30.12.11

Quase Lá


O penúltimo dia do ano foi também o mais preguiçoso. Saí de casa apenas na hora do almoço para comprar comida. Um frango. À noite pedimos pizza.

Ao menos consegui terminar a leitura de um livro: Mulheres, do Bukowski. Literatura digna de um dia preguiçoso. Também estou com uma barba preguiçosa. Falei duas vezes com a minha namorada. Além do meu video-game e meu coração, meu barbeador elétrico também está em sua casa. Em uma gaveta.

Curiosamente, a quantidade de posts aqui aumentou. Logo mais, irei escolher uma foto para fechar em 100 (um recorde!).

Como vocês pronunciam? Recórde, récorde ou récor?

Não importa. Continuem perseguindo os seus.

E vamos para 2012.

Abraço.

J.

29.12.11

Good Old Hank






"Peguei minha garrafa e fui pro meu quarto. Fiquei só de cueca e deitei na cama. Nada estava em sintonia, nunca. As pessoas vão se agarrando às cegas a tudo que existe: comunismo, comida natural, zen, surf, balé, hipnotismo, encontros grupais, orgias, ciclismo, ervas, catolicismo, halterofilismo, viagens, retiros, vegetarianismo, Índia, pintura, literatura, escultura, música, carros, mochila, ioga, cópula, jogo, bebida, andar por aí, iogurte congelado, Beethoven, Bach, Buda, Cristo, heroína, suco de cenoura, suicídio, roupas feitas à mão, vôos a jato, Nova York, e aí tudo se evapora, se rompe em pedaços. As pessoas têm de achar o que fazer enquanto esperam a morte. Acho legal ter uma escolha."

(BUKOWSKI, Charles. Mulheres. Porto Alegre: L&PM Pocket. pg. 191)


27.12.11

Os Meus Quatro


Uma breve lista com o meu disco, filme e livros preferidos deste ano:

Disco: Ladytron / Gravity the Seducer




2011 foi de muita música. Antiga, em sua maioria. Discografias. Pink Floyd. Rolling Stones. Metallica. Ramones. Led Zeppelin. Misfits.
 

Os álbuns novos, entretanto, decepcionaram um pouco. Menos o do Ladytron. 

Pela primeira vez o lançamento homeopático de singles funcionou comigo: quando ouvi o álbum pela primeira vez, usei as músicas conhecidas como âncoras das novas e a audição do álbum se tornou completa mais brevemente.

E leva muito, acredite, para uma audição de Gravity, the Seducer, ser completa.

Tenho um carinho especial pela banda por acreditar ser o único fã realmente fã deles. 

Fico feliz ao descobrir uma nova camada de som ou um novo significado para uma letra sem muito sentido. Treino com a minha namorada o "olhar Ace of Hz" da Helen (the girl with one arm akimbo). 

Pensando bem, talvez eu seja realmente o único fã de Ladytron realmente fã realmente. 


Filme: Lars Von Trier / Melancholia


Os pontos negativos de Lars Von Trier como diretor/figura pública são: é prepotente e dá declarações estúpidas. O ponto positivo: ele se arrisca em seus filmes e acerta na maioria das vezes. 

Depois do indigesto horror-pornô-artístico de Anticristo, talvez ele tenha feito o melhor dos acertos em sua carreira: Melancholia tem um plot simples e é carregado de significados, assim como os bons romances.

Uma noiva deprimida (Kirsten). Um cientista soberbo (Kiefer). Uma mulher entre a irmã deprimida e o cientista soberbo (Charlotte). Um planeta absurdamente próximo à Terra. Enquadramentos clássicos e fotografia unindo-se ao bom uso da computação gráfica. 

Resultado: um clássico recente interpretável de todas as formas possíveis. Arte.



Livros: Trilogia Millenium / Stieg Larsson &
2666 / Roberto Bolaño


A literatura não tem vivido seus melhores anos. E quando aparece um autor jovem e genial como Stieg Larsson, a morte chega antes dos cinquenta (2004). Como também chegara a Roberto Bolaño (2003). 

Juntos, Larsson e Bolaño, produziriam as séries policiais definitivas. Tomariam leitores, críticos e produtores de assalto.


Em 10 volumes, Larsson transformaria Mikael e Lisbeth em personagens definitivamente imortais.

Em mais um ou dois volumes, bíblicos ou não, Bolaño fecharia a imensa teia tecida no romance 2666 e se tornaria o grande autor-romancista-policial-metafísico-latino-americano de todos os tempos. 

E os dois se conheceriam e fumariam um cigarro juntos. 

Não conseguiram, porém.

E não conseguirão no pós-vida. Porque não há pós-vida. É um mundo cruel e complexo, leitora. Exatamente como relatado nos romances de Larsson e Bolaño. 

Mesmo assim não foi totalmente tarde demais para os dois: ao menos eles conseguiram entregar os manuscritos aos editores.  Algo como uma imortalidade incompleta mas, ainda assim, imortalidade.

Roberto Bolaño e Stieg Larsson partiram deixando livros maravilhosos e mistérios indissolúveis. E seus nomes em listas ao redor do mundo.


Marteladas


Abaixo, listo minhas sete principais teorias sobre as marteladas intermitentes do sétimo andar, as quais têm se prolongado por pelo menos dois anos e meio:

1. Estão construindo uma igreja. Barroca; ou

2. Assentando um mosaico com peças de 1x1cm de modo a compor um mapa-múndi na sala de estar; ou

3. No intuito de economizar dinheiro com pedreiros, os proprietários compraram o Manual do Construtor para assentarem eles mesmos o piso. E não têm conseguido. Pela oitava vez; ou

4. Estão tentando reproduzir o interior de uma caverna, picotando não só o piso; como também as paredes e o teto; ou

5. Possuem um escravo de noventa anos, o qual, somadas as vicissitudes da idade, nunca foi bom em construções; ou

6. Criam um carnívoro gigante que necessita todos os dias de enormes bifes crus para aplacar seu terrível apetite. De tão grandes, os bifes precisam ser batidos no chão; ou

7. Possuem um chimpanzé ou qualquer outro grande macaco cujos instintos selvagens só se acalmam quando é dado um martelo para a criatura bater no chão, atormentando, assim, por mais de dois anos consecutivos, os seus primos evolutivos moradores do andar de baixo.


15.12.11

O Que Falar Sobre Albert Camus em Festas





Albert Camus é meu escritor preferido. Nasceu na Argélia. Filósofo. Escritor. Jornalista. Dramaturgo. Crítico. Editor. Manifestante. Humanista. Seu nome se pronuncia "Cami". 


Abaixo, mais algumas informações para você, leitora ávida por conhecimento, saber um pouco mais sobre esse grande artista:


Camus era filho de mãe espanhola (surda, analfabeta) e pai argelino (agricultor, morto na Primeira Guerra). Na infância trabalhou por algum tempo em minas de carvão até ter seu gênio descoberto por um progenitor que custeou seus estudos.


Camus gostava de futebol e na universidade jogava como goleiro. Interrompeu a prática quando contraiu tuberculose. Certa vez, quando perguntado se preferia futebol ou dramaturgia, Camus respondeu “Futebol, sem sombra de dúvida”. A tuberculose também não permitiu que fosse aceito no Exército Francês. Nunca parou de fumar.


Camus casou-se pela primeira vez aos 21 anos com uma moça chamada Simone. O casamento foi curtíssimo pelo fato dela ser viciada em morfina e ambos serem infiéis. Sua segunda mulher, Francine Faure, era pianista e matemática. Deu luz a gêmeos. Mesmo casado, Camus teve um affair público com a atriz espanhola María Casares. Googla a foto. Ela era intimidante. E não era a única.


Seu primeiro trabalho significativo na Filosofia chama-se O Mito de Sísifo. Segundo o mito, Sísifo foi condenado pelos deuses a rolar um pedra encosta acima para quando tão logo chegasse ao topo, deixasse-a rolar encosta abaixo e começar todo o trabalho novamente. Eternamente. A alegoria (genial) foi utilizada para ilustrar a efemeridade da felicidade humana.

Outra alegoria também genial foi a usada no romance A Peste: ratos representando vítimas anônimas de guerra. Ninguém se importa com ratos mortos até o dia em que a peste que os assolou também passa a ameaçar as nossas vidas.

O segundo ensaio mais famoso se chamou O Homem Revoltado. Entre outras ideias, Camus pregou o fato de a revolta ser somente plena quando existe uma negação dos valores transcendentais e históricos. Tal assertiva irritou Jean-Paul Sartre, então totalmente imerso no marxismo. E com ele, grande parte dos intelectuais; o que  levou Camus a uma espécie de exílio sem sair do país. Tal segregação e julgamento foi magistralmente romanceado em A Queda. Sartre também irritara-se com o então amigo Camus quando em uma festa, sem o menor esforço, este pegou uma atriz pela qual Sartre era interessado.



Camus não se considerava existencialista. O rótulo existencialismo é algo assim como o grunge: um título preguiçoso e vago para definir algo complexo. Renegado pelos seus precursores, difamado por quem não o compreende por ser ignorante e ter mau gosto. 


Citação: O Suicídio é o único problema filosófico realmente importante.


A música Killing an Arab, do Cure, foi baseada no Estrangeiro, livro mais famoso de Camus. No romance, Meursault é um personagem que não se conecta com o mundo, não se comove com a morte da mãe e nem se arrepende por ter assassinado um árabe em um dia de sol abrasante.


Citação (Camus): Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem. Não sei bem.

Citação (Robert Smith): I´m alive. I´m dead. I´m a stranger killing an Arab.

 

Camus foi o segundo escritor mais jovem (44 anos) a ganhar o Nobel de Literatura. Se alguém perguntar quem foi o primeiro, diga que foi Rudyard Kipling e encerre o assunto. Ou invente algo sobre tal escritor (as possibilidades de alguém saber quem ele foi são mínimas).

 

Camus esteve no Brasil em 1949 para uma série de conferências. Visitou o Sudeste e o Nordeste. Viu procissões. Foi a um terreiro de macumba. A visita ao Brasil ocupa boa parte do livro Diário de Viagem

 

Citação: (...) A névoa desparece rapidamente. E vemos as luzes do Rio correndo ao longo da costa, o “Pão de Açúcar”, com quatro luzes no seu topo, e no mais alto cume das montanhas, que parecem esmagar a cidade, um imenso e lamentável Cristo luminoso.

 

Camus era ateu. Achava, porém, o sentimento religioso inerente à condição humana frente ao absurdo da existência: não sabemos de onde viemos, não sabemos para onde iremos. Um deus deve ser responsável por isso, então. O absurdismo, novamente.

 

Camus foi o único escritor famoso a morrer em um acidente de Facel-Véga. O manuscrito de seu último livro – O Primeiro Homem – estava no carro. No seu bolso foram encontradas passagens de trem. Ele planejara viajar com sua mulher e filhos. Seu editor o fez mudar de ideia. 


Citação: Eu amo a vida, eis a minha verdadeira fraqueza. Amo-a tanto que não tenho nenhuma imaginação para o que não for vida.


46 anos foram suficientes para torná-lo o escritor mais legal de todos os tempos.


 

11.12.11

Duas Três Quatro Leituras


Gosto de ter leituras simultâneas. Começo a ler um, logo vejo outro, compro um terceiro compulsivamente e decido reler um quarto. Só me sinto satisfeito quando surge uma mini-pilha dentro da qual os marcadores disputam um páreo prolongado por semanas a fio. 

Prentendo terminar os livros abaixo até o final do ano. Acho que consigo. Isto é, se não incorporar mais um ou dois à lista.


1. George R.R. Martin / A Song of Ice and Fire / A Game Of Thrones



Romances densos e significantes continuam sedutores. As novelas, porém, sempre me fascinaram. Se hoje você me perguntasse qual tipo de escritor eu gostaria de ser, eu diria estar propenso a ser um escritor como George R.R. Martin. Um criador de mundos vastos e personagens interessantes. Escritor de épicos, conversor de legiões de fãs. Estou na metade do primeiro e tenho receio e um estranho fascínio sobre o porvir das próximas milhares de páginas.


2. Bukowski / Mulheres



Tentei ler essa novela duas vezes e parei. Calma. Me explico. Era um arquivo do word traduzido para o português de Portugal. Mesmo entre risadas, a minha vista doía e, pessoalmente, a palavra "cona" nunca teve o mesmo efeito da sua sinônima em português da colônia. Meio misógino, trêbado em prosa explícita, por vezes ode, por outras libelo. Capaz de te fazer rir alto tarde da noite. 


3. Jean-Paul Sartre / A Náusea
 


Tive a sorte de cursar o segundo grau na Escola Técnica Federal do Amazonas – então a escola mais legal da cidade. O suficiente para, entre a maioria de livros técnicos, ter uma sessão de literatura onde havia Sartre e Camus. Se não fosse pela biblioteca, não teria lido o Mito de Sísifo e A Náusea. E também não teria lido As Brumas de Avalon porque, assim como Sartre, sempre tive fascínio pelas novelas. As edições d´A Náusea sempre escaparam-me às mãos. A edição nova da Saraiva, caprichada e em conta, corrigiu isso.


4. Chuck Palahniuk / Pygmy




Comprei Pygmy para corrigir a falha de mesmo sendo apto a lembrar de vários títulos e discorrer sobre vários aspectos das histórias de Palahniuk, nunca ter lido um livro seu. Muita gente é metida a escrever histórias undergrounds com personagens esquisitos fazendo coisas chocantes. Ninguém, porém, é capaz de soar verossímil e ágil como Chuck ao narrar com humor negro as desventuras de pigmeus terroristas do inferno infiltrados nos EUA com o intuito de destruiur o país.

1.12.11

Os Seres Especiais





O rock foi tomado por imitações de rockstars. Um tremendo mau entendido da coisa anos 90. 

O jeito despojado dos caras de Seattle foi erroneamente interpretado como legalização da normalidade no rock. Após imitarem as letras e copiarem os acordes, toda sorte de caras passou a se achar capaz de ser rockstar. Caras gordinhos. De casaquinho e de óculos. Magrelos com cara de sofredor. Usando roupas caras de brechó. Expressão de gente chata esperando no aeroporto (já perceberam a imensa quantidade de caras-de-bunda ali existentes?).Cantando qualquer coisa. Tocando guitarra mal. Chamando as performances tristinhas de atitude. Gravando qualquer barulho encontrado por acidente e chamando de “experimental”. Inventando nomes esdrúxulos para as suas bandas. Escolhendo capas ridículas para os álbuns. E o pior de tudo: ganhando fãs. Meia-dúzia e meia em média. 

Gosta de rock? "Sim, curto. Mas mais um lance alternativo". Como assim alternativo, cara pálida? (literalmente) Completo nonsense. As melhores bandas de rock da história não eram independentes. Precisaram de dinheiro das gravadoras para produzirem bons álbuns. Algumas dando uma banana para as gravadoras depois de ganharem dinheiro suficiente para montar a sua própria, como o Radiohead e o Wilco. Ninguém é independente, e na música não seria diferente. Quem lança álbum independente, simples, lança álbum ruim. Até com boas músicas, mas mal mixado, mal produzido, ruim.

"Gosto de bandas com caras normais usando roupa de gente normal". Como assim? Qual o sentido disso? Não quero ir a um show para ver um ser humano normal. Bandas de seres humanos normais não emocionam ninguém. Não fazem ninguém gritar irracionalmente. Rockstars o fazem. E não se vestem ou agem como alguém normal. Rockstars de verdade TÊM que ser assustadores de alguma forma. Seja se vestindo todos de preto. Seja com rosto o pintado de caveira. Seja os Misfits, ou somente um cara com uma atitude causadora de respeito. "Do it yourself" só funciona quando se é o Joey Ramone.

Mas e o “movimento grunge”? Observando de perto, percebemos serem os caras de Seattle – os motivos mais modernos de tal “simplicidade” infundada – tão monstros quanto todos os grandes monstros do rock. 

Kurt Cobain: monstro.
Eddie Vedder: monstro.
Layne Staley: monstro. 

Tinha e continuo tendo medo desses caras. Tinha medo do Kurt nos palcos (e nos clipes). O Layne era o cara mais soturno do mundo. Jerry Cantrell é a personificação do guitar hero. O Pearl Jam ao vivo  é fantástico não só aura diversa da de todos; mas também pela forma absurdamente perfeita com a qual executam suas músicas. Eu vi e posso dizer. Eddie Vedder brada e deixa todos roucos ao seu redor. Mike McReady toca guitarra nas costas, toca guitarra com os dentes. Stone Gossard nunca envelhece. Jeff Amment mantém a linha de baixo complexa impecável apesar de correr e pular e banguear a maior parte do tempo. Matt Cameron nunca, NUNCA erra. Falando em baterista. Dave Grohl parecia apenas mais um cara “normal” e olha o monstro subcutâneo que ali havia. Krist Novoselic... Não. Esse é normal e chato mesmo.

Além de um exercício insone, toda essa coisa sobrescrita serve para demonstrar meus pensamentos recentes a respeito do rock. Ou seja, o lance é voltar para o básico e primal. E saber: rock and roll necessita de show realizado por gente especial e diferente. Assim meio louca mesmo. E carinhas sem graça fazendo barulhinhos esquisitos não estão com nada. 

São chatos.
Chatos.
São muito chatos.

Assistir a doze horas ininterruptas de Goo Mtv ou vasculhar páginas e páginas da categoria “indie” do New Album Releases pode por vezes trazer certa empolgação cuja reação máxima é um “puxa, que legal”. 

Nada, porém, comparado à audição de uma banda de rock and roll de verdade como o Mastodon e, após um senhor riff de guitarra, cantar: 

“I killed a man ´cause he killed my goat,I put my hands around this throat.”

E sentir uma raiva boa. Vontade de ir aos shows. E gritar com cara de mau para sorrir logo depois. 

Uma raiva boa: rock and roll é isso.


O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...