15.12.12

C-40


O violão do irmão da minha mulher estava abandonado sobre o guarda-roupas do seu quarto também abandonado há anos quase desde que ele, o irmão da minha minha mulher, saiu do seu apartamento para morar em um outro, com mulher e filhos.

Peguei o violão. Trouxe-o para a minha casa, para o meu quarto. O violão é da marca Yamaha. Modelo C-40. Idêntico em aparência ao meu, com a diferença de funcionar. Ter um som bom. Por muito tempo achei que eu era realmente um tocador de violão bem ruim. Até experimentar tocar guitarra e mais alguns violões e descobrir que o problema não era eu; e sim o meu violão. A inexplicabilidade da sorte.

Pois bem. Consegui um afinador legal para ser usado no tablet. As cordas estão envelhecidas. O som, porém, continua bonito. Com um pouco de insistência aprendi mais algumas músicas. Acho estranho tocar uma música inteira para mim mesmo. Será que todas as pessoas que tocam violão fazem isso? Tocar a música parte por parte perfeitamente ou só as partes mais tocantes ou difíceis?

De qualquer forma a experiência de retorno às cordas está sendo boa. Ao invés de ficar com o nariz apontado para a tela do computador, o aponto um pouco mais para baixo, para as cordas. 

5.12.12

Hope



The classic duel between Morpheus, the Lord of Dreams, and Choronzon, a demon:


Choronzon: 

"I am a dire wolf, prey-stalking, lethal prowler"

Morpheus: 

"I am a hunter, horse-mounted, wolf stabbing"

Choronzon: 

"I am a horsefly, horse-stinging, hunter throwing"

Morpheus:

"I am a spider, fly-consuming, eight-legged"

Choronzon: 

"I am a snake, spider-devouring, poison-thooted"

Morpheus:

"I am an ox, snake-crushing, heavy-footed"

Choronzon: 

"I am an anthrax, butcher bacterium, warm-life destroying"

Morpheus:

"I am a world, space-floating, life-nurturing"

Choronzon: 

"I am a nova, all-exploding, planet-cremating"

Morpheus:

"I am the universe, all things encompassing, all life embracing"

Choronzon: 

"I am anti life, the beast of judgement, I am the dark at the end of everything, the end of universes, gods, worlds... of everything. And what will you be then, Dreamlord?"

Morpheus: 

"I am hope".


(GAIMAN, Neil. Sandman: Preludes & Nocturnes vol. 4 - A Hope in Hell. Pgs. 17,18&19)


4.12.12

As Formigas


Semana passada centenas de casas foram destruídas por um incêndio. Ligações elétricas ilegais e ridiculamente amadoras entraram em curto-circuito. As chamas encontraram as madeiras das casas perfeitamente secas pelo sol esturricante. Não demorou muito para as chamas consumirem tudo e tornarem literal o inferno.

Pela televisão, podia-se ver o caos estabelecido. Bombeiros tentando conter as chamas. Geladeiras e outros pertences no meio da rua sendo guardadas pelos donos. Antenas parabólicas com a indicação HDTV derretendo junto ao calor do alumínio das telhas. Gente chorando.

Não sei ao certo quantas pessoas ficaram totalmente desabrigadas. Quantas pessoas não tiveram a quem recorrer (familiares, amigos) e precisaram ser abrigadas em quadras e paróquias. Também não conheço ninguém que tenha sido afetado pelo incêndio. Nenhum nome, nenhuma ligação através de terceiros. Sendo assim, desprovido de qualquer comparação cruel ou irônica, tais pessoas são como formigas. 

Gente que parece uma só. Incômodas em sua diferença, em sua necessidade de ocupação, tão válida quanto a nossa, mas causadoras de impaciência e crítica. Suas roupas simples, sua música barulhenta. Gente de "mau gosto", em suma. Falam diferente de nós. Portam-se diferente de nós. Nos irritam por serem diferentes. 

Ontem à noite, fui ao quintal fumar um cigarro silencioso. Sentei-me na calçada ao lado da casa, de frente para a área do outro lado da rua. A área era verde antes de ser ocupada de forma arbitrária por gente desconhecida. Eles levantaram paredes como formigas constroem um formigueiro: silenciosamente, do dia para a noite. Após certo tempo de desconfiança e estranheza, realizaram que não seriam incomodados ou despejados e abriram uma oficina mecânica. Reproduziram-se. Ocuparam a área definitivamente e passaram a ter a ilusão atávica da propriedade. Passaram a ouvir música alta. A gritar e a expressar alegria. 

Ontem à noite, durante os cinco minutos que duraram o cigarro, pude ouvir as vozes do outro lado do muro. Altas, sem quaisquer reminiscência de conteúdo, de existência. Uma bobagem sem fim dita por gente jovem adepta de um deus selvagem, ignorante e feliz.

Também não deixo de ser formiga a meu modo. Uma formiga com consciência de ser formiga. Bastante diferente das outras formigas quando comparadas de dentro. Totalmente semelhante quando olhada de fora, por alguém do alto do formigueiro. Terminei o cigarro e os gritos selvagens continuaram. Fui até a cozinha e vi um resquício da louça lavada: um pequeno pedaço de frango, totalmente cercado por formigas, daquelas menores, com cheiro ruim. Sem tocá-las, me livrei delas com um produto químico. Todas pareciam a mesma.



O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...