27.6.12

O Que Falar Sobre J.M. Coetzee em Festas





J.M. Coetzee é o melhor escritor vivo da Língua Inglesa. Nasceu em 1940, na África do Sul. Vive na Austrália. Seu nome completo é John Maxwell Coetzee. Se pronuncia assim.


Coetzee ganhou o Nobel de Literatura em 2002 e também dois Man Booker Prize (prêmio dado a romances escritos em inglês): o primeiro em 1983, com Vida e Época de Michael K., e o segundo em 1999, com Desonra.


Este último é considerado o melhor romance já escrito por Coetzee e é peça constante em listas de 100 melhores romances de todos os tempos. Merecidamente, se considerarmos apenas um romance por escritor e ignorarmos a produção literária oriental com toda a sua milenaridade de péssimos agentes literários.


Desonra também pode ser incluído na lista de romances com os melhores começos de todos os tempos:


“Para um homem de sua idade, cinquenta e dois, divorciado, ele tinha, em sua opinião, resolvido muito bem o problema do sexo.”


J.M. Coetzee é um misto de escritor recluso, praticamente monástico (não bebe/ não fuma / não come carne), e intelectual engajado (defesa dos animais / críticas à política e ao Estado / participação em questões sul-africanas); o que o faz ter o melhor (ou o pior) dos dois mundos.


Até hoje não se sabe ao certo quais foram os motivos que o fizeram, em 2007, viajar da Austrália para o Brasil apenas para ler trechos de livros em Parati e voltar para casa sem dar palavra pública além disso. A maioria das pessoas ficaram com raiva porque ele não socializou e não respondeu se preferia usar Mac ou PC, Bic escrita fina ou quatro cores.

Sua reclusão, porém, é primordialmente midiática. Coetzee leciona e, além de romancista, é um autor profícuo de artigos.

Tal reclusão é na verdade relativa. Tanto que muitos surpreenderam-se quando, dois anos depois, ele fez esse vídeo para divulgação no Booker Prize. Talvez para compensar a ausência nas duas cerimônias que o premiaram.


Na verdade, se comparado a escritores como Salinger e Thomas Pynchon, Coetzee é até bastante presente. E além disso sempre escreveu (e escreve) muito mais do que os dois.


(não escondo a alegria ao constatar que alguém vivo é melhor que alguém morto ou inexistente)



Apesar do jeito discreto, Coetzee também possui a vaidade característica de todo grande autor que não fala de si próprio senão pelos livros: Infância (1997), Juventude (2002) e Verão (2009) são memórias escritas em terceira pessoa que tornam ele próprio tão impessoal ao narrador (e próximo ao leitor) quanto os seus personagens.



Este trecho de Homem Lento (2005) representa bem o estilo narrativo de J.M. Coetzee:


“Uma mão pequena, leve, toca o seu rosto e fica pousada nele. Que se dane, ele pensa: volta-se para a mão e a beija. Vamos jogar até o fim.

Dedos exploram seus lábios, as unhas cortadas curtas. Através do véu do limão ele sente o cheiro tênue de lã. Os dedos traçam a linha de seu queixo; passam pela venda, correm por seus cabelos.”


Direta, distinta, clara, objetiva. Sem fazer uso de metaforices. Mas nem por isso desprovida de paixão. Seus símbolos são os da realidade, e a paixão e a revolta presente em suas histórias são universais.

Paixão e clareza: dois adjetivos que podem resumir os romances de J.M. Coetzee.

Seus livros nos fazem sentir como é ler um clássico com seu autor ainda vivo. Nos fazem ler a última página com um gosto diferente na boca. Nos fazem olhar ao redor e fechar a contracapa com respeito pelo que foi escrito.



23.6.12

Mira



Obliterate the Sunday you've been cherishing all week.
Obliterate the Sunday, he's a pleasure you can keep.


21.6.12

Crutch



"Crutch had a flop at the Vivian Apartments. It was a walk-up dive just south of Paramount. Grips and stagehands lived there. Bit players turned lunchtime tricks in a jumbo mop closet. Crutch crammed all his shit into two rooms.

His file shit, his camera shit, his car shit, his bug-and-tap shit. Clyde taught him him surveillance. He had phone chords and wire mounts up the ying-yang. He had a full run of Playboy magazine. He had Car Craft back to ´52. His wallpaper was forty-one Playboy Playmates."


(ELLROY, James. Blood is a Rover. New York: Vintage Books. pg 28)



6.6.12

Os Barulhos



O que existirá no quarto daqui a cem anos? A casa se manterá provavelmente. Talvez a divisão de cômodos. Não sabe quanto aos seres humanos. Se serão estranhos, velhos ou crianças. Pensa nos filmes apocalípticos. Os prédios abandonados cobertos por plantas. A fúria silenciosa e constante do mundo tentando devorar-nos. Seres mudos passivos e diminutos. Esperando o momento certo para nos perfurar os poros. Devorar a carne. A conspiração dos seres invisíveis e das plantas para desocuparmos os imóveis. E como alguém pode se sentir sozinho? Impossível. Os bilhões de seres vivendo do nosso corpo. Alimentando-se de nós microscopicamente. Entrando pelo ar e pelos poros. As criaturas invisíveis são o nosso único deus realmente. Apenas elas estão em nós durante todos os momentos. Fora da casa ouve um barulho de turbina. Não ao longe como sempre. Perto. Na rua. São quase quatro da manhã. Sendo assim como diabos alguém pode estar fazendo tamanho barulho. Observa pelos basculantes. O barulho é intenso. Ninguém além dele parece perceber. Todas as luzes de todas as casas ao redor permanecem apagadas. A grande turbina que move o mundo se deixando ouvir apenas por ele. Como todos podem ser tão surdos? Um imenso número de animais ouve mais do que a gente. E nem pensar direito pensam, os desgraçados. Todos os bichos são um de sua mesma espécie. Todos os cachorros são o mesmo cachorro. Todos os golfinhos o mesmo golfinho. Todos os homens são o mesmo com a diferença de iludirem-se pelo número dos que existem. Nalgum outro exato momento houve um sujeito insone com a sua mesma altura e as mesma gosma na cabeça que o fez devanear em pensamentos sobre a grande turbina do mundo. O barulho passa. Pode sair à calçada e acender um cigarro e apertar uma cápsula dentro do cigarro e assim dissipar um tanto a semelhança com o símile desconhecido. Ignora a China e a Índia. Desta vez ouve um barulho de cão grunhindo na rua. O muro esconde a criatura. Grunhe. Existem outras oito casas neste mesmo lado da rua e os grunhidos estão ali. Invisíveis. À sua frente. O grunhido é o mesmo de todos os cães do mundo. Vade retro. Afasta-te. Com as mãos frias reúne um monte discreto de mato seco. Encosta o cigarro. Expande o fogo. Expele a fumaça. Um pouco de si e do pequeno monte sendo queimado se misturam. O grunhido cessa. Pega o telefone. Digita o mais rápido que pode (o cigarro o sufocando levemente): voce ta acordada?

voce sabe que eu nunca durmo.

ouvi barulhos estranhos.

barulhos de que tipo?

uma turbina invisível e um cão invisível.

com certeza voce tava pensando naquela bobagem sobre os insetos e os micróbios e sobre como todos os bichos sao os mesmos.

exatamente.

pensar sobre essas coisas atrai barulhos estranhos. os invisíveis te mandam recados. brincam.

por que?

porque sao imbecis e quem nao existe e imbecil. voce pode vir aqui se quiser. ainda faltam horas pro sol nascer.

nao quero ter que voltar correndo depois. voce sabe que odeio o sol.

fica ate o sol se por novamente. vem rapido. traz qualquer coisa com alcool.


Enquanto caminhava tentando manter a proporção dos passos apressados, tentava imaginar quem ela seria dessa vez. Foram tantas. Jamais se acostumara com o pequeno susto ao vê-la. Nunca precisara bater à porta. Mesmo assim um reflexo o faz dobrar os dedos. Tão logo tenta levá-los de encontro à madeira vermelha, a porta se abre. Entrega a garrafa gentilmente. Impressionante como praticamente às cinco suas tranças permanecem irretocadas. Recebe um abraço. Ouvem música dos anos noventa. As luzes se acendendo durante o refrão. Se você se concentrar muito tarde da noite os barulhos se tornam um problema. Observa, me dá tua mão. As dão. Encaram-se durante alguns segundos. Logo em seguida ouvem um grito na rua. Pouco depois uma risada. Alta. Vou te dizer o que você precisa dizer. Aproxima-se. Sente o hálito leve e o cheiro dos cabelos presos em tranças. Correm até a porta e abrem-na em um ímpeto. Na rua estão uma velha e um homem. Ambos parecem assustados por estarem sendo vistos. Tentam correr e não conseguem. Foram vistos. Seus gritos perderiam todo o efeito dali para a frente. O que vocês vão fazer com a gente?, perguntam já com lágrimas nos olhos e, velha e homem, se abraçam antes de serem tocados. Pra onde iremos? Pra onde iremos? Pra lugar nenhum, seus imbecis. Vocês não existiam e continuarão não existindo nessa forma ridícula de gritos no meio da noite. Não, por favor, choram desesperadamente. Os gritos eram tudo o que tínhamos. Ambos ignoram o teatro da velha e do homem e começam a rir do ridículo de ser algo desencarnado que encontra um sentido insano em gritar para lembrar aos vivos que um dia tiveram pulmões. Vamos para outro lugar? Não. Vocês irão desaparecer agora. E desaparecem. Foi difícil? Não, nem tanto. Mas porque você estava comigo. Ninguém abre uma porta no meio da noite após ouvir um grito na rua. É preciso saber do que se trata. E você sabia. Olha, são pouco mais de cinco. Você escolhe. Pode dormir aqui se quiser. Usa o porão. Até hoje não acredito que você tem um porão em casa. Qual o problema? Ao invés de, sei lá, comprar um carro, mandei reforçar fundações, cavar um buraco e transformá-lo em uma sala cuja única diferença é ser negativa, estar abaixo da rua. Vamos pra dentro. Quero um pagamento pornográfico por ter eliminado os gritos. Dois deles, ao menos. E quanto ao barulho de turbina? Quanto a isso, não sei. Ainda não encontrei livro que explicasse. Simplesmente é algo que às vezes acontece. Você ouve o moto. Muito possivelmente é uma ilusão auditiva. O universo é imenso e silencioso, mas gosto de pensar que após o fim dele, suas bordas, o que existe é um barulho ensurdecedor que o contém e o mantém em equilíbrio. O preço de um carro? Tem certeza? Um pouco mais talvez, ela diz, tirando a roupa. O porão refrigerado. Pôsteres de bandas dos anos noventa. Cama no nível do chão. Lençóis azul-marinho imaculadamente esticados. Apagam a luz. Como você quer que eu pareça?, ela pergunta. Surpreende-se. Fora ela quem sempre decidira. Quando durmo com você só vejo os contornos do que você se torna. Quando trepamos sinto a tua língua. Tua temperatura. Aquor. Estreiteza. Isso é um recurso perigoso para um amante fixo. Moldar-se. Alturas e vozes. Até mesmo tornar-se um homem, se duvidar. Isso não consigo, chego somente ao andrógino. Uma daquelas cult queens, então. Ok. Não percebe a manhã chegando. Instaurando-se na superfície. Queimando as peles. Ela continua sobre ele. Revezam-se. Quando seus músculos gritam, tremem ao esforço, resolvem parar. Eles sentem a exaustão digna. Todos os seres humanos só deveriam experimentar esse tipo de exaustão durante a vida. Erguem-se. Ele e Linda Romay ou Julie Wallace. O porão possui um pequeno banheiro. Não consegue parar de comparar a relação custo benefício entre se ter um carro ou um subsolo. Mesmo frente à sobrenaturalidade, os pensamentos bobos sempre surgem. Pede a ela que o ajude a lavar as costas. O seu banho sempre demora mais um pouco. Quando sai ela já está vestida novamente. E diferente. Onde você vai? Vou sair para comprar frutas. Me impressiona essa falta de sono. Eu durmo. Só não sinto sono. Você, pelo contrário... Ele não consegue conter o sono. Dá um bocejo sem fim. Adormece um sono sem barulhos.