dias em que nos conhecemos, cronologia que passei a considerar para o início das nossas vidas realmente vividas.

Desisto. Volto a repousá-los na gaveta inferior. Sobre as outras roupas passáveis e acomodáveis. E sempre que os observo reinvidicando espaço sei não ser a ordem o espaço correto; e sim a desordem mágica que tenho no peito.


8.3.11

A Biografia Reinventada




Apenas o fato de ser um escritor cujos livros carregam a força da literatura autêntica e marcam o caminho do leitor já seria suficiente para despertar interesse sobre quem é J.M. Coetzee.


Somando-se a isso o fato do mesmo ser provavelmente o melhor escritor da língua inglesa e, certamente, o mais laureado, reveste tal interesse em curiosidade e tal curiosidade em uma espécie de obrigação do autor para com o seu público: nós achamos você o melhor de todos e, em troca, você deve nos deixar saber sobre toda a sua vida – em detalhes –, sobre o que você pensa sobre assuntos alheios, sobre como é o seu processo de criação, se você usa Mac ou Windows, lápis 2B ou 3B, em quem seus personagens foram inspirados e o que você fará até o fim da vida.



Tal cobrança do público e tal reação dos escritores criou uma espécie de ordem inversa: quanto mais medíocre, mais acessível; quanto mais talentoso, mais recluso.

Não faltam exemplos quanto a isso: escritores que estão o tempo todo na mídia e cujos livros não têm nem ao menos os títulos conhecidos, quanto mais lidos; e escritores que desaparecem a tal ponto que chegamos mesmo a duvidar da sua existência.

Para tentar sanar e curiosidade do público e alimentar o mercado surgem as biografias. Autorizadas, não-autorizadas, autobiografias. Estas últimas sempre alvo de críticas que partem da dúvida de ser alguém capaz de falar sobre si mesmo imparcialmente.


J.M. Coetzee, tão alheio e avesso à mídia incensadora e a grandes interações com admiradores (sua vinda até Parati foi o maior “excesso” cometido pelo autor) possui, em contrapartida, o curioso interesse em autobiografar-se. E esta dedicação já rendeu três livros: Infância, Juventude e Verão, todos editados pela Companhia das Letras.


Nos dois primeiros, Coetzee faz uso da mesma estrutura clássica autobiográfica que se faz impessoal na medida do possível ao narrar sua própria vida em terceira pessoa ao longo de páginas que descrevem com secura e impessoalidade a paisagem provinciana e as pessoas, tratadas como coisas dentro da paisagem.


Além de serem histórias extremamente bem escritas, "Infância" e "Juventude" possuem esse jeito de prequel cinematográfica, dentro da qual acompanhamos o nosso herói (ou vilão) em formação até se tornar a figura notória que admiramos.

Da infância na província até a juventude na metrópole, onde a necessidade de sobreviver faz com que a matemática tome o lugar da poesia, Coetzee trata o seu títere literário com uma autocrítica digna de patologia: inseguro, covarde, inepto, frio, e tantos outros adjetivos que soariam como expiação cristã; não fosse a segurança narrativa e uma falsa modéstia velada que sabe ser o leitor conhecedor da vida “real” do autor e, por isso, saber que ele não terminará seus dias como um homem solitário na província ou um escritor frustrado trabalhando como programador da IBM.



Após as desventuras do dois primeiros livros, seria de imaginar que "Verão", o livro mais recente da cronologia, nos mostraria John Coetzee escapando das visíveis e invisíveis amarras provincianas e, finalmente, experimentando o reconhecimento literário, a mudança de cidade, os Booker Prize, o Prêmio Nobel, a quase unanimidade da crítica e a admiração do público.
A realização de tal expectativa, porém, não acontece.


E não apenas isso. Em “Verão”, encontramos Coetzee vivendo um imbróglio que ocupa sua vida sob todos os aspectos. O medo de voltar para a província da juventude se mescla com a inaptidão afetuosa da infância: John voltou a viver em Cape Town e, por falta de dinheiro, por ainda não ter “acontecido” não apenas como escritor, mas também como adulto, se vê obrigado a dividir com seu pai a velha casa da família.


Desta vez não encontramos o narrador tradicional, imparcial e onipresente; e sim um narrador-biógrafo fazendo uma série de entrevistas com pessoas que conheceram o grande escritor John Maxwell Coetzee durante tal fase de sua vida. Os principais depoimentos são dados por mulheres com as quais o biografado teve estranhos envolvimentos românticos: uma mulher casada, uma prima, uma dançarina brasileira, uma colega de docência. Uma ironia insinuada faz com que cada uma delas desconstrua o “mito” do escritor, contando e recontando situações nas quais as suas idiossincrasias foram responsáveis pela falência ou mesmo pela não-realização de um envolvimento mais sério.


Cria-se uma espécie de quebra-cabeça-literário-satírico ao imaginarmos J.M. Coetzee, o escritor real, criando um narrador imaginário para escrever sobre o Coetzee imaginado pelo público e representado pelos depoentes.


“Você chegou a pensar alguma vez que ele era homossexual?”, o entrevistador pergunta a mais de um entrevistado; e mais de uma vez ouve a resposta “Não, não homossexual, mas alguém feito para o celibato, alguém que, por mais que tentasse, não conseguiria possuir o mesmo calor que a maioria das pessoas possuem”. Também mais de uma vez os entrevistados surgem com a pergunta “Por que você não perguntou isso a ele?”, e o narrador-entrevistador responde “Eu gostaria, mas não o conheci em vida”.


Em "Verão", J.M. Coetzee existe como existe em nosso mundo, através de candidatos a biógrafos e depoimentos de pessoas que provavelmente não o conheceram bem o bastante. O máximo de proximidade que temos é a leitura de cadernos do próprio escritor cujos apontamentos vez ou outra dizem ser grande parte de sua biografia romanceada fruto de imaginação.

Então sendo algo imaginado e conduzido com tamanha técnica, qual seria o ojetivo de tamanha autodepreciação?

Matar a si mesmo como figura pública, alimentando o personagem que se de certa forma transformaram-no à sua revelia, fazendo-o ganhar corpo em falsas biografias, transformando a si mesmo, o homem real, em uma incógnita, um rosto assimétrico, apenas.

O escritor abstinente à carne, ao cigarro e ao álcool, que pedala longos quilômetros e escreve pelo menos uma hora por dia tornou-se uma representação viva do Coetzee autor; e não quem ele é realmente: alguém cuja vida pessoal não nos diz respeito, ou nos diz tanto respeito quanto as nossas vidas pessoais diriam a ele.


Recuar-se, deter-se, para então transformar-se em personagem de si próprio e dos outros requer uma inteligência, uma autocrítica e, por que não, um senso de humor e ironia pouco comum entre os homens. Admiro todos os J.M. Coetzee por isso.



7.3.11

X & Y


"So David Truscott, who did not understand x and y, is a flourishing marketer or marketeer, while he, who had no trouble understanding x and y and much else besides, is an unemployed intellectual. What does that suggest about the workings of the world? What it seems most obviously to suggest is the the path that leads through Latin and algebra is not the path to material success. But it may suggest much more: that understanding things is a waste of time; that if you want to succeed in the world and have a happy family and a nice home and a BMW you should not try to understand things but just add up the numbers or press the buttons or do wharever else it is that marketers are so richly rewarded for doing."

(COETZEE, J.M. Summertime. New York: Penguin. Pg 14-15)

Banda de Rua


Algumas centenas de pessoas se espremiam em torno de um carro de som e gritavam como selvagens. Tenta escapar indo para a calçada e vê, mal oculta pela porta do carro, uma mulher urinando. Acha aquilo terrível: urinar em público tira toda a integridade do corpo feminino, praticamente a iguala aos homens, pior, aos homens bêbados reduzidos a cachorros.

A permissividade é curiosa. Vários homens vestem roupas femininas. Imitam trejeitos femininos. São coniventes com o assédio homossexual porque acham que naquele caos tal coisa é permitida. Fizessem com eles a mesma coisa em um dia normal da semana, mão na bunda, mão apertando o peito, certamente partiriam para a briga. Machos, consideram-se.

As músicas se repetem, latas de cerveja são lançadas para cima e não duram três segundos no chão. Como cachorros, os catadores se enfiam por entre os foliões e enchem com as latas um saco sujo de farroupilha. Amigos iniciam um trenzinho humano. Agarram-se à cintura uns dos outros. Minibrigas surgem e terminam em seguida. Policiais militares apartam, dão bolachas e pescoções. Os brigões viram crianças, choram, pedem que por favor eles párem com aquilo. Os ladrões de telefones celulares e carteiras redobram o cuidado.

Escondera-se em um ponto onde, se não ficava à parte do caos, ao menos não era tocado por ele. Vê uma policial militar levando uma das mulheres mijonas para a viatura. Presa por não controlar a bexiga, por se desfazer de resíduos em uma via mantida pelo Estado.

A mulher chorando passa por ele. Observa serem os seus olhos de um vermelho intenso. Íris, retina, pupila. Súbito, ela estanca e dá um grito de desespero. Aperta os braços contra os peitos e, estranho, a policial também está chorando. As duas abraçam-se desconsoladas e o choro vira uma reação em cadeia. Todos choram. A música finalmente pára.