19.8.14

Linhas Paralelas


Há tempos comecei a escrever e postar sob o endereço chamado Mundo Próprio. Comecei em um domínio cujo nome não lembro ao certo. Era algo envolvendo Web e um portal que hoje em dia, se existe, não é mais lembrado. Depois passei para o Blogger Brasil até, em 2007, cansar das limitações da versão nacional e migrar para o Blogspot original. Somando estes três anos transitórios com os sete organizados nos arquivos à esquerda, é algo em torno de dez anos.

Durante este tempo, o conceito, a motivação, o hábito e a prática da escrita mudaram bastante. Não chego a sentir o constrangimento ou a crítica que normalmente se sente quando se lê algo antigo; apenas me surpreendo como as coisas ali parecem terem sido escritas por outro que não eu. O de então. Um sujeito mais jovem metido a resenhista de todas as coisas e escrevendo contos com um ritmo estranho, proparoxítono e aliterante. 

Nessa época, a caixa de comentários dos blogs era a grande ferramenta de comunicação entre os postadores (digamos assim) e sempre se estabeleciam contatos e troca de críticas e elogios.  Fiz algumas amizades. Fui convidado a participar de um blog com sete pessoas de diferentes regiões do país que postavam um texto por dia. O meu dia era o sábado ou o domingo (essas falhas de memória incomodam) e o retorno sobre o que eu escrevia (uns contos que gosto até hoje) era bem estimulante. O blog durou certo tempo. Logo fomos perdendo o gás e paramos de postar. Sem crises. Acho que todos tinham algo semelhante à preguiça natural que se dá após participar de um coletivo por certo tempo. 

A minha vontade em escrever algo substancial, importante e significativo é primordialmente centrada na vaidade. Pensando bem, escrever no Brasil e na maioria dos outros lugares é um ato centrado na vaidade. A escrita engajada, pensada para ser lida e causar mudança, há muito não mais existe. Quando me digno a ler um ou outro romance atual, o que vejo são floreios e um aturdimento inautêntico - parece haver algo vergonhoso em se criar um personagem feliz ou uma história com começo, meio, e personagens que causem saudade após o fim. Só há algo pior do que uma história sem arestas e floreada: escrever sobre si próprio em floreios e deixando as arestas à mostra. Não lembro a última vez que fiz isso, postando ou não. Apesar da memória falha, o passar do tempo traz boas vantagens. 

Quando outras atividades estimulantes da vaidade começaram a também requererem o meu tempo, a minha vontade e produção escrita encolheram. Há o trabalho e outras diversões. Atividades. Coisas novas. Lugares. Músicas. Novos estudos. Aparelhos eletrônicos. Os períodos onde vaidosamente paro e escrevo qualquer coisa que seja, ou têm a motivação de querer contar algo para não esquecer, ou simplesmente tamborilar no teclado. Escrever à revelia para ser lido à revelia; como alguém que caminha calmamente pela rua ou por um parque esperando encontrar alguém conhecido. E não há tempo para se queixar quando se encontra alguém na rua. Reclamo pouco porque reclamar quase sempre é inútil.

Levantei há pouco de uma noite entrecortada por sonhos e imagens aleatórias que se prolongaram até agora. Fixaram-se enquanto eu observava o vestido pendurado em uma das hastes altas do guarda-roupas. Entre tantas coisas, sonhei com um céu dividido em quatro partes pela fumaça deixada por aviões supersônicos. De um horizonte a outro, dois aviões uniram pontos cardeais e deixaram o céu perfeitamente dividido em quatro quadrantes convexos. Não sei porque os pilotos foram ordenados a fazer isso, não sei como eram os aviões. Mas o fizeram bem: os traços ficaram perfeitos e, até agora, ainda não se dissiparam.


26.7.14

PULP



Then she heard Paul´s voice, low and controlled, reciting the litany:


"Fear is the mind-killer. Fear is the little death that brings total obliteration. I will face my fear. I will permit it to pass over me and through me. And when it has gone past me I will turn to see fear´s path. Where the fear has gone there will be nothing. Only I will remain."


(HERBERT, Frank. DUNE.)

11.7.14

Strangers


"No other life forms know they are alive, and neither do they know they will die. This is our curse alone. Without this hex upon our heads, we would never have withdrawn as far as we have from the natural — so far and for such a time that it is a relief to say what we have been trying with our all not to say: We have long since been denizens of the natural world. Everywhere around us are natural habitats, but within us is the shiver of startling and dreadful things. Simply put: We are not from here. If we vanished tomorrow, no organism on this planet would miss us. Nothing in nature needs us."

Thomas Ligotti, The Conspiracy Against the Human Race

8.7.14

Cavernas. X.I

A criação perdeu o controle sobre as pessoas. As pessoas perderam o controle sobre a criação de si próprias e espalharam-se por todas as frestas possíveis. Terrenos planos, pequenas vias, ruas inteiras, casas minúsculas dividindo paredes e sons. Sons de gente dividindo o mesmo cômodo e sons de uns amontoados sobre os outros, compartilhando suor o mesmo ar e micróbios. Incômodos. Fedores. 

Gente da criação escondendo-se dos bichos da criação. A criação escondendo-se da própria criação. Bichos da mesma raça, ameaçando e temendo uns aos outros, fincando grades e cercas e tentando rompê-las pelo lado de fora. Espaços imensos vazios contra criaturas vazias e incapazes de preencher tais espaços e tornando o maior espaço possível – amplo e público – como se fosse delas próprias. 

O universo em si perdeu a medida de si próprio, esqueceu-se da ordem e da justiça, permitiu-nos crescer demais e ocuparmos demais. Não há limites para a reprodução global dos seres humanos. O universo nos permite. Talvez pelo fato de sermos os únicos que damos certo sentido a todo esse espaço primordialmente inútil. 

Talvez os universo queira que cresçamos ainda mais e ocupemos cada metro de toda – toda – a sua extensão para que, mesmo cego, ao menos consiga ouvir os nossos barulhos, sentir o nosso calor e o peso dos nossos passos antes que morramos mais uma vez e mais outra para também tornarmo-nos cegos e parte da massa burra de sentimentos que nos cerca. 

Há a escrita e os progressos causados por pequenos grupos brilhantes de seres humanos que levam consigo tantos e tantos outros. A energia elétrica e todos os sistemas técnicos e absurdamente belos  trouxeram a luz arquitetônica da civilização e nos tornou menos bichos. Uns menos que os outros. A cobertura onde Clara mora parece conter todo esse esforço injusto universal ao deixar à vista todo e qualquer luxo possível dentro de um espaço sem parecer exagerado. 

O cômodo parece a consequência de uma equação complexa onde mesmo a desordem casual de um tecido insinuado para fora de uma poltrona ou uma lombada de livro destacando-se por estar mais à frente estão cumprindo um propósito. Para Júlia é difícil manter o ar casual. O que vê é toda a consequência acidental do universo organizada sobre andares e andares de concreto armado agora disfarçado sob camadas de argamassa e luzes. 

Quando criança impressionara-se inúmeras vezes ao imaginar como viviam as pessoas das cavernas, os primeiros homens vivendo cercado de bichos, impregnados pelo cheiro dos próprios dejetos, acomodando-se uns próximos aos outros próximos ao fogo. Assustados e alertas, mas mesmo assim morrendo muito moços com os membros irremediavelmente infeccionados. Carla diz para todos ficarem à vontade e, enquanto cruza a sala em direção ao quarto, os objetos ganham vida. 

A televisão se liga quando ela passa à sua frente e as luzes, até então no limiar da penumbra, se tornam um pouco mais reluzentes quando sensorizam a sua passagem. Flávio, Ângela e Antônio, um pouco mais íntimos com o ambiente, acomodam-se nos estofados. Júlia os segue. Os outros três visitantes (incluindo Flávio, o qual, por ser namorado de Carla, deveria frequentar bastante o apartamento) também não pareciam completamente à vontade. 

“Eu me sinto como se estivesse em uma loja onde posso tocar em tudo ou em uma grande livraria onde posso passar horas sem ser incomodada...” – Júlia pensou “...mesmo tudo sendo considerado normal pela ordem do lugar, não pareceria certo abusar dessa gentileza”. 

Carla voltou com os cabelos presos em um coque, o que deixava as maçãs do seu rosto ainda mais precisas. Elas não são fofas ou curvilíneas como maçãs – são quase polígonos sobressaltados mas ainda assim belos. “Tá tudo pronto lá em cima” – Carla diz. “A gente não pode terminar o domingo na frente da televisão, né pessoal? Vamos para a piscina. Tá tudo pronto lá.” 

Júlia precisa ir ao banheiro, está próxima à frase crítica a ponto de não conseguir se surpreender com o fato de que, além de tudo o que vê, ainda há sobre eles toneladas de água. Apenas pensa na água que precisa livrar de si quando se senta ao vaso e, à medida que começa a retornar aos modos humanos vê as paredes ao redor voltarem a obter significado.

Por mais opulentos que sejam os lugares, os banheiros ainda conseguem manter uma sutil ligação uns com os outros e, mesmo quando tentam ser diferentes e realmente luxuosos, sempre há o papel higiênico. Ornado, pousado sobre um discreto suporte, prateleira ou recipiente, mas ainda assim papel higiênico. Sobre a bancada do lavatório há lenços específicos para limpar maquiagem e, mesmo sem saber se irá ou não entrar em uma piscina absurda sobre a sua cabeça, Júlia decide retocar a sombra nos olhos, devolver a secura saudável ao rosto e corrigir pequenos borrados e ausências de batom. 

Volta à sala de estar em poucos minutos e não encontra ninguém. Os objetos perderam a animação e o lugar voltou à penumbra. 

Júlia imediatamente buscou o telefone na bolsa. O grande recurso da solidão, do desespero... teorizam, quando na verdade tudo o que ele é um aparelho. E aparelhos servem e nada mais do que isso. Não existe um vazio existencial ou perda de interação social. Os aparelhos simplesmente são legais e funcionam. Não há e não haverá grandes mudanças nisso tudo. Júlia apenas se surpreendeu com o vazio do cômodo e com a mensagem na tela “estamoslá em cima. segue pra tua direitae tuvai encontrar a escadaque leva a piscina”. 


Mal haviam se passado oito minutos e esse mísero intervalo de tempo fora suficiente para que todos decidissem deixa-la sozinha e uma mensagem mal redigida fosse mandada ao seu telefone, quando apenas um toque na porta ou, menos que isso, três minutos de aguardo seriam suficientes para amenizar o terror de alguns segundos pelos quais Júlia passara involuntariamente. 

Ela observou a sala novamente, as luzes indisciplinadas. Buscou interruptores. Sem sucesso. Deu um cotoco para a televisão e nada aconteceu. Arrumou os peitos, seguiu as instruções simples da mensagem e subiu a escada caracol.


22.6.14

IX. Júlia. Elevadores


Júlia não parece ser parte da mesa. Não pertence a nenhum dos dois grupos; apenas participa de pontas de conversas ou comentários desnecessários. 

Ângela, o vínculo de Júlia com essa gente nova e desconhecida, mantem-se entretida com um casal de amigos e, vez ou outra, fala algo a Júlia para uni-la a gestalt da mesa. 

Ela, Ângela, é uma boa nova amiga. Parece sempre preocupada e sincera. Júlia não consegue entender como esta mesma mulher pode ter dado um pequeno golpe no ex-namorado. Este fato, pessoal e isolado, faz vez ou outra Júlia recear ser abandonada na mesa e ter que pagar a conta das duas. 

O lugar onde estão se chama “Fama de Mesa”, um nome críptico, que não é explicado nem pelo cardápio e nem pelos seus funcionários. Garçons e garçonetes semiprofissionais, mal-humorados em sua maioria por exercerem uma profissão desagradável agravada pelo fato de ser domingo: O domingo intensifica a dramaticidade de qualquer profissão.  

Quando os ocupantes de uma mesa passam de cinco, a coisa foge ao controle. Nada funciona direito, não existe um foco; apenas uma série de barulhos e diálogos curtos que não levarão a lugar algum. As horas passam e todos começam a ficar um pouco altos. A acharem-se mais inteligentes e mais importantes, mais bonitos. 

Um homem chamado Gustavo começa a dar em cima de Júlia. Ele está na casa dos vinte e dois três quatro não faz diferença. Possui cabelos curtos arrepiados com gel e está um pouco acima do peso, provavelmente por ter começado a fazer musculação e ter desistido pouco tempo depois de desenvolver músculos desproporcionais. Seus braços são mais grossos do que o normal e seu peitoral esgarça a camisa polo. Ele usa aparelhos.  Júlia não imagina qualquer sucesso atrativo como consequência da forma como Gustavo age, fala e se comporta. Acha estranho como toda aquela pantomima tem como objetivo apenas leva-la para um quarto, o que não aconteceria em nenhuma realidade possível. 

Júlia tentar pensar no lugar-comum:  “Se todos falassem e agissem da forma como pensam, não haveria civilização”, mas não consegue. 

Existe a abertura, a idéia, a vontade de ter tal pensamento, mas ele não está lá. Falta cinismo a ela, apenas o mau-humor existe mas não pode ser verbalizado. Como fazer pensar assim, agir da forma que se espera? Impossível. Apenas uma série de acontecimentos, diálogos e exposições a elementos culturais pode torna-la apta a copiar pensamentos e desenvolver seus próprios estatutos cáusticos. Ela é apenas uma garota bonita mas de beleza não óbvia e sente uma leve ojeriza à mesa, uma força centrífuga invisível que a faz querer sair dali, mas as palavras não vêm e não vêm idéia mirabolantes. Ela apenas pensa que aquilo está muito chato e que precisa se livrar de Gustavo e todos os outros e sair dali educadamente. Uma idéia simples surge. Ela arrisca. Manda uma mensagem para Ângela e ela a percebe em pouco tempo. 

“nao estou me sentindo bem, preciso sair daqui”

(o que foi? ta se sentindo mal?)

“nao. so nao to me sentindo bem”

(tem so mais um pouco de paciencia. a gente vai embora em meiahora)


Os laços de amizade entre as doze pessoas da mesa amenizaram-se quando chegou a conta. Dois ou três deles, com as calculadoras do telefone em punho, faziam cálculos e comparavam resultados. Júlia conhece algumas  técnicas básicas de como se livrar de injustiças na hora de pagar a conta em uma mesa de estranhos:

1. Pedir sempre doses individuais. Um chope. Um drinque. Uma água. Um suco.

2. Não pedir petiscos e não filar petiscos dos desconhecidos. Em caso de muita fome, um sanduíche.

3. Manter o controle do que foi bebido no bloco de notas do telefone. Pedir uma comanda individual pode ser deselegante. Além disso, ter o número certo na cabeça dá a idéia de que você não está bêbada a ponto de perder a conta do que foi bebido.

4. Tomar as primeiras posições na hora de pagar a conta. As pessoas que ficam para o final, ou pagam além do que deveriam, ou não pagam quase nada, gerando constrangimento para ambos os lados.

5. Dar sempre um valor redondo para não esperar o troco junto com os outros.

 “Bom, os meus foram nove. Trinta e seis, mais dez por cento, trinta e nove e sessenta. Aqui. Quarenta.”

Todas as regras acima são desnecessárias quando se está bebendo com amigos. No caso de uma mesa desconhecida, podem ser aplicadas sem constrangimento. Júlia aprendeu e postulou as regras da pior maneira possível; sendo passada pra trás por pessoas que juravam compensar na próxima vez sendo que tal próxima vez nunca existiria. Normalmente voltava pra casa com cinquenta reais a menos em sua conta corrente (além do  gasto para pagar a conta) e com dois ou três nomes para os quais nunca ligaria ou mesmo mandaria mensagens, e vice-versa. 

Os doze tornaram-se cinco. Júlia se vê no banco de trás de um carro grande, japonês ou coreano, e estão indo para a casa de Carla, a motorista. Carla e Ângela conheceram-se na faculdade de administração, uma das três que Ângela iniciara e desistira antes do final do primeiro período. Carla continuou no curso mas não perderam contato. Pelo contrário, estreitaram mais e mais a amizade, mesmo pertencendo a realidades diferentes (Carla vivendo com a renda da família e Ângela de pequenos empregos). No outro banco da frente está Flávio, namorado de Carla, uma versão melhor de Gustavo, mas não tanto. No banco de trás, além de Júlia e Ângela, está Antônio, amigo de Flávio, vestido com menos cuidado e não tão empolgado quanto os outros, mas vez ou outra fazendo comentários espirituosos. Gustavo ficou para trás. 

Júlia não lembra o quanto Carla, a motorista, bebera nas últimas horas, mas, de qualquer forma, ela dirigia bem. Dava sinais e freava nos lugares certos e não aumentou exageradamente o volume da música. Durante o trajeto, passam por vários pontos de ônibus e Júlia se vê transposta para uma outra realidade. Ela não pertence àquele grupo dentro do carro, mas também não se vê como parte do grupo mexendo em celulares de segunda linha enquanto aguarda conjunções astronômicas fazerem finalmente passarem os ônibus de domingo. Júlia não consegue se ver no pelos vidros do carro e nem pelos espelhos internos. Apenas vê a si própria como alguém que recém-ocupou o próprio corpo. Usa uma camiseta branca de mangas curtas e uma saia que chega aos pés. Sente-se um pouco mais gorda, o que fisicamente é absolutamente normal, após ter bebido nove chopes. O frio do ar-condicionado do carro aumenta a sua vontade de ir ao banheiro. Com o indicador direito, leva a mão ao canto dos olhos. Observa as digitais sem marca alguma. Suas sombras ainda estão nos lugares certos.

Estavam em uma avenida quando, subitamente, o carro freou mudando de direção e desceu uma pequena ladeira. Entraram no subsolo de um prédio, um dos tantos prédios grandes que são vistos todos os dias mas quase nunca se conhece alguém que mora neles. Júlia sobressaltou-se quando Carla largou o volante do carro e ele continuou a operar sozinho. Um carro moderníssimo. Caro o suficiente para encerrar o fantasma de um motorista em suas engrenagens e o mesmo assumir o controle e estacionar perfeitamente. Após estacionar, o fantasma chora e não vê lágrimas saírem. "Que trágico", Júlia imagina. 

O estacionamento do prédio era grande o suficiente para lembrar o estacionamento de um shopping center. Todos fizeram o percurso até o elevador conversando coisas banais tais como o quanto haviam bebido ou se realmente não era necessário terem trazido algo para a pós-reunião. Carla conseguiu dizer “aqui em casa tem tudo” sem soar pedante. O prédio possuía dezoito andares e Carla apertou o último botão do elevador. Era a primeira vez que Júlia visitaria uma cobertura. 


8.6.14

Empire Of Dreams, by Charles Simic


On the first page of my dreambook
It’s always evening
In an occupied country.
Hour before the curfew.
A small provincial city.
The houses all dark.
The store-fronts gutted.

I am on a street corner
Where I shouldn’t be.
Alone and coatless
I have gone out to look
For a black dog who answers to my whistle.
I have a kind of halloween mask
Which I am afraid to put on.



via


6.6.14

Songs that I Love: Ice Age, by David Byrne and St. Vincent.


Oh diamond,
How we've been
Oh diamond,
It's such a shame
To see you this way, freezing it out
Your own little ice age

Ice Age

Oh diamond,
Get out of bed
All of your tend
Seams are showing
And you're freaking me out, freezing it out
Your own little ice age

Ice Age 

We won't know just what we lost until your winter thaws

Oh diamond,
Where have you been
It's close to your bones
It's far from your shell
So feel it away, reason it out
In your own little ice age

Thaw me out, Thaw me out.




30.5.14

VIII. Júlia. O sofá azul.


Os cochilos são uma interrupção infantil da existência. Não nos anulam ao mundo como quando se está sob um sono profundo e um assassino, saído das sombras, pode vir e nos cortar o pescoço sem jamais nos darmos conta disso. 

Dormir e não acordar pode ser algo ideal ou muito triste. Não há chance. Exatamente como quando se nasce.

Júlia está deitada sobre o sofá azul do apartamento de Ângela. Sente o corpo leve, mas o mesmo tempo uma força estranha pressiona o seu crânio contra o encosto e a deixa sobre si; toda ela uma mulher com a mesma idade, sem. 

Semi-acordada,  semi-desperta, Júlia volta à adolescência e, ao mesmo tempo, não está na adolescência e sabe disso porque ouve os passos de Ângela no presente. 

Júlia estudava no turno da tarde. As aulas terminavam às cinco e quinze. Não precisava do transporte coletivo. Caminhava. Antes das seis estava, de segunda a sexta, novamente em sua cama. 

Os dias sempre terminavam silenciosamente, com a luz do sol tornando-se mais e mais fraca até ceder, e tudo ao redor se tornar uma ausência, um período intermediário durante o qual o dia e a noite eram os mesmos. O final do dia, para ela, era, então, uma espécie de cochilo da Terra e durante o qual ela poderia fazer o que quisesse. Não haveria luz ou treva para julgá-la. Júlia lembrava do filme O feitiço de Áquila. Todos, àquela época, lembravam de quão trágico e triste eram a águia e o lobo. 



Neste ponto da história, sobre o sofá azul, Júlia está com trinta e dois anos. É final de dia e início de noite como sempre houve. Nem jovem e nem velha. Sem a inexperiência dos dezesseis e ainda com muita experiência a absorver após os trinta e dois. 

Júlia é uma persiana no final da tarde, branca e plana, esperando alguém que a gire e a mude, dê outra forma a ela.

Durante o seu cochilo, revê-se aos dezesseis ao mesmo tempo sabendo ter trinta e dois. Um dia, assim como tantos outros, estará com sessenta e quatro anos e não mais possuirá outra oportunidade ver a si mesma com a idade dobrada.  

Aos dezesseis anos costumava chegar em casa e dormir imediatamente, como faz a maioria das adolescentes por cansaço, preguiça ou, na maioria dos casos, por não quererem existir: quererem simplesmente dormir e acordar em outra época. Maiores, sem problemas. Todos os seres humanos, sem exceção, querem ser felizes. Ser feliz é uma necessidade fisiológica. 

Durante o caminho de volta da escola, curto, cerca de quinze minutos caminhando despreocupadamente, vez ou outra ouvia sons animalescos , assobios, suspiros ou frases curtas de homens de todos os tamanhos e origens. Para Júlia, os homens surgiam do chão, desordenadamente. A maioria feia, suja gorda velha burra careca ou tudo isso junto. Os homens bonitos não existiam, não a encontravam na rua. Os homens bonitos não eram grossos porque não precisavam.

Mesmo assim, sentia um misto de asco e lisonjeio pelos ruídos e frases imbecis. O alívio de, se não possuidora de uma beleza conspícua, digna de ser filmada ou impressa, ao menos possuir algo que atraía, que chamava a atenção dos homens. Talvez a brancura e um pouco da magreza; muito provavelmente os peitos e uma leve desproporção dos quadris. 

Agora, com trinta e dois anos, sente imensa pena dos homens que se insinuam a uma adolescente. Uma adolescente não é uma mulher. Possui feminilidade, libido seguida de pensamentos, possui um corpo pronto para reproduzir-se. Não é, porém e ainda, uma mulher. Uma adolescente deve decidir quando se tornar mulher; e não o contrário. 

Um dos comentários, porém, mudou o seu hábito preguiçoso. 
Em um dia entre tantos durante os quais voltava da escola um sujeito, encostado em um balcão, não a cantou ou expeliu qualquer som com conotação sexual. Apenas disse: 

“Quem não aguenta dorme.” 

Júlia, pela primeira vez, virou-se, encarou o sujeito e perguntou: 

“Como assim? O que o senhor que dizer com isso?”

O homem não se constrangeu ou se empolgou com o efeito da frase. Apenas a explicou como se ambos estivessem conversando naturalmente:

“O que quero dizer é que quem não aguenta a barra de viver dia após dia após dia sempre fica arrumando um pretexto para dormir. E dormir não é algo natural, uma coisa da qual se gabar. Dormir é uma necessidade, sabe? Dizer que se gosta de dormir é da mesma ordem do que dizer que se gosta de ir ao banheiro várias vezes ao dia. É uma necessidade fisiológica da qual não devemos nos orgulhar. Um monte de coisa se perde e um monte de coisa ruim pode acontecer durante o sono. Dormir para fugir dos problemas é da mesma ordem do que se trancar em um banheiro para escapar dos problemas."

O homem usava um chapéu panamá. Estava entre a metade dos quarenta e o início dos cinquenta. Após a curta explanação, virou para dentro do bar, como se nunca tivesse falado coisa alguma.

A partir desta tarde, Júlia abandonou o sono fugidio das adolescentes e passou a fazer outras coisas. Adiantar uma ou outra coisa da escola, ler um livro, masturbar-se quando tinha privacidade e vontade suficientes mas, sempre, invariavelmente, deitava-se e observava o envelhecimento do seu corpo enquanto o dia terminava. 

Seu cabelo ainda era longo, ainda mais negro pela memória. Esticava uma mecha presa entre o polegar e o indicador e se sentia como uma planta, branca, permeada por pelos. Seus braços se erguiam. Suas pernas adormeciam quando ficavam muito tempo suspensas. Para onde ia o sangue? "O meu corpo, eu, vai continuar, sempre, envelhecendo, mas até quando?"

“Bora Júlia?” 

Júlia, novamente com trinta e dois anos, responde: “Só me dá cinco minutos para retocar a maquiagem.” 

Estala os dedos e sai do sofá.

27.5.14

VII. Júlia e Ângela. Véspera de feriado.


O céu descarrega água sem seguir lógica alguma. O fato de ser um céu já é um absurdo. Uma tela raivosa e cinza querendo sair dos limites do quadro. Fazendo barulhos. Sendo vários e o mesmo dependendo de onde se está. 

Júlia comenta sobre o céu, Ângela apenas ouve e tenta visualizar o que a garota, branca e com sombra negra ao redor dos olhos, amiga tergiversa. Júlia fala sobre a fúria com a qual a Terra se move e como ninguém se dá conta disso. Há esse cinza chuvoso e sobre ele há o azul novamente e sobre o azul há o vazio. Os barulhos da Terra não chegam ao espaço. Um alienígena ou um astronauta presenciam o absurdo de um globo pesando toneladas, suspenso no vácuo, girando em silêncio uma vez e de novo e de novo. “E nós estamos aqui, presas. Isso é um absurdo.”

Muito se fala em civilização e isso e aquilo, sobre conquistas de direitos e paridades teóricas, mas o fato é que, até hoje, duas mulheres não podem sair sozinhas sem estarem sujeitas a uma série de chateações. Por isso Júlia prefere passar tanto tempo em sua piscina particular, imaginando mundos azuis e úmidos. 

Ângela não possui uma piscina na sala de casa. Apenas um sofá azul de dois lugares e uma televisão sem tamanho suficiente para não ser considerada um monitor de computador. Não há quadros sobre as suas paredes ou livros nas prateleiras (na verdade não há prateleiras), o que torna pré-julgamentos sobre a sua personalidade mais difíceis de serem feitos. Tudo o que se pode saber sobre Ângela seria mais ou menos como o que aparece na televisão: tudo muito rápido e diverso, mas difícil de ser acompanhado. 

Fossem as duas vítimas de uma história comum, criada de modo a entreter o leitor e excitar um possível escritor heterossexual no que concerne a pessoas do mesmo sexo (não às mulheres), seria fácil criar um clima de romance entre Ângela e Júlia. Elas se embebedariam e o lugar-comum largamente explorado em filmes livros séries e quadrinhos aconteceria. Mas isso não acontecerá aqui: Júlia e Ângela são apenas duas mulheres sem muito que fazer, e o fato de estarem fumando e bebendo juntas não as faz se sentirem atraídas uma pela outra. Ao invés de uma música cremosa de fundo, existe apenas o som da televisão enquanto elas tentam traçar estratégias para sair de casa sem serem admoestadas, perseguidas ou agredidas. É quase meio-dia e a cidade ainda está tranquila. Famílias estão saindo para o almoço e os boêmios da noite anterior ainda estão acordando e procurando analgésicos. Conforme as horas passam o dia tende a ficar mais agressivo. As famílias voltam para casa e apenas os beberrões de finais de semana se acumulam nos bares ou nas praças de alimentação. É nessa hora que surgem as chateações. Nunca na história da humanidade uma mulher bêbada e linda foi perturbar e tentar seduzir dois homens comuns bebendo e conversando tranquilamente em um bar, perguntando se ambos gostariam de ir para um quarto com ela. Isso seria ridículo. Homens bêbados, porém, costumam pensar o contrário; e as mulheres tentam de tudo para demovê-los da ideia, inclusive declararem-se lésbicas só para serem deixadas em paz o que, particularmente, não surte muito efeito, visto a pensamento comum exposto no início deste parágrafo. 

“Você tem amigos?”, Júlia pergunta. 

“Bom, eu conheço algumas pessoas, mas não sei se são meus amigos ou não.”

“Quantos, mais ou menos?” 

“Uns três ou quatro. Mas eles quase nunca topam sair ou fazer algo fora de casa. Sempre estão com namorados, família ou pessoas mais interessantes que eu.”

Talvez esse fora o primeiro ponto realmente em comum entre Júlia e Ângela. A falta de amigos. Obviamente, ambas conviviam com pessoas boas e empáticas, mas nada além disso. Ao observar as pessoas que se consideravam amigas, Júlia percebera que elas não eram nada além de conhecidos compartilhando coisas comuns e gostando disso. Não havia grandes significados metafísicos permeando as amizades. As pessoas não se tornavam amigas na tentativa de criar uma espécie de maçonaria dos laços, uma liga de super-heróis. Elas simplesmente se conheciam e decidiam fazer coisas juntas. Questões existenciais e problemas práticos do dia-a-dia não são resolvidos ou mesmo discutidos. Elas simplesmente conversam, comem, bebem e voltam para casa. Contam piadas e problemas e, quando um pouco mais bêbadas, dizem o quanto gostam umas das outras; o que, na maioria dos casos, é algo sincero, mas fadado perder o interesse com o passar do tempo, como um filme que se viu várias vezes.

“Você acha que as pessoas se tornam amigas ao acaso ou existe algo invisível por trás disso?”, Ângela pergunta.

“Como assim, invisível?”

“Sei lá, algo envolvendo destino ou coisa do tipo.”

“Se as amizades verdadeiras são consequência do destino; ou ele tem falhado bastante, ou simplesmente não existe.”

“Acho que você tem razão”, Ângela olha para a amiga em formação enquanto pensa nas palavras, no quanto é complicado sair de casa e fazer algo e no quanto o céu não obedece à lógica alguma: agora faz sol. 

18.5.14

O início ou o fim?




HELLBLAZER #215 (Panini Comics)

Se não houvesse números, não saberia se essa é a última ou a primeira página da história.

13.5.14

Textos Antigos


Carpa

Pediu que eu a acompanhasse. Ela e a sua tatuagem de carpas (uma vermelha, outra verde) entrecruzadas e entrecortadas no interior do braço.

Sua casa não remetia em nada ao meu minúsculo apartamento seco — sua remetia ao corpo. Nosso corpo onde, sob a limpeza e o perfume da epiderme vivem as bactérias, os micróbios e tantos outros parasitas pacíficos cujo único sonho é permanecer.

Os ignoramos porque precisamos viver, acostumamo-nos ao asco. Assim como faz parte da casa acostumar-se com os insetos nas frestas e  faz parte do portão acostumar-se com a fragilidade e a ferrugem.

Assim como faz parte ignorar as falhas da passarela curta até a porta de entrada — A passarela falha e cheia de pequenas cicatrizes como as que se acumulam no rosto ao longo do tempo e que nem por isso não o deixam ser belo.

Assim como faz parte ignorar a desordem do quarto porque sobre a cama está um corpo branco de fêmea de braços abertos ostentando carpas (uma vermelha, outra verde) que parecem vivas de tão perfeitas e sob ela, sobre ela, existe agora um conluio de subvidas, confusas e subordinadas a essa nova desordem.

O novo dia já inicia alto de luz do sol e barulhos. Peço a ela que me acompanhe ao meu apartamento pequeno e fechado, polido pela diarista. Ignoramos o abismo escondido sob o elevador e aos solavancos chegamos ao décimo-quinto andar onde vivo sozinho. Mais desordem. Lugares expostos.

O adormecer dos homens é grotesco, boca entreaberta, roncos; o das mulheres é absolutamente diferente. No meio da noite ela abre os olhos de fogo verde latente e me diz frases sem sentido — “meu nome é Água e eu tive tantos outros amantes... e mesmo eu quero um cordão de pedras coloridas, uma aliança.”

Eu digo dorme para em seguida pousar sobre ela o lençol como se fosse uma rede que a aprisionará para sempre, assim como as agulhas aprisionaram as duas carpas, a vermelha e a verde, no interior do seu braço. Me adormeço em seguida.



Película

Então existem dois corpos: Aquele que passa pela porta. Aquele outro que tu possuis em silêncio.

Aquele que tu possuis em silêncio não é o que acabou de sair pela porta: É um corpo imaginado, uma película luminosa sobre o corpo físico com vontade e idéias próprias – o corpo que tu possuis entre barulhos.

O real físico sai depois de uma despedida breve. Tu observas a bunda e se sente feliz por dentro.

A película deste mesmo corpo, a imaginada em função do real, permanece dentro da casa. E depois dentro do peito. Ela só existe fora de ti quando o corpo que a originou está presente. Essa película também é quase física quando tu a simulas em silêncio ou observando ladrilhos.

A película dobrada, luminosa, divide lugar entre os teus pensamentos. Desconhece as tuas salas escusas, vive em um ambiente onde existe o melhor que esse teu cérebro diminuto pensou e criou até hoje; Habita o externo como se existisse e, por um longo momento, tu esqueces o corpo que existe, o que tem pensamentos próprios e transpira à tua revelia.

Então o corpo de destino desconhecido retorna. Bate à porta. Quando tu abres e o observa, a película ocupa o seu lugar novamente, desdobra-se entre o corpo e o teu peito, enriquecido com os teus pensamentos, dando mais sentido ainda ao corpo que agora ao pleno que está dentro de casa.


A ida

A ida começa com uma longa estadia frente ao passadiço e ora uma têmpora ora outra observando o largo da rua e em cada mão, em cada um dos dedos, uma cor diferente descascando

Aperta com força a alça da bolsa. Relembra os fatos recentes. O céu acima. Azul entrecortado por vazios brancos

Suas pálpebras inconstantes como asas. Diferentes tons de cinza sobre os olhos.  O cenário organizado em rua entre o abrir e fechar dos olhos causando milissegundos de treva. Abre a bolsa :

<
e dentro dela há uma caixa
<
e dentro da caixa um pássaro
>
e dentro do pássaro um coração assustado
>
e dentro do coração, sangue
.

Veias diminutas trincam o canto dos olhos. Cercam a ponta das pálpebras. Ela observa o pássaro. Ergue a caixa marrom com superporos para permitir que pássaro respire.

Serge, seu nome será Serge, ela diz e pensa nunca te dei um nome, Serge, porque sempre pensei em você como algo que se move; e não como algo estranho e diminuto com vontade de ir para cima e depois brincar com a vida para baixo: o peito contra o vento, os olhinhos fechados, gosto de inseto no bico

.

"Não tem problema", diz o coração cego e veloz de Serge através de impulsos, movendo as pequenas estruturas das asas ao longo da rua desfocada abaixo. Uma misto de telhas varais e automóveis semelhantes a insetos cuja estruturas por vezes e o enganam e o trazem e volta. Mas não desta  vez.

Em meio ao voo, o pássaro vê o rosto que o libertou da caixa e não consegue. Desce. Pousa sôfrego em um dos dedos. Seus movimentos dizem "cheguei de um vôo curto de dez metros de altura e estou muito feliz por isso".

.

O pássaro finalmente produz sons. Nunca os fizera antes, na gaiola ou na caixa, mas agora está tão feliz e confiante a ponto de roer o vermelho das unhas do animal grande que o libertou. Encara isso como um sinal de gratidão. Parte novamente.

4.5.14

VI . Júlia. Após a piscina.


O fundo azul. As pernas brancas flutuando, diversas e náufragas. As pontas dos cabelos invadindo o campo de visão. Um dos mamilos imitando um periscópio cego. Cinzas de cigarro como se fossem vestígios um acidente aéreo minúsculo e desimportante. 

Júlia sonha levemente com um povo azul, subaquático. Pequeno, se comunicando através de sorrisos e toques nos rostos. Olhos totalmente negros e os cabelos negros em uma constante pré-revoada que nunca acontece. Eles têm os peixes que vivem no fundo dos mais fundos dos oceanos como companheiros. Tudo ao redor é absurdamente escuro, literalmente abissal, mas mesmo assim sobrevivem. O povo azul gosta do abismo e se sabe azul somente porque os peixes abissais carregam pequenas fontes naturais de luz penduradas sobre a cabeça ou cobrindo todo corpo. Ninguém do povo azul encosta neles temendo que essa luz se comprometa.

"Algumas pessoas - Júlia pensa, abrindo os olhos lentamente - são como esses peixes, misteriosos e estranhos, intocáveis e merecedores de certa distância pelo simples fato das suas luzes serem importantes a ponto de não serem tocadas por ninguém além daqueles escolhidos para as tocarem." 

Levanta-se da piscina. Seu corpo branco parece ainda mais branco, como se a água tivesse a capacidade de sacar um pouco da cor da epiderme. Júlia olha para si própria, sem espelho, e observa um corpo estranho e trêmulo. Não se sente si mesma mas, mesmo assim, sabe que logo precisará retornar ao seu reino, si própria. São quase seis da manhã. Parte do mundo já está acordada e fazendo barulhos.

Mesmo sozinha, Júlia se veste para dormir e escova os cabelos com critério. "É na solidão que o nosso estilo é posto à prova". Deita-se. Irá ajustar o alarme para dali a seis horas. Às duas deverá estar à postos na loja de maquiagem. Antes de ajustar o alarme, lê várias mensagens de texto deixadas por Ângela. 

Satisfações: "Agora tá tudo bem. Já tô mais calma e ele não voltou a ligar...E acho que nem vai."

Agradecimentos: "Muito obrigado (sic) por ter sido a única pessoa a me ajudar naquele momento tão difícil. Espero muito poder ser sua amiga e, quem sabe, um dia poder retribuir essa força."

Convite: "Que tal a gente se encontrar durante a semana? Entra em contato pra ver ser a gente se diverte um pouco. Meu rosto já tá bem menos inchado."

Júlia não tinha amigos e nunca recebera tantas mensagens de uma mesma pessoa. Sempre mandava um "oi" e recebia respostas vagas e intransitivas das colegas da loja ou mesmo de um possível pretendente. Em princípio achou ser algo relativo à sua escrita. Pontuação, mal uso de emoticons ou algo assim, mas com o passar do tempo, achou ser ela mesma o problema. As pessoas simplesmente não gostavam dela o quanto deveriam.

Definitivamente iria encontrar Ângela durante a semana.


3.5.14

St. Vincent. Prince Johnny. (HD). Live In Paris.2014.






Annie Clark is a dicreet but powerful, elegant genius. 

I´ve been trying to figure out what this song is exactly about. 

It could´ve been written for an old lover, an unborn son, a best friend, a gay lover, a wannabe king, an imaginary friend, a twisted monk who breaks vows. 

I´m not sure, and don´t think I´ll ever be. So I´ll keep listening to it.
.
.
(4 beat pause)
G Em
But honey, don't mistake my affection
G Em
For another spit-and-penny style redemption
D C G
Cause we're all sons of someones
D C G
We're all sons of someones
.
.































28.4.14

Docente Discente


Por duas noites consecutivas, Rogério sonhou ter sido vítima de uma calvície repentina e inexplicável. No primeiro sonho, todos os seus cabelos desprenderam-se de uma só vez, como um adesivo que perdera a aderência. No segundo, descobriu uma clareira branca e extremamente lisa entre a fronte e o topo da cabeça, como se ali nunca houvesse existido cabelo. A segunda calvície súbita o fez sofrer um dilema ainda mais difícil: cobrir a falha, raspar todos os cabelos ou, simplesmente, adaptar-se, como faz a maioria dos carecas. 

Os sonhos aconteceram nas noites de terça e de quarta, dois dias antes de começar no novo emprego. Entrou no prédio de dez andares. O segurança o guiou por corredores fluorescentes e estreitos, limitados por divisórias creme emolduradas por vidros. A sinalização dos ambientes era falha: não indicavam direções e, não raro, havia uma letra adesivada faltando, criando neologismos ou palavras sem sentido. O segurança indicou a porta alguns metros à frente e deu meia-volta, sem se importar com o agradecimento de Rogério. Não existe um meio-termo em relação aos seguranças: ou são amistosos ou não. 

Ao entrar na sala, Rogério viu quatro pessoas. Um homem e três mulheres. Todos de meia-idade. Uma das mulheres fora a responsável pela sua seleção e contratação. Existe algo característico nas pessoas que leem muito. Algo positivo ou negativo, caricato, sábio, sempre perceptível. O jeito de sentar, de vestir, de arrumar os óculos. A fala, principalmente. 

A literatura modifica as pessoas. Pode transformar um pobre desfavorecido em um doutrinador. A literatura modifica a nossa voz, a nossa expressão facial, a nossa sexualidade. Ponha dois sujeitos idênticos, um ao lado do outro. Usando as mesmas roupas, sentados na mesma posição. Uma delas, porém, nunca leu um livro na vida. Estranhamente, mesmo assim saberemos qual  é o leitor e qual deles nunca leu. A literatura muda os corpos. 

Nenhuma das pessoas naquela sala denotava isso. Não pareciam leitores. Eram somente funcionários aproveitando uma pausa curta entre turnos de trabalho. Rogério foi apresentado aos outros pela coordenadora do curso. Eles fizeram gestos cordiais e diversos. “O seu armário é ali”, disse a coordenadora, indicando a portinha mais baixa do pequeno condomínio cinza composto por pequenas portas quadradas. Seria mais fácil sentar-se no chão do que curvar-se para colocar e retirar livros e outros materiais daquele lugar. Escolas e fábricas obedecem a uma mesma regra: quem chega por último pega o armário menos privilegiado. Eles ficam vagos após o encerramento de algo. Dispensa ou desistência, morte. Rogério ocuparia o armário de cima, usado pela antiga professora de literatura. Após a sua aposentadoria, os armários foram rearranjados. Por mais liberais que sejam os lugares, os lugares nos armários mantem-se fiéis a uma ordem hierárquica espontânea, porém rígida.

O seu ingresso na universidade não foi simples. Fora necessário passar por um processo seletivo para conseguir o cargo. Doze pessoas buscando a mesma posição. Professor universitário. Literatura e, mais especificamente, Literatura Brasileira. Rogério sentiu alegria ao ver o seu nome impresso, selecionado, escolhido, e não lamentou pelos outros onze. Há muito vinha pleiteando o cargo de professor universitário e agora a sua vez finalmente chegara. Enfim iria tornar-se um professor do ensino superior; alguém acima dos professores secundaristas e muito acima dos professores do ensino fundamental. Haveria privilégios. Ao invés de pedir para os alunos comportarem-se, leva-los ao banheiro, ou ser ameaçado de morte, ocuparia uma posição confortável dentro do processo educacional. Com ele estariam os eleitos, os que chegaram ao ensino superior, os livres-pensadores que fomentariam discussões que, não raro, causariam polêmicas que só seriam dissipadas após horas de argumentações. As aulas se encerrariam com aplausos. 

Haveria um bar, onde os alunos boêmios, os melhores em literatura, rediscutiriam o conteúdo das aulas. Rogério, ainda solteiro, imaginava quantas alunas aceitariam o enlevo da sua didática, e qual delas escolheria e levaria até o seu quarto-sala, onde todas as suas forças primais e priápricas de macho se coadunariam com a sua intelectualidade no auge da forma. Rogério imaginava uma aluna chamada Lígia, vinte e quatro anos, sardas um pouco além do normal sobre o rosto e os ombros, não raro desnudos. Imaginava Sara, oriental, quarenta e dois anos, um metro e meio, divorciada, leitora de Hilda Hilst. Rogério também imaginava outras mulheres ao mesmo tempo em que pensava no zênite da sua carreira, o pós-doutorado. Seu objetivo final, agora ainda menos distante. 

Ainda não havia nada para ser posto no armário. Pensara em vários livros para indicar aos alunos. A faculdade, porém, possuía convênio com duas editoras e a adoção dos livros impressos por elas fazia-se compulsória. Rogério precisaria ir a uma livraria, apresentar-se como professor e conseguir os livros de graça. Isso não seria um grande problema. Ele, um livre-pensador, agiria como um agente instigante dos alunos e qualquer livro que fosse não competiria com a força humana de suas aulas. Rogério considerava-se um livro em si, um compêndio, misto e diverso, gigante, trazendo em si toda a principal literatura ocidental e uma meia-dúzia de orientais; as escolas, os marginais impopulares, as interpretações de texto jamais imaginadas. 

A literatura é a vida em papel. É um processo movido pelo prazer cuja consequência é uma gestação e, como em toda gestação, se conclui em um parto, movido pela dor e pelo prazer de livrar-se de algo para dá-lo ao mundo. Morto ou não. Para haver vida é preciso prazer, dor e sangue. Irremediavelmente. O fazer, a criação literária, segue este processo irremediável.

Enquanto recebia uma série de novos documentos, Rogério ouvia a conversa dos novos colegas. Provas, novas determinações da direção. A primeira reunião acadêmica geral dali a dez minutos. O ENAD, o processo seletivo, os índices requeridos pelo Ministério da Educação e o que o reitor falaria sobre aquilo tudo. “O colega sabe onde fica o auditório?”, um deles perguntou. Perguntar a alguém se sabe onde fica um auditório seria como perguntar a alguém se sabe onde está o elefante em uma cidade onde existe apenas um elefante, grande, luminoso e barulhento. Uma pergunta óbvia, para a qual Rogério não sabia a resposta. Não sabia onde era o auditório. 

A faculdade possuía dez andares entre administração, salas de aula e estacionamentos e o elefante com o intestino espalhado em forma de cadeiras poderia estar deitado, ressonando, esperando pessoas em qualquer lugar daquele prédio desconhecido. Seguiu os novos colegas até o elevador. O auditório ficava no décimo e último andar, o que o tornava avesso a quaisquer normas de segurança. Uma câmara aguardando uma tragédia. Rogério pensou no Edifício Joelma. 

Acreditava ter sido selecionado para um grupo exclusivo, mas o que viu no auditório o assustou: pelo menos duzentas pessoas aguardavam o início do novo semestre enquanto três temas instrumentais de fundo revezavam-se a cada vinte minutos. Dois telões mostravam os mesmos slides estáticos com fotos de alunos sorrindo. Atores, na verdade, com aparência bastante diversa dos alunos reais que vira no caminho para o auditório. Professores de diversas disciplinas aguardavam o início da cerimônia. Rogério tentou sentar junto aos colegas de departamento, mas não havia uma fileira vaga para todos. Sendo assim, sentou-se em uma fileira do meio, em um intervalo entre dois trios de professores conversando. Não conseguiu identificar a qual departamento os dois trios pertenciam. Mesmo possuindo corpos diversos, os professores, quase sem exceção, eram todos iguais. 

O reitor finalmente aparece. É um homem calvo, com uma barriga proeminente mal contida pelos botões da camisa. Ele dá as boas-vindas a todos. Gentilmente, pede a todos que se levantem. Uma oração será feita. O Pai-Nosso. Os professores se levantam. Dão as mãos e repetem, frase por frase, as palavras conhecidas enquanto uma música ressoa ao fundo. 

Rogério observou em silêncio as pessoas rezarem até, ele mesmo, começar a murmurar as frases finais do Pai-Nosso. Mais de duzentos professores rezando, em sua maioria. Repetindo as mesmas palavras ad aeternum achando que aquilo causará algo. Ressoará no éter ou em um universo paralelo, divino, e receberá como recompensa a mudança de algo. Sorte. Uma saúde melhor. Mais dinheiro. Uma morte feliz. Rogério viu os colegas catedráticos investindo energia em um ser imaginário gigante que controla a tudo e a todos e segue um código secreto, só dele, que vigia as suas criaturas sexualmente e permite que grávidas morram em acidentes de trânsito. Rogério imaginava Deus como um homem feio e baixinho. Um Deus pacóvio a ponto de esperar a morte natural de Rubem Fonseca. Após a oração, os professores ergueram as mãos, tentando chegar um pouco mais perto do céu. Soltaram-nas em seguida. Em seguida, aplaudiram. O nada ou eles mesmos. Rogério dará a sua primeira aula dali a uma hora.

A literatura é a consciência de que estamos sozinhos, vagando, cercados pela escuridão e, mesmo assim, aptos a entender, verbalizar e, o melhor de tudo, vender essa escuridão em forma de letras. Nós controlamos as letras, e controlar as letras é controlar a escuridão, é usar a autoridade que nos foi dada para romantizar, negar e reclamar sobre tudo o que existe. A literatura nos faz alguém. A literatura nos fez inventar deuses e torna-los mais poderosos do que nós mesmos. 

“O que é a literatura?” – , Rogério franqueou a palavra aos alunos, aguardou definições pessoais e contundentes, que fomentariam discussão até todos, como um grupo, chegarem a algo comum: a resposta ao que era, enfim, a literatura. “E existem tantas, meu Deus”, Rogério se viu dialogando com o monstro invisível, assassino de bebês egípcios. 

Dois alunos chegaram após a pergunta e não buscaram qualquer interação com o que estava acontecendo. Três levantaram-se e saíram da sala para falar ao telefone. Rogério não ouviu resposta. Apenas  um silêncio constrangedor criado por gente que leu menos de cinco livros na vida. Alguns esboçavam sorrisos. Outros rabiscavam formas sem sentido ou esfregavam os dedos na tela do telefone sem grandes pudores. Era um grupo grande, em torno de cinquenta alunos. Enquanto sorria esperando uma resposta, uma segunda resposta e uma terceira resposta para, enfim, ser estabelecido o debate, Rogério viu, em cada um dos rostos, a dureza e a neutralidade presente sobre a face de quem não lê. De quem não leu e, possivelmente não mudará.

É justo julgar alguém pelas suas leituras? “Sim, é justo”, Rogério pensou. “Eu vou precisar tomar conta de um rebanho de iletrados em um curso de letras. É como ser um professor de medicina para alguém que tem medo de sangue, ou de natação para hidrófobos, ou tentar gravar um filme pornô com assexuados ou ensinar lógica para religiosos. Todos irão fingir estarem aprendendo, vários até se esforçarão, mas jamais conseguirão compreender realmente. Os seus corpos não foram treinados para tal. Eles não possuem a constituição do leitor. Não tiveram pais leitores, ou tiveram; mas algo dentro das suas cabeças, uma disfunção nos circuitos sombrios e cheirando a sangue fê-los decidir pelo simples ato de não ler. De não gostar. De não consumir literatura. São boas pessoas, mas não leem. Não têm dinheiro para comprar livros ou paciência para lê-los online, de graça, usando o mesmo tempo que usam para digitar e ler coisas sem sentido. Eles não gostam de ler e, mesmo assim, tentam cursar Letras, Literatura. Depositam dinheiro na conta da universidade. O mesmo dinheiro que no final do mês cairá na minha conta pessoal e me possibilitará comprar mais livros. Eu, o leitor, sustentado pelos não leitores. Isso é uma coisa irônica, quase feudal.”  

Rogério pensa nos escritores criando histórias, narrativas. Os imagina fumando compulsivamente, se arrastando por um chão de linóleo coberto por sangue. Sentados em suas escrivaninhas por seis, sete, oito horas consecutivas. Lembra-se das suas vidas trágicas, desregradas ou absurdamente comuns ou reclusas. Pensa no seu grupo de estudos quando ainda era universitário. As discussões durante após as reuniões. Lembra-se do grupo de contistas do qual fizera parte antes da grande tragédia do desinteresse se abater sobre eles e o grupo simplesmente se dissipar. Ou ele ter deixado o grupo, não lembra. Vários deles certamente agora são professores universitários. Rogério imagina os primeiros contistas dentro de cavernas mal iluminadas e fedorentas, cercadas por feras ansiosas para destroçar os seus corpos e alimentarem-se deles. Imaginou os homens embrenhando-se na floresta, em grupos, para matar tais feras e alimentarem-se, vestirem-se delas. A aventura, os feitos, a morte, das feras ou deles próprios, era prorrogada em forma de histórias em um tempo onde ainda não existia o deus do auditório, papel ou caneta e, mesmo assim, a audiência, suja e jovem, prestava atenção a cada palavra simples e econômica, bruta, dita pelos contistas, e emocionava-se com aquilo. 

Na sala iluminada pela luz fluorescente, os alunos de Rogério continuam em silêncio.