30.11.11

Unleashed Horses



Hoje acordei com vontade de ouvir Smashing Pumpkins. Fui procurar uma imagem legal para ilustrar o post e descobri que a D´arcy passou seis dias na cadeia. 


Ela fora indiciada como responsável pela fuga de seus cavalos e consequente invasão das pacatas ruas de Berrien, Michigan. Por não ter pago multas ou comparecido às audiências (as quais alegou ter esquecido), the former "alt-rock purveyor", para usar o termo do site, precisou passar por esse exame de consciência forçado até a data de sua liberação, a qual coincidiu com o Dia dos Namorados Americanos.

O Billy Corgan também merecia passar alguns dias na cadeia por insistir em continuar com a banda sem os integrantes originais.



Quanto ao post. Listas. As minhas 10 músicas preferidas do Smashing Pumpkins hoje de manhã foram:


To Sheila

Ava Adore

The Everlasting Gaze

Here is No Why

I Of The Mourning

Zero

Bullet With Butterfly Wings

I am One

Today

Daydream



27.11.11

Desiderato


Entrara no curso de teologia não porque acreditava em Deus; e sim porque o seu grande objetivo na vida tomar o seu lugar. O lugar de Deus. 


Tivera delírios de grandeza: o homem santo sapientíssimo, saudado com frêmito e lágrimas por milhares de fiéis. O simples erguer da mão direita, indicador em riste e outros dedos em escada trazendo luz para os corações escurecidos pelo medo, sangue e gordura. 


Porém para realizar tal feito necessitava de Deus. Para sobrepujá-lo era preciso conhecê-lo em detalhes. 

Não era uma atitude sábia, em absoluto, tentar convencer as pessoas do fato de que ele, homem, era mais divino que o próprio Deus pelo simples fato de existir, de possuir carne, mãos erguidas: mais realidade e efeito do que jamais existira. Vários antes dele tentaram e falharam epicamente. Ainda em vida foram empalados ou tiveram os órgãos extirpados pelos defensores do invisível.

Também não queria nomear-se Deus encarnado, autoproclamar-se filho, amigo íntimo ou sobrinho-neto do Criador. Queria ser mais. Queria fazer as pessoas esquecerem-no, tornarem-no obsoleto, um engano sendo admitido com um sorriso de alívio, um personagem gigante de um conto de fadas repetido de forma mântrica desde o começo dos tempos. Não queria ir contra Ele, ser um antagonista; e sim o guia que faria a humanidade esquecer a sua maior invenção subjetiva.

Não existe delírio de grandeza que não necessite de testemunhas. No quarto período do curso de teologia fez as suas primeiras. Tivera duas amantes prebisterianas. Simultaneamente. 

Reuniam-se aos sábados para compor um pequeno grupo de estudo e realizar os trabalhos complementares. Terminados os deveres, colocavam os livros de lado e tentavam realizar todas as modalidades sexuais possíveis entre um trio de seres humanos. As duas amantes desenvolveram uma estranha teoria segundo a qual, realizando tais atos, proibidos, sujos, depravados, conseguiam atrair todos os fluidos satânicos em um raio de seiscentos e sessenta e seis metros. Tornavam-se, assim, uma espécie de ímã; e após cinco horas ininterruptas de ritual atrativo, corriam para o chuveiro e mandavam todos os fluidos e, com eles, a energia satânica para o ralo. 

Achava tal teoria um desvario sem sentido. Um desvario prazeroso, porém. Extremamente. Em um dos sábados, sob o chuveiro, comentou sobre um personagem de um livro de Dostoievski (as duas tinhas o escritor russo na lista de autores proibidos) cujo principal ideal era fazer os homens esquecerem Deus e, assim, tomar o seu lugar. 

“Além de impossível e absurdo, esse miserável também atrairia a raiva e a competição da pior das criaturas que existe” – A mais alta das duas dissera. Qual criatura?, perguntara. Em uníssono, palavra por palavra, com a mesma entonação, olhando-o fixo, as presbiterianas repetiram: “Ela. Ou ele. A criatura que durante os sete últimos sábados temos atraído, enganado e derrotado.” 

Como não pensara nisso? Tamanha fora a ânsia de sobrepujar Deus que terminara por esquecer seu principal antagonista. Considerando a possibilidade ínfima de seu plano inicial dar certo, haveria toda uma horda de seguidores do mal a serem convencidos e derrotados. E após eles ainda haveria os mais difíceis de todos, os que ocupavam uma confortável posição mediterrânea entre o bem e o mal e tentavam pegar o melhor dos dois mundos. “A humanidade não é boa ou má – é preguiçosa”, concluíra.

Despediu-se das companheiras de estudo e expurgo com um aperto formal de mãos. Precisava repensar seu plano. Desde o começo. Olhou para os livros e para o relógio. Ignorou o telefone. Sentou no chão. Rosto para a janela. O dia estava terminando. Já era noite escura quando ergueu-se e saiu para comprar algo. Estava com raiva e com fome. Precisava de um insight ébrio. Urgentemente. 

Nos três quarteirões até a mercearia reinava uma paz absoluta.

22.11.11

Mais Um


Acho bom ter bastante coisa para fazer. Mais ainda ter ainda bastante coisa para conquistar. 

A aula do último sábado de manhã tinha como um dos temas isso: alvos, conquistas. Para introduzir o tema, fiz uma pergunta muito simples: Você é feliz? 

Chegamos à conclusão de que, não importa o quanto e o tanto que se tenha, sempre haverá algo a mais para fazer; senão a vida perde o sentido e você vira um velho chato com uma colcha xadrez sobre o colo e esperando para ser assassinado por um personagem menor da Agatha Christie.

Sendo assim, posso considerar uma boa ventura ainda ter tanto à frente. Ter coisas a aprender, com certificado ou não, ter uma casa a construir e outra a reformar (bem que poderia ter uma para derrubar – demolir casas deve ser legal, não sei), livros para ler e escrever, coisas a ouvir e lugares para visitar.

Quando isso acontece, esqueço por certo tempo a entropia de todas as coisas. Esqueço um pouco o consumo e a cobrança constante de impostos.

Se você olhar ao redor com mais calma, vai perceber que tudo – tudo – que está ao seu redor custou ou está custando dinheiro: a energia do computador, o sinal da internete, as roupas, o sanduíche megacalórico que você comeu há pouco. Mesmo quando você está dormindo, o ventilador, o condicionador de ar, a geladeira e a torneira pingando de forma intermitente e fantasmagórica terão os seus valores cobrados no final deste mês ou nos primeiros dias do próximo, não sei.

Sou do tempo em que as contas chegavam só final do mês. Agora as datas são maleáveis. Sendo assim, elas ficam chegando o mês inteiro e você fica pagando contas o mês inteiro.


Isso é pernóstico. Muito. A passagem do ônibus, as rodas dos carros sendo gastas e a gasolina sendo queimada dentro dele, e as baterias se exaurindo aos poucos para que você possa ouvir música. As luzes do semáforo sendo pagas involuntariamente por você, contribuinte, bem como a tinta da faixa de pedestres. Tudo isso custou, está custando e custará enquanto você se dignar a ser digno. E mesmo depois, quando você virará parte do mundo, uma coisa, e passará a ser responsabilidade dos outros que, mesmo entre soluços, terão que se livrar de você.

Uso como escape essa mesma resignação metafísica de que tudo é temporário e, não bastasse ser temporário, se desgasta de forma constante, incomensuravelmente. Aproveitemos o que pudemos, então.

E tal resignação faz cama para um sentimento de um grato bem-estar por, apesar de tudo, ter condições de sentar aqui e escrever um texto quase às duas da manhã porque meu trabalho só começa às duas tarde e, mesmo com a grana contada, saber que mais dinheiro chegará em poucos dias.
 
Sempre lembro da frase do Camus: "É uma espécie de esnobismo intelectual que faz certas pessoas pensarem que podem ser felizes sem dinheiro". Concordo plenamente. E, mesmo ainda sem grandes capitais acumulados, sem o tino irritante para os negócios que fazem completos idiotas terem mais dinheiro do que eu, fico de boa porque sei que ainda há muito a ser conquistado.

Nessas horas o apego à vida vem forte. Olho para o rosto da minha mulher e o apego fica ainda mais forte, se mistura. Imagino uma daquelas "casas brasileiras" que aparecem no GNT tendo nós dois como donos. Isso me deixa feliz.

Não faz parte da didática expressar anseios particulares em uma sala de aula. Sendo assim, não disse que, caso conquitasse todo o dinheiro possível, preferiria ficar em casa lendo e escrevendo livros do que fazendo caridade. E trepando, obviamente.

Poderia doar dinheiro, e tal. Mas por a mão na massa, nananina. 

Além do mais até hoje, aos trinta e um quase dois, ainda não consegui bater a marca de quarenta romances lidos em um ano. Acho que só tornando-me milionário para bater os cem.

Smooth


Gosto de segurar a sua mão.

Mesmo às vezes quando, contra a sua vontade, inverto a ordem das coisas e deixo você para o lado de dentro da calçada.

Tento seguir os bons costumes, e eles dizem que crianças e mulheres, ou alguém mais frágil, ou alguém cuja vida é valiosíssima, deve andar do lado de dentro da calçada para assim ficar um pouco mais protegida de um acidente.

Sendo assim, quando a rua é maior e os carros, terríveis e perigosos, andam mais rápido, ignoro queixas quanto à dinâmica e inverto as nossas mãos. Esquerda, direita.

A aperto forte. Sua mão menor que a minha e mais forte que a minha.

E andamos pelas ruas, andamos pelo frio e escapamos do frio entrando em uma casa e outra. As casas têm as portas abertas e pessoas desconhecidas estão lá dentro pagando para beberem algo. Também fazemos o mesmo.

Observamos. O lugar é diferente, outra cidade, outro clima. Boa música, cachecóis esparsos, gente com cara de chata. Não ligamos. Temos um ao outro e somos o mesmo em qualquer parte do mundo.

13.11.11

Backspacer


Lembro de eu estar no primeiro ano do segundo grau e ganhar de um colega uma fita K7 onde o lado A era o Nevermind e o lado B era o Ten. Ambos incompletos (cada lado de uma fita comum tem 30 minutos), mas com músicas suficientes para que eu nunca mais parasse de gostar das bandas.

Entre a fita até a semana passada se passaram dezesseis anos até que eu, finalmente, assistisse ao show do Pearl Jam. A melhor e maior banda de Seattle, quer você goste, quer não.

Eu mesmo já passei um tempinho sem gostar deles. Enjoado da carranca do Eddie Vedder, sempre esperando um novo Ten, ou um novo Vitalogy, ou um novo No Code, sem me dar conta de que eles simplesmente não se importavam mais com aquilo, de se "autosuperar" a cada álbum.

Depois de perceber isso, passei a gostar bastante dos álbuns mais recentes e, ouvindo mais apuradamente, notar discretas nuances em músicas que se mostraram tão boas quanto as primeiras. A vontade de ouvi-los voltou e, para reforçar minha vontade, a banda também rejuvesneceu em atitude e aparência.

E foi essa banda que eu e minha namorada assistimos. Durante mais de duas horas e meia vimos o que é, realmente, uma grande banda. O que são guitarristas entrosados, o que é um baterista virtuoso e preciso como um metrônomo, o que é um baixista que se faz ouvir, e o que é um vocalista com performance e capacidade vocal capaz de deixar para trás todas as 58 mil pessoas tentando, ingenuamente, acompanhá-lo.

Durante mais de duas horas, ficamos em um estado de realidade suspensa, tentando assimilar o fato de que os caras dos pôsteres e álbuns que nos acompanham desde a adolescência eram pessoas de verdade, e que todos os videotapes de shows que víramos estava também sendo representado no espetáculo sendo realizado à nossa frente. O Pearl Jam era, enfim, de verdade.

1.11.11

Os corredores


O sexteto corre de mãos dadas, sorrindo, como que pudessem chegar ao sol antes que se pusesse. Três casais tendo em comum a recém-descoberta de que não há sobre o céu além de nuvens e um ser de infinita bondade que lhes deu uma oportunidade única de existir, de serem e amarem uns aos outros.

O correr leve, pausado, é interrompido quando o primeiro deles, uma garota, menor e loira, se cansa. Ainda sorrindo, sentam-se sobre a relva. Deitam-se, em seguida. Unos, eles e o céu. Medo de cair pra cima! Um grita. Sorriem, todos.

(o cara mais velho do sexteto)
- E aí, galera. Vamo ficar aqui pra sempre? Meu estômago tá roncando.

(o casal com a única possibilidade palpável de realizar um bom sexo após a correria)
- Vamos ficar mais um pouco.

(uma das garotas, a única morena, incomodada pelo suor e pelo peso dos seios)
- Tô sendo picada por mosquitos.

(o terceiro homem, o menos atraente por estar sempre com a boca entreaberta)
- Meu estômago tá roncando.

(a terceira garota, ruiva original, espécime raríssimo com sardas e olhos verdes)
- Como é que a gente vai voltar pra casa?

Erguem-se e, cansados pela correria, caminham até a beira da estrada e, de lá, mais vinte minutos até o ponto de ônibus. Chegando, precisam fazer uma cota para conseguirem pagar todas as passagens.

O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...