30.12.13

A Cidade dos Gatos


O jovem viajava sozinho, com apenas uma mala, sem destino certo. Ele seguia de trem e, se encontrasse umn local interessante, descia.  Procurava um alojamento,  conhecia a cidade e ficava no local o tempo que quisesse. Quando enjoava, pegava novamente o trem. Era assim que costumava aproveitar as férias.

Um dia ele viu um rio muito bonito da janela do trem. O rio serpenteava graciosamente por entre as colinas verdejantes, e no sopé de uma delas havia uma pequena cidade que parecia ser muito tranquila, com uma antiga ponte de pedra sobre o rio. O cenário era muito convidativo. “Aqui devem servir uma truta deliciosa”, pensou o rapaz. Quando o trem parou na estação, o jovem pegou a mala e desceu. Foi o único passageiro a descer. Tão logo ele saiu, o trem partiu.

Não havia nenhum funcionário na estação. “Por aqui deve ser tudo muito calmo”, pensou o rapaz. Atravessou a ponte de pedra e foi para a cidade. Nela imperava o mais absoluto silêncio. Não havia vivalma. Todas as lojas estavam com as portas fechadas e não havia ninguém na prefeitura. No único hotel da cidade também não havia ninguém na recepção. O rapaz tocou a campainha e, mesmo assim, ninguém apareceu. Era como uma cidade fantasma. Ou, talvez, todos estivessem fazendo a sesta. Mas ainda eram dez e meia da manhã; muito cedo para repousar. Ou, quem sabe, acontecera alguma coisa, e todos tiveram que abandonar a cidade. Como o próximo trem só passaria na manhã seguinte, o jeito era passar a noite lá. O rapaz caminhou pela cidade para passar o tempo.

Mas, na verdade, aquela era uma cidade de gatos. Ao anoitecer, muitos atravessavam a ponte de pedra, de volta para a cidade. Gatos de vários tipos e cores. Eram bem maiores que um gato normal, mas não havia dúvidas de que eram gatos. O rapaz ficou apavorado ao presenciar a cena e se escondeu rapidamente no alto de um campanário no centro da cidade. Os gatos agiam com a maior naturalidade: alguns abriam as lojas enquanto outros começavam a trabalhar na prefeitura, ocupando suas mesas de trabalho. Mais e mais gatos continuaram chegando sobre a ponte. Eles faziam compras nas lojas, iam para a prefeitura resolver assuntos administrativos e comiam no restaurante do hotel. Os gatos também tomavam cerveja no bar e cantavam alegremente as músicas de gato. Um deles tocava acordeão e outros dançavam no compasso da música. Como os gatos enxergam no escuro, praticamente não havia necessidade de luz, mas, naquela noite, a lua cheia iluminava toda a cidade, e o rapaz, mesmo escondido no campanário, conseguiu observar tudo, do começo ao fim. Quando o dia estava prestes a raiar, os gatos fecharam as lojas, terminaram os seus respectivos afazeres e, em bando, atravessaram a ponte retornando para o local de onde vieram.

Ao amanhecer, os gatos já haviam partido e a cidade ficou novamente deserta. O rapaz desceu do campanário, foi para o hotel, escolheu uma cama e pegou no sono. Ao sentir fome foi para a cozinha do hotel e comeu restos de pão e de peixes que os gatos haviam deixado pra trás. Quando começou a escurecer, o rapaz se escondeu novamente no campanário e observou os gatos até o amanhecer do dia seguinte. O trem parava na estação um pouco antes do meio-dia e um pouco antes do anoitecer. Se o rapaz quisesse seguir viagem era só pegar o trem da manhã; se quisesse voltar para a estação anterior era só pegar o trem da tarde. No entanto, ninguém descia ou pegava o trem naquela estação; mesmo assim, o trem parava sistematicamente e partia um minuto depois. Por isso, caso desejasse, era só pegar o trem e deixar pra trás aquela estranha cidade dos gatos. Mas o rapaz não fez isso. Ele era jovem, tinha muita curiosidade, ambição e um enorme espírito avantureiro. Queria conhecer um pouco mais aquela estranha cidade. Queria saber como, e desde quando, ela se tornara dos gatos. Queria descobrir como eles se organizavam e o que faziam. Enfim, queria saber coisas desse tipo. Certamente ninguém mais, a não ser ele, vira o que de fato ocorria naquela cidade.

Na terceira noite, ocorreu uma pequena discussão na praça embaixo do campanário. “Vocês não acham que por aqui está cheirando a gente?”, disse um dos gatos. “Já que falou nisso, há dias que venho sentindo um cheiro esquisito”, disse outro, fungando o nariz. “Para falar a verdade, eu também estou sentindo”, comentou um outro. “Isso é muito estranho. É impossível um ser humano conseguir chegar até aqui”, disse outro. “É mesmo. Nenhum humano conseguiria chegar na cidade dos gatos.” “Mas, com certeza, é o cheiro deles.”

Os gatos se organizaram e começaram a fazer uma busca por toda a cidade, como grupos de patrulheiros. Quando necessário, o olfato deles podia se tornar extremamente aguçado e, por isso, não levou muito tempo para descobrirem que o cheiro vinha do campanário. O rapaz escutou os toques macios das patinhas subindo delicadamente os degraus. “Estou perdido”, pensou. Os gatos estavam extremamente agitados e muito irritados com o cheiro humano. Suas garras eram grandes e afiadas, e seus dentes brancos e pontudos. Naquela cidade não era permitida a presença de humanos, por isso o rapaz não tinha idéia do que poderia acontecer com ele, caso o encontrassem. E sabia que os gatos jamais o deixariam partir tranquilamente, levando o segredo deles.

Três gatos subiram no campanário e começaram a farejar o local. “É muito estranho”, disse um deles, mexendo rapidamente os longos bigodes. “O cheiro vem daqui, mas não tem ninguém”. “Realmente, é muito estranho”, disse o outro gato. “Mas, de qualquer modo, não tem ninguém aqui. Vamos procurar em outro lugar.” “Não consigo entender”. Após dizerem isso, os gatos foram embora indignados, balançando a cabeça. O rapaz escutou os passos descendo as escadas e viu os gatos sumindo no breu da escuridão noturna. Ele respirou aliviado, mas também estava confuso. Afinal, o espaço era pequeno, e os gatos ficaram praticamente frente a frente com ele, quase que os narizes se tocaram. Era impossível que não o tivessem visto. Mas o estranho era que os gatos não o viram. O rapaz olhou para as próprias mãos e constatou que podia vê-las. Elas não estavam invisíveis. Estranho. De qualquer modo, logo de manhã pegaria o trem e deixaria a cidade. Era muito perigoso permanecer ali. Nem sempre a sorte poderia estar ao seu lado.

No entanto, no dia seguinte, o trem da manhã não parou naquela estação. O trem passou diante de seus olhos sem reduzir a velocidade. O mesmo aconteceu com o trem da tarde. Ele chegou a ver o maquinista sentado na cabine. Chegou a ver os rostos dos passageiros pela janela. Mas o trem não fez menção de parar. Eles pareciam não enxergá-lo na plataforma. Quando o trem da tarde passou por ele, o entorno ficou ainda mais silencioso e começou a anoitecer. Logo chegaria a hora de os gatos aparecerem. O rapaz sabia que estava perdido. Foi então que finalmente percebeu que ali não era a cidade dos gatos. Ali era o local em que ele se perderia. Um lugar preparado para ele, e que não existia neste mundo. O trem jamais pararia naquela estação para levá-lo de volta ao mundo onde viera.


(MURAKAMI, Haruki. 1Q84 – Livro 2. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013. Pgs 123-126)



Eu passei todo esse tempo chamando o Murakami de "Muramaki" e lendo a versão alternativa do seu nome em todos os lugares. Capas de livros, páginas de internet. Cheguei mesmo a ouvir outras pessoas pronunciando o nome desta forma trocadiça. 

Somente ao pesquisar por imagens até escolher esta de Muramaki com os gatos foi que o seu nome se revelou em sua escrita correta, verdadeira: MURAKAMI. 

Considero esse lapso não um lapso em si, ou qualquer outra forma de confusão disléxica. Foi simplesmente uma fratura no tempo. O qual não sei se agora é o correto, o paralelo ou o novo. Não importa. Talvez no final do ano que vem descubra uma terceira grafia para o nome do escritor.


1.10.13

O Teatro

Uma a uma, as pessoas chegam ao teatro. Não conseguem entender como a estrutura foi feita, como foi posta a cúpula, qual fora o nome dos carregadores de pedras, dos assentadores de ladrilhos. Algumas possuem vínculos de sangue com os operários mortos e não sabem disso. 

Também não sabem o nome das pessoas vivas trabalhando no teatro. Controlando as visitas, estipulando o preço dos ingressos. Também não sabem o que está prestes a ser encenado. Reconhecem os signos no programa, é verdade, mas não os entendem. Não sabem de qual matéria os atores são feitos. Se são bons ou maus. Apenas decidiram vê-los.

Os eventos das artes cênicas locais não raro possuem entrada gratuita. Mesmo assim é difícil lotar um teatro, por menor que seja. Existe uma preguiça de ir até lá; mesmo não pagando por isso. Também existe o constrangimento em ver gente de verdade correndo o risco de se expor ao ridículo. Os atores insistem. 

Neste espetáculo, porém, ocorreu algo estranho: uma confluência de fatos e decisões fez com que quarenta e três mil, setecentos e vinte e duas pessoas comparecessem ao evento. Coincidência maior ainda foi o fato de todas elas serem desabrigadas ou morando em lugares ruins, sujos, sem eletricidade, água e canos para esconder os dejetos. Os pequenos grupos de espectadores bem nascidos foram substituídos por gente pobre e feia. E não havia nada de errado nisso. O evento era gratuito. 

Os funcionários do teatro ficam assustados e chamam a polícia. Fica-se assustado quando se vê um pequeno grupo de gente suja e feia olhando na sua direção. Imagina uma multidão delas. "O teatro só possui setecentos e um lugares! É impossível colocar todo esse povo pra dentro." Os policiais chegam e se colocam no lugar dos porteiros. A única reação das pessoas foi abrir passagem e continuar a aguardar a abertura do teatro. Queriam ver a peça.

Surgiu um ideia desesperada. Distribuir-se fichas. Mas se descobriu ser impossível chegar a qualquer critério: todas as pessoas chegaram ao mesmo tempo, nenhuma possuía qualquer deficiência. Todas possuíam a mesma altura, a mesma idade, o mesmo tipo físico. "Eles são como formigas... O nosso teatro foi tomado por formigas." 

A funcionária mais idosa do teatro foi escolhida para dar o aviso: "Pessoal, eu sinto muito, mas a peça foi cancelada." 

Por quê? (a pergunta e todos os diálogos do povo serão em itálico e uníssono)

"Porque  não cabe todo mundo no teatro."

E quando a gente vai poder entrar? Quando a gente vai poder ver a peça? A gente quer ver a peça!

"Então... esse é o problema. Vocês não podem ver a peça todos juntos. O teatro só possui capacidade para setecentos e uma pessoas. E vocês são quantos, meu deus?"

A gente é quarenta e três mil, setecentos e vinte e duas pessoas.

Imaginando um conflito iminente, os policiais tentam afastar a multidão com violência. São domados por ela, pela massa de pessoas-formiga. Têm suas roupas rasgadas e suas armas desmontadas. Ficam nus, ainda mais indignos do que os que tentaram violentar. Tentam correr para as suas viaturas e descobrem terem sido elas também desmontadas. Nus, sem uniformes, armas ou veículos, correm para longe. 


As pessoas-formiga entram no teatro e tomam todos os lugares possíveis. Sentam nos corredores. Entram na coxia e nos camarins. Penduram-se nos mezaninos. Apoiam-se uma sobre as outras. Sobre os colos e os ombros. Espremem-se absurdamente. Apenas o palco fica vazio. Apesar do calor e do fedor absurdos, não se ouve qualquer barulho. As pessoas-formiga aguardam ansiosamente o início do espetáculo.

Os atores, até então atrás das cortinas, escondidos e assustados, vêm uma oportunidade única de serem vistos. Criam coragem. Abraçam-se em apoio mútuo. Após o terceiro sinal, entregam-se aos personagens de forma visceral e convincente. As pessoas-formiga sorriem, lagrimam, se assustam e se excitam. Ao final do espetáculo, os atores choram com os aplausos. Finalmente sentem o orgulho e a vaidade desejada por tanto tempo.

Aliviados, os funcionários e o diretor do teatro decidem seguir o som dos aplausos. Não falta muito para as pessoas-formiga saírem e desaparecerem, desta vez em definitivo: "Nunca mais vamos fazer peças com entrada gratuita. Nunca mais. O nosso teatro não pode ser vilipendiado dessa forma por essa gente."

Os aplausos cessam, e com a mesma perícia com a qual desnudaram e desmontaram os policiais, as pessoas-formiga começam a desmontar o teatro. Suas cadeiras, suas cortinas, suas luminárias, seu mármore, suas peças de decoração. Depois, organizadamente, sobem até a cúpula e começam a desmontá-la. Depois as telhas. Os vidros das janelas. 

Em um trabalho colaborativo, mão ajudando mão, as pessoas-formiga começam a quebrar as paredes em pequenos cubos e, pavimento após pavimento, o teatro desaparece.


11.9.13

Um Pequeno Errro


Em algum momento surge o erro definitivo. 

O erro causa uma sucessão incomensurável e definitiva de outros e outros e outros erros.

O recém-nascido vindo ao mundo (a mãe, o pai em pânico aguardando) em um certo momento cometerá ou será vítima de um erro que o levará a ser o homem dormindo sob o viaduto, cercado de lixo, barriga proeminente, rosto disforme, pés com suturas mal dadas deixando a impressão de terem sido transplantados de um cadáver. 

É preciso muito cuidado ao atravessar uma rua. Não basta olhar para os lados. É preciso aguardar brevemente e respirar fundo para cruzá-la.

Durante as semanas das aulas teóricas do curso de formação de condutores, não raro eu via as vítimas de tais erros irreversíveis. Vídeos de acidentes: Um motorista lançado para fora de uma via de alta velocidade, um outro, motociclista, cruzando à frente de uma carreta e virando algo espalhado sob o asfalto. 

Certo dia, pouco metros à frente da escola de formação de condutores, vi um homem estendido no chão. Um motociclista como tantas centenas de outros. Gordinho, usando aquelas camisas feias à beça que, se não bastasse, ainda ressaltam a barriga. Imagino a surpresa. Ninguém acorda e imagina que, em menos de uma hora, estará estendido no asfalto.

Ele fora atingido na curva por um automóvel e lá permanecera, consciente, e por isso temeroso dos riscos de levantar-se após uma batida. A coluna quebra. As pernas morrem. O sexo passa para as orelhas.

Ao redor, pessoas o observavam: O motorista que por pouco não fora carrasco: Vagabundos tirando fotos com o telefone celular. Não havia sangue. 

Ao menos não percebi durante a rápida olhada dada ao longo da minha passagem inevitável. Havia apenas uma interrupção do fluxo do dia. Os carros mais lentos. Os motoristas, vítima e algoz, aguardando a chegada das autoridades competentes. A memória do telefone. A carenagem fedendo a suor.

Imagino os quatro indivíduos sendo trazidos ao mundo e passando as suas primeiras horas na mesma maternidade. O homem do viaduto, o motoqueiro, o motorista, eu. 

Me impressiono como todos nascem iguais a princípio e, após uma sucessão de erros, as vidas tomam caminhos diversos. Acertos há, é verdade, conquistas. Mas penso elas serem apenas o remédio para os erros que nos cercam e nos moldam. Os erros dos pais (muitas vezes sendo a causa da nossa existência), os erros da família e da escola, os erros dos anônimos que fazem curvas sem atenção e cometem erros fatais.

Resistir ao erro é como resistir à velhice, à fome, às cólicas e tantas outras dores. Cometer um erro traz uma sensação incômoda, um frio na barriga, um calor no rosto e uma sensação de desânimo que demora a passar. Às vezes não passa nunca.

De qualquer forma, é preciso ter cuidado ao atravessar uma rua, uma via. E tudo é via.

9.8.13

Aqui do alto


Acordamos sob o som de metralhadoras. O barulho vinha de uma casa sendo demolida. Um um trator com uma furadeira gigante na ponta destroçava uma casa. 

Do outro lado do apartamento, um grupo de quase vinte haitianos desce a Avenida Djalma Batista. Todos vestidos da mesma forma. Camisas de algodão com golas, jeans e tênis esportivos. As tradicionais pastas com documentos à mão. 

Mais à frente, vendedores ambulantes empunhando varas tentam tirar mangas na antiga sede da MTV Manaus.

Pedreiros constroem e destroem coisas. Um quarteto sem equipamentos de segurança começa a terminar as paredes de um novo pavimento. O bairro está se movimentando, crescendo de forma barulhenta e desordenada. 

Precisamos ir para a nossa casa o quanto antes.

30.7.13

Antes do almoço


Faz um barulho absurdo lá embaixo. Uma pequeno protesto passou há pouco. As buzinas dos carros presos no engarrafamento encobriram as reinvidicações. Homens martelam, britam. Vendedores ambulantes correm atrás dos carros parados no sinal. Os carros se movem, livres pelos próximos cem metros até pararem no próximo sinal e declinarem outras propostas absurdas (abacaxis, flanelas) de outros vendedores. 

Quando volto do trabalho os vendedores desapareceram. Voltaram para as suas casas com os abacaxis e as flanelas remanescentes. A falta de estratégia e perspectiva: ninguém pode comprar uma flanela nova ou mesmo comer abacaxis todos os dias. Isso gera pouco dinheiro. Os vendedores possivelmente não se dão conta disso. 

Não posso evitar a sensação de me achar um pouco sortudo por não ter que trabalhar de manhã cedo. O pouco conhecimento que acumulei ao longo do tempo fez com que eu desse aulas. A experiência fez com que eu não fosse demitido, pelo contrário, fosse promovido. Minhas horas de trabalho vão da tarde até a noite. Isso me satisfaz. Acho a tarde o momento mais chato e moroso do dia para se estar em casa. A manhã e a noite, não.

Daqui a dois dias voltam as aulas. O que é bom. Gosto disso. Os novos grupos. Os adultos, adolescentes e crianças. A língua inglesa se fazendo presente novamente, dividindo o cérebro. Os workshops e encontros de trabalhos. A viagem ao Recife. A nova casa. A carteira de motorista. O romance. 

É quase meio-dia e agora apenas um homem martela na rua. 



27.7.13

Lover´s Cave

Que belo videoclipe. Richard Kern entende de mulher de verdade.

https://vimeo.com/70452943


...e quem são essas moças? Elas têm cara de má!



(menos a da direita)



25.7.13

Núpcias


A felicidade é um sentimento raro. O alto da montanha, onde Sísifo aprecia o mar, o sol, o horizonte claro, e vê o fruto de tanto esforço ser recompensado, mesmo durando apenas um curto intervalo de tempo.

Eu lembro das minhas leituras. Dos catorze anos em diante. Os livros existencialistas. Nunca os considerei substancialmente pessimistas. Realistas, apenas. Toda aquela filosofia me fez olhar ao redor de forma crítica, me fez ter esperança de sair do ordinário, gostar mais ainda das mulheres e dos amigos (nunca das mulheres dos amigos), aproveitar a brevidade da saúde e do fértil, a brevidade da vida.

As dificuldades e os entreveros ao longo dos anos fazem os momentos de felicidade serem ainda mais valiosos e intensos. Aquela felicidade silenciosa acompanhando os nossos passos junto às pessoas comuns. O sol de Fortaleza, a varanda do apartamento. No início dá certo medo, logo transposto pelo cuidado.

Entramos e saímos de galerias. Em pleno meio-dia surgiu-me a idéia clara de um romance. Dias antes, na festa de casamento, vi-me, vi-nos, vi a todos em um autêntico filme musical, um autêntico final de novela onde todos dançavam, abraçavam-se e eram felizes de verdade. Tal felicidade se prolongou à festa, avançou os dias, conciliou e reuniu casais. 

Naquela manhã e tarde de domingo, dia 14 de julho, algo muito bom foi feito. E não apenas ficamos. Permanecemos felizes. 

Observando o mundo abaixo, o mar, o horizonte, e antes disso. Sentimos as núpcias gelando e esquentando o corpo, tornando válido todo os aspectos da existência. O positivo dos livros, enfim, correndo pelo sangue.

A pedra não rolou mais montanha abaixo. A montanha, quando transposta, desaparece sob os pés, vira chão, apenas. Nos demos conta disso quando vimos um platô a mantendo a pedra estável. E, no final do terreno, oposto ao horizonte, o início de uma outra montanha, nova e desconhecida.

Encararemos essa nova sem medo. E de mãos dadas, delicadamente, iniciaremos mais uma subida. 


12.7.13

Dr. Preston Burke wedding vows


Dr. Preston Burke: 

[his wedding vows as he tells them to Addison, Izzie and the other women in the OR


Cristina, I could promise to hold you and to cherish you. I could promise to be in sickness and in health. I could say, til death do us part. But I won't. Those vows are for optimistic couples, the ones full of hope. And I do not stand here, on my wedding day, optimistic or full of hope. I am not optimistic, I am not hopeful, I am sure. I am steady. And I know that I am a heart man. I take them apart and I put them back together and I hold them in my hands. I am a heart man. So this I am sure, you are my partner, my lover, my very best friend, my heart, my heart beats for you. And on this day, the day of our wedding, I promise you this: I promise you to lay my heart in the palm of your hands, I promise you me.



"Grey's Anatomy: Didn't We Almost Have It All? (#3.25)" (2007)

23.6.13

21.6.13

Raps infames


Quando ouço essas músicas lembro do Michael Bolton, o geek branquelo do filme Office Space que gosta de ouvir gangsta RAP. Mas fazer o quê se apesar de tudo eu acho legal? 

Abaixo listo duas músicas que deveria ouvir menos, mas não consigo.


Nome: Kendrick Lamar
Música: Backseat Freestyle
Pérola de sabedoria:"I pray my dick get big as the Eiffel Tower
So I can fuck the world for seventy two hours"


Nome: Kanye West
Música: Black Skinhead
Pérola de sabedoria:"Stop all that goon shit, early morning cartoon shit. This is the goon shit, fuck up your whole afternoon shit"


Nome: Die Antwoord
Música: Cookie Thumper
Pérola de sabedoria:"He love yo-landi coz I'm blonde all over 
Maar yoh! daai anies hy hou van my boude!"



14.6.13

Revoltas


Sinto-me alienado a respeito de tudo o que vem acontecendo durante as últimas horas. Os mecanismos responsáveis pelo aumento das taxas, pela reclassificação dos preços, pelo aumento dos impostos.

A mesma Avenida Paulista, pacífica, grandiosa e consumista, sendo tomada por protestos sobre os quais eu, alienado, desconheço a mecânica dos fatos. 

Eu moro em Manaus, uma cidade onde o sol é muito forte; onde apenas os burros ou muito inteligentes ganham grana de verdade; onde os inteligentes se queixam, onde os inaptos fogem e tentam pertencer a outras cidades sem nunca esquecerem do sol e do povo que vem em sonhos. 

Sinto-me ainda mais alienado pelo fato de não me revoltar quanto a isso. Apenas reclamo. Poderia explodir a cidade. 

Como diria o Coringa, não se precisa de muito. Apenas fósforos e querosene. Mas não. Não faço nada além do civilizado.

Apenas sou roubado em tempo integral. Tenho cada centavo ganho com o meu trabalho repartido à revelia e nem me dou conta disso. Pior: tenho apenas noção disso mas, o meu salário, apesar de todo o saque, ainda é suficiente. Volto pra casa e fico de boa.

O que mais me incomoda, porém, não é tanto roubarem o meu dinheiro em tempo integral; e sim não saber quem são os verdadeiros culpados. Não saber quem eu deveria matar para começar a podar o mal, a esperteza. 

Soaria desumano, mesmo anticristão, querer resolver o problema matando os causadores de tal. 

O problema é ter sido o próprio Cristo - seja ele o Deus ou o histórico - morto por gente da mesma laia que ainda hoje manda e dita e distorce e explora. Gente má. Gente que merece ser extirpada, morta. 

Ele foi morto. Ninguém fez nada. Nem Ele, nem o Povo, nem o Pai. Isso me causa uma desesperança danada na resolução de todos os grandes problemas. 

Me apresente a igreja do Deus da Revolta. Um Deus que mate os injustos, os usurpadores e os exploradores com um julgamento tão lógico e claro quanto a Lei da Gravidade. Um Deus que mate os maus, que os impeça.

"Meu Deus", eu diria.


8.6.13

A Caixa

As suas articulações facilitavam muito a atividade prazerosa de encerrá-la na caixa ao lado esquerdo da cama. 

Minha mão esquerda massageava a sua nuca. A sua respiração, descompassada e profunda, deixava clara a sua excitação imensa de estar na caixa. A caixa era do tamanho exato de seu corpo dobrado.

Passadas as minhas horas de sono, eu a retirava com cuidado da caixa. A ajudava a ficar de pé e pedia que olhasse para mim. Seu olhar deixava à mostra a satisfação irrefutável de ter estado na caixa, tendo sido acariciada por tanto tempo, até que eu adormecesse e a retirasse no dia seguinte. 

Eu indicava a cama e, com carinho, cuidado e excitação crescente, passava três diferentes bálsamos nas partes do corpo sobre as quais a superfície áspera da caixa tivera mais atrito.

O próximo passo era carregá-la e levá-la até a banheira. A deixava a cargo de si. A escolha da maquiagem e do vestido, as sandálias. Depois íamos até a igreja. 

Olha, perceba como todos te acham bonita, eu dizia, como que fazendo um comentário sobre o Evangelho à frente. Ela sorria, e curvava a cabeça lateralmente, até encostar-se ao meu ombro um pouco acima.

Terminada a missa, íamos ao parque de diversões. Observávamos a mulher-gorila e as pessoas correndo por medo irracional. O pequeno cubículo escuro com espelhos sujos e áudio extravasado. Achávamos tudo muito divertido.


24.5.13

O Futuro


Uma coisa pertinente: a tragédia. 

Duas: a decrepitude. 

Três: a tragédia e a decrepitude juntas.

Quatro: a inevitabilidade de ambas.


1.5.13

Ante-sala



Precisava somente abrir a primeira porta, cruzar a sala de cinco por cinco metros quadrados até alcançar a outra porta na parede oposta. A sala, porém, estava tomada por mulheres loiras. Uma massa indizível e apertada, impossível de ser transposta. Precisava chegar à porta do outro lado da sala. Pegou uma das loiras pela cintura, a jogou para fora. Entrou e começou a enfrentar a massa compacta de loiras. Cada uma delas usava um perfume diferente. Estavam nuas. Suadas. Cheiros e perfumes e mãos o apalpando involuntariamente. Bocas. Seios de todas as formas e tamanhos. Andou mais alguns passos e, sentindo a dor de uma ereção intensa e o ar cada vez mais difícil de chegar ao peito,  gozou e perdeu os sentidos.

“Acho que o perdemos”, disse o médico residente.


28.4.13

The Man with the Miniature Orchestra, by David Algonquin


“There were phrases of Beethoven´s 9th symphony that still made Coe cry. He always thought it had to do with the circumstances of the composition itself. He imagined Beethoven, deaf and soul-sick, his heart broken, scribbling furiously while Death stood in the doorway. Still, Coe thought, it might have been living in the country that was making him cry; it was killing him with its silence and loneliness, making everything ordinary too beautiful to bear.”


(MAD MEN, Season 05, Episode 05)

5 Minutes of FFFFOUND!









19.4.13

Geografia


Deitado, observando o céu como tantos outros, tive certeza de que o sentimento de covardia perante a morte é o mesmo durante todos os momentos da existência. 

É curioso o fato de sermos animais tão evoluídos, tão conscientes até certo ponto. A gravidade. O cachorro lambendo a mão. Ter medo da morte é a maior prova de que, mesmo se acreditamos, não confiamos em Deus.

Quer-se morrer quando se é extremamente infeliz. Teme-se morrer quando se é extremamente feliz. Ou quer-se morrer quando se é extremamente feliz para a felicidade ser a última sensação em vida; o que constitui um egoísmo filha da puta, maior do que qualquer egoísmo catalogado na história humana, seja a dos anões ou dos gigantes. 

Independente do extremo, do acidente, o fato comum é o frio na caixa torácica. Um frio imaginado. Pode ser meio-dia e lá está o frio. Interno e mudo. Eu tenho medo e me sento e choro. Eu estou muito feliz e me sento e choro. Eu não sinto e me sento e choro. 

Acho que a gente se leva muito a sério, sabe? Muito assim superimportante a ponto de catedralizar qualquer problema ao ponto de crise existencial extrema que pode por em cheque todo o curso das artes e das ciências. Você pode fazer um curso a algumas milhas de casa. Você pode ganhar um papel timbrado com um título e, mesmo assim, continuar sendo um pobre-diabo que não recebe sexo oral e que se senta e escreve umas merdas divertidas de serem lidas.

Ninguém liga, cara. E, se ao menos tenta ligar, não sente. Até sente e sofre, mas não é o teu sofrimento; e sim um arremedo disso. 

Pudera o sofrimento ser transferível: Vou sofrer por ti! (então porias a mão no peito e ficarias aliviado de qualquer sofrimento). Isso não acontece. Ainda bem. Fazer sofrer fisicamente os que gostamos só aumentaria o sofrimento próprio. Não adianta escrever, declamar. Nada muda. 

Um amigo meu, argentino, me assegurou ter lido na quinta série, em um livro didático de geografia, distribuído pelo Governo, o fato de que apenas vinte e três ciclos da Terra ao redor do Sol podem mudar de fora efetiva os rumos das vidas dos seres humanos. 

Nenhuma força além da Terra silenciosa com a sua atmosfera poluída por satélites em contado com a epiderme solar em constante erupção pode fazer você acordar efetivamente melhor. O sol silencioso, vazando um facho curto de luz pelo quarto e tocando o teu rosto. A água dentro da pele do teu rosto reagindo ao sol e te fazendo acordar melhor e mais bonito.

Mini fragmentos de uma estrela vibrando no chão do quarto possuem mais mágica do que qualquer conselho bem dado.




7.3.13

Gods and Monsters



"In the land of Gods and Monsters I was an angel living in the garden of evil. Screwed up, scared, doing anything that I needed, shining like a fiery beacon. You got that medicine I need: fame, liquor, love. Give it to me slowly, put your hands on my waist, do it softly... Me and God, we don't get along, so now I sing:

No one's gonna take my soul away. Living like Jim Morrison. Headed towards a fucked up holiday. Motel, sprees sprees and I'm singing: ´Fuck yeah, give it to me, this is heaven, what I truly want is innocence lost´.

In the land of Gods and Monsters I was an angel looking to get fucked hard. Like a groupie incognito posing as a real singer. Life imitates art. You got that medicine I need: Dope, shoot it up, straight to the heart please. I don't really wanna know what's good for me. God's dead, I said 'baby that's alright with me'.

When you talk, it's like a movie and you're making me crazy ´cause life imitates art. If I get a little prettier, can I be your baby? You tell me life isn't that hard."


(DEL REY Lana, LARCOMBE, Tim. Born to Die: The Paradise Edition. CD 2. Track 6)


28.2.13

Escrevendo


Estou escrevendo dois contos. 

O primeiro é sobre como uma pessoa normal se torna um vilão. 

Não o vilão clássico dos filmes e novelas, consciente do seu papel de antagonista, mãos confabulantes e risada altiva com a cabeça inclinando-se pra trás: É um vilão social, inconsciente de seu papel daninho, alienado ao fato de causar o mal aos outros. O vilão que se acha certo e ético, talvez o pior vilão de todos. 

O segundo conto é sobre a contaminação por veneno, letalíssimo, de todas as penitenciárias brasileiras.


18.2.13

Três Piratas Trapalhões





As páginas de torrents são do bem ou do mal? São instrumentos de propagação cultural global de forma democrática, ou simplesmente uma fachada geradora de dinheiro ilegal? 

A resposta correta é “todas as opções acima”. As páginas de torrent são tudo isso e mais um monte de outras questões. 

Na tentativa de compreender um pouco mais algo do qual eu sempre faço uso, baixei e assisti TPB AFK ou, expandindo a sigla: The Pirate Bay – Away From the Keyboard

O documentário acompanha os três fundadores do Pirate Bay desde os primeiros processos, em 2008, até o final do ano passado.

Durante idas e vindas entre tribunais, recursos e apelações, podemos perceber como os três pares de olhinhos desenhados no cartaz na vida real representam sujeitos totalmente diferentes uns dos outros. 

Peter Sunde, o mais articulado e o único inspirador de certa simpatia, é o programador politizado, combatente dos abusos do copywriting monopolizado pelas grandes corporações.  Fedrik Neij, ambicioso e xenófobo (mesmo casado com uma garota estrangeira) , é o programador que entrou no negócio pela grana.  Gottfrid Svartholm, o mais estranho e excêntrico dos três, é o programador gênio que não parece ligar para nada, particularmente a higiene pessoal.

A amizade de Peter, Fedrik e Gottfrid poderia parecer improvável. E foi. Em nenhum momento do documentário se pode ver qualquer atitude que prove o contrário. Segundo depoimentos dos próprios, tal “amizade” começou online e só certo tempo depois passou a ser AFK  - away from the keyboard – termo surgido para refutar o comum “na vida real”, visto que para eles a internet sempre foi real. Essa talvez seja a única informação clara e interessante em todo o documentário. De resto, o diretor tentou fazer alguns momentos parecem um "The Social Network" com protagonistas reais e não conseguiu.

O documentário inteiro é permeado por ambiguidades. A amizade dos três fundadores. Os motivos reais da criação da página de compartilhamento de arquivos. A origem do dinheiro financiador dos provedores da página e onde ficam tais servidores e, principalmente, não há resposta para a principal pergunta: Por  que diabos eles criaram tal página mesmo sabendo de todos os problemas pessoais e punições legais irreversíveis como consequência de tal decisão. 

Nem quando, no final das contas, após tantos argumentos e recursos, os três gênios da computação e anarquistas em potencial acabaram vítimas das suas próprias birras e trapalhadas. 

Peter escapou da cadeia, mas não de uma dívida de milhões de dólares.  Fedrik está foragido e é procurado pela Interpol, ou seja, terminou condenado a ser o que mais detesta: um entrangeiro. Gottfrid se afundou nas drogas, não satisfeito com os problemas que já possuía também envolveu-se com a página do Wikileaks, tentou escapar da polícia, foi pego no meio do ano passado e, mesmo cumprindo uma sentença de um ano, não raro foi obrigado a passar 23 horas por dia em uma solitária.

Tal punição durou até o dia 7 de Dezembro de 2012; data em que eu e você possivelmente baixamos algo através da página que Gottfrid e seus ex-colegas criaram.



15.2.13

O Carnaval de Pedro


Pedro Henrique nunca saberá quais foram os critérios para a escolha do seu nome. Sabia serem os nomes herdados, ou simplesmente escolhidos pelo som. Um desvario de bocas anônimas criando uma estética invisível, suspensa no ar, uma referência subjetiva cheia de gás carbônico e bactérias: o nome sendo pronunciado.  

Sobrenomes, por sua vez, são apêndices inúteis, cercados de atavismos e responsabilidades que nada têm a ver com quem se é realmente. O portador do sobrenome. Todo mundo que tenta justificar qualquer comportamento baseado em signos, sobrenomes, age de má-fé. Quem o precedeu na família está morto, quem virá não dará a mínima para a suma importância que fora a vida dos seus predecessores. A imagem que se faz de quem está morto é uma projeção sem sentido. Assim como a do futuro. O nome, em si,  portanto, não significa nada além de um reconhecimento sonoro. Nomes são copiados de pai para filho, ou de avô para neto, ou de tio para sobrinho, ou de primeiro para segundo e assim por diante. 

Pedro Henrique, porém, não se enquadrava em nenhuma dessas categorias. Nunca conhecera o pai, não tinha irmãos e conhecia apenas uma tia distante. Era o primeiro do seu nome no que condizia a si próprio; um anônimo, um ninguém que, por isso, mais do que os demais, poderia fazer o que quisesse. 

Era um nome bonito, entretanto. Sem grandes significados, como a maioria dos nomes, mas mesmo assim bonito. O som, a impressão longa do nome nos documentos. 

Ao menos nisso era grato à mãe, apesar da recusa desta em identificar o desconhecido responsável por metade de tudo o que Pedro Henrique chamava de corpo. Frente ao espelho, tentava subtrair todos os traços maternos e, com o resultado incerto, cantos da boca, têmporas, entradas capilares, ossatura dos ombros, tentava imaginar um homem vinte anos mais velho, um sujeito de quarenta e três anos, ou algo em torno disso.  

Todos os dias, ao acordar, Pedro Henrique gostava de sentir os pés ainda mornos tocarem o chão frio. Gostava de ir à janela, sentir o cheiro do mar e observar o horizonte e a praia sempre com dois ou três banhistas anônimos fazendo desenhos na areia. Depois disso descia até a praia com uma caneca de café. Enquanto bebia o primeiro gole pensava quão divino era tal momento. Como tinha sorte, de ao menos, pertencer, ser dono, de certa forma, de um lugar tão bonito. 

Uma banhista, trêmula, volta de um mergulho no mar e o cumprimenta, sem nem poder falar tamanho é o frio. Pedro Henrique responde bom dia antes de respirar fundo e sair da cama.

Tudo ao redor é diferente do que imaginara antes. As paredes menores e mal pintadas. O cheiro de mar encoberto pelo cheiro de tempero vindo da cozinha. 

Ouve o barulho da têvê ligada em um canal randômico. Não há mar ou horizonte. Não existe banhista ossuda de olhos verdes. Existe apenas o chão frio. O chão toca ambos os mundos. A sua casa de praia longe da cidade, o seu quarto pequeno e com apenas um basculante possuem o mesmo chão. O frio, pensa Pedro Henrique, liga tudo o que existe no universo.

Fala poucas coisas com a mãe. É um fato estranho, esse, o de falarmos tão pouco com pessoas próximas, mesmo as mais amadas. Mesmo amando a mãe, irmãos, ou mesmo o pai, conversamos pouco com eles, ao menos menos do que deveríamos. As conversas longas são guardadas para os momentos de crise, de tragédia ou de profunda alegria. Duram pouco. A convivência simplifica a necessidade do verbo. Todo mundo se conhece demais, todo mundo já foi muito exposto, emocional e fisicamente, para ficar tecendo longas conversas sobre si ao longo de todo santo dia.

Enquanto bebe o café, Pedro Henrique ouve a mãe comentando amenidades ao mesmo tempo em que adianta o almoço. Ela fala como se os famosos mortos ou envolvidos em escândalos fossem parte da família. É carnaval. O papa renunciou ao cargo. 

Apesar disso, o jornal barato sobre a mesa não condiz com os fatos narrados pela mãe. Qualquer pessoa hoje em dia é mais atualizada do que um jornal impresso: nele o papa ainda trabalha e recebe ordens diretas de Deus para guiar o seu rebanho sobre a Terra. 

No jornal, o papa e Deus ainda se entendem, ainda trabalham juntos. No jornal, o papa ainda acorda e Deus lhe dá bom dia e lhe passa a agenda. No jornal, o papa ainda tem a sua banhista ossuda correndo cobrindo os seios eriçados e dando bom dia. 

Movido por uma curiosidade vazia, Pedro Henrique abre o navegador do telefone e lê a história em mais detalhes. O homem alegou estar velho e cansado demais para seguir com os encargos do trono de Pedro. Uma criança alemã que entrou para o clero e galgou, posto após posto, cargos que o levaram até a bancada do Vaticano, ao topo da hierarquia que o permitiu ser infalível. Ao alto onde, observado por milhares de católicos bem nascidos, dá a sua bênção. 

O católico mais próximo a Deus, simplesmente cansou do cargo. Humano, sentiu-se velho e usou o melhor recurso já inventado pelos humanos, o livre-arbítrio, e renunciou ao cargo. 

Apenas o seu superior, Deus, poderia se pronunciar contra e, mesmo vasculhando os linques sob o artigo, Pedro Henrique não encontrou declaração alguma. deus nunca falou nada como Deus em si. Usou o filho e profetas. Usou loucos nas ruas e nos ônibus, mesmo tendo o poder de criar planetas. Deus, o que tudo pode, nunca, nunca pode ir contra o livre-arbítrio. Joseph se cansou da farsa.

O livre-arbítrio dos pais é responsável pelo nome que carregamos. Mesmo o Pedro mais famoso, o santo, não fora o responsável pela escolha de seu nome. O próprio Pedro original nascera Simão e respondera por esse nome até encontrar e ser rebatizado por Jesus Cristo. 

Pedro Henrique imaginava um Pedro coroa e ignorante, mal entendendo as palavras ditas por seu mestre, décadas mais jovem, um homem inteligente e bonito. Mesmo assim supunha ter tido ele, Simão Pedro, a coragem para iniciar uma igreja em alguma caverna e, mesmo hoje em dia, ainda ter o seu nome relacionado à ela; mesmo tal igreja não se relacionando em mais nada com a primeira, composta por uma gente suja e assustada, diferente dos jovens e das carolas das missas de Domingo.

Pedro significa pedra. Pedro Henrique imaginava o seu corpo todo feito de pedra e não gostava da ideia. Um coração de pedra, dentes de pedra e todo o resto. Imaginava o Pedro de meia-idade sendo tocado por Deus em carne viva e, subitamente, passando a entender todas as coisas. Tornando-se sobrenatural, um santo capaz dos mais diversos milagres. Controlando o sol e a chuva sentado à proa de um barco. Jesus morto, e ele lidando com a culpa por ter sido covarde e negado o homem por três vezes. Pedro crucificado de cabeça para baixo e a mesma cruz passando a ser usada como um símbolo satanista. Adolescentes vestindo negro e fingindo que existe um diabo antagonista; fingindo que a sua vida pode encontrar um sentido sendo descrita por letras de músicas escritas por gente sem o ensino-médio. Um fim triste para uma história triste, apesar de mágica. 

Na cozinha, terminando o café, Pedro Henrique descobriu uma página do jornal ainda útil. A página tinha impressa a programação dos principais bailes e bandas da cidade. A diminuição do número de bailes e a progressão geométrica do número de bandas que, por sua vez, tiveram um aumento exponencial no número de frequentadores devido ao crescimento dos blocos, era a prova matemática de como a classe A havia diminuído, e de como a quantidade de pobres e aspirantes a rico havia aumentado. A letra B tornou-se a primordial em uma luta de classes que não mais existe. Um mundo B.

Pedro não gostava de bandas, ou mesmo de carnaval. Menos ainda, gostava de ficar em casa em um Sábado chuvoso. Escolheu a banda mais próxima à sua casa. A música começaria no final da tarde. Ele ainda possuía dinheiro na conta. Mais um mês, no máximo, até precisar encontrar outro emprego. As horas passaram rápido. Cochilou, viu têvê, leu um livro chato antes de dormir de novo.

Saiu à rua e caminhou algumas quadras até encontrar o início de uma aglomeração e um burburinho seguido de música. Algumas pessoas já estavam dançando quando começou a chuva. Pedro Henrique pensou em Pedro e na possibilidade absurda de um pescador de rosto desconhecido ser o responsável por chaves e pelo controle do clima no Ocidente.

Comprou algumas cervejas. O suficiente para diminuir o olhar crítico e aumentar a libido. A música se transformou em uma massa de barulhos disformes, as mulheres passaram a compartilhar apenas três tipos de rostos. Atraentes. Não atraentes. Atraentes e não atraentes. 

Jéssica pertencia ao terceiro grupo. Seus cabelos, seu rosto, a calça jeans e a camisa amarrada na altura da barriga eram semelhantes a pelo menos metade das frequentadoras disponíveis no bloco de gente desconhecida. Jéssica não era exatamente bonita, seus cabelos não eram exatamente loiros, sua estatura não era nem alta e nem baixa. Jéssica parecia presa a um mundo intermediário, assim como Pedro Henrique.

Pedro Henrique aproximou-se e perguntou o que ela fazia. Uma pergunta bastante conservadora, tendo em vista o fato de vários casais pouparem qualquer verbalização e partirem logo para os beijos. Eu estudo Direito. Olha que coincidência, Pedro Henrique respondeu sorrindo. Eu estou no último ano. Onde você estuda. UNINORTE, respondeu Jéssica, e você?, já acometida de interesse súbito. Eu tô terminando a UFAM, Pedro Henrique respondeu com descaso. Mesmo em silêncio, existe um constrangimento breve e silencioso quando um aluno de universidade particular encontra um outro aluno de universidade pública. Algo injustificável, visto que ambas são ruins. 

Jéssica ainda guardava vestígios de perfume doce no pescoço. Pedro Henrique não tentou beijá-la até a vontade de Jéssica ser absurdamente óbvia. Se você força um beijo é tarado, se não beija é veado. Você tá de carro?, ela perguntou. Claro que não! Não to a fim de pagar quase dois mil de multa e ainda perder o carro. Por quê, Jéssica? Estou a fim de sair daqui, ela disse.

Eu tenho um personagem e esse personagem descerá ao inferno, Jéssica. Ele será um homem de um metro e setenta e sete e conhecerá um submundo sobrenatural e sujo aberto em uma fresta na parede ou em uma porta como aquelas de porão só que no meio da rua, e ele entrará em cômodos onde o piso é feito de gente em vestes negras pedindo para ser pisada. E ele precisará cruzar essa sala até encontrar, no lado oposto, uma porta vermelha que o levará para outra sala, com piso e paredes vermelhas e várias luzes vermelhas no teto. Nessa sala as pessoas gritam coisas horríveis e o meu personagem precisará cobrir os ouvidos para não ficar perturbado para sempre.

Jéssica sorri sem entender nada do que foi dito ao seu ouvido. Está dormindo, ou quase. Ainda não são uma da madrugada. Pedro Henrique irá se levantar e tomará um banho. Jéssica o cavalgou por mais de dez minutos até, finalmente, gozar. Antes disso comandara todos os atos duplos em silêncio. Abrira as pernas deitada de costas na cama, ficara de quatro, pedira uns tapas, interrompera a foda pela metade para ir até ao banheiro porque a vontade de urinar estava atrapalhando a coisa toda e Pedro Henrique, pacientemente, esperou e obedeceu.

Pedro Henrique sentia-se um pouco cansado. Fizera um grande esforço para enganar o álcool no sangue, concentrar-se e manter-se ereto. Para alcançar o preservativo mesmo arriscando ser vítima de uma broxada eterna pelo resto da noite. 

Fizera um grande esforço para concentrar-se, imaginar-se em um limbo cálido, vazio, prazeroso até, para, enfim, gozar, e ainda permanecer mais alguns minutos de pau duro, coberto por látex, praticamente sem sensibilidade ao tato até Jéssica, enfim, em movimentos dessincronizados, finalmente gozar, gemer, cair satisfeita para o lado, indo do clímax ao sono em questão de segundos.

No dia seguinte Jéssica se sentiria usada, como se tivesse sido forçada a praticar tais atos. Tentaria lembrar os detalhes e não conseguiria. Sentiria-se usada por não ter encontrado o homem que usara deitado ao seu lado na cama, ou ao menos um bilhete, um número de telefone representando um vínculo ao homem que estivera dentro dela. A lógica feminina distorcida era algo que Pedro Henrique desistira de entender aos dezenove anos.

Pedro Henrique desdobrou a página rasgada do jornal que guardara no bolso. Dez minutos de onde estava havia outro bloco, “um dos maiores da cidade”, segundo o chavão do jornal. A segunda opção era um baile em uma casa noturna. Também dez minutos. Só que de táxi. 

Não existem mais bailes de carnaval. Não existe um baile propriamente digno do nome há pelo menos um século. Quando criança, Pedro Henrique costumava assistir aos pseudobailes transmitidos pela têvê e aguardava pacientemente uma gostosa ou outra mostrar os peitos. Os bailes de carnaval eram o refúgio dos ricos. Eram lugares onde se podia desbundar e cheirar pó sem ser incomodado ou mesmo julgado por isso.

Mesmo assim Pedro Henrique escolheu o baile. Pagou cinquenta reais e teve direito a uma máscara e uma ficha de bebida. As pessoas se organizavam em grupos, faziam trenzinhos e gritavam palavras sem sentido. Mulheres com rosto de Jéssica. Homens usando camisa pólo com um escudo de rúgby bordado no bolso. O gosto do uísque não condizia com o preço da ficha. Pedro Henrique ficou tonto e pediu uma cerveja também superfaturada. Uma garota se aproximou e ficou ao seu lado, em silêncio. O que você faz?, Pedro Henrique perguntou. Eu trabalho com confecções, por quê? Por nada, tá sozinha ou vou apanhar de alguém se passar mais dois minutos falando contigo? A garota sorriu e disse estou sozinha. Na verdade estou sempre sozinha, por quê? Pedro Henrique aproximou-se e a beijou. O barman sorriu quando serviu as próximas cervejas como se Pedro Henrique não soubesse o que estava fazendo.

Cláudia o levou até o fundo do salão de baile. Até o lugar onde era escuro o suficiente e onde vários casais se beijavam. Algumas das metades dos casais se cansavam e abandonavam os parceiros para ir ao banheiro ou procurar alguém diferente, ou melhor. A parte abandonada tentava agarrar ou seguir o parceiro fugidio, ou simplesmente ficava tateando o vazio até se dar conta de ter sido abandonada.

Em um desses vazios sobre a superfície da parede, Pedro Henrique e Cláudia se escostaram e continuaram o amasso. Cláudia vestia um short jeans, uma camiseta branca de botão e possuía o rosto perfeitamente maquiado e harmonioso. Você tá de carro?, ela perguntou. Claro que não, Cláudia. Eu não quero ser sacaneado por um PM burro, pagar quase dois paus e ainda correr o risco de aparecer na têvê amazônica por pura falta de pauta.

Eu não tenho carro mas um amigo tem uma picape, você quer ir passar um tempo lá? Claro. Mas sério que não vai ter problema? Cláudia, você acha que eu sou idiota? Vai lá, fala com o dono do carro. Eu te espero na porta.

Uma picape de cabine dupla. O que move as pessoas a comprarem picapes? Impossível não imaginar crianças querendo brincar com um carro grande e inútil e só. Comprar uma picape para andar na cidade é da mesma ordem que comprar um trenó para andar no deserto. Com os huskies incluídos. A maioria das pessoas que dirigem picapes são imbecis, são crianças brincando com um carro grande e inútil, cujo barato é ocupar duas vagas no estacionamento e pagar o dobro em combustível e todas as outras taxas possíveis.

No caminho até o estacionamento, Cláudia pergunta o que ele faz. Eu trabalho em uma firma que distribui rações caninas. Antes disso eu morava no interior. Trabalhei na colheita do guaraná até cansar de Maués e vir morar com uma tia aqui em Manaus. 

Os dois foram para a parte de trás da cabine dupla e continuaram os amassos. O fato curioso em Cláudia era não haver nada a ser penetrado na parte da frente. Sem orifício, sem ereção. Tira o short, Cláudia. Ele só fica duro às vezes... isso é problema? Tudo pra você parece ser um problema, Cláudia. Você é vítima de uma série de caprichos da natureza.

Pedro Henrique pensou no garoto que nascera e fora batizado. No adolescente que burlara a genética e agora possuía bunda e peitos femininos e era desejado por isso. Pensou nos mecanismos criadores do seu desejo intermediário. A certa altura Cláudia pareceu gozar, a pantomima do gozo foi convincente. Pedro Henrique sentiu o corpo sobre ele dissolver-se. Cláudia rebolou e gemeu como as atrizes dos filmes pornográficos. Pedro Henrique gozou em seguida, observando o cuidado dos movimentos de Cláudia imitando o feminino, o sorriso, o ajeitar dos cabelos, os olhos, a calcinha sendo recolhida do chão da picape.

A garota temeu ser rejeitada depois da coisa toda. Pedro Henrique pediu que ela deitasse ao seu lado, apertada no banco da cabine dupla. No que você está pensando agora, Pedro? Tá arrependido? Não, não estou. Por que estaria? 

Eu tenho outro personagem, Cláudia. Ele é negro e consegue passar mais de setenta e duas horas acordado até selecionar um problema. E esse problema pode ser um crime, pode ser um serial killer sem um dos braços.

Cláudia não diz nada e o beija longamente, sentindo-se aceita dentro de seu universo intermediário. Cláudia quer ser uma mulher; não alguém nascido homem. Eu preciso ir, Cláudia. Eu também, minhas amigas devem estar loucaças na festa... tem certeza que quer ir? Tenho. Posso te ligar amanhã? Não, Cláudia. Não se pode ligar para o que não existe. Fica bem. Você é uma garota interessante. Pedro Henrique acaricia o queixo de Cláudia, arruma o seu cabelo, aperta discretamente os seus seios e a sua bunda e Cláudia sente uma ponta de prazer e sofrimento por isso. Acenam.

Pedro Henrique abre o recorte do jornal uma última vez antes de jogá-lo na lata de lixo. Não há mais nada a fazer hoje. Não haverá mais folia pelas próximas doze horas. Não haverá Jéssica ou Cláudia. 

O carnaval de Pedro chega ao fim por hora, sem nome próprio e sem sobrenome. Ele voltará ao seu quarto pequeno de basculante sujo,   tomará um analgésico e mergulhará no mar, escapando das ondas, sem ferir ou ofender ninguém, e sairá a tempo de cumprimentar a banhista ossuda de olhos verdes.