22.9.11

O Lado Esquerdo


O pisar em falso entre o descer de um degrau e outro fizeram-no tombar sobre o ombro esquerdo e apoiar o corpo de um metro e setenta e oito, oitenta quilos e trinta e um anos de vida a contar das quatro e quarenta e cinco de uma madrugada de mil novecentos e setenta e nove
contra a parede.

Desceu os degraus sem correr. Passo ágil, porém. O primeiro reflexo após conter o desequilíbrio foi verificar a posição da arma. No coldre, ainda. Uma pistola com oito projéteis a menos. Balas. Sempre odiara a denominação leiga. Balas são doces e dão prazer quando se é mulher ou se é formiga. Projéteis têm gosto de pólvora flamejante. Quase enxofre. Um mininferno que rasga a pele e os ossos. Uma grande invenção da humanidade, os projéteis. Assim como todas as armas de destruição. Uma idéia partindo de um único indivíduo. Passando ao papel e do papel às indústrias. Centenas, milhares de pessoas trabalhando na fabricação desses pequenos infernos criadores de destroços. Operários verificando a qualidade dos projéteis e depois voltando para casa. Jantando e assistindo novela. Passando margarina no pão do dia seguinte.

Tergiversava. Talvez um pouco pela recente perda de sangue. Quantos lances ainda? Olhou para baixo. Ainda restavam três lances de escada. Sabia ser o sujeito maior. Um metro e noventa, mais de cem quilos. Só não imaginara ser ele tão ágil. A ponto de alcançá-lo após o segundo tiro, tentar desarmá-lo e ainda conseguir deflagrar dois tiros. Um no chão e outro de efeito rascante em sua perna esquerda. A mesma que falhara e quase o fizera rolar escada abaixo. Mesmo assim conseguira. Um projétil no chão, rasgando o teto. Outro na parede, com pele e músculo e sangue de sua perna. Seis dentro da massa que antes fora corpo. O sangue só possui dignidade em película cinematográfica ou no papel. Via de fato, é um fluido viscoso e nojento que suja todas as coisas e as deixa fedendo, grudentas.

Faz sinal de silêncio ao porteiro. Sentiu gosto de sangue. Não percebera que a chaga recém-aberta também manchara seu dedo. Esvaindo. Esvai-se. Esvaíra-se. Conjugava verbos para manter a consciência até chegar no carro. Paola está dentro do carro. Mulheres são naturalmente ansiosas. Somando o fato de estar esperando um homem que irá matar alguém e que pode não voltar, a ansiedade chega a fazer barulho, a fazer vibrar a matéria ao redor. O capô vermelho do carro vibrando levemente. Estranhamente ela, a ansiedade, se dissipa à visão do do homem com a perna esquerda ensanguentada e que gentilmente pede a ela que cale a boca e procure algo para conter o sangramento enquanto arranca o carro.

Sempre se sentira em paz consigo porque nunca fora gordo a ponto de abolir os cintos. “Aqui, Paola. Meu amor, calma. Tira o meu cinto e faz um torniquete.” Pára no sinal e o carro morre enquanto sua perna esquerda é pressionada pelo improviso. Um garoto tenta se encostar ao vidro e recua, assustado. Paola sua. Passa a mão no rosto e no busto. Seu sangue a mancha. Muda de idéia quanto ao determinismo escatológico realista do sangue. Paola se torna ainda mais bela com manchas leves de sangue sobre a boca e sobre os peitos. Sente uma ereção súbita. O sinal abre. Arrancam.


O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...