2.2.14

II . Júlia. Domingo.


A mãe ainda esperou mais dez anos para começar a contar as suas histórias. Depois disso começou a ficar cada vez mais confusa e distante. Para extinguir a distância, Júlia mudou de São Paulo para outra cidade, Manaus. A cidade talvez  fosse a única cidade longe e não tão subdesenvolvida quanto as outras cidades longe e subdesenvolvidas dos quais ouvira falar. Uma tia morava em Manaus - todas as pessoas do país têm um familiar que mora ou em Manaus ou em Fortaleza, ou ambos - e Júlia contou com a generosidade dos semi-estranhos (a tia, o marido e uma prima ainda criança) até conseguir um emprego que a deixasse sair dali e não voltar mais.

Não que não gostasse dos familiares. Eles eram gente boa. Simplesmente não havia vínculos humanos mais fortes. Eles sempre foram distantes e não seria durante três meses de convivência que vínculos mágicos de afeto surgiriam. Eles conviviam pouco tempo em casa e eram pobres. Ninguém desenvolve laços afetivos de forma espontânea quando se é pobre e se trabalha por tanto tempo. Quando se está em casa apenas para descansar e existir em silêncio. 

O pequeno apartamento onde Júlia mora fica no terceiro e último andar de um prédio próximo ao centro. Ela precisa subir mais um lance de escada, mas ao menos sente o alívio de não haver ninguém caminhando, usando o banheiro sobre a sua cabeça, fazendo esquisitices sobre ela enquanto dorme, jogando cinzas de cigarro sobre as plantas colocadas sobre o parapeito, deitado exatamente acima do seu espaço na cama.

A loja onde trabalha fica dentro de um shopping center. Ao menos dois domingos ao mês Júlia precisa trabalhar. Há vinte anos trabalhar aos domingos era algo absurdo. Apenas serviços primordiais como hospitais, polícia e postos de gasolina funcionavam aos domingos. Os shoppings anularam quaisquer convenções bíblicas ao apostarem no consumo. Passear em um shopping à toa enquanto inúmeras pessoas trabalham (e esperam ansiosamente dar o fora dali) tornou-se absolutamente normal. "É o dever delas tornar o nosso domingo mais interessante", os consumidores pensam, enquanto andam em círculos e se perdem em um espaço ridiculamente pequeno para se perder em. Tudo abre aos domingos. Todos os serviços não primordiais a um fim de semana. Lojas de maquiagem e lojas de doces e pirulitos . O domingo comprado de um sujeito contratado como vendedor. Alguém que seria livre  para fazer o que quisesse no domingo mas não pode porque as pessoas têm dinheiro a mais e ele tem dinheiro a menos.

Aguardar clientes e observá-las comprarem pós e tintas para tornarem os rostos mais atraentes se tornou algo comum a todos os dias de Júlia. Este domingo é um dos dois do mês onde está de folga. O que significa um trabalho a mais: procurar o que fazer em Manaus ao ar livre. Seria o cúmulo da idiotice ir buscar diversão em um shopping. Seria como trabalhar em um hospital e um ir passa o feriado passeando pelos corredores que ainda não vira. Também havia a dificuldade extra da falta de amigos ou de um namorado. As colegas de Júlia eram apenas colegas. Possuíam família, gostos diversos; outras dedicavam os dias de folga para ficar com a família ou namorados. Os únicos poucos homens que apareciam na loja ou eram gays ou tinham a expressão admoestada de alguém que está ali forçado, esperando a namorada ou esposa. Nada além de um ou outro olhar indiscreto e meio covarde típico dos homens casados. As coisas não são como nos filmes onde um estranho senta ao seu lado no ônibus e após três cenas você descobre ser ele o amor da sua vida. Ninguém no ônibus era interessante. Júlia recebia olhares no caminho de ida e volta ao trabalho. Tentava elencar quais características suas chamavam a atenção dos homens:

1. A sua pele branca, irredutivelmente branca, mesmo após exposta ao sol de Manaus;

2. O nariz aquilino. Um pouco mais aquilino que o normal;

3. A maquiagem, delicada, porém com sombras marcantes , usada mesmo quando não estava trabalhando;

4. Ser um pouco mais alta do que o normal;

5. Usar roupas cinquenta reais mais caras.

Fora isso, o seu corpo não possuía maiores atributos que chamassem a atenção. Seu rosto não possuía grandes desproporcionalidades. Lábios finos, olhos negros, cabelos negros presos com fivelas. As orelhas brancas e perfeitamente limpas. Sua barriga passava duas polegadas à frente da cintura dos jeans, mas só quando eram justos (conseguia esconder com as camisetas). 

Júlia não possui um tipo exato de homem. Considera o seu gosto mediterrâneo. Sujeitos morenos, ou ao menos não tão brancos quanto ela própria. Não almeja o padrão hollywoodiano de beleza, mas também não se considera generosa a ponto de se interessar por um sujeito feio pelo simples fato de ser do sexo oposto. Gostaria de encontrar um sujeito não tão mais velho ou mais novo, que soubesse algo de alguma coisa, que se interessasse por pelo menos algumas das coisas das quais gostava (livros, filmes e televisão) e que não possuísse várias polegadas à frente da cintura dos jeans. 

Talvez o grande problema em estar passando quase um ano inteiro sem namorado é o fato de as idealizações começarem a engolir cada vez mais a realidade. E as idealizações são inversamente proporcionais: Quanto mais se idealiza o perfeito, mais susceptível ao real imperfeito se fica. Júlia não quer tornar-se uma daquelas mulheres que há muito passaram dos trinta e se enlaçam com o primeiro idiota (não necessariamente idiota, mas idiota na maioria das vezes) que topa ser enlaçado. Teme ser uma das metades isoladas de um casal que entrou em um termo de acordo silencioso contra a solidão da solteirice tardia e acabaram por tornarem-se algo ainda mais triste: alguém ainda mais solitário por ser parte de um casal.

Os únicos lugares ao ar livre com um leve ar de casualidade e até certo charme, vá, ficam no centro da cidade. Júlia passou o dia em casa, lendo, vendo televisão e bebendo umas cervejas. Uma das poucas coisas legais em seu quitinete é a ilegalidade da tv à cabo. Uma ligação clandestina distribui todos os canais pertencentes ao pacote completo de uma tv por assinatura. Ela não pediu por isso. Veio no pacote água e energia elétrica. Já passa das quatro quando ela decide sair do cubículo e respirar um pouco de ar, ver gente, mesmo que não as conheça e jamais irá conhecer. Antes de ir ao banheiro, se estica na cama, abre a última gaveta do seu criado mudo de plástico e procura Breno. Ele está escondido ao fundo. É rosa e possui diâmetro um pouco maior do que a média nacional. Uma estranha mutação genética fez com que outro membro, menor e vibrante, crescesse sobre o membro principal, o qual, após seguir uma série de disciplinas tântricas escusas à maioria da humanidade, além de nunca perder a rigidez, também vibra e faz discretos (porém potentes) circunvoluções incansáveis, até Júlia, após respirar profundamente e imaginar um número surpreendente de palavras obscenas ditas por Breno, o desliga e parte para o banho.

Seria perfeito se ainda existissem cinemas cinemas. No centro. Ao ar livre. Curioso como após os shoppings, o mundo ao redor passou a ser chamado "ar livre". Em sua infância em São Paulo eles eram comuns e, com o passar dos anos, foram diminuindo a ponto de quase desaparecerem. Isso descontando os cinemas que passam apenas filmes pornográficos. Uma das suas colegas também disse terem sido eles comuns em Manaus, no centro da cidade. Todos eles possuíam nomes de artistas clássicos. Chaplin. Cantinflas. Grande Otelo. Carmen Miranda. Hoje apenas Oscarito ainda tem o nome ativo. Ligado ao submundo cinematográfico pornô. Júlia imagina as paredes desses calabouços iluminados por um projetor antigo serem cobertas por limo e sêmen, e todos os assentos serem rasgados e existirem insetos escondidos entre as suas frestas e a maioria dos frequentadores serem sodomitas com panças gigantes e calcinhas fio dental. É uma imagem terrível, ultra decadente, para um lugar que fora tão mais útil e limpo. 

O dia está inusitadamente nublado. Pode até vestir a camiseta preta que tanto gosta. Júlia desce na Praça da Saudade. Tira um Marlboro Light da bolsa e tenta observar os pequenos detalhes do lugar. Pérgulas. Casais jovens se abraçando. Esculturas negras de índios em tamanho natural com os pés submersos em água parada e limosa. Ouve o cigarro dar o seu último suspiro quando o joga na água. Acende outro logo em seguida. "Eu preciso fazer algo", ela diz em voz baixa. "E isso não significa que eu precise encontrar alguém... Eu simplesmente preciso fazer algo. Eu preciso de um problema, de um drama para me queixar, de um desafio. Eu nem ao menos tenho certeza se existo realmente... Se duvidar sou como esse índio de cobre. Estático. Achando que está flechando algo quando na verdade não há flecha e, pior, não há o que flechar." 

Júlia se sente como uma personagem sem incidente; e para ser um bom personagem é preciso ter um desafio, um incidente; caso contrário ele se torna pior do que o mais cruel dos antagonistas - alguém cujo nome a audiência não se lembra. Procurar um incidente seria algo absurdo para alguém que possui uma vida de certa forma organizada, apesar de não ser algo que possa ser levado por mais muitos anos. Júlia procura um problema. E, para começar a encontrá-lo, precisará caminhar por mais algum tempo.