18.1.12

Paciente


O ato de dormir e acordar sem sair de casa demonstra o quão simples pode se tornar a existência. Uma Terça e uma Quarta vagando entre quatro cômodos de uma casa pequena torna o dia diminuto. Computador. Televisão. Livros. Banheiro. Computador. Alguns rabiscos. Olho o relógio e já é hora de ir para a cama: é manhã, quase.

As férias quase no fim são algo como um desespero contido de festa open bar com horário de término pré-definido. 

Fazer quase nada. Comer fora de hora. Cervejas no meio da semana (e no fim da semana também). Video-game. Computador. Facebook durante todas as horas e com elas e a promessa: após tudo isso serei contido. Serei a pessoa mais saudavelmente magra das redondezas.

Correrei dez quilômetros por dia. Ficarei rico. 

Mas só a partir da próxima Segunda-feira.

16.1.12

Moby & Lynch


The Driver



"Em tudo que se pode chamar de arte existe uma qualidade de redenção. Pode ser pura tragédia, se for alta tragédia, e pode ser compaixão e ironia, e pode ser a risada rouca do homem forte. Mas nas ruas sórdidas da cidade grande precisa andar um homem que não é sórdido, que não se deixou abater e que não tem medo. Neste tipo de história o detetive deve ser este homem. Ele é o herói; ele é tudo. Ele deve ser um homem completo e um homem comum e, contudo, um homem fora do comum. Ele deve ser, para um clichê, um homem honrado – por instinto, por ser isto inevitável, sem que ele para para pensar sobre isso, e certamente sem que ele o diga. Ele deve ser o melhor homem em seu mundo e um homem bom o suficiente para qualquer mundo. Não me interessa muito sua vida particular; ele não é nem um eunuco nem um sátiro; penso que ele poderia seduzir uma duquesa e tenho certeza de que não se aproveitaria de uma virgem; se é um homem honrado em uma coisa, é um homem honrado em todas as coisas.

Ele é relativamente pobre, ou não seria detetive. É um homem comum, ou não poderia andar entre as pessoas comuns. Tem caráter, ou não seria conhecedor de sua profissão. Não aceita dinheiro desonesto de ninguém e também não aceita insolência da parte de ninguém – a insolência produz nele uma revanche à altura e desapaixonada. É um homem solitário e sente orgulho em ver que você o trata como a um homem orgulhoso ou, caso contrário, que você se arrenpenderá muito de tê-lo conhecido. Ele fala como um homem de sua idade, isto é, de modo áspero e ao mesmo tempo espirituoso, com um vívido senso do grotesco, com absoluto menosprezo por fingimentos e com total desprezo pela mesquinhez alheia.

A história é a aventura deste homem na busca de uma verdade oculta, e não seria aventura se não acontecesse a um homem talhado para a aventura. Sua consciência tem um alcance que deixa o leitor perplexo, mas pertence a ele por direito adquirido, porque pertence ao mundo em que ele vive. Se houvesse outros como ele, o mundo seria um lugar mais seguro para viver, sem que isso se tornasse desinteressante a ponto de não valer a pena viver nele."

(CHANDLER, Raymond. A Simples Arte de Matar. Porto Alegre: L&PM Pocket Noir. Pgs 26 & 27)

A definição de Raymond Chandler publicada em 1944 aplica-se perfeitamente ao protagonista de Drive (2011). Leia. Assista.


Movie poster by

15.1.12

Rayuela





Uma série de vinhetas a partir do livro Rayuela (a.k.a. O Jogo da Amarelinha), de Júlio Cortázar

roteiro: Juliana Frank
animação: Adams Carvalho
trilha: Marteaux / Astup 


14.1.12

As Tintas


Passei os dois últimos dias tentando melhorar a aparência da casa de minha mãe durante a sua curta viagem de uma semana.

Massa corrida, lixas e remendos para então ser posta a primeira camada de tinta. E depois a segunda. Tudo dá bastante trabalho. Abrir latas, limpar o pó e os respingos de tinta, subir e descer de cadeiras. 

Apesar do esforço, o resultado é discreto e ninguém, além de quem pôs a mão na massa e lembra das imperfeições das frestas, sabe o trabalho que deu. 

Esse também foi um dos vários motivos causadores de minha desistência da Engenharia. O anonimato pleno e irreversível. Você sabe o nome das primeiras pessoas a construirem a sua casa? Não.

Minha mulher e eu fomos buscá-la no aeroporto. Ao chegar em casa, seu primeiro comentário foram frases admoestadas a respeito das plantas (mato) que eu arrancara da calçada. Suspeito ser a sua casa a única no país a ter um buraco planejado para que brotem plantas na calçada. O segundo comentário foi "Só isso? Esse pintor tá muito devagar".

Para retribuir a gratidão, passarei meus últimos valiosos dias de férias distante das tintas. E possivelmente o resto do ano. 

E lembrarei de lembrar do nome do homem que realizará os serviços e, mesmo sendo um trabalho remunerado, de agradecê-lo ao final de tudo.



5.1.12

3 de Lado



Abaixo, três idéias abandonadas ou deixadas de lado entre os meus 30 e 32 anos:


1. Expressar-me através de colagens de trechos de músicas e, por conseguinte, compadecer-me por quem se expressa através de tal. Mesmo gostando muito do artista e/ou compositor.

Se você não se sente bem, escreva: "Merda, não estou me sentindo bem". É melhor e mais objetivo do que copiar e colar um trecho de "Lover, You Shouldn´t Come Over". Epígrafes não são diário.


2. Ter idéias irredutíveis. Mudar de idéia é legal. Assisti a entrevista mais recente (espero não a última) do Chico Anísio e ele falou sobre isso, mudar de idéia. Ninguém perde nada ao mudar de idéia. Também posso mudar de idéia sobre isso.


3. Achar o rock um estilo musical melhor em detrimento dos demais. De certa forma, esta idéia relaciona-se à penúltima – mudar de idéia. Gostar de algo não siginifica falar mal de outrem porventura diferente. Baita perda de tempo.


Não gosta, não ouve. 

Não gosta, não lê. 

Não gosta, não assiste. 

Não gosta, mas é gostosa... aí dá mais uma chance: 

Depois você poderá mudar de idéia e poderá postar, intermitentemente, trechos de músicas que ninguém entenderá ou, se entender, não se preocupará tanto.




3.1.12

Palmas na porta


Estou em casa

com meu irmão.

(Meu irmão não fala

de forma comum)


Estou no quarto.

Meu irmão vai ao portão.


Um sujeito tenta comunicar-se

e não consegue.


Aproximo-me.


Percebo ser o sujeito uma testemunha

de Jeová.




Digo "pois não"  e

O sujeito então diz:

"não sabia que ele tinha problema".


Digo que não,

meu irmão não tem problema.


Problema tem você, 

meu irmão.


Que bate de porta

em porta

tentando convencer pessoas

que não conhece

sobre um deus

que não existe.



Ou se existe,

conforme seu livro

sob 

a axila,

não 

é o nosso:



Ele nunca 

salvou alguém

no Brasil

como salvou

nas histórias 

extraordinárias

do livro.


Viro as costas

e entramos,

eu e meu irmão,

para assistirmos televisão

e comermos batatas fritas.