11.9.13

Aomane and Her Ice Pick


via

Um Pequeno Errro


Em algum momento surge o erro definitivo. 

O erro causa uma sucessão incomensurável e definitiva de outros e outros e outros erros.

O recém-nascido vindo ao mundo (a mãe, o pai em pânico aguardando) em um certo momento cometerá ou será vítima de um erro que o levará a ser o homem dormindo sob o viaduto, cercado de lixo, barriga proeminente, rosto disforme, pés com suturas mal dadas deixando a impressão de terem sido transplantados de um cadáver. 

É preciso muito cuidado ao atravessar uma rua. Não basta olhar para os lados. É preciso aguardar brevemente e respirar fundo para cruzá-la.

Durante as semanas das aulas teóricas do curso de formação de condutores, não raro eu via as vítimas de tais erros irreversíveis. Vídeos de acidentes: Um motorista lançado para fora de uma via de alta velocidade, um outro, motociclista, cruzando à frente de uma carreta e virando algo espalhado sob o asfalto. 

Certo dia, pouco metros à frente da escola de formação de condutores, vi um homem estendido no chão. Um motociclista como tantas centenas de outros. Gordinho, usando aquelas camisas feias à beça que, se não bastasse, ainda ressaltam a barriga. Imagino a surpresa. Ninguém acorda e imagina que, em menos de uma hora, estará estendido no asfalto.

Ele fora atingido na curva por um automóvel e lá permanecera, consciente, e por isso temeroso dos riscos de levantar-se após uma batida. A coluna quebra. As pernas morrem. O sexo passa para as orelhas.

Ao redor, pessoas o observavam: O motorista que por pouco não fora carrasco: Vagabundos tirando fotos com o telefone celular. Não havia sangue. 

Ao menos não percebi durante a rápida olhada dada ao longo da minha passagem inevitável. Havia apenas uma interrupção do fluxo do dia. Os carros mais lentos. Os motoristas, vítima e algoz, aguardando a chegada das autoridades competentes. A memória do telefone. A carenagem fedendo a suor.

Imagino os quatro indivíduos sendo trazidos ao mundo e passando as suas primeiras horas na mesma maternidade. O homem do viaduto, o motoqueiro, o motorista, eu. 

Me impressiono como todos nascem iguais a princípio e, após uma sucessão de erros, as vidas tomam caminhos diversos. Acertos há, é verdade, conquistas. Mas penso elas serem apenas o remédio para os erros que nos cercam e nos moldam. Os erros dos pais (muitas vezes sendo a causa da nossa existência), os erros da família e da escola, os erros dos anônimos que fazem curvas sem atenção e cometem erros fatais.

Resistir ao erro é como resistir à velhice, à fome, às cólicas e tantas outras dores. Cometer um erro traz uma sensação incômoda, um frio na barriga, um calor no rosto e uma sensação de desânimo que demora a passar. Às vezes não passa nunca.

De qualquer forma, é preciso ter cuidado ao atravessar uma rua, uma via. E tudo é via.