30.4.12

As Teclas Negras



You're the only one 
I'm so wrapped up in your gaze 
Hoping this is just a phase 
But when all is said and done 
I know you are still the one 
You're the only one 
You're the only one 
Cupids bow has stung 
Now you're the only one 



Chorus from "The Only One", by The Black Keys (El Camiño, 2011) - I was singing this song when two little blue birds came by my window and flew away, or around, don´t know. Just know that I love you. A chronic disease, it might be. The prettiest and luckiest one I could ever have.


And it might end one day. Or not.



25.4.12

I´m alright



via


Brandon



Quantas fechaduras como essa ainda existem? A esfera preenchida pela estrutura da tranca. Somente retirando-se a chave consegue-se entrar no apartamento. 

O que resta quando não há nada mais a ser acrescentado em absolutamente mais nenhum cômodo? A pilha de revistas na altura exata. Os quadros na altura certa. Cada facho indireto de luz em seu lugar. A roupa de cama e suas dobras perfeitas prontas para serem desfeitas e libertarem o sono branco mantido sob. O prédio é uma macroestrutura absurdamente silenciosa. Os vidros das janelas tornam os carros mudos dez andares abaixo. Entrar em seu apartamento é isolar-se do mundo. Melhor. Isolar-se em seu mundo. 

Estala os dedos. Observa a paisagem composta por pequenas luzes minúsculas. Os homens tornados formigas anônimas não o interessam. Poderia ter esse espaço compartilhado. Não. Decidira-se. Não seria ingênuo de entrar no inferno silencioso dos homens casados. Concessões. Uma vida sexual. Uma. Baseada na indulgência de uma única mulher diferente a cada dia dependendo do humor ou do clima ou dos hormônios. Ou pior, crianças. Ser substituído por uma. Ou pior, nenhuma criança e mesmo assim ser substituído. Tivera um insight às avessas. Algo assustador, na verdade. Um lapso. Por dez minutos pensara estar ter entrado no apartamento errado e estar vendo a mulher errada à sua frente. O mais longo relacionamento foi o último.

Pior ainda seria o pesadelo dos solteiros. Compartilhar a rotina de quem busca incessantemente um parceiro. E pensa encontrá-lo. E invariavelmente decepciona-se. Um mês ou dez anos. Tanto faz. E o círculo se reinicia até o chegar o dia onde as opções terminam e todos, sozinhos ou acompanhados, desistem. Não que ignore o esporte do flerte. A conquista o move. As intensas. Entretanto nada passa disso, nada vai além. Horas, apenas. Não ignora a existência dos casais felizes. Não harmoniosos. Felizes. Absurdamente. Eles existem. Na mesma proporção dos ganhadores da loteria. Menos. Na dos homens que observaram a órbita terrestre.

Optara pela caverna. O seu apartamento. O dinheiro mais do que suficiente para assegurar seu estilo monasticamente lascivo até o fim da vida. Intencional ou não. Levara tempo até desapegar-se e organizar tudo. A acostumar-se às visitantes frugais que lá permaneciam durante horas múltiplas de três e levavam uma quantidade substancial de dinheiro ínfimo para ele. Não possuía cópia da chave do apartamento, mais velho do que ele próprio. Assim como o próprio mundo apenas alguns bilhões de anos à frente. 

Torce a chave e a porta cede, destrancada. Entra em sobressalto. 


Desconhece o fato inusitado de Sissy estar em seu apartamento. 


Esquecera totalmente da única cópia tirada da chave de sua vida.


(Um plot adaptado do filme "Shame" (2012), que assisti ontem à noite)


24.4.12

Fórmula do meu novo perfume


Alcohol /  Aqua / Parfum / Benzophenone-2 / Triclosan /  CI 60730 / Hexyl cinnamal


Coumarin / Citronellol / Limonene / Linalool / Geranol / Citral



20.4.12

Ideal



"Amateurs sit and wait for inspiration, the rest of us just get up and go to work."


Stephen King




via

17.4.12

Meu Último Sonho


Meu último sonho com princípio meio fim e clareza absolutas foi um documentário sobre os peixe-agulha. 


Os peixe-agulha na verdade eram um híbrido de humano e pisciano. Cabeça humana sem pelos, nadadeiras, pelos grossos amarelos nas costas semelhantes à carapaça de um porco-espinho. Os cardumes nadavam fora de ordem e possuíam cenhos franzidos.


A segunda fase do desenvolvimento dos peixe-agulha acontecia fora da água. O tronco tornava-se completamente humano. Os membros mantinham-se presos à herança aquática. Um tentáculo em cada braço. Vários na parte inferior do corpo para poder sustentá-lo.


A última parte do documentário mostrava um casal adolescente andando pelos corredores de uma escola. Ela era humana. Ele, um peixe-agulha em processo evolutivo. Ambos usavam jaleco normalista.


Eu sentia claramente estarem os dois apaixonados.


12.4.12

Drinking


I have the feeling that drinking is a form of suicide where you’re allowed to return to life and begin all over the next day. 

(Charles Bukowski)

4.4.12

Poça


Observa a pequena poça de água sobre a mesa. Toca de leve a superfície aquosa. Retira a mão e vê algo como uma formiga e essa formiga parece crescer à sua frente, esticar-se, debater-se como uma cobra. 

É isso a magia, então. Essa coisa bizarra e orgânica, sem raios ou luzes coloridas. 


Escamas brotam sob a pele lisa, olhos explodem levemente: duas pústulas de aparência gélida, logo tornadas olhos, o encaram. A poça não mais contém a criatura.

"Esse mês de março talvez tenha sido o mais rápido de todos os tempos", diz, observando os membros recém-nascidos, a carnadura da coisa fora da poça. 

Espera uma resposta.