19.9.12

Retrocesso


É isso o que fazem as pessoas. Sentam e escrevem. Ou pior. Sentam e imaginam coisas. Ou pior. Sentam e imaginam elas mesmas como outras pessoas. Vivendo em outras partes do mundo. Exercendo outras profissões mesmo jamais tendo tido o menor talento para tal; morando em outra cidade, tendo um nariz mais bem feito. Exceto pelo nariz. Nada, nada mais é possível de ser modificado de forma útil de modo a mudar a personalidade. 

Lembro de 1994. Namorei uma garota de nariz notável. Praticamente uma exocartilagem. Meio torto. Quase feio, se isso não a tornasse bela de uma forma ímpar. Vivemos em um mundo cheio de mulheres iguais. Jeans. Cabelos com luzes artificiais. Um nariz conspícuo é um reforço pessoal e tanto. Pois bem. Ela não gostava do nariz. Dizia enfeiá-la. Como assim, caramba. Você não precisa gastar hora e meia de maquiagem para ser percebida. Seu nariz faz todo o trabalho. Ela não me ouviu. Gastou uma grana para ter a pele do nariz cortada e ter a cartilagem raspada. Depois de dias e dias seu nariz estava perfeito. Comum, porém. Decidi abandoná-la. Em meu panteão pessoal, em minha graduação pessoal de covardia, ocupam o topo os homens que fingem amar uma mulher inamável simplesmente porque não têm coragem de erguer um dos pés e alçá-lo em direção ao derière que nunca se abriu a eles. Falei a ela: cretino mesmo eu seria se, antes de te deixar, te desse um murro no nariz. Na época havia quantas possibilidades? Não lembro. Seus narizes eram comuns. Narizes me confundem.

Nada melhor para recomeçar do que mudar de cidade. Certo? Errado. Aqui ou na Austrália a cretinice inerente sempre continua a mesma. Você é um imbecil e compra uma passagem aérea na esperança de mudar. Bobagem. Nunca ouvi caso de alguém que mudou de cidade e mudou de comportamento. Muda-se de roupa. Alisa-se o cabelo. Lê-se livros que não servem pra nada. Emagrece-se. Nada muda substancialmente, porém. "Sou um imbecil. Vou à Europa ou ao Rio resolver tal problema". Onde, a lógica? Foi o que tentei fazer mudando para o Paraná. 

Nunca tive nem cara e nem grana para mudar para São Paulo. A cidade é muito intensa e competitiva para alguém simplesmente comprar uma passagem decidindo mudar de ares. São Paulo não tem ar. Tem gente correndo. Fugindo do frio. Lugar lindo, Curitiba. Não encontrei ninguém. Refugiei-me no trabalho para uma empresa. Curitiba tem um avatar: Dalton Trevisan. Finge ser carioca como Nelson Rodrigues e Rubem Fonseca. Não passa disso. É um velho punheteiro. Covarde, não dá entrevistas, envergonhado das putarias que escreve. Tornei-me um velho punheteiro, então. Escrevendo continhos picarescos. Má, má literatura. Envolvi-me com uma mulher com frustrações artísticas. Abandonei-a.   

1984. Natal. O sol me redimirá. Eu me achando argelino, embasado por Camus. Fui diversas vezes ao litoral. Andei de buggy. Tirei fotografias com os braços erguidos. Criei amigos com juras de amizade eterna. Não lembro os seus nomes. Peguei duas ou três garotas. O sal de sempre. Libertininhas. Fotografias.  Dessas lembro. Nunca confie em alguém autoproclamado libertino. A libertinagem é adquira, definida por outrem; nunca autoafirmada. Cansei do sol. Do nordeste. Lá não há livrarias com mais de cem metros quadrados. Olhei-me no espelho e não gostei do que vi. Pensando bem, ninguém satisfaz-se olhando a si mesmo no espelho: ou se está muito gordo ou, pior, se está muito magro. Decidi voltar para casa.

Manaus, 1979. Formaram-se conjuntos habitacionais. Terrenos pequenos. Trinta anos de financiamento. Suficientes apenas para um quintal com piscina. Mal dão para uma festa com cinquenta pessoas. Encontro uma mulher: ela pergunta de onde eu vim. Do futuro, digo. Estive em 84, 94, 2004, 2014. E o que você viu?, ela pergunta. Uma chatice imensa, digo. Todo mundo buscando um upper east side que não existe. Que coisa chata, o futuro, ela diz. Vamos pra casa.


O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...