29.5.12

Água



Teme a cidade sem calçadas. O sol que a todos consome. A vida diurna deveria ser proibida aqui. Todos deveriam sair apenas à noite. Esconderem-se ao nascer do sol. Passar as tardes em casa. Lendo livros. Tomando chá gelado. Vendo reprises televisivas e programas de mau gosto. Em vigília ouvindo música ao longe. Acordando novamente. Passando café novo. Limpando o rosto. Escovando os dentes. Bebendo cerveja usando uma capa de vampiro. Afinando um violão inafinável. Observando o sol se pôr por entre as cortinas pesadas. Afundando em uma banheira com água gelada. Ouvindo música em volume alto. Cortando as unhas. Pondo os pés fora de casa. Calçados novos e cabelos ainda úmidos e dedos ainda frios fazendo sinal para um ônibus quase vazio. Seis ou sete passageiros com caras estranhas como que saídos de um universo paralelo. Os dedos secam com o vento da janela. Arruma o colarinho. Desce no Centro. Longe da parte baixa. Longe da água. Escolhe um bar aleatório. Senta-se em uma das mesas ao fundo. Sentar-se em um bar numa noite de segunda-feira é uma espécie de desobediência civil. Bem como fumar em local fechado. Ou não se importar se a mulher sentada à frente está à procura de dinheiro. Estou impressionada com a tua higiene, ela diz. Tu parece ter acabado de sair do banho, ter feito a barba tem 1 minuto. Não sinto cheiro algum em nenhuma dobra do teu corpo. E isso é ruim?, pergunta. Não, imagina. Vi em um comercial na tv que a limpeza verdadeira não tem cheiro. Além do mais, tenho nojo de gente fedorenta. Tu não sabe o que já vi na frente. Imagino. Todos têm nojo de gente fedorenta, menos eles próprios. Algo como um relacionamento lixeiro – caminhão do lixo. Despem-se. Por quê a escolhera? 1. Pele branca. 2. Sombra ao redor dos olhos. 3. Um piercing minúsculo na narina esquerda e um condenável no supercílio direito. 4. Cabelos descompassados. 5. Tatuagens pagãs e bem feitas. Você tem um cheiro bom; dentro da gama dos cheiros femininos tem os melhores, eu diria. Vou considerar isso como um elogio. É um elogio. Quanto tempo já passou, pergunta. Dentro de uma pequena bolsa vermelha existe um relógio e uma pequena faca. Quase três horas. Passou rápido. Isso é bom. Não sei se nos seus serviços está incluso banho. Não, não tá. Mas pra você não tem problema. Tem fetiche por banho? Não. Apenas preciso de ajuda nas costas. Você é estranho, a mulher diz. Por quê? Nunca conheci alguém tão pervertido e ao mesmo tempo tão higiênico. Isso é ruim? Acho que não, ela diz. Só tenho mesmo raiva é de gente fedorenta. A mulher observa seu corpo com certo fascínio pelo fato de não possuir tatuagens ou cicatrizes. O que você faz para não ter nenhuma marca no rosto ou no corpo? Só saio de casa à noite. Sério? Absolutamente. A parte mais trabalhosa são as omoplatas. Tentar limpá-las retorce os músculos. Preciso de ajuda bem aqui. Pelo espelho do lado de fora, observa a mulher sob a água forte do chuveiro. Ainda está maquiada. Vira-se. Passa as mãos sobre os seus olhos. A maquiagem não sai. Não borra. Permanece intacta. Os cabelos não se molham por mais água que caia sobre eles. Passa uma das mãos por entre as suas pernas. Úmidas, ao contrário de toda a superfície do corpo. Você não vai perguntar por quê continuo assim? Eu perguntaria, se te conhecesse. Mas já se passaram três horas e você deixou bem claro que deveríamos permanecer estranhos durante todo o processo.


15.5.12

O Dinossauro



Na varanda, seis andares ao alto, abrem as cadeiras de praia para assistirem ao por-do-sol pelas costas. O sol desce do lado de trás do prédio e o que veem são nuvens o refletindo. As cores mudando com o passar do tempo. Em breve todas as cores serão uma apenas. Por dentro todas as cores são uma apenas. Normalmente sente-se medo.

Observam os carros abaixo. Tocam as mãos levemente. Suas mãos um pouco úmidas da louça lavada há pouco. Compartilham um cigarro. Servem o jarro de suco de uva à frente e observam o dinossauro entrar ao longe, no início da avenida, e começar a passar por entre os carros.


O animal imenso e cuidadoso se utiliza dos intervalos entre uma faixa e outra posicionadas deliberadamente para que ele se guie. Longas faixas onde leem-se em letras vazadas pelo negro do asfalto os dizeres: FAIXA DO DINOSSAURO. PERIGO DE ESMAGAMENTO. 


As escamas verdes e a calda. Os passos e a respiração causando certa tensão a todos. Os motoristas sentindo o tremor do chão em silêncio absoluto, sem buzinarem ou moverem-se. Os ocupantes dos prédios abismados com os olhos répteis gigantes que não parecem dar importância a algo tão pequeno e recente.

O dinossauro não faz qualquer menção agressiva. É um monstro gentil, apenas. Causa admiração e espanto em quem não tem medo de olhá-lo diretamente. Desloca o ar e o enche com seu cheiro, move o pescoço, bufa. Desvia do semáforo. E segue rumo ao rio várias curtas quadras à frente. 

14.5.12

Faster Pussycat! Kill! Kill!



(Nome constante em listas de melhores cults de todos os tempos. A introdução é antológica.)

1.5.12

10 Minutos


Observa através do vidro. As pessoas caem pelas ruas. Demônios. Carros os ameaçam de forma inerte. Os pedestres os incitam sob o sinal vermelho. Os demônios. Um deles aborda o seu carro. Consta: Avenida Djalma Batista. 04:04. Agressão. 

Um carro, ao menos. Parcelado. Quatro anos parecerão infinitos. Dois terços do salário praticamente. Sai às seis da tarde. Trânsito intenso. Encontra os amigos às sete e quarenta e cinco. Sai do bar após a meia-noite. Tem uma mulher nova apoiada ao braço. Motel. O carro novo. Azul. Pára no sinal. Um sujeito bêbado, mais que ele próprio, cospe no pára-brisa e dá um murro no capô novo. Consta: 04:04. Agressão. 

Sai. Um cotovelo quebra seu nariz. Os ossos da face liberando a dor. Ergue-se. Chuta o rosto do agressor. Acerta a boca. Extrai os dois dentes superiores. Os amigos do agressor gritam. A mulher dentro do carro grita ENTRA. Ignora. O nariz quebrado não fará diferença. Deixou o selvagem banguelo. Consta: 04:07. Agressão seguida de lesão corporal. 

Os selvagens partem em socorro. Dois mais. Olha ao redor. O agressor original cospe sangue. Os dentes caídos serão esmagados pelo peso dos veículos do dia seguinte. Corre para o interior do carro. Anos sem fim em parcelas. Seu rosto: nariz quebrado. Respirara sangue antes? Não. Pensa em dar a partida e fugir. Ao invés retira uma barra de ferro sob o seu banco de motorista. Mira um dos crânios. Acerta. O segundo agressor desmaia como nos filmes. Corre atrás do terceiro. O que tentara agredir a mulher no carro. Consta: 04:09. Agressão múltipla. 

O selvagem anônimo, o terceiro, atira e erra. Finge ter sido atingido. Cai no asfalto. Recebe mais dois tiros. Não o atingem. Permanece deitado no asfalto. O atirador se aproxima e não vê sangue. Os tiros, cadê, pensa. Tenta revirar o motorista e recebe um golpe no joelho. Cai. Perde os revolve com um chute. Tem o outro joelho esmagado. Subitamente se lembra de deus. Lembra-se da Mãe. O agressor ignora as lágrimas. Está de pé. Escapou de três tiros. Empunha a barra com ambos os braços. A ergue. Retorce os intestinos do selvagem com a barra. A empurra. O empala, de certa forma. Consta: 04:14. Crime hediondo.

Volta ao carro. As mãos tremem um pouco. Vermelhas e contundidas, demoram à ignição. A barra volta a repousar sob o banco. Durante o trajeto de volta, ele e a mulher não trocam palavra.

O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...