1.10.13

O Teatro

Uma a uma, as pessoas chegam ao teatro. Não conseguem entender como a estrutura foi feita, como foi posta a cúpula, qual fora o nome dos carregadores de pedras, dos assentadores de ladrilhos. Algumas possuem vínculos de sangue com os operários mortos e não sabem disso. 

Também não sabem o nome das pessoas vivas trabalhando no teatro. Controlando as visitas, estipulando o preço dos ingressos. Também não sabem o que está prestes a ser encenado. Reconhecem os signos no programa, é verdade, mas não os entendem. Não sabem de qual matéria os atores são feitos. Se são bons ou maus. Apenas decidiram vê-los.

Os eventos das artes cênicas locais não raro possuem entrada gratuita. Mesmo assim é difícil lotar um teatro, por menor que seja. Existe uma preguiça de ir até lá; mesmo não pagando por isso. Também existe o constrangimento em ver gente de verdade correndo o risco de se expor ao ridículo. Os atores insistem. 

Neste espetáculo, porém, ocorreu algo estranho: uma confluência de fatos e decisões fez com que quarenta e três mil, setecentos e vinte e duas pessoas comparecessem ao evento. Coincidência maior ainda foi o fato de todas elas serem desabrigadas ou morando em lugares ruins, sujos, sem eletricidade, água e canos para esconder os dejetos. Os pequenos grupos de espectadores bem nascidos foram substituídos por gente pobre e feia. E não havia nada de errado nisso. O evento era gratuito. 

Os funcionários do teatro ficam assustados e chamam a polícia. Fica-se assustado quando se vê um pequeno grupo de gente suja e feia olhando na sua direção. Imagina uma multidão delas. "O teatro só possui setecentos e um lugares! É impossível colocar todo esse povo pra dentro." Os policiais chegam e se colocam no lugar dos porteiros. A única reação das pessoas foi abrir passagem e continuar a aguardar a abertura do teatro. Queriam ver a peça.

Surgiu um ideia desesperada. Distribuir-se fichas. Mas se descobriu ser impossível chegar a qualquer critério: todas as pessoas chegaram ao mesmo tempo, nenhuma possuía qualquer deficiência. Todas possuíam a mesma altura, a mesma idade, o mesmo tipo físico. "Eles são como formigas... O nosso teatro foi tomado por formigas." 

A funcionária mais idosa do teatro foi escolhida para dar o aviso: "Pessoal, eu sinto muito, mas a peça foi cancelada." 

Por quê? (a pergunta e todos os diálogos do povo serão em itálico e uníssono)

"Porque  não cabe todo mundo no teatro."

E quando a gente vai poder entrar? Quando a gente vai poder ver a peça? A gente quer ver a peça!

"Então... esse é o problema. Vocês não podem ver a peça todos juntos. O teatro só possui capacidade para setecentos e uma pessoas. E vocês são quantos, meu deus?"

A gente é quarenta e três mil, setecentos e vinte e duas pessoas.

Imaginando um conflito iminente, os policiais tentam afastar a multidão com violência. São domados por ela, pela massa de pessoas-formiga. Têm suas roupas rasgadas e suas armas desmontadas. Ficam nus, ainda mais indignos do que os que tentaram violentar. Tentam correr para as suas viaturas e descobrem terem sido elas também desmontadas. Nus, sem uniformes, armas ou veículos, correm para longe. 


As pessoas-formiga entram no teatro e tomam todos os lugares possíveis. Sentam nos corredores. Entram na coxia e nos camarins. Penduram-se nos mezaninos. Apoiam-se uma sobre as outras. Sobre os colos e os ombros. Espremem-se absurdamente. Apenas o palco fica vazio. Apesar do calor e do fedor absurdos, não se ouve qualquer barulho. As pessoas-formiga aguardam ansiosamente o início do espetáculo.

Os atores, até então atrás das cortinas, escondidos e assustados, vêm uma oportunidade única de serem vistos. Criam coragem. Abraçam-se em apoio mútuo. Após o terceiro sinal, entregam-se aos personagens de forma visceral e convincente. As pessoas-formiga sorriem, lagrimam, se assustam e se excitam. Ao final do espetáculo, os atores choram com os aplausos. Finalmente sentem o orgulho e a vaidade desejada por tanto tempo.

Aliviados, os funcionários e o diretor do teatro decidem seguir o som dos aplausos. Não falta muito para as pessoas-formiga saírem e desaparecerem, desta vez em definitivo: "Nunca mais vamos fazer peças com entrada gratuita. Nunca mais. O nosso teatro não pode ser vilipendiado dessa forma por essa gente."

Os aplausos cessam, e com a mesma perícia com a qual desnudaram e desmontaram os policiais, as pessoas-formiga começam a desmontar o teatro. Suas cadeiras, suas cortinas, suas luminárias, seu mármore, suas peças de decoração. Depois, organizadamente, sobem até a cúpula e começam a desmontá-la. Depois as telhas. Os vidros das janelas. 

Em um trabalho colaborativo, mão ajudando mão, as pessoas-formiga começam a quebrar as paredes em pequenos cubos e, pavimento após pavimento, o teatro desaparece.


O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...