9.3.12

Gotling


O quarto duplicado nas sombras das  seis da tarde. O primeiro movimento após um tarde sem um nada, sem um algo, foi a boca aberta: 

"Pensei em algo para a minha peça. Ela se chamará Gotling Sem Sombra".

/Ato Um/ 

manhã. ar livre. recepção de casamento. pessoas conversam. Gotling é um deles. flerta com a única ruiva presente. uma criança, bincando com um cachorro, preto, de preferência, aponta o defeito de Gotling: "olha, esse homem não tem sombra!"

mesmo sabendo tal coisa ser impossível, um ou outro convidado olha de sobrolho. as bocas cheias de salgadinhos preenchendo os intervalos dos dentes. em um segundo olhar mais apurado, vários deles percebem: Gotling não tem sombra, realmente.

"quem não tem sombra existe?", alguém pergunta.

/Fim do primeiro ato/

2.3.12

A segunda língua


Preciso lembrar de escrever aqui. Os dias passam e esqueço. Se esqueço daqui, imagina os outros. No final da noite lembro ter de fazer algo. Tal algo por vezes é aqui.


A língua inglesa tomou grande parte dos meus dias. Meu trabalho. Minhas referências, coisas das quais eu gosto. Livros. Filmes. Músicas desde sempre. Em língua inglesa. Diálogos em língua inglesa mesmo entre os intervalos de aula, ou fora do horário de trabalho, conversando com amigos. Pensamentos em língua inglesa. Estudos. Aulas e preparação de aulas. Tal preparação normalmente leva mais tempo, o dobro, triplo do tempo das aulas em si. As pessoas entram na sala e saem da sala de aula tendo aprendido algo. O dia termina. Volto para casa pensando nas aulas dos dias subsequentes. Em língua inglesa.


O português estabelecido acompanha a tudo. A base estável sendo proferida e escrita de forma tranquila. Escolhendo a si próprio em forma de palavras. Avalovara. Vem e vai, brinca, retórico, irônico, fazendo trocadilhos em proparoxítonos. Dentre as várias pausas solitárias (o caminho de ida e volta até o trabalho, uma bebida e um cigarro) onde até mesmo pensamentos mais curtos surgem em língua inglesa; ela abre caminho e me pergunta sobre os livros não escritos e sobre todos os livro possíveis já escritos. Não sei a resposta. Pressiono algo como um botão interno de pausa + áudio e paraliso a língua inglesa.


Paro. Aqui, onde estou. Cadeira, dedos sobre o teclado. Nada de histórias por enquanto. Todas as histórias já foram escritas. Penso até mesmo ter lido boa parte delas. Paro e folheio livros brasileiros e portugueses recém-lançados. Não os compro. Meus Olhos de Cão. Lavourarcaica. Os do Jorge, todos. Lobo e Saramago. 


Tal constatação não surge em forma frustrada, como alguém desejoso de escrever e publicar algo mais; e sim como algo sereno pelo fato de tudo já ter sido escrito. Mudo de prateleiras. Compro uma narrativa longa, épica, em língua inglesa.


Iniciar uma história é simples:

"O caminho até o trabalho era uma avenida longa e ensolarada. Uma ou outra árvore falida, sem galhos, quase, criava uma imitação de sombra."


Duzentas páginas depois, tal história teria um fim e, após meses de escrita, ela seria impressa e alunos invisíveis a comprariam e talvez aprendessem algo com ela. Após meses de delírios e suplícios literários, assim como um professor da rede pública que recebe uma fração ínfima dos impostos recolhidos; ou um professor particular que recebe outra fração ínfima do dinheiro extra dos contribuintes recolhido mensalmente, ele também receberia uma parcela ínfima do todo. 


E novamente tudo teria início, ou tudo teria início novamente ou, novamente, tudo teria início assim como início, tudo, novamente, teria.


As possibilidades do mesmo são infinitas. Abstenho-me, por enquanto. As aulas são suficientes.