30.1.14

I . Júlia. Início.

Os barulhos definem como será o dia. Os braços se esticam. Ainda na cama. As pernas retorcendo-se como a Bruxa do Leste. Acordar a cada dia é renascer. Raramente de forma natural. Sofrida na maioria das vezes. Júlia faz uma travessia milimétrica sobre o mar de lençol, atravessa arrecifes de travesseiros e chega até o horizonte falso: o nada, rígido e branco, a parede do quarto. 

Pensa em qual seria a reação de um ser humano ao chegar ao fim de tudo e encontrar apenas uma parede. Júlia tenta encontrar o centro geométrico da sua cama. Senta-se e observa o quarto. Por mais tentativas que faça, ele nunca fica do que jeito que sonha. Um quarto de Revista Cláudia, limpo e perfeito, bem iluminado, com o sol entrando, em raios frios, pelas frestas certas. Sem a existência de calor ou poeira. A iluminação, paga a preço de ouro, a faria sentir-se melhor ao acordar. Um corpo feminino de trinta anos, nu, sob a iluminação solar indireta. Júlia observaria a si própria. O esmalte vermelho descascando das unhas dos pés e das mãos. Os cabelos negros quase tocando os ombros. Se olha no espelho: vê o nariz aquilino, levemente torto, as sobrancelhas negras com dois ou três pelos fora do lugar. Encosta-se na parede para usar todo o espelho retangular estreito do guarda-roupas. Se observa plena em seu um metro e setenta e dois de altura. Vê a pele branca e o rosto com a maquiagem do dia anterior, a maquiagem grátis da loja.

Júlia vive em um quarto-sala-cozinha-banheiro-micro-área-de-serviço. Pensa no programa Casa Brasileira. Tantas casas bonitas. Tanto espaço para tão poucas pessoas. A maioria das pessoas que aparecem no programa são atores. "Esses filhos-da-puta não estudaram tanto para ganharem tão bem e terem uma casa tão grande e bonita". Quem merece ou não merece uma casa bonita?, uma "Casa Brasileira"? Chega a ser irônico um programa relacionar o nome "casa" a um país onde a imensa maioria mora mal e uma minoria cada vez mais imensa nem morar mora. 

"Eu moro em uma casa brasileira. Tenho trinta e dois anos, moro sozinha e pago as minhas contas... Isso seria o ideal da independência se a minha casa não fosse uma quitinete brasileira, alugada. Se os meus mais de trinta tivessem algo a ver com um auge sexual , quando nem um vida sexual tenho -  não por não ser atraente, mas por não atrair alguém que eu queira-, e as minhas contas não tomassem quase todo o meu salário".

É curioso como em pouco mais de trinta anos vamos de um bebê acolhido e agradado por todos a um indivíduo sozinho em um quarto. E não lembramos dos momentos de acolhimento máximo e constante. O nossos pais ou um deles, que seja, nos alimentando para, pouco tempo depois, limparem as nossas bundas, os nossos vômitos. Nós crescemos. Júlia cresceu em uma família de pai e mãe. Pai, Jonas, trabalhando em uma fábrica. Não ganhava um salário grande, mas era o suficiente para manter a mulher, Clarice, e a filha, Júlia. 

O salário a manteve pelos primeiros dez anos após o nascimento da filha. Jonas adoeceu e passou três meses inteiros incapaz. Não há nada pior para um homem. Júlia costumava se sentar e ouvir as histórias contadas pelo pai. Contar histórias era a única coisa que ele conseguia. Júlia considerava isso muito triste. Alguém que apenas consegue pensar em histórias e contá-las sem que o ouvinte saiba realmente se elas são ou não reais, o quanto delas foi mudado durante o ato da narrativa.

Lembra do pai e do seu rosto cada vez mais magro. Andamos com camisetas e acessórios com crânios e esqueletos estampados. Mas nada mais estranho do que vermos o esqueleto tomando imergindo lentamente sob um rosto.