22.4.11

A estrutura óssea dos coelhos



Encostam o carro e olham ao redor: o horizonte como se espelha nos dois extremos da estrada reta. Dois sóis se pondo, duas cidades idênticas. Esticam os ossos, caminham na terra árida e plana lateral à estrada vazia. Deitam-se.


As roupas polvilhadas de pó.



Um fio de saliva escapa à boca e estaciona antes do fim do queixo. Marca o rosto empoierado. Uma lágrima saída do lugar errado. Delicado. Helen. O sol tornou-se invisível. Cinco, seis, quem sabe. Helen costuma dizer que não existe noite; e sim um sol negro imenso se emanando noite sobre a terra. Ninguém percebe, nem os astrônomos porque esse imenso sol negro é maior do que toda a extensão do céu. Então ele se encolhe e, novamente, se torna amarelo e o chamam dia.


Erguemo-nos. Arrumo os jeans. Mesmo em meio ao deserto deve-se evitar o grotesco de uma ereção mal arrumada. Estendo as mãos. Ergue-se levemente, Helen, e pousa por um momento sobre os meus sapatos.


Abraço-a, sinto a sua costela a mais.



Avistamos uma casa abandonada. O umbral. Os móveis com gavetas entreabertas. Imaginamos terem dali fugido pessoas de um furacão hoje com trinta anos de idade. Sentamo-nos e percebemo-nos camuflados pela poeira do sofá. Como se abandona um sofá assim tão inteiro, em perfeito estado, eu diria? Abandonam-se pessoas, Helen, algumas em miniatura, chorando, que dirá um sofá.

Seus braços e suas pernas e sua cabeça polvilhados de pó. Seu tórax branco incólume. Tenho à frente um manequim vivo.

Exalamo-nos. A vida atrai os bichos. Durante o enleio vemos duas, três moscas. Um mosquito pousa sobre a minha coxa, sobre o seio de Helen e rouba-nos sangue. Um coelho passa pelo umbral e nos observa para correr em seguida. Um coelho marrom ou uma lebre, que seja.

No deserto, limbo até então, surgem barulhos distantes, alguns deles possivelmente ecos bumerangues de Helen gritando descaradamente.


Voltamos ao carro de pernas trêmulas.


Meus dedos úmidos marcam a roda da direção. Helen faz suas mãos ainda úmidas de pára-brisa interno, observa-se no vidro retrovisor: lágrimas de rímel a tornam ainda mais bela. Vira-se e pergunta como está o cabelo. Não respondo. Beijo-a e corro a mão por dentro de seu vestido uma última vez antes de partirmos.


O sol se encolhe. Em breve se fará imenso e negro.




Quinta


Leio livros policiais.

Namoro.

Bebo.

Volto a namorar.

Desisto da televisão.

Chocolate.

Internete.

Escrevo.

Namoro.

Desta vez mais intenso.


18.4.11

Ida e Volta


Vez ou outra fuma um cigarro na ida e outro na volta do trabalho. A única rua, larga e vazia, permite o ato contínuo.

Às vezes não fuma simplesmente porque não tem vontade. Não consegue nem ser um fumante decente, pensa. Enjoa-se dos cigarros como se enjoa das gentes. Cansa-se.

E tudo se torna algo de circunstância com uma ou outra volta pontuada mais pelo calor do momento do que pela necessidade em si, para si e para todos.


Faixa


Fechavam-se. Surgia algo inesperado. Uma dançarina burlesca recusando-se a abrir mão dos aparatos.

Após o banho, ritual em forma, armava a tábua de passar, dobrava um lençol cuidadosamente e dispunha uma das tantas cópias das tiras negras que sempre vestia ao redor do abdômen.

Sempre tivera predileção por mulheres problemáticas. Atração pelas estranhas, desde que charmosas. Desprezo perverso pelas histéricas.

Esta, porém, era diferente. Algo como um personagem desencarnado. Não uma farsante ou uma performática em tempo integral: um personagem de livro ou quadrinhos circulando pela casa com vocabulário próprio, e uma tira negra ao redor do abdômen ocultando um bloco de notas.


Caixa


A beleza dos prédios influi na produtividade. Porque a beleza influi na alegria. Produzir coisas medíocres em um prédio bonito é melhor do que produzir coisas medíocres em um prédio feio. Nem prédio, realmente; uma caixa sem janelas, com corredores mínimos onde a toda hora ouvem-se vozes de criança. Quando falha a energia elétrica, sobram apenas os telefones celulares e sua luz de quinze segundos. Todos gritam.

Às vezes penso em mudar de prédio. Ir para outro porque lá é novo e bonito, arquitetônico e com grandes janelas de vidro. O leve cheiro de tinta sobre as paredes. O cheiro de café escapando pela porta da copa. Pequenos quadros e espaço para circular nos corredores. Penso serem as possibilidades minúsculas vias neurológicas por onde a luz circula e pára, iluminando as pontas como um duto de fibra de vidro.




4.4.11

O Inferno no Supermercado


Olha ao redor e não percebe um único ser humano sob adequada forma estética. E sorriem, sorriem. Os feios têm o sorriso como paliativo. Olha lá: uma das mulheres tem o quarteto dos dentes da frente, superiores, inferiores, gastos, como se fosse a campeã mundial do atrito: sexo oral com todos os falos possíveis.

À sua frente, uma família – mãe, filha, filho, pai – tentam dar um golpe ridículo no caixa rápido: dividem-se, cada um com cestinha própria, na compra de dezenas de caixas de sabão em pó.

O patriarca sujo observa a conta e, ao perceber que pode levar mais duas caixas, pede à caixa que aguarde um pouco, corre pelo supermercado e volta com mais duas caixas de sabão em pó.

A família feia lava as roupas com sabáo em pó. Lava as louças com sabão em pó. Lava o carro, o cachorro, com sabão em pó. A calçada, também com o sabão, em pó. Lavam o próprio corpo, e os cabelos aí incluídos, as meias, as roupas íntimas. E o sabão em pó sobrará. E eles o misturarão ao cereal, ao feijão, ao suco dissolvível. Na cama, o casal relembrará o pirulito da infância com um plus de pó e o sabão azul se misturará aos fluidos.

Sábado, três da tarde da semana seguinte, a mãe dirá: "Galera, daqui a duas horas, todo mundo no supermercado! O sabão continua a três reais!" E todos pousarão as costas das mãos sobre as outras e dirão "time?" e repetirão "time!".

E sorrirão um para os outros com os intervalos entre os dentes preenchidos pelo pó azul.

O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...