28.2.13

Escrevendo


Estou escrevendo dois contos. 

O primeiro é sobre como uma pessoa normal se torna um vilão. 

Não o vilão clássico dos filmes e novelas, consciente do seu papel de antagonista, mãos confabulantes e risada altiva com a cabeça inclinando-se pra trás: É um vilão social, inconsciente de seu papel daninho, alienado ao fato de causar o mal aos outros. O vilão que se acha certo e ético, talvez o pior vilão de todos. 

O segundo conto é sobre a contaminação por veneno, letalíssimo, de todas as penitenciárias brasileiras.


18.2.13

Três Piratas Trapalhões





As páginas de torrents são do bem ou do mal? São instrumentos de propagação cultural global de forma democrática, ou simplesmente uma fachada geradora de dinheiro ilegal? 

A resposta correta é “todas as opções acima”. As páginas de torrent são tudo isso e mais um monte de outras questões. 

Na tentativa de compreender um pouco mais algo do qual eu sempre faço uso, baixei e assisti TPB AFK ou, expandindo a sigla: The Pirate Bay – Away From the Keyboard

O documentário acompanha os três fundadores do Pirate Bay desde os primeiros processos, em 2008, até o final do ano passado.

Durante idas e vindas entre tribunais, recursos e apelações, podemos perceber como os três pares de olhinhos desenhados no cartaz na vida real representam sujeitos totalmente diferentes uns dos outros. 

Peter Sunde, o mais articulado e o único inspirador de certa simpatia, é o programador politizado, combatente dos abusos do copywriting monopolizado pelas grandes corporações.  Fedrik Neij, ambicioso e xenófobo (mesmo casado com uma garota estrangeira) , é o programador que entrou no negócio pela grana.  Gottfrid Svartholm, o mais estranho e excêntrico dos três, é o programador gênio que não parece ligar para nada, particularmente a higiene pessoal.

A amizade de Peter, Fedrik e Gottfrid poderia parecer improvável. E foi. Em nenhum momento do documentário se pode ver qualquer atitude que prove o contrário. Segundo depoimentos dos próprios, tal “amizade” começou online e só certo tempo depois passou a ser AFK  - away from the keyboard – termo surgido para refutar o comum “na vida real”, visto que para eles a internet sempre foi real. Essa talvez seja a única informação clara e interessante em todo o documentário. De resto, o diretor tentou fazer alguns momentos parecem um "The Social Network" com protagonistas reais e não conseguiu.

O documentário inteiro é permeado por ambiguidades. A amizade dos três fundadores. Os motivos reais da criação da página de compartilhamento de arquivos. A origem do dinheiro financiador dos provedores da página e onde ficam tais servidores e, principalmente, não há resposta para a principal pergunta: Por  que diabos eles criaram tal página mesmo sabendo de todos os problemas pessoais e punições legais irreversíveis como consequência de tal decisão. 

Nem quando, no final das contas, após tantos argumentos e recursos, os três gênios da computação e anarquistas em potencial acabaram vítimas das suas próprias birras e trapalhadas. 

Peter escapou da cadeia, mas não de uma dívida de milhões de dólares.  Fedrik está foragido e é procurado pela Interpol, ou seja, terminou condenado a ser o que mais detesta: um entrangeiro. Gottfrid se afundou nas drogas, não satisfeito com os problemas que já possuía também envolveu-se com a página do Wikileaks, tentou escapar da polícia, foi pego no meio do ano passado e, mesmo cumprindo uma sentença de um ano, não raro foi obrigado a passar 23 horas por dia em uma solitária.

Tal punição durou até o dia 7 de Dezembro de 2012; data em que eu e você possivelmente baixamos algo através da página que Gottfrid e seus ex-colegas criaram.



15.2.13

O Carnaval de Pedro


Pedro Henrique nunca saberá quais foram os critérios para a escolha do seu nome. Sabia serem os nomes herdados, ou simplesmente escolhidos pelo som. Um desvario de bocas anônimas criando uma estética invisível, suspensa no ar, uma referência subjetiva cheia de gás carbônico e bactérias: o nome sendo pronunciado.  

Sobrenomes, por sua vez, são apêndices inúteis, cercados de atavismos e responsabilidades que nada têm a ver com quem se é realmente. O portador do sobrenome. Todo mundo que tenta justificar qualquer comportamento baseado em signos, sobrenomes, age de má-fé. Quem o precedeu na família está morto, quem virá não dará a mínima para a suma importância que fora a vida dos seus predecessores. A imagem que se faz de quem está morto é uma projeção sem sentido. Assim como a do futuro. O nome, em si,  portanto, não significa nada além de um reconhecimento sonoro. Nomes são copiados de pai para filho, ou de avô para neto, ou de tio para sobrinho, ou de primeiro para segundo e assim por diante. 

Pedro Henrique, porém, não se enquadrava em nenhuma dessas categorias. Nunca conhecera o pai, não tinha irmãos e conhecia apenas uma tia distante. Era o primeiro do seu nome no que condizia a si próprio; um anônimo, um ninguém que, por isso, mais do que os demais, poderia fazer o que quisesse. 

Era um nome bonito, entretanto. Sem grandes significados, como a maioria dos nomes, mas mesmo assim bonito. O som, a impressão longa do nome nos documentos. 

Ao menos nisso era grato à mãe, apesar da recusa desta em identificar o desconhecido responsável por metade de tudo o que Pedro Henrique chamava de corpo. Frente ao espelho, tentava subtrair todos os traços maternos e, com o resultado incerto, cantos da boca, têmporas, entradas capilares, ossatura dos ombros, tentava imaginar um homem vinte anos mais velho, um sujeito de quarenta e três anos, ou algo em torno disso.  

Todos os dias, ao acordar, Pedro Henrique gostava de sentir os pés ainda mornos tocarem o chão frio. Gostava de ir à janela, sentir o cheiro do mar e observar o horizonte e a praia sempre com dois ou três banhistas anônimos fazendo desenhos na areia. Depois disso descia até a praia com uma caneca de café. Enquanto bebia o primeiro gole pensava quão divino era tal momento. Como tinha sorte, de ao menos, pertencer, ser dono, de certa forma, de um lugar tão bonito. 

Uma banhista, trêmula, volta de um mergulho no mar e o cumprimenta, sem nem poder falar tamanho é o frio. Pedro Henrique responde bom dia antes de respirar fundo e sair da cama.

Tudo ao redor é diferente do que imaginara antes. As paredes menores e mal pintadas. O cheiro de mar encoberto pelo cheiro de tempero vindo da cozinha. 

Ouve o barulho da têvê ligada em um canal randômico. Não há mar ou horizonte. Não existe banhista ossuda de olhos verdes. Existe apenas o chão frio. O chão toca ambos os mundos. A sua casa de praia longe da cidade, o seu quarto pequeno e com apenas um basculante possuem o mesmo chão. O frio, pensa Pedro Henrique, liga tudo o que existe no universo.

Fala poucas coisas com a mãe. É um fato estranho, esse, o de falarmos tão pouco com pessoas próximas, mesmo as mais amadas. Mesmo amando a mãe, irmãos, ou mesmo o pai, conversamos pouco com eles, ao menos menos do que deveríamos. As conversas longas são guardadas para os momentos de crise, de tragédia ou de profunda alegria. Duram pouco. A convivência simplifica a necessidade do verbo. Todo mundo se conhece demais, todo mundo já foi muito exposto, emocional e fisicamente, para ficar tecendo longas conversas sobre si ao longo de todo santo dia.

Enquanto bebe o café, Pedro Henrique ouve a mãe comentando amenidades ao mesmo tempo em que adianta o almoço. Ela fala como se os famosos mortos ou envolvidos em escândalos fossem parte da família. É carnaval. O papa renunciou ao cargo. 

Apesar disso, o jornal barato sobre a mesa não condiz com os fatos narrados pela mãe. Qualquer pessoa hoje em dia é mais atualizada do que um jornal impresso: nele o papa ainda trabalha e recebe ordens diretas de Deus para guiar o seu rebanho sobre a Terra. 

No jornal, o papa e Deus ainda se entendem, ainda trabalham juntos. No jornal, o papa ainda acorda e Deus lhe dá bom dia e lhe passa a agenda. No jornal, o papa ainda tem a sua banhista ossuda correndo cobrindo os seios eriçados e dando bom dia. 

Movido por uma curiosidade vazia, Pedro Henrique abre o navegador do telefone e lê a história em mais detalhes. O homem alegou estar velho e cansado demais para seguir com os encargos do trono de Pedro. Uma criança alemã que entrou para o clero e galgou, posto após posto, cargos que o levaram até a bancada do Vaticano, ao topo da hierarquia que o permitiu ser infalível. Ao alto onde, observado por milhares de católicos bem nascidos, dá a sua bênção. 

O católico mais próximo a Deus, simplesmente cansou do cargo. Humano, sentiu-se velho e usou o melhor recurso já inventado pelos humanos, o livre-arbítrio, e renunciou ao cargo. 

Apenas o seu superior, Deus, poderia se pronunciar contra e, mesmo vasculhando os linques sob o artigo, Pedro Henrique não encontrou declaração alguma. deus nunca falou nada como Deus em si. Usou o filho e profetas. Usou loucos nas ruas e nos ônibus, mesmo tendo o poder de criar planetas. Deus, o que tudo pode, nunca, nunca pode ir contra o livre-arbítrio. Joseph se cansou da farsa.

O livre-arbítrio dos pais é responsável pelo nome que carregamos. Mesmo o Pedro mais famoso, o santo, não fora o responsável pela escolha de seu nome. O próprio Pedro original nascera Simão e respondera por esse nome até encontrar e ser rebatizado por Jesus Cristo. 

Pedro Henrique imaginava um Pedro coroa e ignorante, mal entendendo as palavras ditas por seu mestre, décadas mais jovem, um homem inteligente e bonito. Mesmo assim supunha ter tido ele, Simão Pedro, a coragem para iniciar uma igreja em alguma caverna e, mesmo hoje em dia, ainda ter o seu nome relacionado à ela; mesmo tal igreja não se relacionando em mais nada com a primeira, composta por uma gente suja e assustada, diferente dos jovens e das carolas das missas de Domingo.

Pedro significa pedra. Pedro Henrique imaginava o seu corpo todo feito de pedra e não gostava da ideia. Um coração de pedra, dentes de pedra e todo o resto. Imaginava o Pedro de meia-idade sendo tocado por Deus em carne viva e, subitamente, passando a entender todas as coisas. Tornando-se sobrenatural, um santo capaz dos mais diversos milagres. Controlando o sol e a chuva sentado à proa de um barco. Jesus morto, e ele lidando com a culpa por ter sido covarde e negado o homem por três vezes. Pedro crucificado de cabeça para baixo e a mesma cruz passando a ser usada como um símbolo satanista. Adolescentes vestindo negro e fingindo que existe um diabo antagonista; fingindo que a sua vida pode encontrar um sentido sendo descrita por letras de músicas escritas por gente sem o ensino-médio. Um fim triste para uma história triste, apesar de mágica. 

Na cozinha, terminando o café, Pedro Henrique descobriu uma página do jornal ainda útil. A página tinha impressa a programação dos principais bailes e bandas da cidade. A diminuição do número de bailes e a progressão geométrica do número de bandas que, por sua vez, tiveram um aumento exponencial no número de frequentadores devido ao crescimento dos blocos, era a prova matemática de como a classe A havia diminuído, e de como a quantidade de pobres e aspirantes a rico havia aumentado. A letra B tornou-se a primordial em uma luta de classes que não mais existe. Um mundo B.

Pedro não gostava de bandas, ou mesmo de carnaval. Menos ainda, gostava de ficar em casa em um Sábado chuvoso. Escolheu a banda mais próxima à sua casa. A música começaria no final da tarde. Ele ainda possuía dinheiro na conta. Mais um mês, no máximo, até precisar encontrar outro emprego. As horas passaram rápido. Cochilou, viu têvê, leu um livro chato antes de dormir de novo.

Saiu à rua e caminhou algumas quadras até encontrar o início de uma aglomeração e um burburinho seguido de música. Algumas pessoas já estavam dançando quando começou a chuva. Pedro Henrique pensou em Pedro e na possibilidade absurda de um pescador de rosto desconhecido ser o responsável por chaves e pelo controle do clima no Ocidente.

Comprou algumas cervejas. O suficiente para diminuir o olhar crítico e aumentar a libido. A música se transformou em uma massa de barulhos disformes, as mulheres passaram a compartilhar apenas três tipos de rostos. Atraentes. Não atraentes. Atraentes e não atraentes. 

Jéssica pertencia ao terceiro grupo. Seus cabelos, seu rosto, a calça jeans e a camisa amarrada na altura da barriga eram semelhantes a pelo menos metade das frequentadoras disponíveis no bloco de gente desconhecida. Jéssica não era exatamente bonita, seus cabelos não eram exatamente loiros, sua estatura não era nem alta e nem baixa. Jéssica parecia presa a um mundo intermediário, assim como Pedro Henrique.

Pedro Henrique aproximou-se e perguntou o que ela fazia. Uma pergunta bastante conservadora, tendo em vista o fato de vários casais pouparem qualquer verbalização e partirem logo para os beijos. Eu estudo Direito. Olha que coincidência, Pedro Henrique respondeu sorrindo. Eu estou no último ano. Onde você estuda. UNINORTE, respondeu Jéssica, e você?, já acometida de interesse súbito. Eu tô terminando a UFAM, Pedro Henrique respondeu com descaso. Mesmo em silêncio, existe um constrangimento breve e silencioso quando um aluno de universidade particular encontra um outro aluno de universidade pública. Algo injustificável, visto que ambas são ruins. 

Jéssica ainda guardava vestígios de perfume doce no pescoço. Pedro Henrique não tentou beijá-la até a vontade de Jéssica ser absurdamente óbvia. Se você força um beijo é tarado, se não beija é veado. Você tá de carro?, ela perguntou. Claro que não! Não to a fim de pagar quase dois mil de multa e ainda perder o carro. Por quê, Jéssica? Estou a fim de sair daqui, ela disse.

Eu tenho um personagem e esse personagem descerá ao inferno, Jéssica. Ele será um homem de um metro e setenta e sete e conhecerá um submundo sobrenatural e sujo aberto em uma fresta na parede ou em uma porta como aquelas de porão só que no meio da rua, e ele entrará em cômodos onde o piso é feito de gente em vestes negras pedindo para ser pisada. E ele precisará cruzar essa sala até encontrar, no lado oposto, uma porta vermelha que o levará para outra sala, com piso e paredes vermelhas e várias luzes vermelhas no teto. Nessa sala as pessoas gritam coisas horríveis e o meu personagem precisará cobrir os ouvidos para não ficar perturbado para sempre.

Jéssica sorri sem entender nada do que foi dito ao seu ouvido. Está dormindo, ou quase. Ainda não são uma da madrugada. Pedro Henrique irá se levantar e tomará um banho. Jéssica o cavalgou por mais de dez minutos até, finalmente, gozar. Antes disso comandara todos os atos duplos em silêncio. Abrira as pernas deitada de costas na cama, ficara de quatro, pedira uns tapas, interrompera a foda pela metade para ir até ao banheiro porque a vontade de urinar estava atrapalhando a coisa toda e Pedro Henrique, pacientemente, esperou e obedeceu.

Pedro Henrique sentia-se um pouco cansado. Fizera um grande esforço para enganar o álcool no sangue, concentrar-se e manter-se ereto. Para alcançar o preservativo mesmo arriscando ser vítima de uma broxada eterna pelo resto da noite. 

Fizera um grande esforço para concentrar-se, imaginar-se em um limbo cálido, vazio, prazeroso até, para, enfim, gozar, e ainda permanecer mais alguns minutos de pau duro, coberto por látex, praticamente sem sensibilidade ao tato até Jéssica, enfim, em movimentos dessincronizados, finalmente gozar, gemer, cair satisfeita para o lado, indo do clímax ao sono em questão de segundos.

No dia seguinte Jéssica se sentiria usada, como se tivesse sido forçada a praticar tais atos. Tentaria lembrar os detalhes e não conseguiria. Sentiria-se usada por não ter encontrado o homem que usara deitado ao seu lado na cama, ou ao menos um bilhete, um número de telefone representando um vínculo ao homem que estivera dentro dela. A lógica feminina distorcida era algo que Pedro Henrique desistira de entender aos dezenove anos.

Pedro Henrique desdobrou a página rasgada do jornal que guardara no bolso. Dez minutos de onde estava havia outro bloco, “um dos maiores da cidade”, segundo o chavão do jornal. A segunda opção era um baile em uma casa noturna. Também dez minutos. Só que de táxi. 

Não existem mais bailes de carnaval. Não existe um baile propriamente digno do nome há pelo menos um século. Quando criança, Pedro Henrique costumava assistir aos pseudobailes transmitidos pela têvê e aguardava pacientemente uma gostosa ou outra mostrar os peitos. Os bailes de carnaval eram o refúgio dos ricos. Eram lugares onde se podia desbundar e cheirar pó sem ser incomodado ou mesmo julgado por isso.

Mesmo assim Pedro Henrique escolheu o baile. Pagou cinquenta reais e teve direito a uma máscara e uma ficha de bebida. As pessoas se organizavam em grupos, faziam trenzinhos e gritavam palavras sem sentido. Mulheres com rosto de Jéssica. Homens usando camisa pólo com um escudo de rúgby bordado no bolso. O gosto do uísque não condizia com o preço da ficha. Pedro Henrique ficou tonto e pediu uma cerveja também superfaturada. Uma garota se aproximou e ficou ao seu lado, em silêncio. O que você faz?, Pedro Henrique perguntou. Eu trabalho com confecções, por quê? Por nada, tá sozinha ou vou apanhar de alguém se passar mais dois minutos falando contigo? A garota sorriu e disse estou sozinha. Na verdade estou sempre sozinha, por quê? Pedro Henrique aproximou-se e a beijou. O barman sorriu quando serviu as próximas cervejas como se Pedro Henrique não soubesse o que estava fazendo.

Cláudia o levou até o fundo do salão de baile. Até o lugar onde era escuro o suficiente e onde vários casais se beijavam. Algumas das metades dos casais se cansavam e abandonavam os parceiros para ir ao banheiro ou procurar alguém diferente, ou melhor. A parte abandonada tentava agarrar ou seguir o parceiro fugidio, ou simplesmente ficava tateando o vazio até se dar conta de ter sido abandonada.

Em um desses vazios sobre a superfície da parede, Pedro Henrique e Cláudia se escostaram e continuaram o amasso. Cláudia vestia um short jeans, uma camiseta branca de botão e possuía o rosto perfeitamente maquiado e harmonioso. Você tá de carro?, ela perguntou. Claro que não, Cláudia. Eu não quero ser sacaneado por um PM burro, pagar quase dois paus e ainda correr o risco de aparecer na têvê amazônica por pura falta de pauta.

Eu não tenho carro mas um amigo tem uma picape, você quer ir passar um tempo lá? Claro. Mas sério que não vai ter problema? Cláudia, você acha que eu sou idiota? Vai lá, fala com o dono do carro. Eu te espero na porta.

Uma picape de cabine dupla. O que move as pessoas a comprarem picapes? Impossível não imaginar crianças querendo brincar com um carro grande e inútil e só. Comprar uma picape para andar na cidade é da mesma ordem que comprar um trenó para andar no deserto. Com os huskies incluídos. A maioria das pessoas que dirigem picapes são imbecis, são crianças brincando com um carro grande e inútil, cujo barato é ocupar duas vagas no estacionamento e pagar o dobro em combustível e todas as outras taxas possíveis.

No caminho até o estacionamento, Cláudia pergunta o que ele faz. Eu trabalho em uma firma que distribui rações caninas. Antes disso eu morava no interior. Trabalhei na colheita do guaraná até cansar de Maués e vir morar com uma tia aqui em Manaus. 

Os dois foram para a parte de trás da cabine dupla e continuaram os amassos. O fato curioso em Cláudia era não haver nada a ser penetrado na parte da frente. Sem orifício, sem ereção. Tira o short, Cláudia. Ele só fica duro às vezes... isso é problema? Tudo pra você parece ser um problema, Cláudia. Você é vítima de uma série de caprichos da natureza.

Pedro Henrique pensou no garoto que nascera e fora batizado. No adolescente que burlara a genética e agora possuía bunda e peitos femininos e era desejado por isso. Pensou nos mecanismos criadores do seu desejo intermediário. A certa altura Cláudia pareceu gozar, a pantomima do gozo foi convincente. Pedro Henrique sentiu o corpo sobre ele dissolver-se. Cláudia rebolou e gemeu como as atrizes dos filmes pornográficos. Pedro Henrique gozou em seguida, observando o cuidado dos movimentos de Cláudia imitando o feminino, o sorriso, o ajeitar dos cabelos, os olhos, a calcinha sendo recolhida do chão da picape.

A garota temeu ser rejeitada depois da coisa toda. Pedro Henrique pediu que ela deitasse ao seu lado, apertada no banco da cabine dupla. No que você está pensando agora, Pedro? Tá arrependido? Não, não estou. Por que estaria? 

Eu tenho outro personagem, Cláudia. Ele é negro e consegue passar mais de setenta e duas horas acordado até selecionar um problema. E esse problema pode ser um crime, pode ser um serial killer sem um dos braços.

Cláudia não diz nada e o beija longamente, sentindo-se aceita dentro de seu universo intermediário. Cláudia quer ser uma mulher; não alguém nascido homem. Eu preciso ir, Cláudia. Eu também, minhas amigas devem estar loucaças na festa... tem certeza que quer ir? Tenho. Posso te ligar amanhã? Não, Cláudia. Não se pode ligar para o que não existe. Fica bem. Você é uma garota interessante. Pedro Henrique acaricia o queixo de Cláudia, arruma o seu cabelo, aperta discretamente os seus seios e a sua bunda e Cláudia sente uma ponta de prazer e sofrimento por isso. Acenam.

Pedro Henrique abre o recorte do jornal uma última vez antes de jogá-lo na lata de lixo. Não há mais nada a fazer hoje. Não haverá mais folia pelas próximas doze horas. Não haverá Jéssica ou Cláudia. 

O carnaval de Pedro chega ao fim por hora, sem nome próprio e sem sobrenome. Ele voltará ao seu quarto pequeno de basculante sujo,   tomará um analgésico e mergulhará no mar, escapando das ondas, sem ferir ou ofender ninguém, e sairá a tempo de cumprimentar a banhista ossuda de olhos verdes.


7.2.13



As amizades não diminuem com o passar do tempo – simplesmente revelam o seu caráter não tão autêntico assim e, como toda mágica que tem o seu mistério revelado, perdem a graça. 


Os truques vão ficando conhecidos. Alguns, como o da moeda jogada por cima do ombro esquerdo, só enganam a idiotas.


A autenticidade de uma amizade espontânea e duradoura parte desse princípio: é uma mágica real, simplesmente sem explicação porque não há explicação palpável. Não há fatos ou similaridades obrigatórias. Há apenas um bem-estar, uma alegria. 

Todo o resto é descartável e inautêntico, até que se descubra o truque e se perca a graça. 

Não convém investigar, porém. Isso seria ir contra a mágica e tudo que se põe contra a mágica se torna ruim, negativo. A mágica é feita de mistério, segredo, sorrisos e assombro contidos. 

Os truques realmente geniais, mágicos por si, jamais se revelam. Todos ficam felizes.



Antes de acordar


Qual força é responsável pelo primeiro abrir de olhos involuntário após uma longa e solitária noite de sono? 


1.2.13

Sobre a Dança


Era a segunda semana, duas semanas, durante as quais não escrevera nada. Nem ao menos tivera vontade. Ideias, muito menos. 

É difícil escrever. Um ato meio que ilha. Cada um na sua. Escrevendo coisas. Como se escrever fosse um ato obsceno. Não há problema algum quando alguém declara gostar de dançar. Há estranhamento quando alguém gosta de escrever. Dois corpos: o do escritor e o do dançador, e  quão interessante e ridículo deve ser o ato de ambos quando observado sob um olhar não humano: 

Um dançador movendo o corpo, sentindo um ritmo e realizando movimentos sem utilidade. Um escritor sentado frente a um editor de textos, jogando com olhares empolgados e gananciosos como um dançador, baixando a cabeça, escrevendo atos sem sentido, inúteis, como uma dança da qual ninguém lembra. 

Toda a dança de dedos e de pernas e de braços. Toda a dança em si, tudo, em suma, demonstra-se magnânimo em sua falta de sentido. 

Todos dançam, porém. É humano perder tempo, distrair-se durante atividades. Morre-se dançando e escrevendo.