25.10.12

Cinco Mulheres Estranhas e Suas Músicas Maravilhosas


Na música, parece existir uma espécie de ordem inversamente proporcional relacionada às cantoras. 

Essa ordem é a seguinte: quanto mais bela, mais sem graça. Quanto mais estranha, mais talentosa.

Listo aqui cinco dos melhores exemplos sem qualquer ordem classificatória:


1. Grimes (Claire Boucher)



Banda: ela mesma
Estilo: eletrônico experimental
Principal álbum: Visions
É diferente porque: canta com os agudos no limite do ridículo, mistura música eletrônica de todas as épocas e ainda assim consegue um resultado original.


2. Romy Madley Croft



Banda: The XX
Estilo: minimalista
Principal álbum: XX
É diferente porque: canta no limite do murmúrio. Algo como pensamentos da Tracey Thorn captados no ar e gravados.



3. Yo-Landi Vi$$ser



Banda: Die Antwoord
Estilo: zef rap
Principal álbum: Ten$ion
É diferente porque: usa uma vozinha infantil para cantar obscenidades e ainda soa divertida.



4. Chelsea Wolfe



Banda: ela mesma
Estilo: gótico
Principal álbum: The Grime and the Glow
É diferente porque: consegue criar imagens cinematográficas em preto e branco com a sua voz.


5. Alice Glass


Banda: Crystal Castles
Estilo: eletrônico pós-apocalítico
Principal álbum: Crystal Castles III
É diferente porque: possui uma voz macia e suave de cantora de música eletrônica mas prefere gritar como uma possessa.


14.10.12

Current Reading


Sempre leio vários livros simultaneamente. Não entendo o fato de a maioria das pessoas se concentrarem apenas em um livro por vez como se ler fosse um ato de concentração plena, quase uma meditação transcendental. 

A minha relação com os livros é a mesma de qualquer pessoa com a televisão. Trocar de livro é como mudar de canal. Assiste-se as notícias e em seguida a novela, ou novelas, seguidas de um filme sem que para compreender um seja preciso esquecer do outro. Diferentes gêneros, qualidades, estilos. Tudo é questão de hábito. 

Passei um bom período de tempo sem encontrar livros bons, empolgantes, e por vezes parecia que todos os livros legais possíveis de serem lidos já tinham passado por minhas mãos. Os livros novos sempre tinham a decepção como consequência. Essa "nova" literatura horrorosa em sua falta de criatividade, quase sempre uma imitação macaqueada de um misto de fluxo interno de pensamento com linguagem pop. Um desastre. Claro que devem haver exceções. Não as li, porém. 

Então novamente apareceram as novelas. O romanção, pode-se dizer assim. Livros com boas histórias. Os "capa a capa", em uma tradução literal e estranha do inglês. Livros bem escritos e cumpridores da função primordial do romance: envolver. São eles: 


The Hilliker Curse: My Pursuit of Women (de James Ellroy) 

Lido. Quando criança, Ellroy teve que lidar com o divórcio dos pais e o temperamento da mãe, Geneva Hilliker. Novamente solteira, Hilliker tentava recuperar o tempo perdido em uma série de novos encontros, digamos assim. Isso atormentava o jovem James, então no auge de sua fase edipiana. Certo dia James e a mãe tiveram uma discussão. James disse que gostaria que ela morresse. Ela foi assassinada pouco tempo depois por um de seus amantes desconhecidos. Segundo Ellroy, esse foi o começo da "maldição": um misto de complexo edipiano eterno somado ao complexo de culpa , ambos reponsáveis pela autosabotagem e fracasso de seus futuros relacionamentos. Apesar do título excelente e do estilo da escrita (um verdadeiro compêndio de termos norteamericanos), o livro é chato e repetitivo. Por ter sido escrito logo após o último casamento de Ellroy, o romance passa a impressão de ter sido editado por um mórmon fã de livros policiais: é praticamente nulo em descrições eróticas, o que é um absurdo, quando a história se propusera a ser um relato de relacionamentos íntimos. As mulheres estão apenas no título. Quem aparece sempre de forma onipresente são as neuroses de Ellroy. Talvez para não se complicar com a nova patroa, ele não fez uso de sua linguagem afiada e tensa para descrever um único peitinho, uma bunda que fosse. Ao menos (spoiler tardio) o livro tem um final feliz: Ellroy encontra A Mulher e se livra da maldição. Ao menos por enquanto.


2. A Feast For Crows (de George R.R. Martin) 


Ainda lendo. Depois das mais de duzentas páginas finais de choques e surpresas do livro anterior, A Storm of Swords, comecei a leitura do quarto volume do épico com várias perguntas. O que vai acontecer depois de tantas reviravoltas, de tantas tragédias e de tamanha arquitetação maquiavélica? Será que ainda haverá fôlego para mais mil e tantas páginas? A reposta é sim. A leitura de "apenas" duzentas páginas dissipa todas as dúvidas. O prólogo impecável como sempre e a estruturação gigantesca do romance me levaram de volta, mais uma vez, para Westeros. Não tenho dúvidas quanto ao fato de George R. R. Martin ser o romancista vivo mais valioso e importante do mundo. 


3. American Gods (de Neil Gaiman) 


Na metade. Tivesse eu lido esse livro no final da minha adolescência, jamais teria me posto a besta e tentado escrever coisas góticas, pop e fantásticas. Não bastasse ter criado a melhor obra em quadrinhos de todos os tempos - Sandman -, Gaiman também inaugurou a sua obra como romancista com um livro muito bem argumentado e transpondo a originalidade e a elegância de seus roteiros nos quadrinhos para o romance. American Gods é um épico pop ultra-mega referenciado mas sem deixar de ser original. É sexy e é gótico. É fantasioso sem ser ridículo. Em suma, é irritante no melhor sentido da palavra para quem, assim como eu, quer um dia escrever algo do gênero. 


4. Em Chamas (de Suzanne Collins) 


Lido. A leitura de títulos infanto-juvenis também é fundamental para os adultos. Acho um equívoco monumental alguém dizer que os jovens leem pouco. Os adultos são quem leem pouco. Em Chamas é o segundo volume que me foi emprestado por uma aluna de dez anos. Estou com o terceiro, também emprestado por ela, esperando para ser lido. Em quantidade de tempo, ela lê mais do que eu, veja. A série conseguiu a façanha de passar a prioridade de leitura dos livros de George R.R. Martin. É bem escrita, e consegue balancear a linguagem adaptada para os públicos mais jovens com uma crueza e crueldade narrativas absurdas. Mesmo. Não tenho o menor acanhamento em dizer que Suzanne Collins consegue misturar cultura pop, thriller e Kafka em suas novelas. Duvido alguém começar a ler os absurdos aos quais os moradores dos Distritos sub-julgados pela Capital são submetidos e não acompanhar o sofrimento até o final. Porque é preciso ler até o final para se ver livre da história. Kafka, novamente.


5.Gabriela Cravo e Canela (de Jorge Amado) 


Mal comecei. Resolvi finalmente ler um dos muitos clássicos de Jorge Amado movido pela novela da tv e pela minha visita (emocionante) à sua exposição no Museu da Língua Portuguesa. É impressionante o grau de adaptação e pasteurização pelos quais passaram as telenovelas e, mais ainda, o filme, quando comparados ao romance original. Nele tudo é completamente diferente. Sendo assim, as coisas tomarão um rumo oposto. O livro absorverá a televisão e o cinema; e não o contrário, como sempre acontece. Também quero saber se a Gabriela original é mais interessante, digamos assim, que as suas emuladoras.


6. Fifty Shades of Grey (E.L. James)


Na metade. Gosto de ler livros ruins. E não poderia passar incólume a esse "fenômeno" literário. Acho engraçado quando as resenhas ressaltam o fato de suas vendas terem superado as de Harry Potter sob alguns aspectos. Isso é óbvio e normal. Existe infinitamente mais gente interessada em sacanagem do que em aulas de magia. O livro também é criticado pela forma banal e leve com a qual trata o BDSM, como se tal coisa devesse ser tratada como algo pervertido; e não como mais uma forma de expressão sexual. Sim, apesar da premissa, o livro é comportado. Não, apesar das críticas ele não é mal escrito; é apenas bobo, e por isso divertido. A linguagem e as descrições comportadas, apesar de explícitas (faça aqui as suas inferências), são a solução óbvia se levarmos em conta o fato dos livros terem sido escritos para virarem best-sellers. Se fossem mais crus, mais cruéis e literais, em suma, mais legais, não poderiam ser empilhados inocentemente na Saraiva Megastore.


7. The Rolling Stone Interviews (de Jans S. Venner e Joe Levy) 



Entrando nos anos noventa. Encontrei a edição nacional das entrevistas históricas da revista Rolling Stone em uma promoção de supermercado, em meio a livros espíritas, de receitas e de auto-ajuda (temas de certa forma inter-relacionados). Por quinze reais pude ter acesso a entrevistas dos anos 60 aos anos 00. Nada muito fundamental culturalmente, mas que funciona como uma forma de ver gente genial e não raro reclusa respondendo a perguntas bem formuladas. Além de ser um instrumento poderoso para puxar conversas em festas e confundir a cabeça de quem acha que saber de cultura também é conhecer a vida pessoal dos artistas. 



Acho que ficou um pouco mais claro porque tenho escrito tão pouco. Tenho lido muito.

Abraço.


O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...