30.12.13

A Cidade dos Gatos


O jovem viajava sozinho, com apenas uma mala, sem destino certo. Ele seguia de trem e, se encontrasse umn local interessante, descia.  Procurava um alojamento,  conhecia a cidade e ficava no local o tempo que quisesse. Quando enjoava, pegava novamente o trem. Era assim que costumava aproveitar as férias.

Um dia ele viu um rio muito bonito da janela do trem. O rio serpenteava graciosamente por entre as colinas verdejantes, e no sopé de uma delas havia uma pequena cidade que parecia ser muito tranquila, com uma antiga ponte de pedra sobre o rio. O cenário era muito convidativo. “Aqui devem servir uma truta deliciosa”, pensou o rapaz. Quando o trem parou na estação, o jovem pegou a mala e desceu. Foi o único passageiro a descer. Tão logo ele saiu, o trem partiu.

Não havia nenhum funcionário na estação. “Por aqui deve ser tudo muito calmo”, pensou o rapaz. Atravessou a ponte de pedra e foi para a cidade. Nela imperava o mais absoluto silêncio. Não havia vivalma. Todas as lojas estavam com as portas fechadas e não havia ninguém na prefeitura. No único hotel da cidade também não havia ninguém na recepção. O rapaz tocou a campainha e, mesmo assim, ninguém apareceu. Era como uma cidade fantasma. Ou, talvez, todos estivessem fazendo a sesta. Mas ainda eram dez e meia da manhã; muito cedo para repousar. Ou, quem sabe, acontecera alguma coisa, e todos tiveram que abandonar a cidade. Como o próximo trem só passaria na manhã seguinte, o jeito era passar a noite lá. O rapaz caminhou pela cidade para passar o tempo.

Mas, na verdade, aquela era uma cidade de gatos. Ao anoitecer, muitos atravessavam a ponte de pedra, de volta para a cidade. Gatos de vários tipos e cores. Eram bem maiores que um gato normal, mas não havia dúvidas de que eram gatos. O rapaz ficou apavorado ao presenciar a cena e se escondeu rapidamente no alto de um campanário no centro da cidade. Os gatos agiam com a maior naturalidade: alguns abriam as lojas enquanto outros começavam a trabalhar na prefeitura, ocupando suas mesas de trabalho. Mais e mais gatos continuaram chegando sobre a ponte. Eles faziam compras nas lojas, iam para a prefeitura resolver assuntos administrativos e comiam no restaurante do hotel. Os gatos também tomavam cerveja no bar e cantavam alegremente as músicas de gato. Um deles tocava acordeão e outros dançavam no compasso da música. Como os gatos enxergam no escuro, praticamente não havia necessidade de luz, mas, naquela noite, a lua cheia iluminava toda a cidade, e o rapaz, mesmo escondido no campanário, conseguiu observar tudo, do começo ao fim. Quando o dia estava prestes a raiar, os gatos fecharam as lojas, terminaram os seus respectivos afazeres e, em bando, atravessaram a ponte retornando para o local de onde vieram.

Ao amanhecer, os gatos já haviam partido e a cidade ficou novamente deserta. O rapaz desceu do campanário, foi para o hotel, escolheu uma cama e pegou no sono. Ao sentir fome foi para a cozinha do hotel e comeu restos de pão e de peixes que os gatos haviam deixado pra trás. Quando começou a escurecer, o rapaz se escondeu novamente no campanário e observou os gatos até o amanhecer do dia seguinte. O trem parava na estação um pouco antes do meio-dia e um pouco antes do anoitecer. Se o rapaz quisesse seguir viagem era só pegar o trem da manhã; se quisesse voltar para a estação anterior era só pegar o trem da tarde. No entanto, ninguém descia ou pegava o trem naquela estação; mesmo assim, o trem parava sistematicamente e partia um minuto depois. Por isso, caso desejasse, era só pegar o trem e deixar pra trás aquela estranha cidade dos gatos. Mas o rapaz não fez isso. Ele era jovem, tinha muita curiosidade, ambição e um enorme espírito avantureiro. Queria conhecer um pouco mais aquela estranha cidade. Queria saber como, e desde quando, ela se tornara dos gatos. Queria descobrir como eles se organizavam e o que faziam. Enfim, queria saber coisas desse tipo. Certamente ninguém mais, a não ser ele, vira o que de fato ocorria naquela cidade.

Na terceira noite, ocorreu uma pequena discussão na praça embaixo do campanário. “Vocês não acham que por aqui está cheirando a gente?”, disse um dos gatos. “Já que falou nisso, há dias que venho sentindo um cheiro esquisito”, disse outro, fungando o nariz. “Para falar a verdade, eu também estou sentindo”, comentou um outro. “Isso é muito estranho. É impossível um ser humano conseguir chegar até aqui”, disse outro. “É mesmo. Nenhum humano conseguiria chegar na cidade dos gatos.” “Mas, com certeza, é o cheiro deles.”

Os gatos se organizaram e começaram a fazer uma busca por toda a cidade, como grupos de patrulheiros. Quando necessário, o olfato deles podia se tornar extremamente aguçado e, por isso, não levou muito tempo para descobrirem que o cheiro vinha do campanário. O rapaz escutou os toques macios das patinhas subindo delicadamente os degraus. “Estou perdido”, pensou. Os gatos estavam extremamente agitados e muito irritados com o cheiro humano. Suas garras eram grandes e afiadas, e seus dentes brancos e pontudos. Naquela cidade não era permitida a presença de humanos, por isso o rapaz não tinha idéia do que poderia acontecer com ele, caso o encontrassem. E sabia que os gatos jamais o deixariam partir tranquilamente, levando o segredo deles.

Três gatos subiram no campanário e começaram a farejar o local. “É muito estranho”, disse um deles, mexendo rapidamente os longos bigodes. “O cheiro vem daqui, mas não tem ninguém”. “Realmente, é muito estranho”, disse o outro gato. “Mas, de qualquer modo, não tem ninguém aqui. Vamos procurar em outro lugar.” “Não consigo entender”. Após dizerem isso, os gatos foram embora indignados, balançando a cabeça. O rapaz escutou os passos descendo as escadas e viu os gatos sumindo no breu da escuridão noturna. Ele respirou aliviado, mas também estava confuso. Afinal, o espaço era pequeno, e os gatos ficaram praticamente frente a frente com ele, quase que os narizes se tocaram. Era impossível que não o tivessem visto. Mas o estranho era que os gatos não o viram. O rapaz olhou para as próprias mãos e constatou que podia vê-las. Elas não estavam invisíveis. Estranho. De qualquer modo, logo de manhã pegaria o trem e deixaria a cidade. Era muito perigoso permanecer ali. Nem sempre a sorte poderia estar ao seu lado.

No entanto, no dia seguinte, o trem da manhã não parou naquela estação. O trem passou diante de seus olhos sem reduzir a velocidade. O mesmo aconteceu com o trem da tarde. Ele chegou a ver o maquinista sentado na cabine. Chegou a ver os rostos dos passageiros pela janela. Mas o trem não fez menção de parar. Eles pareciam não enxergá-lo na plataforma. Quando o trem da tarde passou por ele, o entorno ficou ainda mais silencioso e começou a anoitecer. Logo chegaria a hora de os gatos aparecerem. O rapaz sabia que estava perdido. Foi então que finalmente percebeu que ali não era a cidade dos gatos. Ali era o local em que ele se perderia. Um lugar preparado para ele, e que não existia neste mundo. O trem jamais pararia naquela estação para levá-lo de volta ao mundo onde viera.


(MURAKAMI, Haruki. 1Q84 – Livro 2. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013. Pgs 123-126)



Eu passei todo esse tempo chamando o Murakami de "Muramaki" e lendo a versão alternativa do seu nome em todos os lugares. Capas de livros, páginas de internet. Cheguei mesmo a ouvir outras pessoas pronunciando o nome desta forma trocadiça. 

Somente ao pesquisar por imagens até escolher esta de Muramaki com os gatos foi que o seu nome se revelou em sua escrita correta, verdadeira: MURAKAMI. 

Considero esse lapso não um lapso em si, ou qualquer outra forma de confusão disléxica. Foi simplesmente uma fratura no tempo. O qual não sei se agora é o correto, o paralelo ou o novo. Não importa. Talvez no final do ano que vem descubra uma terceira grafia para o nome do escritor.