15.12.12

C-40


O violão do irmão da minha mulher estava abandonado sobre o guarda-roupas do seu quarto também abandonado há anos quase desde que ele, o irmão da minha minha mulher, saiu do seu apartamento para morar em um outro, com mulher e filhos.

Peguei o violão. Trouxe-o para a minha casa, para o meu quarto. O violão é da marca Yamaha. Modelo C-40. Idêntico em aparência ao meu, com a diferença de funcionar. Ter um som bom. Por muito tempo achei que eu era realmente um tocador de violão bem ruim. Até experimentar tocar guitarra e mais alguns violões e descobrir que o problema não era eu; e sim o meu violão. A inexplicabilidade da sorte.

Pois bem. Consegui um afinador legal para ser usado no tablet. As cordas estão envelhecidas. O som, porém, continua bonito. Com um pouco de insistência aprendi mais algumas músicas. Acho estranho tocar uma música inteira para mim mesmo. Será que todas as pessoas que tocam violão fazem isso? Tocar a música parte por parte perfeitamente ou só as partes mais tocantes ou difíceis?

De qualquer forma a experiência de retorno às cordas está sendo boa. Ao invés de ficar com o nariz apontado para a tela do computador, o aponto um pouco mais para baixo, para as cordas. 

5.12.12

Hope



The classic duel between Morpheus, the Lord of Dreams, and Choronzon, a demon:


Choronzon: 

"I am a dire wolf, prey-stalking, lethal prowler"

Morpheus: 

"I am a hunter, horse-mounted, wolf stabbing"

Choronzon: 

"I am a horsefly, horse-stinging, hunter throwing"

Morpheus:

"I am a spider, fly-consuming, eight-legged"

Choronzon: 

"I am a snake, spider-devouring, poison-thooted"

Morpheus:

"I am an ox, snake-crushing, heavy-footed"

Choronzon: 

"I am an anthrax, butcher bacterium, warm-life destroying"

Morpheus:

"I am a world, space-floating, life-nurturing"

Choronzon: 

"I am a nova, all-exploding, planet-cremating"

Morpheus:

"I am the universe, all things encompassing, all life embracing"

Choronzon: 

"I am anti life, the beast of judgement, I am the dark at the end of everything, the end of universes, gods, worlds... of everything. And what will you be then, Dreamlord?"

Morpheus: 

"I am hope".


(GAIMAN, Neil. Sandman: Preludes & Nocturnes vol. 4 - A Hope in Hell. Pgs. 17,18&19)


4.12.12

As Formigas


Semana passada centenas de casas foram destruídas por um incêndio. Ligações elétricas ilegais e ridiculamente amadoras entraram em curto-circuito. As chamas encontraram as madeiras das casas perfeitamente secas pelo sol esturricante. Não demorou muito para as chamas consumirem tudo e tornarem literal o inferno.

Pela televisão, podia-se ver o caos estabelecido. Bombeiros tentando conter as chamas. Geladeiras e outros pertences no meio da rua sendo guardadas pelos donos. Antenas parabólicas com a indicação HDTV derretendo junto ao calor do alumínio das telhas. Gente chorando.

Não sei ao certo quantas pessoas ficaram totalmente desabrigadas. Quantas pessoas não tiveram a quem recorrer (familiares, amigos) e precisaram ser abrigadas em quadras e paróquias. Também não conheço ninguém que tenha sido afetado pelo incêndio. Nenhum nome, nenhuma ligação através de terceiros. Sendo assim, desprovido de qualquer comparação cruel ou irônica, tais pessoas são como formigas. 

Gente que parece uma só. Incômodas em sua diferença, em sua necessidade de ocupação, tão válida quanto a nossa, mas causadoras de impaciência e crítica. Suas roupas simples, sua música barulhenta. Gente de "mau gosto", em suma. Falam diferente de nós. Portam-se diferente de nós. Nos irritam por serem diferentes. 

Ontem à noite, fui ao quintal fumar um cigarro silencioso. Sentei-me na calçada ao lado da casa, de frente para a área do outro lado da rua. A área era verde antes de ser ocupada de forma arbitrária por gente desconhecida. Eles levantaram paredes como formigas constroem um formigueiro: silenciosamente, do dia para a noite. Após certo tempo de desconfiança e estranheza, realizaram que não seriam incomodados ou despejados e abriram uma oficina mecânica. Reproduziram-se. Ocuparam a área definitivamente e passaram a ter a ilusão atávica da propriedade. Passaram a ouvir música alta. A gritar e a expressar alegria. 

Ontem à noite, durante os cinco minutos que duraram o cigarro, pude ouvir as vozes do outro lado do muro. Altas, sem quaisquer reminiscência de conteúdo, de existência. Uma bobagem sem fim dita por gente jovem adepta de um deus selvagem, ignorante e feliz.

Também não deixo de ser formiga a meu modo. Uma formiga com consciência de ser formiga. Bastante diferente das outras formigas quando comparadas de dentro. Totalmente semelhante quando olhada de fora, por alguém do alto do formigueiro. Terminei o cigarro e os gritos selvagens continuaram. Fui até a cozinha e vi um resquício da louça lavada: um pequeno pedaço de frango, totalmente cercado por formigas, daquelas menores, com cheiro ruim. Sem tocá-las, me livrei delas com um produto químico. Todas pareciam a mesma.



27.11.12

The two girls


"The two girls - he doubted that either of them was much more than fourteen years old - who had got on in Pinewood were now in the seat in front of him. They were friends, Shadow decided, eavesdroping without meaning to, not sisters. One of them knew almost nothing about sex, but knew a lot about animals, helped out or spent a lot of time at some kind of animal shelter, while the other was not interested in animals, but, armed with a hundred tidbits gleaned from the Internet and from daytime television, thought she knew a great deal about human sexuality. Shadow listened with a horrified and amused fascination to the one who thought she was wise in the ways the world detail the precise mechanics of using Alka-Seltzer tablets to enhance oral sex."


(GAIMAN, Neil. American Gods. New York: Harpertorch. pg. 248-249)


Espera



Sento ao computador e espero o ano terminar. Espero o sol se por e a noite chegar para poupar-me os braços. Trocos os óculos e leio livros até cansar a vista. Bebo café já meio frio tarde da noite. Ouço músicas novas e antigas e as últimas sempre vencem. Compro uns packs de cerveja. Fumo alguns cigarros. Sem as cervejas eles não são as mesmas coisas. Passo os finais de semana com a minha mulher e eles parecem durar apenas alguns minutos. Escondo-me do sol e corro para o ar refrigerado do trabalho. Converso com os amigos por alguns segundos e o mês não termina. O ano se prolonga. Dezembro se esconde. Sorte o seu esconderijo silencioso e gigante não durar muito tempo.



25.10.12

Cinco Mulheres Estranhas e Suas Músicas Maravilhosas


Na música, parece existir uma espécie de ordem inversamente proporcional relacionada às cantoras. 

Essa ordem é a seguinte: quanto mais bela, mais sem graça. Quanto mais estranha, mais talentosa.

Listo aqui cinco dos melhores exemplos sem qualquer ordem classificatória:


1. Grimes (Claire Boucher)



Banda: ela mesma
Estilo: eletrônico experimental
Principal álbum: Visions
É diferente porque: canta com os agudos no limite do ridículo, mistura música eletrônica de todas as épocas e ainda assim consegue um resultado original.


2. Romy Madley Croft



Banda: The XX
Estilo: minimalista
Principal álbum: XX
É diferente porque: canta no limite do murmúrio. Algo como pensamentos da Tracey Thorn captados no ar e gravados.



3. Yo-Landi Vi$$ser



Banda: Die Antwoord
Estilo: zef rap
Principal álbum: Ten$ion
É diferente porque: usa uma vozinha infantil para cantar obscenidades e ainda soa divertida.



4. Chelsea Wolfe



Banda: ela mesma
Estilo: gótico
Principal álbum: The Grime and the Glow
É diferente porque: consegue criar imagens cinematográficas em preto e branco com a sua voz.


5. Alice Glass


Banda: Crystal Castles
Estilo: eletrônico pós-apocalítico
Principal álbum: Crystal Castles III
É diferente porque: possui uma voz macia e suave de cantora de música eletrônica mas prefere gritar como uma possessa.


14.10.12

Current Reading


Sempre leio vários livros simultaneamente. Não entendo o fato de a maioria das pessoas se concentrarem apenas em um livro por vez como se ler fosse um ato de concentração plena, quase uma meditação transcendental. 

A minha relação com os livros é a mesma de qualquer pessoa com a televisão. Trocar de livro é como mudar de canal. Assiste-se as notícias e em seguida a novela, ou novelas, seguidas de um filme sem que para compreender um seja preciso esquecer do outro. Diferentes gêneros, qualidades, estilos. Tudo é questão de hábito. 

Passei um bom período de tempo sem encontrar livros bons, empolgantes, e por vezes parecia que todos os livros legais possíveis de serem lidos já tinham passado por minhas mãos. Os livros novos sempre tinham a decepção como consequência. Essa "nova" literatura horrorosa em sua falta de criatividade, quase sempre uma imitação macaqueada de um misto de fluxo interno de pensamento com linguagem pop. Um desastre. Claro que devem haver exceções. Não as li, porém. 

Então novamente apareceram as novelas. O romanção, pode-se dizer assim. Livros com boas histórias. Os "capa a capa", em uma tradução literal e estranha do inglês. Livros bem escritos e cumpridores da função primordial do romance: envolver. São eles: 


The Hilliker Curse: My Pursuit of Women (de James Ellroy) 

Lido. Quando criança, Ellroy teve que lidar com o divórcio dos pais e o temperamento da mãe, Geneva Hilliker. Novamente solteira, Hilliker tentava recuperar o tempo perdido em uma série de novos encontros, digamos assim. Isso atormentava o jovem James, então no auge de sua fase edipiana. Certo dia James e a mãe tiveram uma discussão. James disse que gostaria que ela morresse. Ela foi assassinada pouco tempo depois por um de seus amantes desconhecidos. Segundo Ellroy, esse foi o começo da "maldição": um misto de complexo edipiano eterno somado ao complexo de culpa , ambos reponsáveis pela autosabotagem e fracasso de seus futuros relacionamentos. Apesar do título excelente e do estilo da escrita (um verdadeiro compêndio de termos norteamericanos), o livro é chato e repetitivo. Por ter sido escrito logo após o último casamento de Ellroy, o romance passa a impressão de ter sido editado por um mórmon fã de livros policiais: é praticamente nulo em descrições eróticas, o que é um absurdo, quando a história se propusera a ser um relato de relacionamentos íntimos. As mulheres estão apenas no título. Quem aparece sempre de forma onipresente são as neuroses de Ellroy. Talvez para não se complicar com a nova patroa, ele não fez uso de sua linguagem afiada e tensa para descrever um único peitinho, uma bunda que fosse. Ao menos (spoiler tardio) o livro tem um final feliz: Ellroy encontra A Mulher e se livra da maldição. Ao menos por enquanto.


2. A Feast For Crows (de George R.R. Martin) 


Ainda lendo. Depois das mais de duzentas páginas finais de choques e surpresas do livro anterior, A Storm of Swords, comecei a leitura do quarto volume do épico com várias perguntas. O que vai acontecer depois de tantas reviravoltas, de tantas tragédias e de tamanha arquitetação maquiavélica? Será que ainda haverá fôlego para mais mil e tantas páginas? A reposta é sim. A leitura de "apenas" duzentas páginas dissipa todas as dúvidas. O prólogo impecável como sempre e a estruturação gigantesca do romance me levaram de volta, mais uma vez, para Westeros. Não tenho dúvidas quanto ao fato de George R. R. Martin ser o romancista vivo mais valioso e importante do mundo. 


3. American Gods (de Neil Gaiman) 


Na metade. Tivesse eu lido esse livro no final da minha adolescência, jamais teria me posto a besta e tentado escrever coisas góticas, pop e fantásticas. Não bastasse ter criado a melhor obra em quadrinhos de todos os tempos - Sandman -, Gaiman também inaugurou a sua obra como romancista com um livro muito bem argumentado e transpondo a originalidade e a elegância de seus roteiros nos quadrinhos para o romance. American Gods é um épico pop ultra-mega referenciado mas sem deixar de ser original. É sexy e é gótico. É fantasioso sem ser ridículo. Em suma, é irritante no melhor sentido da palavra para quem, assim como eu, quer um dia escrever algo do gênero. 


4. Em Chamas (de Suzanne Collins) 


Lido. A leitura de títulos infanto-juvenis também é fundamental para os adultos. Acho um equívoco monumental alguém dizer que os jovens leem pouco. Os adultos são quem leem pouco. Em Chamas é o segundo volume que me foi emprestado por uma aluna de dez anos. Estou com o terceiro, também emprestado por ela, esperando para ser lido. Em quantidade de tempo, ela lê mais do que eu, veja. A série conseguiu a façanha de passar a prioridade de leitura dos livros de George R.R. Martin. É bem escrita, e consegue balancear a linguagem adaptada para os públicos mais jovens com uma crueza e crueldade narrativas absurdas. Mesmo. Não tenho o menor acanhamento em dizer que Suzanne Collins consegue misturar cultura pop, thriller e Kafka em suas novelas. Duvido alguém começar a ler os absurdos aos quais os moradores dos Distritos sub-julgados pela Capital são submetidos e não acompanhar o sofrimento até o final. Porque é preciso ler até o final para se ver livre da história. Kafka, novamente.


5.Gabriela Cravo e Canela (de Jorge Amado) 


Mal comecei. Resolvi finalmente ler um dos muitos clássicos de Jorge Amado movido pela novela da tv e pela minha visita (emocionante) à sua exposição no Museu da Língua Portuguesa. É impressionante o grau de adaptação e pasteurização pelos quais passaram as telenovelas e, mais ainda, o filme, quando comparados ao romance original. Nele tudo é completamente diferente. Sendo assim, as coisas tomarão um rumo oposto. O livro absorverá a televisão e o cinema; e não o contrário, como sempre acontece. Também quero saber se a Gabriela original é mais interessante, digamos assim, que as suas emuladoras.


6. Fifty Shades of Grey (E.L. James)


Na metade. Gosto de ler livros ruins. E não poderia passar incólume a esse "fenômeno" literário. Acho engraçado quando as resenhas ressaltam o fato de suas vendas terem superado as de Harry Potter sob alguns aspectos. Isso é óbvio e normal. Existe infinitamente mais gente interessada em sacanagem do que em aulas de magia. O livro também é criticado pela forma banal e leve com a qual trata o BDSM, como se tal coisa devesse ser tratada como algo pervertido; e não como mais uma forma de expressão sexual. Sim, apesar da premissa, o livro é comportado. Não, apesar das críticas ele não é mal escrito; é apenas bobo, e por isso divertido. A linguagem e as descrições comportadas, apesar de explícitas (faça aqui as suas inferências), são a solução óbvia se levarmos em conta o fato dos livros terem sido escritos para virarem best-sellers. Se fossem mais crus, mais cruéis e literais, em suma, mais legais, não poderiam ser empilhados inocentemente na Saraiva Megastore.


7. The Rolling Stone Interviews (de Jans S. Venner e Joe Levy) 



Entrando nos anos noventa. Encontrei a edição nacional das entrevistas históricas da revista Rolling Stone em uma promoção de supermercado, em meio a livros espíritas, de receitas e de auto-ajuda (temas de certa forma inter-relacionados). Por quinze reais pude ter acesso a entrevistas dos anos 60 aos anos 00. Nada muito fundamental culturalmente, mas que funciona como uma forma de ver gente genial e não raro reclusa respondendo a perguntas bem formuladas. Além de ser um instrumento poderoso para puxar conversas em festas e confundir a cabeça de quem acha que saber de cultura também é conhecer a vida pessoal dos artistas. 



Acho que ficou um pouco mais claro porque tenho escrito tão pouco. Tenho lido muito.

Abraço.


19.9.12

Retrocesso


É isso o que fazem as pessoas. Sentam e escrevem. Ou pior. Sentam e imaginam coisas. Ou pior. Sentam e imaginam elas mesmas como outras pessoas. Vivendo em outras partes do mundo. Exercendo outras profissões mesmo jamais tendo tido o menor talento para tal; morando em outra cidade, tendo um nariz mais bem feito. Exceto pelo nariz. Nada, nada mais é possível de ser modificado de forma útil de modo a mudar a personalidade. 

Lembro de 1994. Namorei uma garota de nariz notável. Praticamente uma exocartilagem. Meio torto. Quase feio, se isso não a tornasse bela de uma forma ímpar. Vivemos em um mundo cheio de mulheres iguais. Jeans. Cabelos com luzes artificiais. Um nariz conspícuo é um reforço pessoal e tanto. Pois bem. Ela não gostava do nariz. Dizia enfeiá-la. Como assim, caramba. Você não precisa gastar hora e meia de maquiagem para ser percebida. Seu nariz faz todo o trabalho. Ela não me ouviu. Gastou uma grana para ter a pele do nariz cortada e ter a cartilagem raspada. Depois de dias e dias seu nariz estava perfeito. Comum, porém. Decidi abandoná-la. Em meu panteão pessoal, em minha graduação pessoal de covardia, ocupam o topo os homens que fingem amar uma mulher inamável simplesmente porque não têm coragem de erguer um dos pés e alçá-lo em direção ao derière que nunca se abriu a eles. Falei a ela: cretino mesmo eu seria se, antes de te deixar, te desse um murro no nariz. Na época havia quantas possibilidades? Não lembro. Seus narizes eram comuns. Narizes me confundem.

Nada melhor para recomeçar do que mudar de cidade. Certo? Errado. Aqui ou na Austrália a cretinice inerente sempre continua a mesma. Você é um imbecil e compra uma passagem aérea na esperança de mudar. Bobagem. Nunca ouvi caso de alguém que mudou de cidade e mudou de comportamento. Muda-se de roupa. Alisa-se o cabelo. Lê-se livros que não servem pra nada. Emagrece-se. Nada muda substancialmente, porém. "Sou um imbecil. Vou à Europa ou ao Rio resolver tal problema". Onde, a lógica? Foi o que tentei fazer mudando para o Paraná. 

Nunca tive nem cara e nem grana para mudar para São Paulo. A cidade é muito intensa e competitiva para alguém simplesmente comprar uma passagem decidindo mudar de ares. São Paulo não tem ar. Tem gente correndo. Fugindo do frio. Lugar lindo, Curitiba. Não encontrei ninguém. Refugiei-me no trabalho para uma empresa. Curitiba tem um avatar: Dalton Trevisan. Finge ser carioca como Nelson Rodrigues e Rubem Fonseca. Não passa disso. É um velho punheteiro. Covarde, não dá entrevistas, envergonhado das putarias que escreve. Tornei-me um velho punheteiro, então. Escrevendo continhos picarescos. Má, má literatura. Envolvi-me com uma mulher com frustrações artísticas. Abandonei-a.   

1984. Natal. O sol me redimirá. Eu me achando argelino, embasado por Camus. Fui diversas vezes ao litoral. Andei de buggy. Tirei fotografias com os braços erguidos. Criei amigos com juras de amizade eterna. Não lembro os seus nomes. Peguei duas ou três garotas. O sal de sempre. Libertininhas. Fotografias.  Dessas lembro. Nunca confie em alguém autoproclamado libertino. A libertinagem é adquira, definida por outrem; nunca autoafirmada. Cansei do sol. Do nordeste. Lá não há livrarias com mais de cem metros quadrados. Olhei-me no espelho e não gostei do que vi. Pensando bem, ninguém satisfaz-se olhando a si mesmo no espelho: ou se está muito gordo ou, pior, se está muito magro. Decidi voltar para casa.

Manaus, 1979. Formaram-se conjuntos habitacionais. Terrenos pequenos. Trinta anos de financiamento. Suficientes apenas para um quintal com piscina. Mal dão para uma festa com cinquenta pessoas. Encontro uma mulher: ela pergunta de onde eu vim. Do futuro, digo. Estive em 84, 94, 2004, 2014. E o que você viu?, ela pergunta. Uma chatice imensa, digo. Todo mundo buscando um upper east side que não existe. Que coisa chata, o futuro, ela diz. Vamos pra casa.


14.8.12

Normalmente é assim


Eu sempre visito esse blog, não sem antes fazer o logon e verificar não estar contando a mim mesmo. Isso seria trapaça. Prezo os meus dez leitores. 

Depois abro a página e vejo qual foi a última coisa que postei. Se foi um correio, uma foto  ou uma transcrição da qual realmente gostei. Então penso: talvez esteja na hora de um conto. E escrevo algo mais longo. Algo que tento fazer parecer bom a ponto de não ofender o leitor; mas também não muito bom mesmo a ponto de, sei lá, ser roubado por alguém. Nunca acreditei de verdade no Creative Commons. Prefiro salvar os contos realmente bons (poucos, confesso) no word e deixá-los guardados.

Até porque existem muitos. Noventa e quatro. Não estou mentindo. É só conferir no marcador ao lado. Há pouco passei-os em revista e vi o tamanho da coisa. Mudei algumas fontes. Algo como uma pós-edição paranóica e inútil. Boa, porém. Achei legal ver algumas coisas tão antigas e atípicas que nem pareceu eu quem as escreveu. Caramba. Noventa e quatro contos longos e curtos. Senti vontade de comprar uma impressora e imprimir todos eles. Acho que vou fazer isso. Imprimi-los. Trazê-los ao mundo real. A minha pequena obra postada no Blogger. Vá que resolvam acabar com ele, ou esqueçam de fazer os backups ou surja um vírus devastador capaz de queimar até as nuvens virtuais onde se guardam as coisas. Sim. Realmente é uma boa comprar e gastar papel e tinta comprimida superfaturada para imprimir as crianças.

O Blogger. Esse conglomerado de escritores natimortos, frustrados, preguiçosos, ruins, continua sendo a minha residência virtual preferida. Não o desprezo, não o coloco acima dos demais. O acho útil para escrever e escrever e escrever e de vez em quando postar uma foto sem que para isso precise de uma conta de tumblr, ou escrever textos curtos sem que para isso precise ter uma conta no Twitter ou copiar e colar um texto sem a cartonização cafona do Facebook. Gosto de você, Blogger.

Também gosto dos linques ao lado. Leio todos eles. Em partes, claro. Mas leio. Modéstia à parte, acho a minha seleção de linques uma das melhores que já vi até hoje. É uma boa estratégia, isso. Falar bem do meu endereço quando na verdade estou elogiando o de vocês. 

(Parei de escrever um pouco para ler alguns linques. Voltei.)

Eu tenho bastante correio a postar. A viagem a São Paulo. As coisas e impressões do trabalho. Os encontros com os amigos. Os planos e projeções para o futuro mas, sabe, não é que tenha preguiça de escrever; e sim uma consciência da inutilidade de postar tais coisas aqui visto que os principais envolvidos em tais textos são gente de contato constante. Preciso organizar as idéias para um livro e isso já deriva bastante escrita. Também preciso adquirir coisas para a vida e para isso é preciso trabalho e para o trabalho é preciso tempo.

Falando nisso, o de hoje já se fez pouco e é preciso dormir entre um e outro. 

Mesmo assim, sempre tento esticá-lo. Como agora, saindo e lendo mais um pouco antes de dormir

Abraço.


27.6.12

O Que Falar Sobre J.M. Coetzee em Festas





J.M. Coetzee é o melhor escritor vivo da Língua Inglesa. Nasceu em 1940, na África do Sul. Vive na Austrália. Seu nome completo é John Maxwell Coetzee. Se pronuncia assim.


Coetzee ganhou o Nobel de Literatura em 2002 e também dois Man Booker Prize (prêmio dado a romances escritos em inglês): o primeiro em 1983, com Vida e Época de Michael K., e o segundo em 1999, com Desonra.


Este último é considerado o melhor romance já escrito por Coetzee e é peça constante em listas de 100 melhores romances de todos os tempos. Merecidamente, se considerarmos apenas um romance por escritor e ignorarmos a produção literária oriental com toda a sua milenaridade de péssimos agentes literários.


Desonra também pode ser incluído na lista de romances com os melhores começos de todos os tempos:


“Para um homem de sua idade, cinquenta e dois, divorciado, ele tinha, em sua opinião, resolvido muito bem o problema do sexo.”


J.M. Coetzee é um misto de escritor recluso, praticamente monástico (não bebe/ não fuma / não come carne), e intelectual engajado (defesa dos animais / críticas à política e ao Estado / participação em questões sul-africanas); o que o faz ter o melhor (ou o pior) dos dois mundos.


Até hoje não se sabe ao certo quais foram os motivos que o fizeram, em 2007, viajar da Austrália para o Brasil apenas para ler trechos de livros em Parati e voltar para casa sem dar palavra pública além disso. A maioria das pessoas ficaram com raiva porque ele não socializou e não respondeu se preferia usar Mac ou PC, Bic escrita fina ou quatro cores.

Sua reclusão, porém, é primordialmente midiática. Coetzee leciona e, além de romancista, é um autor profícuo de artigos.

Tal reclusão é na verdade relativa. Tanto que muitos surpreenderam-se quando, dois anos depois, ele fez esse vídeo para divulgação no Booker Prize. Talvez para compensar a ausência nas duas cerimônias que o premiaram.


Na verdade, se comparado a escritores como Salinger e Thomas Pynchon, Coetzee é até bastante presente. E além disso sempre escreveu (e escreve) muito mais do que os dois.


(não escondo a alegria ao constatar que alguém vivo é melhor que alguém morto ou inexistente)



Apesar do jeito discreto, Coetzee também possui a vaidade característica de todo grande autor que não fala de si próprio senão pelos livros: Infância (1997), Juventude (2002) e Verão (2009) são memórias escritas em terceira pessoa que tornam ele próprio tão impessoal ao narrador (e próximo ao leitor) quanto os seus personagens.



Este trecho de Homem Lento (2005) representa bem o estilo narrativo de J.M. Coetzee:


“Uma mão pequena, leve, toca o seu rosto e fica pousada nele. Que se dane, ele pensa: volta-se para a mão e a beija. Vamos jogar até o fim.

Dedos exploram seus lábios, as unhas cortadas curtas. Através do véu do limão ele sente o cheiro tênue de lã. Os dedos traçam a linha de seu queixo; passam pela venda, correm por seus cabelos.”


Direta, distinta, clara, objetiva. Sem fazer uso de metaforices. Mas nem por isso desprovida de paixão. Seus símbolos são os da realidade, e a paixão e a revolta presente em suas histórias são universais.

Paixão e clareza: dois adjetivos que podem resumir os romances de J.M. Coetzee.

Seus livros nos fazem sentir como é ler um clássico com seu autor ainda vivo. Nos fazem ler a última página com um gosto diferente na boca. Nos fazem olhar ao redor e fechar a contracapa com respeito pelo que foi escrito.



23.6.12

Mira



Obliterate the Sunday you've been cherishing all week.
Obliterate the Sunday, he's a pleasure you can keep.


21.6.12

Crutch



"Crutch had a flop at the Vivian Apartments. It was a walk-up dive just south of Paramount. Grips and stagehands lived there. Bit players turned lunchtime tricks in a jumbo mop closet. Crutch crammed all his shit into two rooms.

His file shit, his camera shit, his car shit, his bug-and-tap shit. Clyde taught him him surveillance. He had phone chords and wire mounts up the ying-yang. He had a full run of Playboy magazine. He had Car Craft back to ´52. His wallpaper was forty-one Playboy Playmates."


(ELLROY, James. Blood is a Rover. New York: Vintage Books. pg 28)



6.6.12

Os Barulhos



O que existirá no quarto daqui a cem anos? A casa se manterá provavelmente. Talvez a divisão de cômodos. Não sabe quanto aos seres humanos. Se serão estranhos, velhos ou crianças. Pensa nos filmes apocalípticos. Os prédios abandonados cobertos por plantas. A fúria silenciosa e constante do mundo tentando devorar-nos. Seres mudos passivos e diminutos. Esperando o momento certo para nos perfurar os poros. Devorar a carne. A conspiração dos seres invisíveis e das plantas para desocuparmos os imóveis. E como alguém pode se sentir sozinho? Impossível. Os bilhões de seres vivendo do nosso corpo. Alimentando-se de nós microscopicamente. Entrando pelo ar e pelos poros. As criaturas invisíveis são o nosso único deus realmente. Apenas elas estão em nós durante todos os momentos. Fora da casa ouve um barulho de turbina. Não ao longe como sempre. Perto. Na rua. São quase quatro da manhã. Sendo assim como diabos alguém pode estar fazendo tamanho barulho. Observa pelos basculantes. O barulho é intenso. Ninguém além dele parece perceber. Todas as luzes de todas as casas ao redor permanecem apagadas. A grande turbina que move o mundo se deixando ouvir apenas por ele. Como todos podem ser tão surdos? Um imenso número de animais ouve mais do que a gente. E nem pensar direito pensam, os desgraçados. Todos os bichos são um de sua mesma espécie. Todos os cachorros são o mesmo cachorro. Todos os golfinhos o mesmo golfinho. Todos os homens são o mesmo com a diferença de iludirem-se pelo número dos que existem. Nalgum outro exato momento houve um sujeito insone com a sua mesma altura e as mesma gosma na cabeça que o fez devanear em pensamentos sobre a grande turbina do mundo. O barulho passa. Pode sair à calçada e acender um cigarro e apertar uma cápsula dentro do cigarro e assim dissipar um tanto a semelhança com o símile desconhecido. Ignora a China e a Índia. Desta vez ouve um barulho de cão grunhindo na rua. O muro esconde a criatura. Grunhe. Existem outras oito casas neste mesmo lado da rua e os grunhidos estão ali. Invisíveis. À sua frente. O grunhido é o mesmo de todos os cães do mundo. Vade retro. Afasta-te. Com as mãos frias reúne um monte discreto de mato seco. Encosta o cigarro. Expande o fogo. Expele a fumaça. Um pouco de si e do pequeno monte sendo queimado se misturam. O grunhido cessa. Pega o telefone. Digita o mais rápido que pode (o cigarro o sufocando levemente): voce ta acordada?

voce sabe que eu nunca durmo.

ouvi barulhos estranhos.

barulhos de que tipo?

uma turbina invisível e um cão invisível.

com certeza voce tava pensando naquela bobagem sobre os insetos e os micróbios e sobre como todos os bichos sao os mesmos.

exatamente.

pensar sobre essas coisas atrai barulhos estranhos. os invisíveis te mandam recados. brincam.

por que?

porque sao imbecis e quem nao existe e imbecil. voce pode vir aqui se quiser. ainda faltam horas pro sol nascer.

nao quero ter que voltar correndo depois. voce sabe que odeio o sol.

fica ate o sol se por novamente. vem rapido. traz qualquer coisa com alcool.


Enquanto caminhava tentando manter a proporção dos passos apressados, tentava imaginar quem ela seria dessa vez. Foram tantas. Jamais se acostumara com o pequeno susto ao vê-la. Nunca precisara bater à porta. Mesmo assim um reflexo o faz dobrar os dedos. Tão logo tenta levá-los de encontro à madeira vermelha, a porta se abre. Entrega a garrafa gentilmente. Impressionante como praticamente às cinco suas tranças permanecem irretocadas. Recebe um abraço. Ouvem música dos anos noventa. As luzes se acendendo durante o refrão. Se você se concentrar muito tarde da noite os barulhos se tornam um problema. Observa, me dá tua mão. As dão. Encaram-se durante alguns segundos. Logo em seguida ouvem um grito na rua. Pouco depois uma risada. Alta. Vou te dizer o que você precisa dizer. Aproxima-se. Sente o hálito leve e o cheiro dos cabelos presos em tranças. Correm até a porta e abrem-na em um ímpeto. Na rua estão uma velha e um homem. Ambos parecem assustados por estarem sendo vistos. Tentam correr e não conseguem. Foram vistos. Seus gritos perderiam todo o efeito dali para a frente. O que vocês vão fazer com a gente?, perguntam já com lágrimas nos olhos e, velha e homem, se abraçam antes de serem tocados. Pra onde iremos? Pra onde iremos? Pra lugar nenhum, seus imbecis. Vocês não existiam e continuarão não existindo nessa forma ridícula de gritos no meio da noite. Não, por favor, choram desesperadamente. Os gritos eram tudo o que tínhamos. Ambos ignoram o teatro da velha e do homem e começam a rir do ridículo de ser algo desencarnado que encontra um sentido insano em gritar para lembrar aos vivos que um dia tiveram pulmões. Vamos para outro lugar? Não. Vocês irão desaparecer agora. E desaparecem. Foi difícil? Não, nem tanto. Mas porque você estava comigo. Ninguém abre uma porta no meio da noite após ouvir um grito na rua. É preciso saber do que se trata. E você sabia. Olha, são pouco mais de cinco. Você escolhe. Pode dormir aqui se quiser. Usa o porão. Até hoje não acredito que você tem um porão em casa. Qual o problema? Ao invés de, sei lá, comprar um carro, mandei reforçar fundações, cavar um buraco e transformá-lo em uma sala cuja única diferença é ser negativa, estar abaixo da rua. Vamos pra dentro. Quero um pagamento pornográfico por ter eliminado os gritos. Dois deles, ao menos. E quanto ao barulho de turbina? Quanto a isso, não sei. Ainda não encontrei livro que explicasse. Simplesmente é algo que às vezes acontece. Você ouve o moto. Muito possivelmente é uma ilusão auditiva. O universo é imenso e silencioso, mas gosto de pensar que após o fim dele, suas bordas, o que existe é um barulho ensurdecedor que o contém e o mantém em equilíbrio. O preço de um carro? Tem certeza? Um pouco mais talvez, ela diz, tirando a roupa. O porão refrigerado. Pôsteres de bandas dos anos noventa. Cama no nível do chão. Lençóis azul-marinho imaculadamente esticados. Apagam a luz. Como você quer que eu pareça?, ela pergunta. Surpreende-se. Fora ela quem sempre decidira. Quando durmo com você só vejo os contornos do que você se torna. Quando trepamos sinto a tua língua. Tua temperatura. Aquor. Estreiteza. Isso é um recurso perigoso para um amante fixo. Moldar-se. Alturas e vozes. Até mesmo tornar-se um homem, se duvidar. Isso não consigo, chego somente ao andrógino. Uma daquelas cult queens, então. Ok. Não percebe a manhã chegando. Instaurando-se na superfície. Queimando as peles. Ela continua sobre ele. Revezam-se. Quando seus músculos gritam, tremem ao esforço, resolvem parar. Eles sentem a exaustão digna. Todos os seres humanos só deveriam experimentar esse tipo de exaustão durante a vida. Erguem-se. Ele e Linda Romay ou Julie Wallace. O porão possui um pequeno banheiro. Não consegue parar de comparar a relação custo benefício entre se ter um carro ou um subsolo. Mesmo frente à sobrenaturalidade, os pensamentos bobos sempre surgem. Pede a ela que o ajude a lavar as costas. O seu banho sempre demora mais um pouco. Quando sai ela já está vestida novamente. E diferente. Onde você vai? Vou sair para comprar frutas. Me impressiona essa falta de sono. Eu durmo. Só não sinto sono. Você, pelo contrário... Ele não consegue conter o sono. Dá um bocejo sem fim. Adormece um sono sem barulhos.

29.5.12

Água



Teme a cidade sem calçadas. O sol que a todos consome. A vida diurna deveria ser proibida aqui. Todos deveriam sair apenas à noite. Esconderem-se ao nascer do sol. Passar as tardes em casa. Lendo livros. Tomando chá gelado. Vendo reprises televisivas e programas de mau gosto. Em vigília ouvindo música ao longe. Acordando novamente. Passando café novo. Limpando o rosto. Escovando os dentes. Bebendo cerveja usando uma capa de vampiro. Afinando um violão inafinável. Observando o sol se pôr por entre as cortinas pesadas. Afundando em uma banheira com água gelada. Ouvindo música em volume alto. Cortando as unhas. Pondo os pés fora de casa. Calçados novos e cabelos ainda úmidos e dedos ainda frios fazendo sinal para um ônibus quase vazio. Seis ou sete passageiros com caras estranhas como que saídos de um universo paralelo. Os dedos secam com o vento da janela. Arruma o colarinho. Desce no Centro. Longe da parte baixa. Longe da água. Escolhe um bar aleatório. Senta-se em uma das mesas ao fundo. Sentar-se em um bar numa noite de segunda-feira é uma espécie de desobediência civil. Bem como fumar em local fechado. Ou não se importar se a mulher sentada à frente está à procura de dinheiro. Estou impressionada com a tua higiene, ela diz. Tu parece ter acabado de sair do banho, ter feito a barba tem 1 minuto. Não sinto cheiro algum em nenhuma dobra do teu corpo. E isso é ruim?, pergunta. Não, imagina. Vi em um comercial na tv que a limpeza verdadeira não tem cheiro. Além do mais, tenho nojo de gente fedorenta. Tu não sabe o que já vi na frente. Imagino. Todos têm nojo de gente fedorenta, menos eles próprios. Algo como um relacionamento lixeiro – caminhão do lixo. Despem-se. Por quê a escolhera? 1. Pele branca. 2. Sombra ao redor dos olhos. 3. Um piercing minúsculo na narina esquerda e um condenável no supercílio direito. 4. Cabelos descompassados. 5. Tatuagens pagãs e bem feitas. Você tem um cheiro bom; dentro da gama dos cheiros femininos tem os melhores, eu diria. Vou considerar isso como um elogio. É um elogio. Quanto tempo já passou, pergunta. Dentro de uma pequena bolsa vermelha existe um relógio e uma pequena faca. Quase três horas. Passou rápido. Isso é bom. Não sei se nos seus serviços está incluso banho. Não, não tá. Mas pra você não tem problema. Tem fetiche por banho? Não. Apenas preciso de ajuda nas costas. Você é estranho, a mulher diz. Por quê? Nunca conheci alguém tão pervertido e ao mesmo tempo tão higiênico. Isso é ruim? Acho que não, ela diz. Só tenho mesmo raiva é de gente fedorenta. A mulher observa seu corpo com certo fascínio pelo fato de não possuir tatuagens ou cicatrizes. O que você faz para não ter nenhuma marca no rosto ou no corpo? Só saio de casa à noite. Sério? Absolutamente. A parte mais trabalhosa são as omoplatas. Tentar limpá-las retorce os músculos. Preciso de ajuda bem aqui. Pelo espelho do lado de fora, observa a mulher sob a água forte do chuveiro. Ainda está maquiada. Vira-se. Passa as mãos sobre os seus olhos. A maquiagem não sai. Não borra. Permanece intacta. Os cabelos não se molham por mais água que caia sobre eles. Passa uma das mãos por entre as suas pernas. Úmidas, ao contrário de toda a superfície do corpo. Você não vai perguntar por quê continuo assim? Eu perguntaria, se te conhecesse. Mas já se passaram três horas e você deixou bem claro que deveríamos permanecer estranhos durante todo o processo.


15.5.12

O Dinossauro



Na varanda, seis andares ao alto, abrem as cadeiras de praia para assistirem ao por-do-sol pelas costas. O sol desce do lado de trás do prédio e o que veem são nuvens o refletindo. As cores mudando com o passar do tempo. Em breve todas as cores serão uma apenas. Por dentro todas as cores são uma apenas. Normalmente sente-se medo.

Observam os carros abaixo. Tocam as mãos levemente. Suas mãos um pouco úmidas da louça lavada há pouco. Compartilham um cigarro. Servem o jarro de suco de uva à frente e observam o dinossauro entrar ao longe, no início da avenida, e começar a passar por entre os carros.


O animal imenso e cuidadoso se utiliza dos intervalos entre uma faixa e outra posicionadas deliberadamente para que ele se guie. Longas faixas onde leem-se em letras vazadas pelo negro do asfalto os dizeres: FAIXA DO DINOSSAURO. PERIGO DE ESMAGAMENTO. 


As escamas verdes e a calda. Os passos e a respiração causando certa tensão a todos. Os motoristas sentindo o tremor do chão em silêncio absoluto, sem buzinarem ou moverem-se. Os ocupantes dos prédios abismados com os olhos répteis gigantes que não parecem dar importância a algo tão pequeno e recente.

O dinossauro não faz qualquer menção agressiva. É um monstro gentil, apenas. Causa admiração e espanto em quem não tem medo de olhá-lo diretamente. Desloca o ar e o enche com seu cheiro, move o pescoço, bufa. Desvia do semáforo. E segue rumo ao rio várias curtas quadras à frente. 

O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...